
O Brilho da Estrela

Danielle Steel


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Traduo de Lus SANTOS


Ttulo original:
STAR

Fotografia da capa:
(r) IMAGE BANK

Copyright (r) by Danielle Steel Impresso e encadernado para
Crculo de Leitores por Printer Portuguesa
em Agosto de 1996

Nmero de edio: 4206
Depsito legal nmero 101 263/96
ISBN 97242-1372-2
       
Ao nico homem
       que trouxe  minha vida
       troves, relmpagos
       e arco-ris.
       S acontece uma vez,
       e quando assim ,
        para sempre.
       Ao meu nico amor,
       de todo o meu corao,
       querido Popeye.
       Amo-te.
       Olivia.
       
       
Captulo 1
       
       Os pssaros comeavam a chamar-se uns aos outros na tranqilidade do amanhecer em Alexander Valley,  medida que o Sol se elevava devagar sobre as colinas, 
estendendo dedos dourados para o cu que, passados alguns momentos, estava quase prpura. As folhas das rvores agitaram-se suavemente com a brisa branda enquanto 
Crystal, de p sobre a erva mida, via o cu brilhante explodir em cores tremeluzentes. Durante um breve momento, os pssaros interromperam o seu canto, quase se 
como tambm eles admirassem a beleza do vale. Ali havia campos luxuriantes, orlados por colinas suaves onde o gado vagueava, pastando. O rancho do pai dela estendia-se 
por cerca de duzentos acres, o seu solo frtil dava milho, nozes e uvas e o gado que criavam era a maior fonte de rendimentos. O Rancho Wyatt j dava lucro h duzentos 
anos, mas Crystal no o adorava por aquilo que ele lhes dava, mas sim pelo que ele era. Parecia estar a conversar em silncio com espritos que s ela sabia estarem 
ali, enquanto via a erva alta a agitar-se suavemente com a brisa, e sentia o calor do Sol no seu cabelo cor de trigo. Comeou a cantar docemente. Os seus olhos eram 
da cor do cu de Vero, os membros longos e graciosos; de repente, comeou a correr, calcando a erva mida com os ps quando se dirigia para o riacho. Sentou-se 
numa rocha cinzenta lisa, sentindo a gua gelada a danar sobre os seus ps enquanto via a luz do Sol a aproximar-se das rochas. Adorava assistir ao nascer do Sol, 
adorava correr plos campos, adorava estar ali, viva e jovem e livre, em harmonia com as suas razes e com a natureza. Adorava estar sentada e a cantar nas manhs 
calmas, a sua voz rica crescendo em torno de si, mgica at mesmo sem msica. Era como se houvesse algo de mgico no fato de ela cantar nessa altura, s com Deus 
para a escutar.
       Havia empregados que se ocupavam do gado e mexicanos que tratavam do milho e das vinhas, mas o pai supervisionava tudo. No entanto, no havia ningum que 
amasse tanto a terra como ela, ou o pai Tad Wyatt. O irmo, Jared, ajudava-o aps as aulas, mas com apenas dezesseis anos de idade estava mais interessado em levar 
a carrinha do pai e ir at Napa com os amigos. De carro, levavam cinqenta minutos at Jim Town. Jared era um rapaz bem-parecido, tinha os cabelos escuros do pai 
e muito jeito para adestrar cavalos. Mas nem ele nem a irm, Becky, possuam a beleza lrica de Crystal. Becky casava-se naquele dia, e Crystal sabia que a me e 
a av j estavam muito ocupadas na cozinha. Ouvira-as quando se esgueirara para ver o nascer do Sol sobre as montanhas. Crystal entrou na corrente, a gua batendo-lhe 
nas ancas, e comeou a sentir os ps entorpecidos e os joelhos dormentes. Riu-se alto na manh de Vero, puxando a fina camisa de dormir de algodo por cima da cabea 
e atirando-a para a margem. Sabia que no havia ningum a observ-la e quedou-se, graciosa, no meio da corrente, no se apercebendo da sua extraordinria beleza, 
qual jovem Vnus a surgir das guas de Alexander Valley. Vista de longe, parecia mesmo uma mulher, segurando os longos cabelos claros na nuca enquanto as curvas 
do seu magnfico corpo eram lentamente engolidas pela gua gelada. S os que a conheciam se apercebiam de como era jovem. A um estranho poderia parecer adulta, com 
dezoito ou vinte anos, o corpo maduro, os olhos enormes e azuis ao olhar para o Sol da manh e semicerrando-os contente, a sua nudez parecendo esculpida em mrmore 
cor-de-rosa. Mas no era ainda mulher, apenas uma rapariga, contava s quinze anos, embora os fizesse ainda nesse Vero. Riu-se quando se lembrou de que elas deviam 
andar  sua procura, deviam ter ido ao seu quarto para a acordar, a fim de que as fosse ajudar na cozinha, a fria da irm ao ver que ela desaparecera, a av a cacarejar 
sem dentes, irritada. Como de costume, fugira-lhes. Era disso que ela mais gostava, fugir das obrigaes entediantes e correr livremente pelo rancho, vaguear no 
meio da erva alta ou pelo bosque durante as chuvas de Inverno, montar sem sela cantando para si prpria enquanto corria pelas colinas at aos stios secretos que 
descobrira nas longas cavalgadas com o pai. Nascera ali e, um dia, quando fosse muito velha, to velha como a av Minerva e ainda mais velha do que isso, morreria 
ali. Cada centmetro da sua alma amava o rancho e aquele vale. Herdara a paixo do pai pela terra, pelo rico solo castanho, e pelo verde luxuriante que atapetava 
as colinas na Primavera. Viu um veado ali perto e sorriu. No havia inimigos nem perigos, nem terrores secretos no mundo de Crystal. Pertencia ali, e nunca duvidara 
de que ali estava em segurana.
       Viu o Sol subir no horizonte e dirigiu-se devagar at  margem, subindo facilmente as rochas com as suas pernas longas. Chegou perto da camisa de dormir e 
vestiu-a, deixando-a agarrar-se ao corpo molhado e soltando a cabeleira loira. Sabia que estava na hora de regressar, elas j deviam estar furiosas. A me j devia 
ter ido queixar-se ao pai. Na vspera ajudara a fazer vinte e quatro artes de ma, cozera po, preparara frangos, ajudara a cozinhar sete presuntos e recheara tomates 
maduros com manjerico e nozes. J fizera o seu quinho, e sabia que nada mais podia fazer a no ser atrapalhar e ouvir Becky a gritar com o irmo. Tinha muito tempo 
para tomar banho e vestir-se e chegar  igreja s onze. No precisavam dela, s achavam que sim. Crystal gostava mais de percorrer os campos e banhar-se no riacho 
ao sol da manh. O ar j comeara a aquecer e a brisa ia ficando cada vez mais fraca. O dia do casamento de Becky adivinhava-se lindo.
       J avistava a casa ao longe quando ouviu a voz da me a cham-la do alpendre junto  cozinha.
       - Crysstalll!...
       A palavra parecia ecoar em toda a parte e ela riu-se e desatou a correr na direo da casa, parecendo uma criana de pernas compridas, o cabelo a esvoaar 
atrs.
       - Crystal!
       A av estava j no alpendre quando ela se aproximou. Minerva trazia o vestido preto que sempre punha quando tinha trabalho importante a fazer na cozinha. 
Sobre ele colocara um avental branco e uniu os lbios furiosa quando viu Crystal correr na sua direo, a camisa de algodo mida colada ao corpo nu. Na rapariga 
no havia artifcios, apenas aquela estonteante beleza natural de que ela ainda no se apercebia. Na sua mente era ainda uma criana e estava a quilmetros-luz do 
fardo que era ser mulher.
       - Crystal, olha para ti! A tua camisa de dormir est transparente! J no s uma criana. E se os homens te vem?
       -  sbado, av... no est c ningum. Dirigiu um sorriso para o velho rosto gasto pelo tempo sem revelar atrapalhao nem arrependimento.
       - Devias ter vergonha, e devias estar l dentro a preparar-te para o casamento da tua irm - murmurou ela em tom desaprovador enquanto limpava as mos ao 
avental. - A correr para a como um animal ao nascer do Sol! H trabalho para fazer, Crystal Wyatt. Vai j l para dentro ajudar a tua me.
       Crystal sorriu, correu  volta do alpendre para entrar pela janela do quarto enquanto a av batia com a porta de rede e regressava  cozinha para ajudar a 
filha.
       Crystal ficou no meio do quarto durante algum tempo, cantarolando enquanto despia a camisa de noite e a atirava para um canto. Depois olhou para o vestido 
que levaria ao casamento de Becky. Era um vestido simples de algodo branco, com mangas tufadas e gola bordada. Fora a me que o fizera, o mais simples que pudera, 
sem folhos, sem adornos que realassem a sua j grande beleza. Parecia o vestido de uma criana, mas Crystal no se importava. Depois poderia us-lo quando fosse 
 missa. Tinham-lhe comprado sapatos brancos em Napa, e o pai trouxera-lhe uns collants brancos de So Francisco. A av tambm resmungara ao v-los e a me dissera 
que ela era muito nova para os usar.
       - Ela ainda  uma criana Tad. - Olivia nunca gostara que ele mimasse a filha mais nova. Ele estava sempre a trazer-lhe presentes, ou roupa de Napa ou So 
Francisco.
       - Assim ela sente que  especial. - Crystal era a filha que ele adorava desde que nascera, e o seu corao doa sempre que a via. Enquanto beb Crystal tivera 
cabelo quase branco e uns olhos que o olhavam de uma maneira muito profunda, como se tivesse algo a dizer-lhe, e s a ele. Fora um beb que nascera com sonhos nos 
olhos, e uma qualidade mgica que fazia com que as pessoas parassem e a contemplassem. Sempre haviam contemplado Crystal. As pessoas eram atradas para ela, para 
uma qualidade interior, bem como para a sua beleza. No era parecida com ningum da famlia, era nica, e era a msica no corao do pai. Fora ele quem a batizara 
assim que a vira aninhada nos braos de Olivia pouco depois de ter nascido. Luminosa e perfeita. Cristalina. O nome adequava-se-lhe na perfeio, os olhos claros 
e brilhantes e o cabelo louro macio. At as crianas que tinham brincado com ela sabiam que era especial, diferente de uma forma intangvel. Era mais livre, mais 
alegre e feliz do que elas, nunca submetida s limitaes que os outros lhe haviam imposto, outros como a me nervosa, sempre a queixar-se, ou a menos bonita irm 
mais velha, ou o irmo, que implacavelmente a atormentava, ou at a av carrancuda que fora viver com eles quando Crystal tinha sete anos, depois de o av Hodges 
ter morrido no Arizona. S o pai parecia compreend-la, s ele sabia como ela era extraordinria, como um pssaro raro que era preciso deixar voar de vez em quando, 
pairando l no alto sobre o vulgar e o mundano. Ela era uma criatura que lhe fora entregue diretamente das mos de Deus, e ele sempre infringira as regras por ela, 
dava-lhe pequenos presentes, abria-lhe excees, para desagrado dos outros.
       - Crystal! - Era a voz aguda da me  porta do quarto que Crystal partilhara com Becky durante quase quinze anos. A porta abriu-se antes de ela ter tido tempo 
de responder, e Olivia Wyatt ficou a olhar para ela com uma reprovao nervosa: - Porque  que ests a parada?
       Ela era bela e estava nua, e Olivia no gostava de ver isso. No gostava de pensar nela dessa forma, j a caminhar para o estado de mulher adulta, mas ainda 
a mirar com olhos inocentes de criana a me no vestido de seda azul que ia levar ao casamento de Becky. Cobrira-o com um avental branco, como zera a av Minerva.
       - Tapa-te! O teu pai e o teu irmo j se levantaram! Olhou muito sria para Crystal e fechou a porta atrs de si, como se eles estivessem l fora  espera 
de ver o corpo nu de Crystal. Na realidade, o pai t-la-ia admirado, surpreendido por a ver j como uma mulher, e Jared teria, como sempre, ficado indiferente  
beleza da irm.
       - Oh, mezinha... - Sabia como a me teria ficado furiosa se a tivesse visto nua no riacho, momentos antes. - Eles no vo entrar aqui. - Sorriu e encolheu 
os ombros com inocncia, enquanto a me resmungava.
       - No sabes que h trabalho a fazer? A tua irm precisa de ajuda com o vestido. A av precisa de ajuda para trinchar o peru e cortar os presuntos. Nunca fazes 
nada de til, Crystal Wyatt? - Ambas sabiam que fazia, mas raramente para as mulheres da casa e sempre para o pai. Ela preferia andar de trator com ele, ou ajud-lo 
a juntar o gado quando havia poucos homens. Trabalhava de forma incansvel sob tempestades violentas, recolhendo os bezerros tresmalhados, e sabia como lidar com 
todos os animais. Mas isso nada significava para a me. - Veste-te. - E depois, olhando para o vestido branco pendurado na porta do roupeiro, acrescentou: - Pe 
o vestido de chita at ires para a igreja. Vais sujar-te toda a ajudar a tua av.
       Enquanto a me a observava Crystal vestiu a roupa interior e o velho vestido azul de chita. Durante momentos, voltou a parecer uma criana, mas as suas formas 
de mulher j no podiam ser ocultadas, nem sequer pela chita desbotada. Ainda no o tinha abotoado quando a porta se abriu e Becky irrompeu pelo quarto, a tagarelar 
muito nervosa e a fazer queixa do irmo. Tinha cabelos castanhos como a me, e olhos afastados. O rosto era vulgar mas atraente, o corpo esbelto e comprido como 
o de Crystal, mas nas suas formas no havia nada de extraordinrio. A sua voz soava muito aguda enquanto informava Olivia que Jared encharcara todas as toalhas da 
nica casa de banho do rancho.
       - Nem sequer consigo secar o meu cabelo como deve ser.  todos os dias a mesma coisa, mezinha! Sei que ele faz de propsito!
       Crystal observou-a em silncio, quase como se nunca a tivesse visto. Depois de viverem juntas durante quase quinze anos, as duas raparigas eram mais estranhas 
do que irms. Rebecca era parecida com a me, o cabelo e os olhos castanhos, os nervos, os queixumes constantes. Ia casar com o rapaz por quem se apaixonara quando 
tinha a idade de Crystal, e esperara por ele durante a guerra. Passava exatamente um ano desde que ele viera do Japo, e iam casar-se. E, com dezoito anos, ela ainda 
era virgem.
       - Odeio-o, mezinha! Odeio-o!
       Estava a referir-se ao irmo, e o comprido cabelo castanho agitava-se molhado nas suas costas, as lgrimas bailavam-lhe nos olhos enquanto olhava irada para 
a me e para a irm, repreendendo Jared.
       - Bem, a partir de hoje j no tens de viver com ele. A me sorriu. Haviam tido uma longa conversa no dia anterior, enquanto passeavam calmamente junto ao 
celeiro, e a me explicara-lhe o que Tom esperava dela na noite de npcias em Mendocino. Becky j ouvira as amigas falarem daquele assunto: muitas delas haviam-se 
casado poucos meses aps o regresso dos namorados do Pacfico. Mas Tom quisera arranjar emprego primeiro, e o pai de Becky insistira para que ela acabasse o liceu. 
Terminara-o havia cinco semanas, e agora, dia soalheiro de finais de Julho, os seus sonhos iriam tornar-se realidade. Iria ser a Sra. Thomas Parker. Parecia uma 
coisa muito adulta e bastante assustadora. E, secretamente, Crystal perguntava-se porque iria a irm casar com ele. Com Tom, Becky nunca iria para alm de Booneville. 
A sua vida comearia e terminaria ali, no rancho onde tinham crescido. Ela tambm adorava o rancho, mais ainda do que os outros, e queria instalar-se ali depois 
de ter visto um bocado do mundo. Sonhava com outros stios, outras coisas, outras pessoas que no aquelas junto de quem crescera. Queria ver mais do mundo do que 
o pedao de terra que ia at s montanhas Mayacama. Na parede do quarto de Crystal havia fotografias de estrelas de cinema Greta Garbo e Betty Grable, Vivien Leigh 
e Clark Gable. Tambm havia fotografias de Hollywood e So Francisco e Nova Iorque, e uma vez o pai mostrara-lhe um postal de Paris. s vezes sonhava em ir para 
Hollywood e tornar-se uma estrela de cinema. Sonhava em ir a locais msticos, como aqueles de que conversava com o pai. Sabia que eram apenas sonhos, mas gostava 
de pensar neles. E tinha a certeza absoluta que desejava mais do que uma vida presa a um homem como Tom Parker. O pai dela oferecera-lhe um lugar no rancho porque 
o rapaz no conseguira emprego noutro lado. Sara do liceu para se alistar, a seguir a Pearl Harbour. E Becky esperara pacientemente, escrevendo-lhe todas as semanas 
e s vezes esperando meses pelas suas cartas. Ele parecera to adulto quando regressara, to cheio de histrias sobre a guerra. Com vinte e um anos, era um homem, 
ou pelo menos Becky assim pensava. E agora, um ano depois, ele iria ser seu marido.
       - Porque  que no ests vestida? - De repente, Becky virou-se para a irm, descala com o vestido azul de chita que a me lhe mandara vestir. - J devias 
estar vestida! - Eram sete da manh, e s iriam para a igreja s dez e meia.
       - A mezinha quer que eu ajude a av na cozinha - respondeu Crystal numa voz calma, to diferente da de Olivia e da de Becky, uma voz sob a qual quase conseguamos 
ouvir a sensualidade rouca do seu canto. As canes eram inocentes, mas a voz que as cantava estava cheia de paixo instintiva. Becky atirou a sua toalha molhada 
para cima da cama que tinham partilhado e que ainda no estava feita porque Crystal fugira para os campos para ver nascer o Sol. - Como  que me posso vestir aqui, 
nesta confuso?
       - Faz a cama Crystal - ordenou a me, muito sisuda, indo ajudar Becky a pentear-se. Fora ela quem fizera o vu que a filha iria usar, com uma pequena coroa 
de cetim branco cheia de minsculas prolas brancas e metros de rijo tule branco que comprara em Santa Rosa.
       Crystal alisou os lenis e puxou a pesada colcha que a me lhes zera havia alguns anos. Olivia confeccionara outra para Becky, como prenda de casamento. 
J fora levada para a pequena casa que iria ser o seu lar, no rancho, e o pai iria deixar Becky e Tom viver ali at terem dinheiro para comprar outra casa. Olivia 
gostava da idia de ter Becky perto de si, e Tom ficara aliviado por no ter de alugar uma casa, o que era difcil com aquilo que ganhava. Parecia a Crystal que 
Becky no se ia embora. Iria viver a menos de um quilmetro, junto ao caminho de terra que ela tantas vezes percorria com o pai no trator.
       Olivia ia penteando cuidadosamente o cabelo de Becky enquanto as duas mulheres conversavam sobre Cliff Johnson e a sua mulher francesa. Ele trouxera-a para 
casa depois da guerra, e Becky interrogara-se sobre se haveria ou no de os convidar para o casamento.
       - Ela no  to m como isso - concedeu Olivia pela primeira vez ao fim de um ano, enquanto Crystal as observava em silncio. Muitas vezes sentira-se a mais 
junto delas:
       sempre a haviam mantido fora das suas conversas. Perguntava-se se agora, que Becky se ia embora, a me lhe prestaria mais ateno e ouviria o que ela tinha 
para dizer, ou se passaria todo o seu tempo livre em casa de Becky. - Deu-te um lindo bordado, disse que fora da av dela em Frana. Um dia podes fazer qualquer 
coisa bonita com ele. - Eram as primeiras palavras amveis que algum dizia sobre Mireille desde que ela chegara, no ano anterior. No era uma rapariga bonita, mas 
irradiava simpatia e tentara desesperadamente integrar-se, apesar da resistncia inicial de todos os amigos e vizinhos de Cliff. J havia muitas raparigas em casa 
 espera que os rapazes regressassem da guerra, no era preciso trazer estrangeiras. Mas pelo menos era branca. No era como a rapariga que Boyd Webster trouxera 
do Japo. Fora uma desgraa de que a famlia dele nunca recuperaria. Nunca. E Becky lutara para no convidar Boyd e a mulher para o casamento. Chorara, gritara, 
enfurecera-se e at implorara. Mas Tom insistira, dizendo que Boyd era o seu melhor amigo, que tinham sobrevivido lado a lado na guerra durante quatro anos, e ainda 
que ele tivesse feito uma grande estupidez ao casar com a rapariga no iria deixar de convid-lo para o seu casamento. Alis, at convidara Boyd para ser o seu padrinho, 
o que deixara Becky ainda mais furiosa. Mas no fim ela tivera de ceder. Tom Parker era ainda mais teimoso do que ela. Iria ser embaraoso ter Hiroko ali, e uma pessoa 
no se podia esquecer daquilo que ela era, com aqueles olhos em bico e cabelo preto brilhante. Ao olhar para ela, todos se lembravam dos jovens que tinham morrido 
no Pacfico. Era uma desgraa, uma grande desgraa. Tom tambm no gostava dela, mas Boyd era seu amigo, seu compincha, e ele era-lhe leal. Boyd j pagara o seu 
preo por ter casado com ela. Ningum lhe dera emprego quando regressara, e todas as portas da cidade se haviam fechado na sua cara. Finalmente, o velho Sr. Petersen 
tivera pena dele e empregara-o na bomba da gasolina, o que era uma lstima, pois Boyd era demasiado inteligente para ficar preso quele trabalho. Antes da guerra 
tencionara ir para a faculdade, mas agora isso era impossvel. Tinha de trabalhar para se sustentar e para sustentar Hiroko. Todos achavam que eles iriam acabar 
por se sentir desencorajados e por ir viver para outro lado. Pelo menos era o que se esperava. Mas,  sua maneira, Boyd amava tanto o vale como Tad Wyatt e Crystal.
       Crystal sentira-se fascinada pela bela e pequena esposa japonesa de Boyd quando ela chegara. Os modos suaves e delicados de Hiroko, a sua fala hesitante, 
a sua educao e ingls cuidadoso atraram Crystal como um m. Mas Olivia no permitia que Crystal falasse com ela, e at o pai achava melhor manter-se afastado 
deles. Havia coisas de que era melhor no nos aproximarmos, e os Webster contavam-se entre elas.
       - O que  que ests a fazer a especada a olhar para a tua irm? - Olivia reparou que Crystal as observava, e de repente lembrou-se que ela estava ali. - 
Disse-te h meia hora que fosses ajudar a tua av na cozinha.
       Sem uma palavra Crystal saiu do quarto, descala, enquanto Becky tagarelava muito nervosa sobre o casamento. Quando chegou  cozinha, j l estavam trs mulheres, 
que tinham vindo de ranchos e quintas vizinhas para ajudar. O casamento de Becky iria ser o acontecimento do ano e o primeiro do Vero. Os amigos e vizinhos viriam 
de muitos quilmetros de distncia. Esperavam-se duzentos convidados, e as mulheres trabalhavam afanosamente para ultimar o grandioso almoo que serviriam depois 
da cerimnia religiosa.
       - Onde  que tens andado, menina? - perguntou a av, apontando de imediato para um enorme presunto. Era costume matarem os seus porcos e curarem o presunto. 
Tudo o que iriam servir era caseiro, at o vinho.
       Crystal meteu mos ao trabalho sem proferir palavra, e passado momentos sentiu uma palmada no traseiro.
       - Que lindo vestido, mana! Foi o pai que trouxe de So Francisco?
       Era Jared, como no podia deixar de ser, mirando-a da sua altura avantajada. Com dezesseis anos de idade, estava sempre ansioso por escarnecer e atormentar. 
Vestia umas calas novas que j lhe estavam um pouco curtas, e uma camisa branca que a av engomara at poder agentar-se de p. Mas ainda estava descalo, trazia 
os sapatos na mo e tinha o casaco novo e a gravata sobre o ombro. Ele e Becky haviam sido como co e gato durante muitos anos, mas no ltimo ano Crystal tornara-se 
o centro das suas atenes. Serviu-se de uma suculenta fatia de presunto e Crystal deu-lhe uma palmada nos dedos.
       - Corto-vos se no tiveres cuidado! - exclamou ela, acenando-lhe com a faca, j um pouco irritada. Ele estava sempre a aborrec-la. Adorava provoc-la, goz-la 
e aborrec-la. Mais do que uma vez atormentara-a ao ponto de ela tentar dar-lhe um empurro, que ele evitava com toda a facilidade, e depois dava-lhe umas pancadinhas 
pouco suaves nas orelhas por ter tentado.
       - Afasta-te de mim... vai chatear outro Jar. - Muitas vezes chamava-lhe "Cabea de Jarro". - Porque  que no est a ajudar?
       - Tenho coisas mais interessantes para fazer. Vou ajudar o pai a tirar o vinho da adega.
       - Pois... aposto que sim - rosnou ela. J o vira bbedo com os amigos, mas teria preferido morrer a fazer queixa dele ao pai. Embora andassem sempre s turras, 
havia ainda um forte lao entre ambos. - V l se deixas alguma coisa para os convidados.
       - V l se te lembras de te calares.
       Ele tornou a dar-lhe uma palmada no traseiro, e Crystal largou a faca e tentou agarrar-lhe no brao, mas era demasiado tarde, pois ele j sara da cozinha 
em direo ao quarto, a assobiar. Parou  porta do quarto de Becky e espreitou l para dentro quando ela estava apenas com o soutien e as cuecas a ajeitar o cinto-de-ligas.
       - Ol, mida... Uau! - Emitiu um longo assobio de apreciao e Becky lanou um grito muito agudo.
       - Sai j daqui!
       Atirou-lhe com a escova, mas ele fechou a porta antes de ela lhe acertar. Eram sons familiares na velha casa do rancho e na cozinha ningum lhes prestou ateno. 
Tad Wyatt entrou, j com o fato azul-escuro do casamento. Tinha um ar slido, caloroso e distinto. A sua famlia j tivera dinheiro, e muito, mas perdera tudo havia 
muitos anos, nos anos ainda antes da Depresso de 1929. Tinham vendido milhares de acres de terra, e ele conseguira transformar o rancho e torn-lo de novo lucrativo 
com o suor do seu rosto e Olivia ao lado. Mas j vira um bocado do mundo antes de casar com ela. s vezes, falava dele a Crystal, quando iam dar os seus longos passeios, 
se abrigavam durante uma grande chuvada ou quando esperava que uma vaca parisse durante o Inverno. Partilhava com ela coisas j h muito enterradas e quase esquecidas.
       - H um mundo muito grande l fora, minha menina... com vrios stios bonitos... no muito melhores do que este... mas que mesmo assim merecem ser vistos.
       Falara-lhe de stios como Nova Orleans e Nova Iorque e at mesmo Inglaterra. E quando Olivia o ouvia, resmungava por ele encher a cabea de Crystal com disparates. 
A prpria Olivia nunca fora mais longe do que o Sudoeste, e at aquilo lhe parecera estranho. Os seus dois lhos mais velhos tinham a mesma viso do mundo. O vale 
era suficiente, e todas as pessoas que nele moravam. Apenas Crystal sonhava com algo mais, e perguntava-se se alguma vez o veria. Tambm amava o vale, mas no seu 
corao havia lugar para mais. Tal como o pai, amava loucamente aquela terra, mas adorava sonhar com stios distantes.
       - Como  que est a minha menina? - perguntou Tad Wyatt ao entrar, olhando orgulhoso para a filha mais nova. At ali, na cozinha cheia de mulheres, a viso 
de Crystal enchia-lhe o corao, a sua beleza roubava-lhe o flego e era-lhe impossvel escond-lo. Sentia-se grato por aquele no ser o dia do casamento dela. Sabia 
que no o iria suportar. E no a teria deixado casar com um homem como Tom Parker. Mas ele servia para Becky. Becky no tinha sonhos... no havia estrelas nos cus 
secretos do seu corao... no tinha vises secretas. Queria um marido, filhos, uma casa no rancho e um marido vulgar como Tom, sem ambio e com poucos sonhos, 
e era isso que ela iria ter.
       - Ol, paizinho. - Crystal olhou-o nos olhos com um sorriso suave e sem palavras: o amor que sentiam um pelo outro dizia tudo.
       - A mezinha fez-te um vestido bonito para o dia de hoje? - Estava sempre a querer que Olivia lhos fizesse. Sorriu, ao lembrar-se dos collants que dera a 
Crystal para ela usar no casamento, apesar de Olivia pensar que ele tinha agido mal.
       Crystal assentiu em silncio. Era bonito. Mas nada comparado com o que se via nos filmes. Era apenas um vestido. Um vestido branco, bonito. Os collants de 
nylon, invisveis e excitantes, iriam ser o melhor da sua indumentria. Mas Tad sabia que ela ficaria bonita com qualquer trapinho.
       - Onde est a me? - Ele olhou em volta, vendo apenas a sogra, trs amigas da mulher e Crystal.
       - A ajudar a Becky a vestir-se.
       - To cedo? J estar toda amarrotada antes de chegarmos  igreja. - Trocaram um sorriso, o dia j estava quente e a cozinha parecia largar vapor. - Onde 
 que est o Jared? H uma hora que ando  procura dele. - Mas parecia bem-humorado quando proferiu estas palavras, no se aborrecia com facilidade. Sempre fora 
paciente para com os trs filhos.
       - Ele disse que o ia ajudar com o vinho - informou Crystal com um sorriso ao olhar de novo nos olhos do pai. Ofereceu-lhe uma fatia do presunto que ainda 
h pouco no quisera dar ao irmo.
       - Ajudar-me a beb-lo, com certeza.
       Riram-se ambos e ele saiu da cozinha em direo ao quarto de Jared. A paixo dele eram os carros e no os ranchos, e o pai sabia disso. A nica pessoa que 
amava o rancho, que o compreendia, que amava a terra como ele era Crystal. Passou pelo quarto onde Becky se estava a vestir com a ajuda da me e bateu  porta do 
quarto do filho.
       - Anda ajudar-me a juntar as mesas, filho. Ainda h trabalho para fazer l fora. - Haviam disposto vrias mesas, cobertas por toalhas de linho que haviam 
ficado do casamento da sua me, havia meio sculo. Os convidados iriam ficar  sombra das enormes rvores que rodeavam a casa.
       Tad Wyatt enfiou a cabea no quaro do filho e deparou-se-lhe ele em cima da cama a olhar para uma revista cheia de fotografias de mulheres.
       - Posso interromper o que ests a fazer o tempo suficiente para me dares uma mozinha?
       Jared levantou-se de um salto com um sorriso nervoso, a gravata de lado e o cabelo puxado para trs com um tnico que comprara em Napa.
       - Claro, pai. Desculpe.
       Tad teve o cuidado de no desmanchar o penteado cuidado do lho e colocou um brao forte sobre os seus ombros. Parecia-lhe estranho que um deles fosse casar-se 
to depressa. Para ele, os filhos eram ainda crianas... lembrava-se de Jared a aprender a andar... e a correr atrs das galinhas... e a cair do trator quando tinha 
quatro anos... de ensin-lo a conduzir quando tinha sete anos... de caar com ele quando o filho pouco mais alto era do que a carabina... e Becky, apenas pouco mais 
velha que ele, ia j casar-se.
       - Est um belo dia para o casamento da tua irm. Olhou para o cu e sorriu para o filho, enquanto indicava a Jared e a trs empregados onde deviam colocar 
as mesas. Demorou uma hora at tudo estar ao seu gosto, e quando voltou  cozinha para uma bebida fresca com Jared, Crystal j desaparecera e no havia sinal das 
outras mulheres. Estavam todas no quarto de Becky e de Crystal, a elogiar o vestido, a suspirarem e a limparem os olhos ao verem Becky j pronta em todo o seu esplendor. 
Era uma noiva bonita, tal como a maioria das raparigas, e as mulheres aglomeraram-se em seu redor, desejando-lhe boa sorte, fazendo comentrios velados sobre a noite 
de npcias at ela corar e s virar para ver Crystal a vestir-se em silncio a um canto. O vestido no era nada de especial, mas a sua simplicidade parecia realar 
ainda mais a beleza dela. Os collants j estavam no lugar, e os sapatos brancos rasos no a faziam mais alta. Crystal estava a um canto em silncio quando as outras 
se viraram para ela, com o seu feixe de cabelos louros, um pequeno halo de gipsofilas e rosas brancas: quase parecia um anjo. Comparativamente, Becky parecia estar 
demasiado vestida, demasiado arranjada e muito menos bela. Crystal parecia estar parada num raro momento entre a infncia e o estado adulto; nela no havia artifcios, 
nada rude, nada agudo, apenas a suavidade subtil da sua extraordinria beleza.
       - Bem... a Crystal est muito bonita - disse uma das mulheres, como se com palavras vulgares a pudessem tornar menos bela, mas isso no era possvel. Crystal 
era aquilo que era e nada podia mudar isso, nem sequer o vestido branco simples que vestia. Ao olhar para ela, esquecia-se tudo menos a graciosidade com que ela 
se movia e o belssimo rosto sob o halo de inocentes flores brancas. Becky tambm levava rosas brancas, e as mulheres que estavam no quarto tiveram de se obrigar 
a olhar para trs e soltar exclamaes. Mas ningum o podia negar: Crystal era a mais bela.
       -  melhor irmos andando - disse finalmente Olivia, conduzindo as mulheres l para fora onde o marido e Jared j as esperavam. Iam em carros diferentes para 
a igreja. A cerimnia do casamento iria ser breve e pouco concorrida: os amigos haviam sido convidados para o almoo que se seguia, mas muito poucos para a cerimnia 
religiosa.
       Tad observou as mulheres quando elas desceram as escadas do alpendre, a falar e a rir como adolescentes. Aquilo f-lo recordar-se do seu prprio casamento. 
Olivia estivera muito bonita no vestido de noiva da me, mas tudo parecia j muito distante. Agora parecia muito cansada e gasta e diferente. A vida no fora fcil 
para eles, a depresso fora especialmente difcil, mas j tudo passara. O rancho estava a ir bem, os filhos eram quase adultos, estavam em segurana e felizes no 
seu pequeno mundo confortvel naquele pequeno e remoto vale. De repente, susteve a respirao quando Becky apareceu no alpendre, com um ar tmido e orgulhoso, o vu 
ocultando-lhe o rosto, o bouquet de rosas nas mos trmulas. Estava muito bonita e as lgrimas vieram-lhe aos olhos quando a viu.
       - No parece um quadro, Tad? - murmurou Olivia orgulhosa, agradada com o efeito que a filha mais velha provocara nele. J h muitos anos que tentava que Becky 
ocupasse um lugar mais especial junto dele, mas fora sempre Crystal quem lhe enchera o corao... Crystal... com os seus modos selvagens e graa desenvolta a correr 
atrs dele. Mas finalmente Becky conseguira o que a me tanto desejara.
       - Ests muito bonita, minha querida. - Tad beijou levemente a filha, sentindo o vu entre os seus lbios e a face dela, e apertou-lhe a mo enquanto ambos 
tentavam reprimir as lgrimas. Depois o momento passou e apressaram-se para os carros, a fim de se dirigirem  igreja onde ela iria tornar-se a Sra. Thomas Parker. 
Era um grande dia para todos, especialmente para Becky, e quando ele contornava o carro para se sentar ao volante parou de repente, sentindo o mesmo aperto no corao 
que sentira da primeira vez que a vira. Muito tmida como uma cora no vestido branco simples, hesitante, tmida, o sol a brilhar-lhe no cabelo, os olhos da mesma 
cor do cu, ali estava Crystal a olhar para ele. Ela tambm se deteve por um momento e sorriram ambos. Tad sorriu para a filha mais nova enquanto ela entrava no 
carro em que Jared iria levar a av, e com um gesto selvagem ela atirou-lhe uma das rosas; ele apanhou-a com uma gargalhada. Era o dia de Becky, no precisava que 
Olivia lho recordasse, Crystal era quem era. E era tudo para ele. Era a mais rara das raras. Era simplesmente... Crystal.
       
Captulo 2
       
       A cerimnia foi simples e agradvel e o noivo e a noiva trocaram votos na pequena igreja branca de Jim Town. Becky estava bonita e orgulhosa no vestido que 
a me lhe fizera e Tom parecia nervoso e muito jovem no fato azul novo que comprara para o casamento. Boyd Webster era o padrinho, com o seu cabelo acobreado e um 
rosto cheio de sardas. E Tad, ao observ-los do banco da frente, reparou como todos eram jovens, pouco mais velhos do que crianas.
       Crystal era a nica dama de honra da irm. Colocara-se a um lado, olhando muito tmida para Boyd, esforando-se por no observar com ar curioso a mulher dele 
sentada na ltima fila. Hiroko levava um vestido de seda verde muito simples, um colar de prolas e sapatos pretos. Esforava-se para parecer o mais ocidental possvel, 
embora Boyd tivesse querido que ela levasse um quimono. No casamento de ambos no Japo, ela levara um, e parecera uma boneca com o tradicional kanzashi no cabelo, 
um punhal de ouro e a pequena bolsa brocada cheia de moedas presa ao obi de ouro. Mas tudo isso j estava esquecido e a famlia mais chegada de Becky e os amigos 
viram-na tornar-se mulher de Tom. Ele beijou a noiva, Jared deu vivas e Olivia limpou os olhos ao leno bordado que levara ao seu casamento. Tudo correra na perfeio, 
e ficaram no adro durante algum tempo, a falar com a famlia e os amigos e a admirar Becky. O padrinho deu uma palmada nas costas de Tom, que estava radiante, e 
todos apertaram as mos, beijaram-se e disseram ter gostado da cerimnia simples. Jared atirou-lhes um punhado de arroz quando entraram nos carros e depois seguiram 
em fila, de volta ao Rancho Wyatt para o almoo cuidadosamente preparado por Olivia, Minerva e vizinhas ao longo de vrios dias.
       Assim que chegaram a casa, Olivia foi at  cozinha dar instrues aos empregados do rancho, para que levassem as travessas e os tabuleiros l para fora. 
As mulheres deles haviam sido contratadas para ajudar a servir e a limpar tudo depois, e as mesas repletas de comida pareciam no ter fim: perus e frangos, carne 
de vaca assada, costeletas e presuntos, feijo-frade e batatas-doces, legumes e saladas, galantinas e ovos  la diable, bolachinhas, doces e tortas de fruta e um 
enorme bolo de noiva numa mesa  parte. Parecia comida suficiente para um exrcito. Tad ajudou os homens a abrir o vinho e Tom sorria para a mulher, com Boyd sorrindo 
tambm muito tmido ao lado deles. Boyd era um rapaz bem-parecido com um corao aberto e olhos meigos e sempre gostara muito dos Wyatt. A sua irm, Ginny, andara 
na escola com Becky, e ele recordava-se de Jared e de Crystal ainda bebs, embora fosse pouco mais velho que eles. Mas com vinte e dois anos, com quatro anos de 
guerra vividos, sentia-se muitssimo mais velho.
       - Bem, Tom, conseguiste. Qual  a sensao de estar casado? - Boyd Webster dirigiu um sorriso aberto ao amigo enquanto Tom olhava em volta sem esconder a 
sua alegria. Casar com algum da famlia Wyatt fora uma subida no mundo de Tom Parker. Estava ansioso por viver no rancho e partilhar os seus lucros, se no diretamente, 
pelo menos no estilo de vida. Tad andava a ensin-lo h meses, falando-lhe do milho, do gado e das vinhas. As nogueiras eram o que menos lucro dava no rancho, mas 
at mesmo isso no era de desprezar. E na poca das nozes, toda a gente do rancho ajudava at terem os dedos manchados de apanhar e descascar as nozes. Mas durante 
os primeiros meses Tom iria ajudar o sogro nas vinhas.
       - Pois, aposto que vais - brincou um dos amigos de Tom sobre os pratos repletos de presunto e peru. - Prova de vinhos, no  o que chamam a isso Tom?
       O noivo deu uma gargalhada, os olhos demasiado brilhantes, e Becky riu-se no centro do grupo de raparigas com quem tinha crescido. A maior parte delas tambm 
j estava casada. Com o m da guerra, os rapazes regressaram ao lar, as raparigas terminaram o liceu, e no ltimo ano houvera dezenas de casamentos no vale. Algumas 
das raparigas j tinham filhos. E j estavam a brincar com o fato de Becky ir engravidar.
       - No h-de demorar muito, Becky Wyatt... espera s... mais um ou dois meses, e estars  espera de um filho!
       As raparigas riram-se, e continuavam a chegar carros com os vizinhos; vestiam a sua melhor roupa; repreendiam os filhos e mandavam-nos portar-se bem e no 
rasgarem as roupas em correrias com os amigos em volta das mesas. Uma hora depois, havia duzentos convidados instalados  mesa e cerca de cem crianas, os pequenos 
junto das pernas das mes, com medo de se afastarem demasiado, os bebs ao colo, alguns rapazinhos s cavalitas dos pais a alguma distncia das mesas postas com 
todo o cuidado, uma enorme multido de crianas a correrem e a brincarem  apanhada, tendo j esquecido as palavras de aviso dos pais. Os rapazes corriam uns atrs 
dos outros  volta das rvores, enquanto alguns mais aventureiros as trepavam, e as raparigas aglomeravam-se em grandes grupos, segredando, falando e rindo, algumas 
a andarem no balano que Tad construra h muitos anos para os filhos. De vez em quando, juntavam-se aos pais, mas no geral cada um dos grupos limitava-se a ignorar 
o outro, os pais calculando que os filhos estavam em segurana ali perto e os lhos satisfeitos por os pais estarem demasiado divertidos para se preocupar com o que 
os seus rebentos faziam.
       E, como sempre Crystal estava na extremidade dos grupos mais jovens, quase esquecida, excetuando um ocasional olhar de inveja ou admirao. As raparigas olhavam-na 
sempre com cautela, e os rapazes, nos ltimos anos, comeavam a sentir-se fascinados por ela, embora por vezes o expressassem de forma estranha, dando-lhe encontres, 
puxando-lhe o longo cabelo louro, fingindo dar-lhe murros, empurrando-a, ou fazendo alguma proeza fsica para lhe chamar a ateno, sem nunca falarem com ela. E 
as raparigas tentavam no lhe dirigir a palavra. A beleza dela tornava-a muito ameaadora. Era posta  margem sem perceber por qu. Aquele era o preo que pagava 
pela sua beleza. Aceitava a forma como era tratada como uma coisa natural, mas no a compreendia. s vezes, quando os rapazes a empurravam e ela se sentia corajosa, 
empurrava-os tambm, batia-lhes, ou passava-lhes rasteiras quando a aborreciam. Era a nica forma de comunicar com eles. E durante o resto do tempo ignoravam-na. 
Conhecia-os a todos desde que tinham nascido, mas nos ltimos anos era como se se tivesse transformado numa estranha. As crianas apercebiam-se tanto como os pais 
da sua beleza arrebatadora. Mas ningum sabia como lidar com essa beleza. Eram pessoas simples e parecia que nos ltimos dois anos ela se transformara em algum 
diferente. Depois de quatro anos afastados, os rapazes que voltaram da guerra foram os que mais deram pela mudana e ficaram chocados com o que acontecera a Crystal. 
Sempre bonita enquanto criana, com dez anos nada nela sugerira a fora da sua beleza como mulher. Mas parte do seu encanto era o fato de ela ainda no se aperceber 
do efeito que provocava nos homens  sua volta, e continuava a ser to paciente e bem-humorada como em criana. Quando muito, tornara-se mais tmida, porque sabia 
que o efeito que provocava nos outros se alterara subtilmente, mas no sabia por qu. S o irmo continuava a trat-la da mesma forma, com um afeto rude. Mas a inconscincia 
que tinha da sua beleza tornava-a ainda mais sensual, fato de que o pai j se apercebera, tendo-lhe ordenado havia dois anos que deixasse de andar por perto dos 
trabalhadores do rancho. Tad sabia exatamente o que eles pensavam, e por que, e no desejava que Crystal, sem se aperceber fizesse algo que os provocasse. A sua 
delicadeza e o seu modo silencioso de andar no meio deles era mais excitante do que passar por eles nua.
       Contudo, agora Tad no estava preocupado com ela, e falava com os amigos de poltica, de desporto, da m-lingua local e do preo das uvas. Era um dia feliz 
para todos: os seus amigos comiam, falavam e riam-se, as crianas brincavam por perto e Crystal observava-os.
       Hiroko tambm se achava um pouco afastada,  sombra de uma rvore, silenciosa e sozinha, os olhos nunca abandonando o marido. Boyd estava a falar com Tom 
num crculo de amigos, recordando episdios da guerra. Era difcil acreditar que terminara h menos de um ano. Agora parecia-lhes uma coisa que se passara h uma 
eternidade, com os seus medos e excitaes, os amigos que tinham feito e aqueles que haviam perdido. S restava Hiroko, como uma lembrana viva do local onde tinham 
estado e do que ainda se recordavam. Ela era encarada com hostilidade e nenhuma das mulheres se aproximava dela. At a cunhada, Ginny Webster, tinha o cuidado de 
a evitar. Ginny trazia um vestido cor-de-rosa justo com um grande decote, um casaco igual s bolinhas e uma saia curta presa ao corpete que acentuava o seu traseiro 
bem feito. Ria-se ainda mais alto do que as outras mulheres e namoricava com todos os amigos de Boyd, tal como fizera havia muitos anos, quando Boyd levara os amigos 
a sua casa depois das aulas e ela tentara atrai-los. Mas o efeito que provocava e o seu estilo eram muito diferentes dos de Crystal. Era abertamente sensual com 
o seu cabelo ruivo, o vestido justo e a maquiagem. J h muitos anos que era assunto de conversa, e os homens adoravam pr o brao  volta dos seus ombros para melhor 
poderem admirar o grande decote. Isso trazia recordaes a muitos deles. Desde os treze anos que Ginny era muito generosa a conceder favores.
       - Que tens a, Ginny?
       O noivo aproximou-se dela, a cheirar a algo mais forte que o vinho que Tad estava a servir. Alguns homens tinham estado a beber usque no celeiro e Tom havia-se-lhes 
juntado rapidamente, como alis era seu hbito. Agora mirava-a com um interesse evidente, e aproximou-a de si, deixando a mo escorregar para debaixo do casaco dela. 
Ginny tinha na mo o bouquet de Becky, mas ele no se estava a referir s flores. Olhava o meio dos seios dela.
       - Apanhaste o bouquet? Parece que vais ser a prxima. Riu-se de forma estridente, exibindo uns dentes perfeitos, e o sorriso que conquistara o corao de 
Becky havia muitos anos. Mas Ginny conhecia-o melhor, e para muitos isso no era segredo.
       - Eu disse-te que me ia casar em breve Tom Parker - retorquiu ela com um sorriso. Ele puxou-a ainda mais para si e Boyd corou, afastando o olhar da irm e 
do amigo e viu a sua pequena esposa de marfim que os observava  distncia. Sentiu uma grande angstia ao olhar para Hiroko. Era rara a ocasio em que ele se afastava 
dela, mas naquele dia, como era padrinho de Tom, era difcil prestar-lhe toda a ateno que gostaria. No entanto, enquanto Ginny e Tom se provocavam e riam, Boyd 
escapuliu-se discretamente na direo de Hiroko. Ela sorriu ao v-lo aproximar-se e ele sentiu um aperto no corao como sentia sempre que olhava nos seus olhos 
doces. Ela confortara-o a muitos quilmetros de casa e era-lhe devotada desde que tinham chegado ao vale. Partia-se-lhe o corao ao ver como as pessoas a tratavam 
com rudeza. Apesar dos avisos dos amigos no Japo, ele no se preparara para a crueldade das palavras que os esperavam ou para as portas que se lhe haviam fechado. 
Muitas vezes pensara em ir-se embora, mas o seu lar era ali e no iria fugir, no importava o que lhe dissessem ou fizessem. Mas preocupava-se com Hiroko. As mulheres 
eram extremamente antipticas par.a ela e os homens ainda pior. Chamavam-lhe "chinoca", nem as crianas lhe dirigiam a palavra, tendo sido assim instrudas plos 
pais. Estava a uma grande distncia da sua querida famlia no Japo.
       - Ests bem? - perguntou ele com um sorriso, e ela inclinou a cabea e assentiu, e depois olhou-o com timidez, de uma forma que sempre lhe derretera o corao.
       - Estou bem, Joyd-san.  festa muito linda. - Ele riu-se com aquela escolha de palavras e Hiroko ficou atrapalhada, mas depois riu-se. - No?
       - Sim!
       Ele inclinou-se e beijou-a com doura, desprezando quem o observasse. Amava-a e ela era a sua esposa e quem no compreendesse isso que fosse para o diabo! 
O cabelo ruivo e as sardas dele contrastavam com a pele cor de marfim e o cabelo negro como asa de corvo, que ela usava num carrapito muito bem feito. Tudo nela 
era simples, bonito e bem combinado. E a famlia de Hiroko ficara to chocada como a dele quando ambos anunciaram que se iam casar. O pai proibira-a de tornar a 
ver Boyd, mas no fim, perante a sua bondade, calma e visvel amor pela rapariga, e apesar das lgrimas da me, haviam consentido. Hiroko no lhes falara da recepo 
cruel que tivera em Alexander Valley nas cartas que lhes enviara, falara-lhes apenas da pequena cabana onde viviam, da paisagem linda e do seu amor por Boyd, fazendo 
tudo parecer simples e fcil. Quando chegara nada sabia acerca dos campos de internamento para os japoneses durante a guerra, nem da raiva e desprezo que iria encontrar 
na Califrnia.
       - No tenho muita fome, Boydan. Est calor.
       - Vou buscar-te qualquer coisa. - Ela comeava a habituar-se  comida ocidental, embora em casa s confeccionasse comida japonesa, de que ele aprendera a 
gostar enquanto l permanecera. - Volto j.
       Tornou a beij-la e apressou-se em direo s mesas, ainda repletas com a comida que Olivia e a me tinham feito. Em seguida comeou a dirigir-se  mulher 
com um prato na mo, quando, de repente, parou, incapaz de acreditar nos seus olhos. Ainda com o almoo de Hiroko na mo, Boyd avanou na direo do homem alto e 
de cabelo escuro que apertava a mo a Tom Parker. Destacava-se do resto dos convidados devido ao blazer azul-escuro, calas brancas, gravata vermelho-viva e uma 
aura que revelava um mundo de riqueza muito longe do vale. Era apenas cinco anos mais velho que Tom, e estava com um ar diferente, mas haviam sido amigos chegados 
no Pacfico. Spencer Hill fora o seu comandante e o de Tom, e at fora ao casamento de Boyd e Hiroko em Quioto. Quando Boyd se aproximou com um sorriso de orelha 
a orelha Spencer estava a apertar a mo de Tom e a felicit-lo, muito bronzeado e  vontade, e to confortvel ali como estivera no Japo, envergando o uniforme. 
Era um homem que parecia estar  vontade em todo o lado, os seus olhos azuis profundos pareciam abarcar tudo de um s relance. Momentos depois estava a rir-se para 
Boyd Webster.
       - Ora, raios me partam... voc outra vez! O mido das sardas! Como  que est a Hiroko?
       Boyd ficou sensibilizado por ele ainda se lembrar do nome da sua mulher e sorriu, acenando na direo das rvores, onde ela estava.
       - Est boa! Cus! J l vai muito tempo, capito... - Os seus olhos cruzaram-se numa recordao fugaz da dor que tinham partilhado, e dos medos, mas houvera 
mais do que isso, uma intimidade que nunca voltaria a existir. Uma proximidade nascida da dor, da excitao, do terror e tambm da vitria. Mas a vitria parecia 
um momento nfimo quando comparada com o resto, e era dos anos que a haviam antecedido que todos se recordavam. - Venha cumpriment-la.
       Spencer desculpou-se e afastou-se do grupo formado por Tom e seus compinchas, j um bocado acelerados e ansiosos por voltaram ao celeiro para mais usque.
       - Como tem passado? J me tenho perguntado onde  que estaria. Ou se vocs os dois se tinham mudado para a cidade. - Pensara muitas vezes que seria mais fcil 
para eles viver em So Francisco ou Honolulu, mas Boyd estivera decidido a regressar ao vale de que tanto costumava falar.
       Os olhos de Hiroko refletiram surpresa e fez uma vnia assim que o viu. Spencer sorriu-lhe. Ela parecia to pequena e delicada como h um ano atrs no seu 
prprio casamento. Mas agora havia algo mais nos seus olhos, uma sabedoria e uma tristeza que no estavam l antes, e Spencer calculou que o ano que passara no 
fora fcil nem benfico.
       - Est muito bonita, Hiroko.  bom tornar a ver-vos. Pegou-lhe na mo com delicadeza e ela corou, sem ousar olhar para ele, enquanto o marido os observava. 
O capito fora muito correto para com ambos: fizera tudo para os dissuadir de casar, mas no m apoiara Boyd, tal como todos os seus homens, dentro ou fora da batalha. 
Era o tipo de homem com quem os seus subordinados sabiam que podiam sempre contar. Era forte, inteligente, amvel e implacvel quando o desiludiam, o que alis raramente 
acontecia. Houvera poucos homens na sua companhia que no desejassem seguir o exemplo que ele lhes dava. Trabalhara muito, lutara ao lado deles e parecia nunca se 
cansar de lutar para ganhar a guerra. Agora tudo isso parecia muito estranho... acabara, e ali estavam eles, no outro lado do mundo, de novo em segurana, mas nada 
daquilo fora esquecido.
       - J passou muito tempo, no passou?
       O olhar de Spencer cruzou-se com o de Boyd, e ele viu mais maturidade e sabedoria: haviam ambos visto a dor na guerra. Contudo, sem uniforme, o belo capito 
parecia muito mais novo do que da ltima vez que se tinham encontrado, quando Boyd deixara o Japo rumo a So Francisco.
       - No sabia que iria estar hoje aqui - disse Boyd numa voz tranqila, mais contente por ver Spencer do que ele poderia imaginar. Ele fora a primeira pessoa 
que falara bem a Hiroko desde que ela chegara  Califrnia em Setembro. - O Tom no me avisou.
       - Se calhar estava muito ocupado a pensar na noiva. - Spencer dirigiu a ambos um sorriso rasgado. - Escrevi-lhe a dizer que tentaria estar presente; contudo, 
s decidi vir h alguns dias. J devia estar em Nova Iorque. Mas nunca tenho vontade de sair da Califrnia.
       Olhou em volta e Boyd entregou o prato a Hiroko, instando com ela para que experimentasse, mas a jovem estava mais interessada no amigo de ambos do que na 
comida, e pousou o prato com todo o cuidado num tronco atrs dela.
       - Est aqui de frias, sir? - Os olhos de Boyd refletiam o afeto e o respeito que marcara a relao de ambos no Japo, e Spencer abanou a cabea e soltou 
uma gargalhada franca.
       - No, no estou, e por amor de Deus, Webster, chamo-me Spencer, ou j se esqueceu?
       Boyd Webster corou profundamente, como sempre lhe acontecia mesmo no calor da batalha. Aquilo valera-lhe muitas alcunhas do seu comandante e agora os dois 
homens voltavam a rir.
       - Achei que me podia mandar para tribunal militar se o tratasse dessa maneira.
       Hiroko sorriu ao observ-los; recordou-se de uma poca mais feliz muito longe dali, quando estava em casa e no era uma estranha indesejada.
       - Acredite ou no, voltei a estudar. No consegui descobrir mais nada para fazer depois da guerra. Acabei o primeiro ano de Direito. - Conseguira fazer quase 
dois anos num, e acabaria o curso na Faculdade de Direito de Stanford no ano seguinte.
       - Na costa leste? - Boyd achava que um homem como Spencer Hill freqentaria Yale ou Harvard. Sabia que ele tinha dinheiro, embora no soubesse quanto. Spencer 
nunca falava dessas coisas, mas sempre parecera um indivduo educado e de boas famlias, e havia rumores que pertencia a uma famlia importante, embora ele nunca 
tivesse dito nada. Andara na faculdade, todos o sabiam, e era um oficial, mas o resto permanecia um mistrio, e quando se rastejava num campo de minas nada disso 
parecia importante.
       Spencer abanava a cabea, olhando para o amigo, pensando como aquele mundo ficava longe do que conhecia. Parecia estar a anos-luz da sofisticao de So Francisco. 
Era uma vida em que ele nunca pensava, um mundo de ranchos e quintas e de pessoas que trabalhavam a terra. Era uma vida dura, e com vinte e dois anos de idade o 
rosto de Boyd parecia mostr-lo.
       - No, estou em Stanford. Parei l quando ia a caminho de casa e apaixonei-me pela terra. Inscrevi-me antes de regressar a Nova Iorque. Achei que se esperasse 
at ao ano seguinte no conseguiria fazer nada. Adoro estar l. - Era extraordinrio o fato de Stanford ficar apenas a trs horas de caminho, podia muito bem ser 
noutro pas. - Vou voltar no Outono. Prometi aos meus pais que estaria com eles este Vero. S estivemos juntos umas semanas depois de eu ter sado da tropa, e depois 
entrei logo na faculdade. Parece uma coisa estranha na minha idade, mas a guerra atrasou muitos tipos. Alguns so ainda mais velhos que eu. E voc, Boyd? O que  
que faz?
       Hiroko sentara-se em silncio e ouvia a conversa. Perguntou-se o que iria Boyd contar sobre os seus problemas. Ele nunca se queixava, no junto dela, pelo 
menos, e j no havia muita gente com quem pudesse falar. Tinham ficado muito admirados quando Tom lhe pedira para ser seu padrinho de casamento. Nunca ningum os 
convidava, ou falava com eles, e s vezes o velho Sr. Petersen tinha de ir para a bomba da gasolina porque havia pessoas que se recusavam a ser atendidas por Boyd.
       - As coisas no vo mal. Foi difcil arranjar trabalho, com toda a gente a regressar ao mesmo tempo. Mas estamos bem.
       Hiroko observou-o, sem denunciar nada no seu olhar, e Spencer assentiu.
       - Ainda bem. - Preocupara-se com eles, e repreendera-se mais de uma vez por no terem permanecido em contacto. Preocupara-se muito com Boyd quando ele era 
um dos seus homens, e principalmente com o seu casamento com Hiroko. Felizmente, as coisas tinham corrido bem. Sabia que havia outros que no tiveram a mesma sorte, 
homens que se haviam afastado da famlia por causa das mulheres que trouxeram da guerra e que tinham comeado a beber; muitos sentiram-se desprezados e isso levara-os 
ao suicdio, abandonando as mulheres que haviam trazido para um pas que no perdoava. Mas ambos pareciam estar bem, e ainda se encontravam juntos, o que j era 
alguma coisa.
       - Costuma ir a So Francisco?
       Boyd sorriu e abanou a cabea. A vida alija era suficientemente difcil, e para alm disso nem teriam dinheiro para a gasolina, mas no disse nada a Spencer. 
Era jovem e orgulhoso, e sabia que iriam ser bem sucedidos.
       - Tm de l ir visitar-me. Daqui a um ano j sou advogado.  uma idia estranha, no ? - Riram-se ambos, mas Boyd no estava admirado. O capito sempre tivera 
uma aura de xito, todos gostavam dele, tanto soldados como oficiais. Boyd sempre suspeitara que um dia ele iria ser um homem importante, e o cargo de advogado era 
apenas um primeiro passo. Spencer olhou em volta, Boyd sorriu e os seus olhares cruzaram-se de novo. - Como  a mulher do Tom? Parece uma rapariga simptica.
       - No  m.  amiga da minha irm. - Riram-se ambos. Spencer ouvira falar muito de Ginny Webster. Estava sempre a mandar ao irmo fotografias dela em fato 
de banho, pedindo-lhe que arranjasse soldados que lhe escrevessem. Nessa altura era apenas uma adolescente, com o mesmo cabelo ruivo do irmo e as mesmas sardas, 
mas com um corpo belssimo. - Os Wyatt so boa gente. O Tom vai trabalhar no rancho com o pai da Becky. - Para Boyd, aquilo parecia ser uma ddiva de Deus, mas de 
repente sentiu-se atrapalhado, pensando que essa vida era muito menos confortvel do que a vida de um estudante de Direito em Stanford. No entanto Spencer mostrava 
respeito por eles ao olhar em volta com ar de admirao. O rancho parecia agradvel, limpo e prspero, e os convidados que conversavam sob as rvores tinham ar de 
ser pessoas decentes, slidas. - O Tad Wyatt  um bom homem. O Tom tem muita sorte.
       - Voc tambm.
       Spencer disse aquelas palavras muito suavemente, olhando para Hiroko e depois para Boyd com carinho e uma ponta de inveja. No gostava de ningum, ningum 
que ele amasse ou que o amasse como Hiroko amava o marido. Quase os invejou por isso, mas no tinha pressa. Havia muitas mulheres na sua vida, e estava a divertir-se. 
Tinha vinte e sete anos, mas nenhuma pressa em assentar. Havia outras coisas que gostaria de fazer primeiro, como acabar o curso e regressar a Nova Iorque. O pai 
era juiz e dissera-lhe que a melhor coisa que ele podia fazer era tornar-se advogado. Com o curso de Direito e os conhecimentos que faria numa faculdade como a de 
Stanford, teria uma vida boa. E com o seu aspecto e -vontade, muitas portas iriam abrir-se para Spencer Hill. Sempre assim fora, a vida corria-lhe bem, e fosse 
onde fosse todos gostavam dele. Era ntegro, com estilo, e era muitssimo esperto. Isso salvara-lhe a vida no Pacfico mais do que uma vez, e tambm salvara a vida 
dos seus homens. Quando no tinha experincia, compensava com ingenuidade e coragem.
       - Acham que me devia misturar com os convidados? Boyd riu-se:
       - Claro. Venha da, vou apresent-lo  minha irm.
       - At que enfim - brincou Spencer. - Acha que a vou reconhecer sem o fato de banho?
       Assim que se dirigiram para os outros convidados, ele viu imediatamente quem ela era, no s por causa do cabelo ruivo semelhante ao de Boyd, mas tambm pelo 
corpo envolto no vestido cor-de-rosa justo e casaco a condizer. A sorridente rapariga, j tocada devido ao vinho, e ainda agarrada ao bouquet  meio murcho de Becky, 
s podia ser Ginny, a irm de Boyd. Boyd apresentou-os e Ginny corou, ficando quase da cor do vestido quando Spencer lhe apertou a mo e lhe disse como o irmo tinha 
sido corajoso no Pacfico.
       - Ele nunca me disse que o senhor era assim to bonito, capito. - Deu uma risada e chegou-se mais a ele, cheirando a perfume barato e a vinho. Em seguida, 
Boyd apresentou-o ao pai, mas era visvel no olhar de reprovao do velho, que apertou a mo de Spencer, que a relao com o filho no ia l muito bem, e era fcil 
adivinhar que a causa era Hiroko.
       Spencer ficou junto deles durante algum tempo, recordando os velhos tempos com Boyd e Tom, e deixou-os para se servir de um copo de vinho do rancho. Conversou 
com alguns convidados e depois afastou-se em direo s rvores para ficar sozinho, sentindo que a paz do campo agitava algo dentro dele que h muito estava esquecido. 
A sua vida estava to cheia de atividades urbanas e dos estudos em Stanford que raramente tinha tempo para ir sozinho de carro at um stio como aquele. Era como 
voltar atrs no tempo, os velhos sentados sob as rvores em frente a mesas cobertas por toalhas de linho que se agitavam levemente com a brisa, e as crianas a correr 
e a gritar  distncia. Se fechasse os olhos, podia imaginar que estava em Frana, ou quase noutro sculo, as famlias e os amigos a conversarem e a rirem, as colinas 
estendendo-se em redor e ele debaixo das rvores enormes. De repente, sentiu que algum o observava. Virou-se e viu uma criana muito bela a olhar para ele, estava 
descala e era mais alta do que a maioria das mulheres que ali se encontrava, mas ele no teve dvidas de que ela ainda era uma criana. Uma criana com um corpo 
de mulher e enormes olhos azuis que pareciam espreitar a sua alma. Uma mo esbelta e graciosa afastou uma madeixa de cabelo louro do rosto que o surpreendeu pela 
sua beleza. Ele permaneceu imvel e os olhares de ambos cruzaram-se. Nenhum deles falou. Ele continuou a observ-la, incapaz de afastar os olhos dela. Nunca vira 
ningum to belo, nem to inocente, num vestido branco muito simples, ps descalos em cima da relva. Desejou estender um brao e poder tocar-lhe.
       - Ol. - Ele falou primeiro e pareceu-lhe que ela teve medo de responder. Quis sorrir-lhe, mas sentiu-se paralisado pelo efeito dos olhos dela; eram de um 
azul que ele no se recordava de j ter visto, a cor de um cu de Vero, de manh muito cedo. - Ests a divertir-te? - O que dissera pareceu-lhe uma estupidez, mas 
no podia dizer-lhe como ela era bela. Era s isso que lhe apetecia fazer.
       A criana continuou a olh-lo. E ento, devagar, sorriu-lhe, avanando lentamente para ele como uma cora a sair da floresta. Sentia-se curiosa a seu respeito 
Spencer via isso nos seus olhos, e teve medo de a assustar se se aproximasse. Teria de a deixar vir at si, e apeteceu-lhe estender a mo para a puxar.
       -  amigo do Tom? - A sua voz era grave e suave, e to sedosa como o cabelo louro que parecia implorar a Spencer para ser tocado. Mas tinha de manter-se normal. 
Ela era apenas uma criana e ficou surpreendido com aquilo que estava a sentir. No havia em seu redor nenhuma da sensualidade que envolvia Ginny Webster no seu 
vestido cor-de-rosa muito justo; em vez disso, toda ela era sensualidade delicada, como uma flor perfumada que cresce isolada no alto de uma montanha.
       - Estivemos juntos no Japo, durante a guerra. Ela assentiu, como se aquilo no a surpreendesse. Sabia que nunca o vira antes. Na verdade, nunca vira ningum 
como ele. Havia no homem um verniz e uma sofisticao discreta que a fascinavam. Tudo nele era imaculado e caro, desde o blazer, de excelente corte, s calas brancas 
impecveis, passando pela gravata de seda e mos delicadas. Mas mais do que isso, sentia-se fascinada plos seus olhos. Havia algo nele que a atraa como um m.
       - Conhece o Boyd Webster? - inclinou a cabea para um lado com curiosidade, o cabelo caindo livremente em cascata sobre o ombro. - Ele tambm esteve no Japo 
com o Tom.
       Ele assentiu, os olhos fixos nela, perguntando-se quem seria a rapariga, como se isso tivesse alguma importncia.
       - Conhecia-os aos dois. - No lhes disse que fora comandante deles. No era importante. - E a Hiroko tambm. Conhece-la?
       Ela abanou a cabea devagar.
       - Ningum tem autorizao para falar com ela. Ele assentiu, triste por eles, mas no surpreendido. Fora isso que temera desde o incio, e agora aquela criatura 
fascinante confirmara-o.
       -  pena. Ela  uma excelente rapariga. Fui ao casamento deles.
       Era difcil encontrar coisas para lhe dizer, porque ela era muito nova e porque ele se sentia dominado pelo desejo quando olhava para ela. Perguntou-se se 
seria louco. Ela era uma criana, disse para si, ou pelo menos uma rapariga muito jovem. No podia ter mais de catorze ou quinze anos e, contudo, tudo nela o deixava 
ofegante.
       - O senhor  de So Francisco?
       Tinha de ser. As pessoas do vale no tinham aquele aspecto, e ela no conseguia imaginar que ele fosse de um stio mais longe do que So Francisco.
       - Agora sim. Na verdade, sou de Nova Iorque. Mas ando aqui na faculdade.
       Ele sorriu ao dizer aquelas palavras, e ela riu-se abertamente, um som cristalino como um riacho de montanha. Aproximou-se dele. As outras crianas ainda 
estavam a brincar a uma certa distncia e pareciam no ter dado pela falta dela.
       - Que tipo de faculdade? - Os olhos dela brilhavam muito vivos, e ele pressentiu que escondida sob a timidez estava a malcia.
       - Faculdade de Direito.
       - Deve ser difcil.
       - E . Mas  interessante e eu gosto. E tu, o que  que fazes?
       Era uma pergunta tola, e ele sabia. O que poderia ela fazer com aquela idade, para alm de andar na escola e brincar com os amigos no vale?
       - Ando na escola. - Arrancou uma erva do cho e ps-se a brincar com ela.
       - Gostas?
       - s vezes.
       - Parece-me bem. - Ele tornou a sorrir e perguntou-se qual seria o nome dela. Provavelmente Sally, ou Jane, ou Mary. Ali as pessoas no tinham nomes invulgares. 
E depois, como se isso fosse importante para ela Spencer apresentou-se. Ela assentiu em silncio, ainda a observ-lo com um fascnio cauteloso.
       - Eu chamo-me Crystal Wyatt. - O nome parecia assentar-lhe que nem uma luva.
       - s da famlia da noiva?
       - Irm.
       Spencer perguntou-se por que motivo no teria Tom esperado por ela, mas talvez as pessoas dali ainda no se tivessem apercebido da sua beleza, embora fosse 
difcil imaginar tal coisa.
       -  um rancho muito bonito. Deve ser agradvel viver aqui.
       Ento ela sorriu, mais abertamente do que antes, como se estivesse ansiosa por partilhar um segredo.
       - Nas colinas  ainda mais bonito; h um riacho que no se consegue ver daqui. Eu e o meu pai s vezes vamos de cavalo at s montanhas. So lindssimas. 
O senhor monta? - Sentia-se curiosa a seu respeito quase tanto como ele estava a respeito dela, enquanto a ouvia.
       - No muito bem. Mas gosto. Talvez volte c um dia e tu e o teu pai me possam ensinar.
       Crystal assentiu, como se a idia lhe agradasse, e depois algum a chamou. A princpio ignorou, e depois virou-se, arrependendo-se logo de seguida. Era o 
irmo. Spencer sentiu o corao apertar-se. Tinham finalmente dado pela falta dela.
       - Gostei muito de falar contigo.
       Sabia que dali a momentos ela se iria embora, e desejava poder estender a mo e tocar-lhe por um instante. Receava nunca mais tornar a v-la, e queria parar 
o tempo para gravar aquele momento, sob as rvores... antes de ela crescer... antes de ir embora... antes que a vida a mudasse.
       - Crystal! - Havia j um coro de vozes a cham-la. E no havia maneira de as ignorar. Gritou-lhes que iria de imediato.
       - Voltar c outro dia?
       Era como se ela tambm pressentisse. Como se no quisesse que ele a deixasse: nunca vira um homem to atraente como ele, exceto as estrelas de cinema cujas 
fotografias colara na parede do quarto. Mas ele era diferente, era verdadeiro. E falava-lhe como se ela no fosse um beb.
       - Gostaria de voltar. Agora que sei que o Boyd est aqui, talvez aparea um dia destes para o ver. - Ela assentiu, como se aprovasse aquela idia. - Tambm 
virei ver o Tom... - A sua voz falhou, querendo dizer "e ver-te tambm", mas sabia que no lhe podia dizer uma coisa daquelas. Ela haveria de o achar louco e no 
queria assust-la. Talvez fosse do vinho, disse para si, talvez ela no fosse to bonita como ele julgava, talvez fosse por causa da atmosfera, e do dia, e do ambiente 
do casamento. Mas sabia que era mais do que isso, que ela era mais do que isso. Ento, com um ltimo olhar e um sorriso tmido, ela acenou-lhe e dirigiu-se para 
junto dos outros. Ele ficou a observ-la durante bastante tempo. O irmo disse-lhe qualquer coisa, puxou-lhe o cabelo, e de repente ela desatou a correr atrs dele, 
a provoc-lo e a rir-se, como seja tivesse esquecido que se tinham encontrado. No entanto, assim que ele comeou a afastar-se, viu-a virar a cabea na sua direo 
e parar por um momento, como se lhe quisesse dizer qualquer coisa, mas no disse. Voltou a observar as crianas, enquanto Spencer regressava para junto de Boyd e 
Hiroko.
       Viu-a outra vez antes de se ir embora, no alpendre a falar com a me, e era visvel que estava a ouvir uma reprimenda. Levou uma travessa pesada para a cozinha 
e no voltou a sair. Momentos depois, ele afastava-se no carro, ainda a pensar na criana que conhecera. Era como uma cora selvagem, bela, rebelde e livre, a criana 
com olhos de mulher. Riu-se. Era uma loucura. Tinha uma vida para viver num mundo distante daquele. No havia razo para se sentir atrado por uma criana de catorze 
anos na vegetao luxuriante de Alexander Valley. No havia razo, s que ela no era uma rapariga qualquer. Disse-o a si mesmo enquanto se afastava, lembrando-se 
da promessa que fizera a Boyd e a Hiroko de que voltaria para os visitar depois do Vero. Talvez voltasse... talvez voltasse mesmo... o estranho  que de repente 
soube que voltaria.
       E enquanto Crystal ajudava a me a levar o resto das travessas, deu por si a pensar nele, no belo estranho de So Francisco. Agora sabia quem ele era. Ouvira 
Tom falar dele, o seu comandante no Japo. Tom ficara satisfeito por ele ter vindo ao casamento, mas tinha coisas mais importantes em que pensar. Ele e Becky partiram 
sob uma chuva de arroz para a lua-de-mel junto ao mar, em Mendocino. Iriam estar fora duas semanas, e depois regressariam para viver numa casa do rancho, para trabalhar 
com o pai e para terem filhos. Crystal achava tudo aquilo muito aborrecido. To esperado e banal. No havia magia na vida deles, nada raro e estranho, ao contrrio 
das pessoas com quem sonhava ou das estrelas de cinema sobre as quais lia. Perguntou-se se um dia estaria assim, casada com um dos rapazes que conhecia, um dos amigos 
de Jared, ou um dos rapazes que ainda odiava. Era estranho, sentia-se impelida em duas direes: para o mundo familiar que conhecia... e para um mundo muito mais 
afastado, cheio de mistrio e de estranhos bonitos, como aquele que conhecera no casamento da irm.
       Quando acabaram de lavar a loua e limpar a confuso deixada pelo casamento era j meia-noite. Tudo fora guardado, e a av j se tinha ido deitar. A casa 
parecia estranhamente silenciosa. Crystal desejou as boas-noites aos pais, e o pai acompanhou-a at ao quarto, beijando-a na face com um olhar muito terno.
       - Um dia ser a tua vez... tal como foi agora a da Becky. Ela encolheu os ombros, nada ansiosa, e Jared piou como um mocho ao passar pela porta do seu quarto. 
O pai tornou a sorrir para Crystal.
       - Amanh queres ir andar a cavalo comigo? Tenho de fazer umas coisas e tu podias ajudar-me.
       Tinha muito orgulho na filha, muito mais do que ela imaginava. Sorriu para o pai e assentiu.
       - Gostaria muito, paizinho.
       - Acordo-te s cinco. Agora v se dormes. Passou-lhe a mo pelo cabelo e ela fechou a porta devagar. Era a primeira noite que dormiria no quarto sozinha sem 
a irm. Ia ser um grande sossego. Finalmente aquele era o seu territrio. E j deitada, pensou em Spencer antes de adormecer. E na sua cama, num quarto de hotel 
em So Francisco, Spencer Hill pensava em Crystal.
       
Captulo 3
       
       O primeiro filho de Tom e Becky nasceu de meses depois do casamento, na casa do rancho, com Minerva e Olivia a ajudar e Tom a andar de um lado para o outro 
no alpendre da casa principal enquanto esperava. Era um rapaz saudvel e chamaram-lhe William, como o pai de Tom, William Henry Parker. Becky tinha muito orgulho 
no filho, tal como Tom. Foi um momento feliz num ano bastante difcil para os Wyatt. As colheitas haviam sido fracas depois das chuvas torrenciais e Tad estivera 
de cama com pneumonia e no parecia ter recuperado. Ainda se sentia fraco quando o beb nasceu, mas tentou fingir que no estava. S Crystal sabia como ele se sentia 
exausto. Faziam agora cavalgadas mais pequenas e ele parecia sempre gostar de regressar a casa e enfiar-se na cama, s vezes ainda sem jantar.
       Comeou finalmente a melhorar quando batizaram o beb, no dia em que a ndia se tornou independente, dois dias antes do dcimo sexto aniversrio de Crystal. 
Foi batizado na igreja onde Tom e Becky se haviam casado um ano antes, e Olivia convidou sessenta amigos para o almoo. Foi uma festa menos grandiosa que o casamento, 
mas mesmo assim muito alegre. Ginny Webster foi a madrinha e Tom pediu a Boyd para ser o padrinho, o que no agradou muito aos Wyatt. Hiroko continuava a ser mantida 
 parte, tal como um ano antes. Crystal era a sua nica amiga, e nem ela sabia que Hiroko estava grvida. E o mdico local recusara-se a trat-la. O seu filho morrera 
no Japo e ele dissera-lhe abruptamente que no ajudaria o filho dela a nascer. Boyd tivera de a levar a So Francisco para procurar um mdico, e no tinha dinheiro 
para ir l com muita freqncia. O Dr. Yoshikawa era um homem bondoso e amvel. Nascera em So Diego e vivera toda a sua vida em So Francisco, mas fora internado 
com o resto da famlia a seguir a Pearl Harbour. Durante quatro anos cuidara deles no campo, dando-lhes toda a ajuda possvel com os poucos medicamentos ao seu dispor. 
Fora para ele uma poca de angstia e frustrao, mas ganhara o respeito e a devoo daqueles que tratara e com quem vivera. Hiroko ouvira falar dele pela nica 
japonesa que conhecia em So Francisco, e fora at ele a tremer, depois do embarao de ter sido recusada pelo mdico que todos consideravam no vale. Boyd estivera 
junto dela enquanto o Dr. Yoshikawa a examinara e lhes garantira que tudo parecia estar a correr bem. S ele sabia o quanto era difcil para ela estar numa terra 
estranha com pessoas que a odiavam devido  cor da sua pele, a forma dos olhos e ao fato de ter nascido em Quioto.
       - Deve ter um beb saudvel em Maro, senhor Webster - disse ele a Boyd, e depois sorriu para Hiroko. Falou com ela em japons, e Boyd viu-a descontrair-se 
enquanto o mdico se lhe dirigia. Era como se naqueles breves momentos ela tivesse regressado a casa e pudesse confiar nele. O mdico mandou-a descansar todas as 
tardes e comer bem, recomendando uma alimentao japonesa de que ela tanto gostava. Hiroko riu-se.
       E estava Boyd a ajud-la na preparao de um prato japons quando Crystal lhes bateu  porta no dia seguinte ao da consulta do mdico em So Francisco. Ela 
visitava-os de vez em quando desde o casamento de Becky, s para dizer "ol" e conversar um pouco. Ningum sabia das suas visitas e Boyd teve a inteligncia de no 
divulgar o seu segredo.
       - Ol, est algum em casa?
       Deixara um dos cavalos do pai amarrado l fora, e entrara com todo o cuidado, o cabelo preso no alto da cabea sob um chapu de cowboy. Trazia calas de ganga 
e uma das velhas t-shirts de Tad. Estava ainda mais bonita do que no ano anterior e j mais madura, mas ainda havia em seu redor uma aura de inocncia. Parecia no 
ter conscincia do seu aspecto, o que ajudava a aumentar a sua beleza. Pousou o chapu em cima de uma cadeira e passou a mo pela testa enquanto a sua cabeleira 
cor de platina lhe resvalava plos ombros.
       - Ol, Crystal. - Boyd limpou as mos a uma toalha da cozinha e Hiroko sorriu, oferecendo-lhe de seguida um pouco do sashimi que haviam estado a preparar. 
- J almoaste?
       Era sbado e no havia aulas. O pai estava a descansar e Crystal nada tinha para fazer nesse dia. J fora visitar Becky e o pequeno Willie, como lhe chamavam. 
Era um rapainho gorducho e saudvel e j sabia sorrir.
       - O que  isso? - perguntou Crystal, olhando para o peixe cru com curiosidade.
       - Sashimi - respondeu Hiroko com um sorriso tmido. Ficava sempre maravilhada com o cabelo louro de Crystal e os seus grandes olhos azuis, e desejava, caso 
pudesse nascer de novo, ser igual a ela. Hiroko sonhava fazer uma operao plstica e colocar os seus olhos " ocidental", mas no tinha dinheiro para isso, e Boyd 
t-la-ia morto por pensar sequer uma coisa dessas. Adorava-a tal como ela era, com toda a sua delicada beleza japonesa.
       Hiroko era apenas trs anos mais velha do que Crystal, mas tinha um ar muito srio que aumentara ainda mais com a sua solido no vale.
       - Queres experimentar um pouco de sashimi, Crystal? - O seu ingls melhorara bastante durante o ltimo ano. Lia em voz alta para Boyd todas as noites, esforando-se 
bastante na pronncia. Crystal at lhe levara alguns dos seus livros da escola, e Hiroko lia-os muito diligente, aprendendo depressa.
       Crystal sentou-se na pequena cozinha com eles, e, com cautela, experimentou um pouco do que lhe haviam dito ser peixe cru. Gostava de experimentar tudo e 
comia com eles muitas vezes, provando os pitus que Hiroko preparava com dedos hbeis.
       - O teu pai est bem? - perguntou Hiroko. Crystal assentiu com uma expresso preocupada.
       - Est melhor. Foi um Inverno difcil para ele. Hoje fui visitar a Becky - continuou ela com um sorriso para a amiga -: o beb est a ficar muito engraado.
       Apercebeu-se de um olhar estranho trocado entre os dois. Boyd olhou para a mulher, encorajando-a, as sardas ainda mais destacadas no rosto plido. Era to 
diferente de Crystal, cuja pele era bronzeada, apesar do cabelo louro e dos olhos azuis. Mas Boyd parecia no se aperceber da sua beleza. S tinha olhos para Hiroko.
       - Conta-lhe. - Sorria para a mulher, e desejava que a nica amiga de ambos soubesse da notcia que parecia no ser um problema to grave depois de terem encontrado 
o Dr. Yoshikawa. Mal podiam sustentar uma criana, mas ambos desejavam muito t-la. S haviam ficado admirados por ter demorado tanto tempo. Hiroko levara mais de 
dois anos a engravidar. - V l... - incitou Boyd, e Hiroko pareceu muito atrapalhada. Crystal aguardou. Era demasiado nova para suspeitar de alguma coisa. Ter lhos 
no era uma coisa em que pensasse muito, e observou os amigos com olhos muito abertos e expectantes. Contudo, Hiroko no foi capaz de dizer nada. Finalmente, Boyd 
foi obrigado a contar. - Vamos ter um beb na Primavera. - Parecia muito orgulhoso ao anunciar a notcia e Hiroko desviou o olhar com timidez. Ainda no se habituara 
aos seus modos americanos e  facilidade com que contava aos outros coisas muito particulares. Mesmo assim, gostava do marido como ele era.
       - Que maravilha! - Crystal sorriu. - Quando?
       - Achamos que vai ser em Maro. - Olhou radiante para a mulher, e Hiroko serviu mais um pouco de sashimi a Crystal.
       - Parece muito tempo, no parece? - Crystal achava uma eternidade. Parecera-lhe ter esperado muito pelo nascimento do beb de Becky. A irm queixara-se noite 
e dia, dizendo que se sentia muito enjoada e muito desconfortvel. No final da gravidez Crystal j no suportava estar junto dela. At Jared se fartou dela e Tom 
saa sozinho com os amigos  noite. S Olivia a compreendia. As duas mulheres estavam mais unidas do que nunca, mas Crystal no se importava. Adorava passar o tempo 
com o pai. E as suas visitas a Hiroko vinham-se tornando cada vez mais agradveis. Falavam da natureza, da vida, de idias e muito pouco de pessoas. Hiroko no tinha 
amigos de quem falar, s a famlia no Japo, e j raramente falava dela. Estava to distante que parecia quase t-la perdido. Mas uma vez confessou que tinha saudades 
das irms mais novas. E retribuindo essa confidncia, Crystal admitira que s vezes sonhava em entrar em filmes. Hiroko parecera fascinada com a idia, e achava 
que a amiga era suficientemente bonita. Mas Hollywood ficava muito, muito longe de Alexander Valley. To longe para elas que podia muito bem ficar noutro planeta.
       Hiroko e Boyd foram ambos ao batizado de William. O beb fartou-se de chorar quando o padre lhe molhou a cabea. E levava a roupa que fora levada pelo pai 
da av Minerva. Hiroko parecia um pouco plida quando saram da igreja e Boyd pegou-lhe suavemente no brao, interrogando-a com os olhos. Ela limitou-se a acenar. 
Nunca se queixava por no se sentir bem, mas ele sabia que ela comeara a andar adoentada. Continuava a cozinhar com todos os cuidados, mas mal comia, limitava-se 
a empurrar a comida no prato, e ele ouvira-a vomitar vrias manhs. O olhar de Crystal cruzou-se com o dela antes de Boyd a levar, e as duas mulheres sorriram uma 
 outra. Mas ningum pareceu reparar. Estavam todos muito ocupados a admirar o beb.
       No rancho, o almoo j estava na mesa, tal como acontecera no casamento de Becky, mas desta vez era mais fcil porque os convidados eram em nmero menor. 
As mulheres sentaram-se em pequenos grupos, falando de quem se ia casar em seguida e de quem esperava filhos. Ningum sabia que Hiroko estava grvida, e estavam 
muito mais interessadas em falar de Ginny Webster. Ela engordara e dizia-se que dormia com Marshall Floyd. Houvera algum que j os vira sair de um motel em Napa.
       - Ela est grvida - anunciou Olivia num tom conspiratrio, e Becky acrescentou que Ginny quase desmaiara na semana anterior durante uma missa.
       - Acham que ele casa com ela?
       - Talvez - comentou uma mulher. - Mas  melhor que o faa depressa, antes de ela ficar mais gorda.
       As mulheres falavam e os homens estavam afastados, comendo e bebendo. As crianas brincavam tal como no ano anterior. Passavam dois anos desde o fim da guerra 
e nada parecia ter mudado muito, exceto as crianas, que estavam mais crescidas. A prpria Crystal j no parecia to infantil. O seu corpo era s curvas, com membros 
compridos e uma silhueta que despertava a ateno dos homens. Os vestidos J no a escondiam, e os seus olhos estavam mais calmos e sbios. Preocupara-se com o pai 
durante todo o Inverno. Jared acabara o liceu em Junho e ia passar a trabalhar a tempo inteiro no rancho com o pai e Tom. O pai queria que ele fosse para a faculdade, 
mas Jared no era da mesma opinio. Trabalhava com os carros do rancho e saa de automvel com os amigos. J tinha uma namorada, em Calistoga.
       - Est um belo rapaz - comentou uma das amigas de Olivia -, e vai casar-se em breve. Ouvi dizer que ele anda a ver a rapariga dos Thompson.
       A me esboou um sorriso orgulhoso como resposta, e os seus olhos toldaram-se quando olhou para Crystal. Esta trazia um vestido azul da mesma cor dos seus 
olhos que o pai lhe trouxera de So Francisco.
       - Est uma rapariga muito bonita.... uma verdadeira beleza... - A outra mulher reparara que Olivia observava Crystal. - Um destes dias vais ter de a trancar 
no celeiro - brincou ela, e Olivia fingiu no ouvir. A filha mais nova era ainda uma estranha para ela. Era to diferente das outras raparigas, em especial da irm. 
Era calma, solitria, ao contrrio dos outros. Tinha pensamentos profundos, e quando falava deles, o que era raro, a me ficava aborrecida. Uma rapariga no precisava 
de pensar naquelas coisas, nem de sonhar com os locais de que falava com o pai. A culpa era toda dele, que lhe enchia a cabea daqueles disparates. E tambm era 
culpado de ela correr livremente pelas colinas, montada nos cavalos e de nadar nua nos riachos, como uma criatura selvagem, s vezes desaparecendo durante horas.
       No era como as outras raparigas, ou como Becky e a me. Nunca fora, e agora isso notava-se mais  medida que crescia. Parecia j nem reparar nos rapazes; 
preferia estar sozinha, ou a falar horas a fio com o pai sobre o rancho ou os livros que lera, ou acerca dos locais que Tad visitara e onde ela desejava ir. Olivia 
at os ouvira um dia a falar de Hollywood. E ele sabia que isso era uma loucura. Por aquele andar, no iria ser fcil arranjar-lhe marido, mesmo com toda aquela 
beleza. A beleza no bastava. Ela era demasiado diferente, e a sua beleza afastava-a ainda mais das restantes pessoas, deixava as mulheres pouco  vontade, fazia 
os homens olhar, mas no de um modo que lisonjeasse Olivia. No era um grande consolo ser me da rapariga mais bonita do vale: era demasiado bela, livre de mais, 
e muito diferente. Enquanto as mulheres conversavam Crystal sentara-se sozinha num balano, elevando-se nos ares, enquanto os outros jovens brincavam por perto. 
Parecia no reparar neles, nem sequer v-los. Tornara-se mais solitria no ano que passara, em vez de mais parecida com eles. E muito ocupado com a sua vida, at 
Jared a deixava em paz. A nica altura em que reparavam nela era quando a ouviam cantar, como nas missas. Tinha um tipo de voz que nos fazia parar e ouvir, quer 
gostssemos dela ou no. Era a nica coisa que se dizia a seu respeito.
       Ela cortava os ares no balano, sem pensar no que as pessoas estavam a dizer, quase sem se aperceber da festa em seu redor, cantando para si prpria. De repente, 
viu aproximar-se um automvel e reconheceu-o de imediato assim que ele saiu do carro. J no o via h um ano, mas t-lo-ia conhecido em qualquer parte. No o esquecera, 
e s de vez em quando ousava perguntar a Boyd se recebera cartas de Spencer. Mas ele viera ao batizado e Crystal calou-se e abrandou o balano, enquanto o observava 
a apertar a mo ao pai e depois ir  procura de Boyd e Hiroko. Estava to belo como no ano anterior, talvez ainda mais belo. Crystal no esquecera Spencer Hill durante 
um nico minuto, e o seu corao parou assim que o viu.
       Ele trazia um fato de Vero e um chapu de palha. Crystal achou-o ainda mais bonito do que da ltima vez e viu-o rir-se enquanto dizia qualquer coisa a Hiroko. 
Depois, devagar, olhou em volta, para l dos amigos, e viu-a. Ela permanecia no balano em silncio. Mesmo a distncia Spencer soube que ela o olhava, sentia os 
olhos de Crystal fixos nele. Avanou na direo do balano. O seu rosto estava srio e os olhos azul-escuros. Deteve-se muito prximo dela. O ar entre os dois estava 
cheio de eletricidade devido a algo que nenhum deles compreendia. Algo de que se recordavam que j acontecera havia um ano e que no podiam negar, agora que os seus 
olhos se encontravam. Era uma espcie de paixo que ia para alm das palavras ou do simples entendimento. E no entanto, tal como ambos sabiam, mal se conheciam.
       - Ola, Crystal. Como tens passado? - Sentia as mos a tremer enquanto as enfiava nos bolsos e se encostava  rvore que sustentava o balano, esforando-se 
por soar normal, tentando no a deixar ver o que estava a sentir. Mas no era fcil. Crystal no se mexia, limitava-se a olhar para ele, e, por um instante, foi 
como se todas as pessoas da festa tivessem desaparecido. Havia uma magnlia ali perto e o ar estava carregado do seu perfume. E at parecia ouvir-se o rufar de um 
tambor  distncia.
       - Acho que tenho passado bem. - Tentou parecer normal, desejando perguntar-lhe porque no voltara, mas no ousou faz-lo. Nenhum deles conseguia exprimir 
por palavras os seus sentimentos: ela s era capaz de olhar para ele, impecavelmente vestido como no ltimo ano, o cabelo escuro muito bem penteado, o rosto bronzeado 
e os olhos que procuravam algo que ela ainda no compreendia. Contudo, sabia que era incapaz de se afastar. Queria ficar junto dele para toda a vida, cheirando o 
seu perfume, sentindo os olhos dele nos seus. De repente, a tarde abafada pareceu ficar ainda mais quente. Spencer achou que tinha derretido por dentro, e teve de 
se recordar de que era apenas uma criana. Mas ambos sabiam que o que ele queria dizer era que a amava. S que no podia,  claro. Mal a conhecia. Era perturbante 
perceber que a rapariga que ele tentara esquecer durante um ano era ainda mais assombrosa do que se recordava.
       - Como  que vo as aulas? - perguntou ela com os olhos a queimarem-no. Fora meio criana, meio sereia, e passado apenas um ano parecia ser j totalmente 
mulher.
       - J fiz o exame para a Ordem dos Advogados. Ela assentiu, mas os olhos colocavam-lhe mil e uma perguntas que nenhum deles teria sido capaz de responder. 
E embora por dentro ele se sentisse como lava a derreter, tudo nele dava a idia de fora, como se nada o pudesse assustar, nada exceto o que sentia por ela, aquela 
criana que mal conhecia. Mas Crystal era incapaz de ver tudo isso naquele rosto que observava, o cabelo louro dela a esvoaar com a suave brisa do Vero.
       - E tu? - S lhe apetecia estender a mo e tocar nela.
       - Vou fazer dezesseis anos depois de amanh - respondeu ela tranquilamente, e ele sentiu o corao apertar-se-lhe. Durante um momento, apenas durante um momento, 
esperara ter estado enganado, que ela era mais velha. Contudo, houvera uma mudana no ltimo ano. Ela parecia to crescida, to mulher no seu vestido azul... Mais 
mulher, mas ainda criana, e tornou a perguntar-se que espcie de loucura o puxava para ela. No fora apenas para ver Boyd que regressara. Fora tambm para a ver, 
esperando que ela l estivesse. Queria v-la mais uma vez antes de deixar a Califrnia. Mas no valia a pena torturar-se. Com dezesseis anos, ela era ainda um beb. 
E contudo... os seus olhos diziam-lhe que sentia o mesmo que ele. Com vinte e oito anos, era uma loucura sentir aquilo por uma rapariga de dezesseis.
       - Vais ter uma festa de aniversrio? - Falava como se falasse com uma criana, mas tudo o que via lhe dizia que ela era uma mulher. Ela riu-se e abanou a 
cabea.
       - No... - era impossvel explicar-lhe que tinha poucos amigos, que as raparigas a odiavam por causa do seu aspecto, embora ela no conseguisse compreender 
o motivo.
       - O meu pai disse que talvez me levasse a So Francisco no ms que vem. - Queria perguntar-lhe se ele estaria l, mas no o fez. Nenhum deles podia dizer 
aquilo que desejava. Tinham de fingir no se importar, no compreender o que sentiam um pelo outro, apesar da diferena de idades e da grande diferena que a vida 
de ambos havia estabelecido.
       E como se lhe lesse o pensamento, ele respondeu  pergunta que ela no ousara colocar: qual seria o destino dele.
       - Daqui a uns dias vou voltar a Nova Iorque. Ofereceram-me um lugar numa firma de advogados em Wall Street.
       - Sentia-se um idiota por lhe explicar aquilo. - Faz parte do mundo financeiro - esclareceu com um sorriso, transferindo o seu peso para a rvore que parecia 
estar a sustent-lo. No sabia se naquele momento os seus joelhos trmulos o manteriam de p. - Parece que  uma coisa importante.
       - Queria impression-la, mas no precisava de se esforar. Ela j estava impressionada, e por muito mais do que apenas Wall Street.
       - Est excitado? - Olhou-o com os olhos muito abertos, como se quisesse espreitar-lhe o fundo da alma, e ele receou que o fizesse. No sabia bem o que ela 
veria, provavelmente um homem assustado com aquilo que sentia por aquela rapariga... aquela rapariga que j no era criana mas que ainda no era mulher, que o perturbava 
como nenhuma mulher o perturbara at ali. No sabia se era apenas a beleza dela, ou o mistrio que lhe via nos olhos. No sabia o que era, nem por que, mas sabia 
que nela havia algo raro e diferente. Atormentara-o durante o ltimo ano, apesar dos esforos que fizera para a esquecer. E agora, junto a ela, sentia o corpo retesar-se 
devido  excitao de estar a centmetros de distncia.
       - Acho que estou excitado. E assustado. - Parecia ser fcil admiti-lo junto dela. -  um trabalho importante, a minha famlia ficaria desiludida se no correspondesse 
s expectativas. - Mas naquele momento a sua famlia parecia no ter importncia. S Crystal importava.
       - Alguma vez voltar  Califrnia? - Os olhos dela estavam to tristes como se ele a abandonasse, e ambos sentiram a perda ainda antes de ela acontecer.
       - Gostaria muito. Mas talvez no volte to depressa. - A sua voz era calma e triste e, por um momento, arrependeu-se de ter regressado. Teria sido mais fcil 
se no voltasse a v-la. Mas no fora capaz de resistir j h semanas que sabia que tinha de a ver, e agora que ela o olhava com olhos sbios e tristes, a solido 
em que vivia durante a maior parte do tempo surgiu nos olhos que o observavam. Aquele dia era uma prenda, uma prenda que ela nunca esqueceria. Spencer tornara-se 
um sonho para Crystal, como os sonhos das estrelas de cinema coladas s paredes do seu quarto. Era to distante e irreal e, contudo, ela conhecia-o, embora isso 
no o tornasse mais acessvel para ela do que as estrelas de cinema. A nica diferena entre ele e elas era o fato de Crystal saber que o amava.
       - A Hiroko vai ter um beb na Primavera - anunciou ela para quebrar um pouco o encantamento, e ele suspirou e afastou o olhar, como se tentasse respirar, 
obrigando-se a pensar noutra pessoa que no Crystal.
       - Fico muito contente por eles - disse ele, dirigindo-lhe um sorriso meigo, perguntando-se se ela casaria e teria filhos. Talvez se ele ali voltasse um dia, 
ela j tivesse meia dzia de crianas agarradas s saias, e um marido que bebia demasiada cerveja e a levava ao cinema ao sbado  noite, se tivesse sorte. Essa 
idia f-lo sentir-se doente. No queria que aquilo lhe sucedesse. Ela merecia mais do que isso. No era como os outros. Era uma pomba, presa num bando de paves, 
e se eles tivessem oportunidade, haveriam de a engolir e at talvez destruir. Ela no merecia isso. Mas Spencer sabia que no poderia fazer nada. - Ela vai ser uma 
excelente me - disse ele, referindo-se a Hiroko, mas por um instante perguntou-se se no se teria querido referir a Crystal.
       Esta limitou-se a assentir com a cabea e a empurrar lentamente o balano com um p. Calava os mesmos sapatos brancos que levara ao casamento de Becky, no 
ano anterior, mas desta feita ainda os tinha nos ps, com outro par de belos collants.
       - Talvez um dia vs a Nova Iorque. - Ele disse aquilo para se consolar, mas ambos sabiam que era muito pouco provvel.
       - O meu pai foi l uma vez. Falou-me da cidade. Spencer sorriu. A sua vida era to diferente da dela. O corao apertou-se-lhe outra vez ao reconhecer essa 
verdade.
       - Acho que irias gostar. - Ele gostaria de ter tido a oportunidade de lha mostrar... talvez se ela fosse mais velha...
       - Prefiro ir a Hollywood. - Crystal olhou para o cu com um ar sonhador, e por momentos voltou a ser uma criana aos olhos dele. Uma criana que sonhava com 
Hollywood, e que sonhava em ser estrela de cinema. Era um sonho to louco como o sonho dele de a amar, embora no o tenha dito.
       - E quem  que querias ver em Hollywood? - Ele queria saber quem eram as estrelas de quem ela mais gostava, de que  que falava, com quem sonhava. Queria 
saber tudo a respeito dela, talvez na esperana de se desencantar. Tinha de esquecer aquela rapariga, de uma vez por todas, antes de deixar a Califrnia. Ela atormentara-o 
todo o ano, e mais de uma vez pensara em visitar Boyd, mas sempre que o fazia sabia que era apenas porque desejava ver Crystal. E com receio da loucura que ela parecia 
provocar nele, recusara-se a ir, at quele dia... aquela ltima vez antes de se ir embora. Mas j era demasiado tarde. Sabia que nunca haveria de a esquecer.
       Ela ainda estava a pensar na pergunta dele, quem  que gostaria de ver em Hollywood, e finalmente, com um sorriso nos lbios enquanto se balanava, respondeu:
       - O Clark Gable. E talvez o Gary Cooper.
       - Acho justo. E o que  que gostarias de fazer em Hollywood?
       Ela riu-se, brincando com os seus prprios sonhos, e tambm com ele.
       - Gostava de entrar num filme. Ou talvez de cantar. Ele nunca ouvira a voz que encantara toda a gente no vale, mesmo aqueles que no gostavam dela.
       - Talvez um dia o faas. - Riram-se ambos com a idia. Os filmes eram para as estrelas de cinema no para as pessoas reais. E a vida no podia ter sido mais 
real para ela, apesar de toda a sua beleza. Sabia que a sua vida nunca lhe permitiria entrar num filme. - s suficientemente bonita para isso. s linda. - A sua 
voz era suave. O balano imobilizou-se de novo e ela olhou para ele. Havia algo inquietante no modo como Spencer dissera aquilo. A fora das suas palavras surpreendera 
ambos, fazendo-os calar, e ela abanou a cabea com um sorriso triste. J estava cheia de pena por ele se ir embora.
       - A Hiroko  linda, eu no.
       - Sim, ela  bonita - concordou ele -, mas tu tambm. - Falou numa voz to baixa que ela mal o ouviu.
       E de repente, cheia de coragem, fez-lhe a pergunta que a atormentava desde que o vira chegar.
       - Porque  que veio c hoje?
       Para ver Boyd... Hiroko... Tom... o beb de Becky... havia meia dzia de respostas possveis, e fora apenas uma que o levara ali. E quando a olhou nos olhos, 
soube que teria de lhe dizer. E que ela tinha de o saber.
       - Queria ver-te antes de partir. - Falou baixinho e ela assentiu com a cabea. Era o que quisera ouvir, mas agora as palavras assustavam-na um pouco. Aquele 
homem to belo, de outro mundo, viera mesmo para a ver. E no compreendia muito bem o que ele queria dela. Nem o prprio Spencer, o que tornava tudo ainda mais confuso.
       Ela saiu do balano, aproximou-se dele, e olhou-o com aqueles olhos azuis como alfazema que ele nunca esquecera.
       - Obrigada.
       Ficaram assim durante muito tempo, e depois, pelo canto do olho Spencer viu o pai dela aproximar-se. Acenava para Crystal e, por um momento, Spencer receou 
que ele estivesse zangado, como se tivesse lido a mente dele e no gostasse do que vira. Alis, j h algum tempo que ele os estava a observar, e perguntara-se sobre 
o que estariam a falar. Havia naquele rapaz algo de que gostava, e sabia que ele estava apenas de passagem. E era bom que um homem daqueles a admirasse. Tad Wyatt 
teve pena que no houvesse no vale mais pessoas como ele. Mas pensava j noutra coisa quando se aproximou dele, com olhos meigos e um sorriso parecido com o de Crystal.
       - Esto com um ar muito srio. Por acaso estaro a resolver os problemas do mundo, h? - As palavras gracejavam, mas os velhos olhos sabedores avaliaram Spencer. 
Gostou do que viu. Gostara desde o incio, embora soubesse que ele era muito velho para Crystal. Viu algo no rosto da filha que nunca vira, exceto uma ou duas vezes, 
quando ela o olhara com adorao. Mas desta vez era diferente, um misto de alegria e de tristeza. E de repente, Tad Wyatt percebeu que a sua menina se transformara 
numa mulher. Virou-se para Spencer e falou-lhe na sua voz profunda e calma.
       - Vai receber um presente, capito Hill. - Sorriu orgulhoso para a ilha: - isto , se a Crystal concordar. Os convidados gostariam que cantasses um bocadinho. 
Aceitas?
       Ela corou e abanou a cabea, a longa cabeleira loira ocultando-lhe metade do rosto, as rvores lanando sombras na outra metade. Nesse momento, o sol refletiu-se 
no seu cabelo cor de platina e ambos os homens se quedaram mudos devido  sua beleza. Ento ela olhou para o pai e os olhos cor de alfazema pareceram sorrir com 
timidez.
       - H aqui muitas pessoas... no  como na igreja.
       - Isso no tem importncia nenhuma. Vais esquec-las assim que comeares. - Adorava ouvir a voz dela quando cavalgavam pelas colinas, uma voz que tinha a 
mesma qualidade arrebatadora e explosiva de um nascer do Sol brilhante, e nunca se cansava das suas canes. - Alguns dos homens trouxeram guitarras.  s uma ou 
duas canes para animar a festa. - Os olhos dele imploraram-lhe, e ela era incapaz de lhe recusar fosse o que fosse, embora ficasse atrapalhada com a idia de ir 
cantar em frente a Spencer. Se calhar ele ia pensar que ela era estpida. Mas ele juntou-se ao pedido de Tad, incitando-a, e quando os olhares de ambos se encontraram 
houve um longo momento de silncio entre ambos, um momento que disse tudo aquilo que no ousavam dizer. E, durante um segundo, ela pensou que aquela podia ser a 
sua prenda para ele, algo que o fizesse record-la. Assentiu tranquilamente e seguiu o pai devagar at junto dos outros convidados. Spencer voltou para o p de Boyd 
e Hiroko. Ela olhou para trs uma vez e viu que ele a observava. Mesmo  distncia, sentia o amor que lhe ia nos olhos. Um amor que nenhum deles compreendia, que 
fora concebido no ano anterior e alimentado durante um ano inteiro at se reencontrarem. Era um amor que no podia levar a parte alguma, mas pelo menos tinham isso 
para guardar quando ele se fosse embora.
       Ela tirou uma guitarra das mos de um dos homens e sentou-se num banco. Outros dois homens juntaram-se-lhe e sorriram para ela com admirao. Olivia observava-a 
do alpendre, aborrecida como sempre com o fato de Tad a ter escolhido para dar espetculo. Mas tambm sabia que as pessoas gostavam de ouvir a filha cantar. At 
algumas mulheres ficavam mais brandas quando a ouviam cantar na igreja. E quando ela cantava Amaing Grace, as lgrimas vinham-lhes aos olhos. Mas desta vez ela escolheu 
as baladas preferidas do pai, aquelas que costumavam cantar quando saam a cavalo de manh cedo, e dali a minutos a multido juntou-se  sua volta. Ningum disse 
uma palavra enquanto ouviam aquela voz forte e segura a enfeiti-los. A sua voz era to inesquecvel como o seu rosto, e Spencer fechou os olhos e deixou-se vogar 
na sua beleza pura e doce. O poder a voz de Crystal enfeitiava-o. A jovem interpretou quatro canes, e as ltimas notas pareceram subir para o cu de Vero como 
anjos a voar para o cu. Houve um longo silncio quando ela parou, e todos a olharam com surpresa renovada. J a tinham ouvido cantar centenas de vezes, mas de cada 
vez que a ouviam, ficavam sempre comovidos. Houve uma exploso de aplausos, Tad limpou os olhos, como habitualmente, e passados alguns minutos a multido dispersou-se, 
regressando s suas conversas e aos seus copos. Mas por um momento ela fizera com que todos se apaixonassem por si. E durante um longo perodo de tempo depois de 
a ter ouvido, Spencer foi incapaz de falar com quem quer que fosse. Queria voltar a conversar com Crystal, mas ela fora algures com o pai e s a voltou a ver quando 
chegou a altura de partir. Estava junto dos pais, a apertar a mo s pessoas que lhes agradeciam o almoo e juntavam os filhos.
       Spencer tambm lhes agradeceu, mas quando ficou com a mo dela na sua, assustou-se com o fato de o momento entre ambos ser to fugaz. Talvez nunca mais a 
voltasse a ver, e essa idia era insuportvel. Quando a olhou nos olhos teve vontade de ficar para sempre do seu lado.
       - No me disseste que cantavas to bem. - Falou num murmrio, e os olhos acariciavam-na. Mas ela riu-se, parecendo de novo uma rapariga, e ficando um pouco 
atrapalhada com o elogio inesperado. As canes que cantara haviam-lhe sido dirigidas, e Crystal perguntou-se se ele saberia disso. - Afinal talvez vs para Hollywood.
       Ela tornou a rir, o som to musical como o fora o seu canto.
       - No me parece, senhor Hill... no me parece mesmo.
       - Espero que nos tornemos a encontrar. - Os olhos dele estavam muito srios, e ela assentiu.
       - Tambm eu. - Mas ambos sabiam que era pouco provvel.
       E de repente, Spencer no conseguiu impedir-se de dizer aquelas palavras.
       - No te hei-de esquecer Crystal... nunca... toma cuidado contigo. Tem uma vida boa... no cases com ningum que no te merea... no me esqueas... - O que 
lhe poderia ele dizer sem parecer u idiota? No podia dizer que a amava.
       - O senhor tambm. - Ela abanava a cabea com solenidade. Sabia que dali a dias ele iria para Nova Iorque, e os seus caminhos no tornariam a cruzar-se. Um 
continente, um mundo, toda uma vida os iria separar para sempre.
       Depois, sem dizer mais nada, ele inclinou-se e beijou-a ao de leve na face. Momentos depois partira, afastando-se do rancho no seu automvel, o corao como 
uma rocha no peito. Crystal permaneceu ligeiramente afastada dos outros, a observ-lo.
       
Captulo 4
       
       A caminho de casa Spencer saiu no desvio antes da ponte de Golden Gate e encostou o carro. Precisava de algum tempo para pensar, para se recompor e para recordar. 
Crystal atormentara-o durante um ano, e agora tornava a faz-lo, apenas horas depois de a ter deixado. O vale parecia agora uma recordao muito vaga, e s conseguia 
pensar no rosto dela... nos seus olhos... no modo como o olhara... na sua voz a cantar baladas. Era um pssaro raro e ele sabia que a perdera para sempre na floresta. 
No havia maneira de poder voltar para junto dela. Crystal era uma rapariga de dezesseis anos que vivia num remoto vale da Califrnia. Nada sabia da sua vida. E 
mesmo que soubesse, no a poderia entender. Estava quase fora do seu alcance. O que sabia ela de Wall Street e de Nova Iorque, e das obrigaes que ele teria de 
cumprir? A famlia esperava muito dele, e em nenhuma parte dos seus planos havia lugar para uma rapariga do campo, a simples criana por quem ele se apaixonara acidentalmente. 
Uma rapariga que mal conhecia, recordou ele. Os seus pais no teriam entendido. Como o poderiam, se ele prprio tambm no entendia? E tal como os sonhos dela com 
Hollywood e com estrelas de cinema Spencer tambm tinha os seus sonhos. Mas esses sonhos haviam-se alterado quando o seu irmo morrera em Guam. E agora ele tinha 
no apenas de viver a sua vida como tambm de seguir as aspiraes do irmo. Era isso que a famlia esperava dele, e pelo menos iria tentar. E que sabia Crystal 
de tudo isso? No conhecia nada, exceto o vale onde nascera. Sabia que agora teria de a esquecer. Sorriu com tristeza e olhou para a baa e para a ponte, pensando 
nela. Recordou-se que estava a ser idiota. Ficara deslumbrado com uma rapariga bonita, o que s servia para lhe provar que a partir de agora precisava de seguir 
a sua vida. Precisava de mais do que a faculdade e de alguns hambrgueres em Paio Alto com colegas bonitas para se divertir. Havia um mundo inteiro  sua espera. 
Um mundo que no tinha lugar para Crystal Wyatt, apesar de ela ser encantadora e de ele se sentir enlevado naquele momento. Spencer regressou ao automvel, perguntando-se 
o que diria o pai se lhe contasse que se apaixonara por uma rapariga de dezesseis anos em Alexander Valley.
       - Adeus, pequena - murmurou ele ao atravessar a ponte Golden Gate pela ltima vez. Tinha de ir a um jantar nessa noite. Era um dever, fora o pai quem lhe 
pedira. No estava com disposio, mas sabia que tinha de a tirar da cabea. Ela j partira. Mas longe ou no, sabia que nunca a esqueceria.
       Estava instalado no Hotel Fairmont durante os ltimos dias que passava na cidade, e ficara num quarto com uma vista arrebatadora, s para se recordar do que 
nunca mais veria. Quase estava arrependido de no ter procurado emprego em So Francisco, mas esses no eram os seus planos. Prometera aos pais que voltaria a casa, 
e sabia bem o que esperavam dele. O pai tinha sido advogado at  guerra, altura em que fora nomeado juiz, e as suas aspiraes no o levariam mais longe. Mas sempre 
tivera planos mais grandiosos para os filhos, especialmente para o irmo mais velho de Spencer, Robert. Robert fora morto em Guam, deixando uma viva jovem e dois 
filhos. Estudara cincias polticas em Harvard e ambicionava ser poltico. Falara em querer ser congressista e Spencer sonhara em ser mdico. Mas a guerra alterara 
tudo isso. Com quatro anos de atraso, no se imaginava a passar mais outros tantos anos a estudar Medicina, e a Faculdade de Direito fora a escolha certa. O juiz 
Hill garantira-lho, e Spencer sabia que o pai ambicionava ser juiz de um tribunal de apelao. Mas o nus da prova recaa nos ombros de Spencer. Era ele que tinha 
de seguir as pisadas de Robert. A famlia Hill era bastante slida, os antepassados da me tinham chegado a Boston com os peregrinos(*). O pai era de origem mais 
humilde, mas trabalhara com muito afinco para subir e conseguira chegar  Faculdade de Direito da Universidade de Harvard. E agora davam muita importncia a que 
Spencer fizesse algo de "importante" na vida.
       
(*) Imigrantes ingleses puritanos que se estabeleceram na Nova Inglaterra em 1620 e fundaram a colnia de Plymouth em Massachusetts. (N. do T.)
       
       E para eles "importante" no inclua uma rapariga como Crystal. Robert tinha,  claro, casado bem. Sempre fizera aquilo que os pais queriam, e Spencer tivera 
liberdade para fazer o que bem entendesse. Mas, de repente, com a morte do irmo mais velho, ele achava que era sua obrigao compens-los, que devia seguir os passos 
do irmo que nunca haviam sido adequados para si e que agora tinham de ser. A entrada na Faculdade de Direito fizera parte disso. E o regresso a Nova Iorque. E Wall 
Street... No conseguia imaginar-se l, e contudo, fizera os trs anos da faculdade em apenas dois precisamente a preparar-se para isso. Mas Wall Street parecia 
uma coisa to enfadonha. Se ele conseguisse transform-la em algo til, us-la como degrau para uma coisa melhor, talvez conseguisse suport-la. Olhou pela janela 
do quarto enquanto pensava nisso, fitando um ponto vago muito distante, recordando o lugar onde deixara Crystal. Suspirou e depois voltou-se para o quarto. O tapete 
era espesso, a moblia nova e sobre ele encontrava-se um enorme candelabro. Contudo, s conseguia pensar no rancho... e nas colinas... e na rapariga do balano. 
Restavam-lhe mais duas noites. Duas noites antes de ter de prosseguir a vida que to inesperadamente herdara de Robert. Por que motivo no teria ele ficado vivo? 
Porque no poderia estar ali a fazer o que os outros esperavam que ele fizesse, a trabalhar na maldita Wall Street? Saiu do quarto com passadas largas e bateu com 
a porta. s oito horas tinha de estar em casa de Harrison Barclay. Era um amigo do pai, um juiz federal com ligaes polticas muito boas. At j havia comentrios 
de que um dia talvez chegasse ao Supremo Tribunal. E o pai de Spencer insistira para que o filho o fosse ver. Spencer visitara-o uma vez no ano anterior, e telefonara 
havia algumas semanas a comunicar que se formara em Stanford e que iria regressar a Nova Iorque para trabalhar numa firma de prestgio. Harrison Barclay ficara muito 
satisfeito por ele e insistira em t-lo como convidado para jantar antes de partir. Ia ser uma obrigao, mas Spencer sabia que era apenas a primeira da sua vida 
e que era melhor comear a habituar-se. Regressara ao hotel a tempo de tomar uma ducha, de fazer a barba e mudar de roupa, e desceu  pressa para o trio de entrada. 
No entanto, no estava com disposio para ver ningum, muito menos Harrison Barclay.
       A residncia dos Barclay ficava entre a Divisadero e a Broadway, e era uma casa muito bonita, em tijolo. O mordomo abriu-lhe a porta e quando foi conduzido 
para o interior ouviu os ecos de uma festa, o que o deprimiu ainda mais. Durante um momento, duvidou que fosse capaz de resistir. Teria de falar e de se mostrar 
encantador, parecer inteligente junto dos amigos dos anfitries, e isso era a ltima coisa que desejava fazer naquela noite. S lhe apetecia sentar-se calmamente 
algures, com os seus pensamentos e os seus sonhos com uma rapariga que mal conhecia... uma rapariga que faria dezesseis anos dali a dois dias.
       - Spencer! - A voz troante do juiz fez-se ouvir quase no momento em que ele entrou na sala, e Spencer sentiu-se como um estudante que fora empurrado para 
uma sala cheia de professores.
       - Boa noite, sir. - Exibiu um sorriso caloroso e um olhar srio ao cumprimentar o amigo do pai, e apertou a mo  senhora Barclay. - E bom voltar a v-lo. 
Boa noite, senhora Barclay.
       O juiz Barclay levou-o imediatamente a reboque, apresentando-o s pessoas que se encontravam na sala e explicando que ele acabara de se formar pela Faculdade 
de Direito de Stanford. Disse quem era o pai dele e Spencer fez um esforo sobre-humano para no se encolher. De repente, apeteceu-lhe sair dali. Mas sentia-se quase 
incapaz fisicamente de o fazer.
       Tinham sido convidadas doze pessoas para o jantar dessa noite, e uma delas cancelara no ltimo minuto. A esposa de outro juiz torcera o p a caminho de casa 
depois de uma partida de golfe, mas o marido viera. Era um velho amigo dos Barclay, e sabia que eles no se iriam importar, mas Priscilla Barclay ficou aterrorizada 
quando contou os convidados. Eram treze, incluindo os anfitries, e sabia bem como dois dos convidados eram supersticiosos. Com to pouca antecedncia, nada podia 
fazer para remediar a situao. O jantar iria ser servido dali a meia hora, e s lhe restou pedir  filha que lhes fizesse companhia ao jantar. Subiu as escadas 
a correr e bateu  porta do quarto dela. Elizabeth estava quase de sada para uma festa. Tinha dezoito anos, era atraente e envergava um vestido comprido preto e 
um colar de prolas.
       - Querida, preciso da tua ajuda. - A me lanou uma olhadela ao espelho, endireitou o seu colar de prolas, passou uma mo pelo cabelo e virou-se para a filha 
com um ar suplicante. - A mulher do juiz Armistead torceu o tornozelo.
       - Oh! Cus, ela est l em baixo? - Elizabeth Barclay tinha um ar imperturbvel, ao contrrio da me.
       - No, claro que no. Telefonou a dizer que no podia vir. Mas ele veio. E agora vamos ser treze  mesa.
       - Finge que no reparaste. Talvez ningum d por isso. - Calou os sapatos de cetim pretos que a fizeram de imediato mais alta do que a me. Elizabeth tinha 
dois irmos mais velhos, um no Governo, em Washington, D.C., e o outro advogado em Nova Iorque. Mas era a nica filha dos Barclay.
       - No posso fazer isso. Sabes bem como so a Penny e a Jane. Uma delas vai-se embora, e depois fico com duas mulheres a menos. Querida, no me podes ajudar?
       - Agora? - Parecia aborrecida. - Mas eu vou ao teatro. - Ia com um grupo de amigos, embora tivesse de admitir que no estava muito excitada com a idia. Era 
uma daquelas raras vezes em que no tinha companhia masculina, pois haviam decidido ir todos juntos  ltima hora.
       -  importante? - A me olhou-a bem nos olhos. - Preciso mesmo de ti.
       - Oh, por amor de Deus! - Olhou para o relgio, e depois assentiu. Talvez no fosse m idia. Tambm no lhe apetecia ir. Na noite anterior deitara-se s 
duas da manh, pois estivera num baile de debutantes, tal como fazia quase todas as noites desde que acabara o liceu. Tinha-se divertido bastante e na semana seguinte 
iriam para a casa junto ao lago Tahoe. - Est bem, me. Vou telefonar-lhes. - Esboou um sorriso gracioso e ajeitou a dupla fiada de prolas parecida com a da me. 
Era uma rapariga bonita, mas demasiado reservada para dezoito anos de idade. Em muitos aspectos, parecia bastante mais velha. Conversava com adultos havia muitos 
anos e os pais haviam-se esforado por a fazer participar nas conversas, que consideravam interessantes, que tinham com os amigos. Os irmos tinham dez e doze anos 
de diferena dela, e durante anos Elizabeth fora tratada como uma adulta. Para alm disso, adquirira o grande autodomnio que era peculiar aos Barclay. Era sempre 
circunspecta e muito bem-comportada, e j com dezoito anos era uma verdadeira senhora. - Deso j.
       A me dirigiu-lhe um sorriso de gratido e Elizabeth sorriu tambm em resposta. Tinha cabelo castanho-avermelhado muito farto, cortado  pajem, e grandes 
olhos castanhos. Possua uma pele macia e branca, uma cintura fina e era uma excelente jogadora de tnis. Mas na rapariga no havia muito ardor, havia sim um excesso 
de boa educao e um crebro inteligente que lhe granjeara inmeros admiradores entre os amigos dos pais. Mesmo no seu grupo era temida e respeitada. Elizabeth Barclay 
no era pessoa com quem se brincasse. Era uma rapariga sria com uma mente curiosa, uma lngua afiada e opinies muito slidas. No havia dvida de que iria para 
a faculdade no Outono. Tinha de escolher entre Radcliffe, Wellesley e Vassar.
       Dez minutos mais tarde, desceu silenciosamente as escadas depois de ter ligado aos amigos e de se ter desculpado com a explicao de que surgira uma pequena 
crise, sendo necessria a sua presena em casa. Na vida de Elizabeth a nica crise era ter um convidado a menos para o jantar, ou no ter  mo o vestido indicado 
porque estava na costureira a arranjar. Nunca houvera desastres reais na sua vida, nenhum vestgio de desiluso ou dificuldade. No havia nada que os pais no fizessem 
por ela, nada que o pai no suavizasse ou no lhe comprasse. E, apesar de tudo, no era mimada. Esperava apenas um certo tipo de vida e que aqueles que a rodeavam 
se portassem com decoro. No era como as outras raparigas da sua idade. A sua infncia parecia ter terminado quando ela fizera dez ou onze anos. A partir dali, portara-se 
como um adulto, algum bem-vindo a um camarote na pera ou  mesa de jantar. Mas no se divertia muito. A diverso no era importante para Elizabeth Barclay. Os 
objetivos, sim. E aes que tivessem significado.
       Os convidados estavam a acabar as bebidas quando ela desceu e olhou em redor e busca de rostos familiares. S havia um casal que no conhecia, e a me apresentou-lho: 
eram velhos amigos do pai, de Chicago. E depois viu outro rosto desconhecido, por sinal bastante atraente, a conversar calmamente com o juiz Armistead e o seu pai. 
Observou-o rapidamente enquanto retirava uma taa de champanhe do tabuleiro de prata que o mordomo segurava, e sorriu quando atravessou a sala em direo ao pai.
       - Bem, bem, esta noite temos muita sorte, Elizabeth. - O pai sorriu, dirigindo-lhe um olhar ligeiramente provocador. - Arranjaste tempo para ns na tua agenda 
to preenchida? Que espantoso! - Colocou com afeto um brao sobre os ombros da filha e ela sorriu-lhe. Sempre fora muito chegada ao pai, e era fcil ver que ele 
a adorava.
       - A me teve a amabilidade de me pedir que me juntasse a vs.
       - Que idia to acertada! J conheces o juiz Armistead, Elizabeth, e este senhor  o Spencer Hill, de Nova Iorque. Acabou de se formar em Direito em Stanford.
       - Parabns. - Ela esboou um sorriso distante e ele avaliou-a com um ar apreciativo. Era muito segura de si, e calculou que tivesse vinte e um ou vinte e 
dois anos. Havia na rapariga um certo verniz que a fazia parecer mais velha, e um ar de sofisticao provocado pelo vestido preto caro, pelas prolas e pelo modo 
como o olhou bem nos olhos quando lhe apertou a mo. Parecia uma rapariga habituada a conseguir tudo o que queria. - Deve estar muito satisfeito - acrescentou com 
um sorriso corts enquanto ele a observava.
       - Estou. Obrigado. - Perguntou-se o que faria ela, talvez jogasse tnis e fosse s compras com as amigas ou com a me, mas ficou admirado com a frase seguinte 
do pai dela.
       - A Elizabeth vai para Vassar no Outono. Tentamos convenc-la a entrar em Stanford, mas no deu resultado. Ela est decidida a ir para oeste e a deixar-nos 
aqui, cheios de saudades. No entanto, espero que os invernos frios a convenam de que  melhor estar aqui. A me e eu vamos sentir muito a falta dela. - Elizabeth 
sorriu com aquelas palavras, e Spencer ficou admirado com a pouca idade dela. As raparigas de dezoito anos haviam-se modificado muito nos ltimos tempos. E quando 
olhou para ela, apercebeu-se que Elizabeth era tudo o que Crystal no era.
       -  uma excelente faculdade Miss Barclay - disse Spencer num tom amigvel mas distante. - A minha cunhada estudou l. Estou certo de que ir gostar.
       E devido quelas palavras, ela presumiu que ele era casado. Nunca lhe ocorreu que pudesse estar a referir-se  mulher do irmo. Por breves momentos, ficou 
desiludida. Spencer era um homem atraente e havia nele um certo magnetismo.
       Nessa altura, o mordomo anunciou que o jantar iria ser servido, e Priscilla Barclay conduziu suavemente os convidados at  sala de jantar. Tinha um cho 
de mrmore preto e branco, paredes com painis de madeira e um lindssimo candelabro de cristal sobre uma pesada mesa oval. Nela encontravam-se alguns castiais 
com velas acesas, um servio Limoges branco e dourado e copos de cristal que captavam a luz das velas e a refletiam para a prata. Os naperes eram grandes e pesados, 
bordados com o monograma da me de Priscilla Barclay, e os convidados ocuparam calmamente os seus lugares indicados pela anfitri.  claro que  frente de cada lugar 
havia um carto, sustentado por um pequeno suporte de prata. Elizabeth ficou contente ao ver-se sentada ao lado de Spencer. Soube de imediato que a me tinha reordenado 
a disposio dos convivas.
       A entrada foi salmo fumado e ostras pequenas. Quando veio o prato principal, j Elizabeth e Spencer estavam em amena cavaqueira. Ele ficou de novo admirado 
com a inteligncia dela e com tudo o que sabia. Parecia no desconhecer nada sobre poltica externa ou interna, histria e arte. Era uma rapariga extraordinria, 
e ele tivera razo; iria sair-se muito bem em Vassar. Em muitas coisas, achava-a parecida com a mulher do irmo, s que melhor. No era nada exibicionista nem gostava 
de ostentaes. Tudo nela era inteligncia e boas maneiras. At fez questo de falar com o homem sentado  sua direita, outro dos amigos do pai, e depois tornou 
a virar-se para Spencer.
       - Ento, senhor Hill, o que vai fazer agora, acabado de sair de Stanford? - perguntou ela, olhando-o com interesse e firmeza. Por momentos, ele sentiu-se 
mais novo do que ela, e se tivesse bebido menos isso t-lo-ia enervado.
       - Vou trabalhar para Nova Iorque.
       - J arranjou emprego? - Mostrava-se interessada e demasiado direta. No via qual a vantagem de perder tempo. De certa forma, isso agradou a Spencer. No 
gostava de joguinhos, e se ela lhe podia fazer perguntas, ele achava-se no direito de fazer o mesmo. Era ais fcil do que namoricar.
       - Sim, tenho. Na Anderson, Vincent e Sawbrook.
       - Estou impressionada. - Bebeu um gole de vinho e sorriu-lhe.
       - Conhece-a?
       - J ouvi o meu pai falar nela. E a maior firma de Wall Street.
       - Agora sou eu que estou impressionado - brincou ele, mas falava a srio. - Sabe muitas coisas para uma rapariga de dezoito anos. No admira que v para Vassar.
       - Obrigada. J h anos que me sento a mesas de jantar. Acho que de vez em quando  bastante til. - Mas era mais do que isso. Ela era muito inteligente, e 
se estivesse com melhor disposio, Spencer poderia at ter-se apaixonado.  claro que nela no havia mistrio, nem poesia, nem magia, mas sim um esprito muito 
sagaz e uma frontalidade incrvel que o intrigava. E Elizabeth era muito bonita, de uma beleza nobre e tranqila. Isso era cada vez mais visvel  medida que a noite 
passava e ele continuava a beber o vinho de Harrison Barclay. Era uma maneira estranha de terminar o dia, que comeara com um batizado em Alexander Valley. Mas no 
conseguia imaginar Crystal ali. Apesar do que sentia por ela, a rapariga no tinha lugar naquela mesa. Naquele ambiente no conseguia imaginar mais ningum seno 
aquela rapariga, com os seus francos olhos castanhos e maneiras diretas. Contudo, enquanto a ouvia, o seu corao chorava por Crystal.
       - Quando  que deixa So Francisco?
       - Daqui a dois dias. - Disse-o com pena, mas por razes que nenhum deles compreendia inteiramente. Spencer no conseguia entender a dor que sentia desde essa 
tarde, ao regressar a So Francisco. E ela achava que no havia nada mais excitante do que ir para Nova Iorque. Mal podia esperar por Setembro.
       -  pena. Estava com esperana de que nos fosse visitar ao lago Tahoe.
       - Gostaria muito, mas tenho imensas coisas a fazer. Comeo a trabalhar daqui a duas semanas, e isso no me deixa muito tempo para me instalar antes de submergir 
num mar de papis em Wall Street.
       - Sente-se excitado? - Os olhos dela tornaram a sondar os dele, e Spencer decidiu no fingir.
       - Para dizer a verdade, no sei bem. Ainda estou a tentar descobrir por que motivo fui para a Faculdade de Direito.
       - O que  que gostaria de ter feito em vez disso?
       - Medicina, se no tivesse ido para a tropa. Acho que a guerra veio alterar a vida de todos... para muitos ainda mais do que para mim. - Ficou pensativo durante 
um momento, a pensar no irmo. - Tive muita sorte.
       - Acho que no tem muita sorte por ser advogado.
       - Acha? - Ele sentiu-se de novo divertido. Ela era uma rapariga intrigante, e Spencer pressentiu que no havia uma grama de fraqueza ou de indeciso em Elizabeth 
Barclay. - Por qu?
       - Eu tambm gostaria de tirar Direito. Depois de Vassar. Ele ficou impressionado, mas no totalmente surpreendido.
       - Ento  isso que deve fazer. Mas no preferia casar-se e ter filhos? - Parecia-lhe ser uma opo mais natural, e no era provvel que um homem gostasse 
que ela fizesse as duas coisas. Em 1947 era necessrio optar por uma ou por outra. Parecia-lhe ser um preo muito elevado a pagar. No lugar dela, ele preferiria 
ter marido e filhos, mas Elizabeth no parecia convencida.
       - Talvez. - Por um instante, pareceu jovem e insegura, depois encolheu os ombros, enquanto a sobremesa era servida. Em seguida, surpreendeu-o com a pergunta 
seguinte.
       - Como  a sua mulher, senhor Hill?
       -Desculpe? Eu... lamento... o que  que a fez pensar que era casado? - Parecia horrorizado, mas depois riu-se.
       Teria ele um aspecto to envelhecido que fosse inconcebvel no ser casado? Se assim era Crystal devia t-lo achado muito velho. Ainda pensava nela, mesmo 
quando se obrigava a conversar com Elizabeth Barclay, embora ela fosse uma pessoa com quem no era difcil falar. Mas o seu esprito vagueava por longe, bem como 
um pedao do seu corao que parecia t-lo trado.
       Pela primeira vez, Elizabeth pareceu perplexa, e ele reparou que ela corava sob aquele bem penteado cabelo castanho-avermelhado.
       - Julguei que tinha dito... falou na sua cunhada no princpio da noite... calculei...
       Ele riu-se enquanto ela gaguejava, e abanou a cabea, os olhos azuis brilhando  luz das velas.
       - Receio bem que no. Estava a referir-me  viva do meu irmo.
       - Ele foi morto na guerra?
       - Sim, foi.
       - Lamento muito.
       Ele assentiu e o caf foi servido. As senhoras retiraram-se a um sinal de Priscilla Barclay. Ela agradeceu  filha quando saram da sala.
       - Obrigada, Elizabeth. Teria ficado numa situao difcil se no fosses tu.
       Ela sorriu para a me e ps um brao em volta dos seus ombros. Priscilla Barclay ainda era bonita, embora j tivesse mais de sessenta anos.
       - Diverti-me. Gosto do Spencer Hill. Alis, gosto ainda mais agora que ele me disse que no era casado.
       - Elizabeth! - A me fingiu estar chocada, mas na realidade no estava, e Elizabeth sabia-o. -  demasiado velho para ti. Tem quase trinta.
       -  o que me convm, e talvez fosse divertido v-lo em Nova Iorque. Vai trabalhar para a Anderson, Vincent e Sawbrook.
       A me assentiu em silncio e afastou-se para conversar com as convidadas. Passado pouco tempo, os cavalheiros Juntaram-se-lhes. A festa acabou pouco depois 
disso, e Spencer agradeceu aos Barclay o convite e fez questo de se despedir da filha deles.
       - Boa sorte na faculdade.
       - Obrigada. - Os olhos dela eram ternos, e pela primeira vez ele apercebeu-se de que gostava dela. Era mais agradvel do que a mulher de Robert e, na realidade, 
muito mais inteligente. - Boa sorte no seu novo emprego. Vai sair-se lindamente, tenho a certeza.
       - Tentarei recordar-me disso daqui a um ms ou dois, quando estiver com saudades da vida fcil em Stanford. Talvez nos encontremos em Nova Iorque.
       Ela dirigiu-lhe um sorriso encorajador e a me aproximou-se deles, agradecendo a Spencer a sua vinda.
       - Tem de ir vigiando a Elizabeth por ns l em Nova Iorque.
       Ele sorriu, pensando que seria pouco provvel voltar a encontr-la, mas era sempre muito bem-educado. Achava que as calouras eram demasiado novas para si... 
e depois,  claro, havia Crystal...
       - Avise-me se for  cidade.
       - Assim farei. - Ela dirigiu-lhe um sorriso caloroso, tornando a parecer mais jovem, e pouco depois ele despediu-se. Regressou a Fairmont a pensar nela e 
nas suas conversas interessantes. Talvez Elizabeth tivesse razo, pensou. Talvez devesse tirar Direito. Seria um desperdcio acabar como mulher de algum, a jogar 
bridge e a tagarelar com outras mulheres. Mas no foi com Elizabeth que ele sonhou naquela noite, quando finalmente adormeceu j muito tarde... foi com a rapariga 
de cabelo cor de platina e olhos da cor do cu de Vero... a rapariga que cantara como se o seu corao se fosse despedaar... No seu sonho, ela estava no balano, 
observando-o, e ele nunca conseguia alcan-la. Acordou bastantes vezes durante a noite e dormiu poucas horas. Ao romper do dia j estava levantado, vendo o Sol 
elevar-se lentamente sobre a baa, enquanto a cento e sessenta quilmetros de distncia, Crystal caminhava descala pelo campo, pensando nele ao dirigir-se para 
o riacho a cantarolar.
       
Captulo 5
       
       Spencer trabalhou afanosamente no dia seguinte, tentando deixar tudo arrumado. Foi despedir-se de alguns amigos e desejar-lhes boa sorte. Lamentou a sua deciso 
de regressar a Nova Iorque, e prometeu a si prprio que em breve voltaria. Foi um dia triste para ele, e nessa noite deitou-se cedo.
       Na manh seguinte apanhou o primeiro avio para Nova Iorque. Era o dia do dcimo sexto aniversrio de Crystal. Os pais estavam  sua espera, e ele sentiu-se 
um idiota ao ser saudado como um heri conquistador. At Barbara, a viva de Robert, l estava, com as duas filhas. Comeram uma refeio tardia em casa dos pais, 
e Barbara teve de levar as filhas a casa antes que adormecessem  mesa.
       - Ento, filho? - perguntou o pai, na expectativa depois de a nora e de as netas sarem e de a mulher se ter ido deitar. - Que tal  estar de novo em casa? 
- Sentia-se ansioso por ouvir uma resposta encorajadora. Spencer estivera ausente durante seis longos anos entre a guerra e os dois anos em Stanford, e estava muito 
aliviado por t-lo de volta a Nova Iorque, donde nunca devia ter sado. Era altura de Spencer assentar e ser "algum", tal como teria feito Robert se fosse vivo.
       - No sei bem o que  que sinto. - Spencer foi sincero para o pai. - Est tudo na mesma, mais ou menos, desde a ltima vez que c estive. Nova Iorque no 
mudou. - No acrescentou aquilo que estava a pensar: "Mas eu sim."
       - Espero que sejas feliz aqui. - William Hill no tinha dvidas acerca disso.
       - Estou certo que sim, pai, obrigado. - Contudo, sentia-se menos seguro do que j alguma vez se sentira. Parte dele ansiava por voltar  Califrnia. - A propsito, 
estive com o juiz Barclay antes de me vir embora. Ele manda-lhe cumprimentos.
       William Hill assentiu, satisfeito.
       - Um dia destes vai para o Supremo Tribunal, atenta bem no que te digo. Isso no me surpreenderia nada. Os filhos dele tambm so homens bons. O mais velho 
esteve outro dia na minha sala de audincias.  um excelente advogado.
       - Espero que um dia algum diga isso a meu respeito. - Spencer sentou-se no sof do escritrio do pai, e passou a mo pelo cabelo com um suspiro de cansao. 
Fora um dia longo, uma semana longa... uma guerra longa... e, de repente, a lembrana do que iria ter de enfrentar deprimiu-o.
       - Fizeste o que devias fazer Spencer. Nunca duvides disso.
       - Como  que pode ter tanta certeza? - "Eu no sou o Robert, pai... sou eu..." Mas Spencer sabia que no podia dizer aquilo. - E se eu detestar a Anderson, 
Vincent e Sawbrook?
       - Ento irs trabalhar para o departamento jurdico de uma empresa. Com um curso de Direito, podes fazer quase tudo o que quiseres. Exercer por conta prpria, 
trabalhar numa empresa... enveredar pela poltica... - Disse a palavra num tom de esperana: era ali que estavam as suas verdadeiras aspiraes, e Spencer seria 
perfeito para esse cargo. Tal como fora o irmo, antes dele. Robert, a sua esperana, desfeita com tanta rapidez. - A Barbara est com bom aspecto, no est?
       - Sim. - Spencer assentiu, perguntando-se se o pai o conheceria. - Como  que ela tem passado?
       - As coisas no tm sido fceis. Mas est a recuperar, creio - disse ele, e virou-se um momento para que Spencer no lhe visse as lgrimas nos olhos. - Creio 
que estamos todos. - Depois virou-se e sorriu para o filho. - Alugamos uma casa em Long Island. A tua me e eu achamos que poderias apreciar a mudana. A Barbara 
e as crianas esto l at ao final de agosto. - Era estranho regressar ao seio da famlia: j no estava certo de ser ali o seu lugar. Tinha vinte e dois anos quando 
fora para a guerra e muita coisa mudara desde essa altura. Acontecera muita coisa que o transformara. E agora, com Robert desaparecido, sentia que regressara para 
viver no a sua vida mas a de Robert.
       -  muito simptico da sua parte, pai. No sei se terei muito tempo livre depois de comear a trabalhar.
       - Ters os fins-de-semana.
       Spencer assentiu. Esperavam que ele fosse outra vez um rapaz, o filho mais novo. Sentiu que perdera a sua vida algures na viagem de regresso da Califrnia.
       - A ver vamos. Tenho de arranjar um apartamento esta semana.
       - Podes ficar aqui at te orientares.
       - Obrigado, pai. - Levantou os olhos e, pela primeira vez, o pai pareceu-lhe velho; velho e a alimentar esperanas que tinham morrido com o irmo de Spencer. 
- Fico-lhe muito grato. - E acrescentou, por curiosidade: - A Barbara anda a sair com algum? - Afinal, j tinham passado trs anos, e ela era uma rapariga bonita. 
Fora o par ideal para Robert. Ambiciosa, calma, inteligente, muito bem-educada, a esposa perfeita para um futuro poltico.
       - No sei - respondeu o pai com franqueza. - No falamos no assunto. Devias lev-la a jantar um dia destes. Ela ainda deve sentir-se muito sozinha.
       Spencer concordou. Tambm queria voltar a ver as sobrinhas, mas naquele momento tinha muito em que pensar. E sentia-se muito tenso devido a tudo o que esperavam 
dele.
       Quando caiu na cama nessa noite estava exausto. O impacte daquilo que o esperara parecia ter cado nos seus ombros com um peso esmagador, e teve vontade de 
chorar antes de adormecer. Sentia-se como uma criana que se perdera a caminho de casa. A nica coisa que sabia era que tinha de encontrar um apartamento, a sua 
vida, e depressa.
       
Captulo 6
       
       O resto do Vero pareceu passar devagar. Crystal ajudava no rancho, e de vez em quando ia brincar com o filho de Becky. Tom estava sempre fora, nas vinhas 
com Tad ou na cidade com os amigos. E Jared passava todos os momentos livres com a namorada, em Calistoga. Era como se de repente tivesse ficado sozinha, sem ningum 
para lhe fazer companhia e sem ningum com quem conversar. Comeou a visitar Hiroko cada vez com maior freqncia. Crystal costumava encontr-la a ler, a coser ou 
a desenhar com pena e tinta, e uma vez at ensinou Crystal a escrever em haiku. Era uma mulher amvel com um corao meigo, que possua uma cultura que fascinava 
Crystal. Ensinou-lhe a fazer pequenos pssaros origami, e mostrou-lhe como a me a ensinara a fazer arranjos de flores. Nela no havia vaidade por saber tantas coisas, 
vaidade essa muito comum nas ocidentais; tudo nela era calmo, discreto e muito subtil. E, tal como Crystal, sentia-se muito sozinha. Ainda no tinha amigos nos familiares 
de Boyd, percebia agora como todos a detestavam e suspeitava que nunca nada se iria alterar. Por esse motivo, sentia-se ainda mais grata pelas visitas de Crystal, 
e as duas mulheres tornaram-se boas amigas durante a gravidez de Hiroko.
       Quando as aulas comearam Crystal ia visit-la muitas vezes, ficando vrias horas junto  lareira a fazer os trabalhos de casa. Detestava ter de ir para casa. 
A me estava sempre com Becky e a av repreendia-a constantemente. A nica pessoa que tinha uma palavra bondosa para ela era o pai, que adoecera de novo. Depois 
do dia de Ao de Graas(*), Crystal confessou a Hiroko que estava muito preocupada com ele. Andava muito cansado e plido e tossia muito. Aquilo apavorava-a. O 
homem que lhe parecera invencvel durante toda a vida estava agora a cair. Contrara outra pneumonia, e s melhorara aps muitas semanas. Aquilo fazia com que
       
(*) Celebrado a 22 de Novembro. (N. do T.)
       
       Crystal no o quisesse largar. Sabia que se o perdesse, a sua vida chegaria ao fim. Ele era o seu colega, aliado, defensor fiel; os outros eram sempre muito 
rpidos a virarem-se contra ela, a culparem-na por coisas triviais e a repreend-la por tudo aquilo que ela no era. No queria fazer as mesmas coisas que Becky. 
No queria passar os dias sentada na cozinha a beber caf e a fazer bolos, e no queria tagarelar com as outras mulheres, nem casar com um homem como Tom e ter os 
seus filhos. Tom Parker engordara em menos de dois anos e j tresandava a cerveja, exceto aos fins-de-semana, altura em que fedia a usque.
       Crystal sabia que no era como os outros. Instintivamente, sempre pressentira que era diferente, e estava certa de que o pai tambm o sabia. E Hiroko. Havia 
muito que confessara quela amvel japonesa que, s vezes, sonhava em entrar em filmes. Mas agora no podia abandonar o pai. No o abandonaria por nada deste mundo. 
Mas um dia... talvez um dia... o sonho de Hollywood nunca morrera... nem os seus sonhos com Spencer. Mas nunca confessou a Hiroko e a Boyd o que sentia por ele, 
embora lhes contasse tudo o resto. Eram os seus nicos amigos, e ia muitas vezes a cavalo visit-los. Hiroko era a nica amiga que j tivera, e h muito que Crystal 
aprendera a am-la. Hiroko dava-lhe a coragem e o carinho que ela no encontrava em mais ningum, exceto junto do pai.
       Confessava os seus medos  amiga, o medo de nunca conseguir fugir do vale, o medo de que nenhum dos seus sonhos se tornasse realidade. Mas tambm amava o 
vale. Aquilo que sentia em relao  terra estava muito intricado no amor que sentia pelo pai. Amava a terra, as rvores, o declive das colinas e as montanhas por 
trs delas. At amava o seu perfume, especialmente na Primavera, quando tudo era fresco e novo, e amava a chuvas que punham tudo verde-esmeralda. Viver ali para 
sempre no seria o pior destino do mundo, mesmo se isso significasse desistir dos seus sonhos de atriz. S no queria casar com um homem como Tom Parker. A idia 
fazia-a estremecer.
       - Ele  mau para a tua irm? - s vezes, Hiroko sentia curiosidade em relao aos outros. Para ela, todos eram estranhos, at a irm do marido, que se casara, 
finalmente, mesmo a tempo de ter o filho.
       - Acho que ele  mau para ela quando bebe. No que ela me tenha dito alguma coisa. H umas semanas atrs apareceu com um olho negro. Disse que tinha tropeado 
numa cadeira, mas creio que contou a verdade  nossa me.
       As duas mulheres hostilizavam Crystal. Todos o faziam, alis. Ela era perigosamente bonita e isso ameaava todas as mulheres que a conheciam, exceto esta, 
que tinha um aspecto to diferente. Faziam um par estranho: uma alta e magra, a outra pequenina, uma com cabelo preto brilhante, a outra com uma longa cabeleira 
loira. Uma cultura to livre e abundante em palavras e gestos, a outra to frugal e comedida. Tinham vindo de mundos diferentes para o mesmo local, onde se haviam 
tornado irms.
       - Talvez um dia vs para Hollywood, e eu e o Boyd vamos depois visitar-te.
       Riram-se ambas enquanto se afastavam da casa dos Webster, a falar dos seus sonhos. Hiroko queria ter uma casa bonita e muitos filhos. Crystal queria cantar, 
e queria ir para um lugar onde as pessoas no a desprezassem. Tinham algo em comum. Por razes diferentes, eram ambas postas  margem.
       Hiroko gostava de fazer exerccio, mas no queria sair sozinha. Crystal gostava de lhe fazer companhia. s vezes, conversavam durante horas, e Hiroko reparava 
nas coisas mais nfimas enquanto iam andando, nas flores mais pequenas, na planta menos importante, na borboleta mais delicada. Mais tarde desenhava-as. Partilhavam 
a mesma paixo pela natureza. Mas agora Crystal j se sentia suficientemente  vontade com a amiga para brincar com ela.
       - Vs essas coisas todas porque ests mais perto do cho do que eu, Hiroko. - Hiroko ria-se, e ambas desejavam poder ir  cidade, mas sabiam que no podiam 
ser vistas juntas. Isso daria origem a um grande tumulto. Boyd convidou-a a ir at So Francisco com eles, mas Crystal teve medo de desaparecer durante tanto tempo: 
a me daria com certeza pela sua falta e o pai poderia precisar dela.
       Pelo Natal, ele estava demasiado fraco para se poder levantar, e Crystal no visitou os Webster durante vrias semanas. Quando regressou no fim de Janeiro, 
o seu rosto falava por si. Tad Wyatt estava a morrer. Crystal sentou-se na cozinha de Hiroko e chorou, com os braos da amiga em redor dos seus ombros. Sentia o 
corao a despedaar-se ao v-lo enfraquecer de dia para dia. Todos no rancho passavam a vida a chorar. A av, Olivia, Becky. E Jared nunca l estava, pois no suportava 
ver o pai a morrer. Crystal sentava-se junto dele durante longas horas, encorajando-o a comer, murmurando suavemente enquanto o cobria com cobertores, e s vezes 
via-o dormir, as lgrimas rolando-lhe em silncio pelo rosto. E era Crystal que ele queria sempre junto de si, era Crystal quem ele chamava quando delirava, era 
por Crystal que procurava quando voltava a abrir os olhos. Raras vezes a mulher, e nunca Becky. Eram ambas estranhas para ele agora, tal como Crystal era para elas. 
Era ela que cuidava dele cheia de amor, quem at ajudava a me a dar-lhe banho. Mas o amor que mostrava ter por ele s fazia com que a me se ressentisse ainda mais. 
Achava que o amor que existia entre ambos no era natural, e se ele no estivesse doente, t-lo-ia dito. Em vez disso, quase deixara de falar com a filha, mas esta 
no se importava muito. S se preocupava com o pai. A paixo que sentia por ele fazia at desvanecer as recordaes que tinha de Spencer.
       Becky engravidara novamente, e Tom tentava dirigir o rancho, embora a maior parte das vezes estivesse demasiado bbedo para o fazer. Crystal sentia o corao 
despedaar-se de cada vez que o via ir de carro at  casa principal. Precisava de todo o seu autodomnio para no lhe dizer o que pensava dele, mas por causa do 
pai continha-se. No queria perturb-lo e queria que tudo continuasse como dantes, mas em Fevereiro soube que no iria ser assim.
       Ficava  sua cabeceira dia e noite, a segurar-lhe na mo sem nunca o deixar, exceto para tomar banho ou para comer qualquer coisa  pressa na cozinha. Receava 
que se o deixasse ele pudesse morrer. No voltou  escola e nem sequer saa de casa, a no ser durante alguns minutos para encher os pulmes de ar no alpendre ou 
para ir rapidamente at ao riacho, antes do cair da noite. Tom seguiu-a uma vez, e ficou a mir-la enquanto ela permanecia numa clareira mergulhada em pensamentos, 
a pensar no pai, e depois em Spencer. No voltara a ouvir falar dele desde o batizado do pequeno Willie, nem esperava que isso acontecesse. Boyd recebera uma carta 
dele pelo Natal; parecia feliz em Nova Iorque e gostava do novo emprego. Acrescentava que os avisaria quando pensasse visitar a Califrnia. Mas agora estava demasiado 
longe para poder ajud-la. Ningum podia, exceto Deus. E ela rezava todos os dias para que Ele a deixasse ficar com o pai; contudo, no seu ntimo sabia que no era 
isso que iria acontecer.
       Nessa noite, sentou-se na cadeira  cabeceira do pai, observando-o a dormir, e depois da meia-noite ele abriu os olhos e olhou em volta. J h muito tempo 
que no parecia to bem, perfeitamente lcido, e sorriu para Crystal. A me estava a dormir no sof e Crystal j h dias que dormia na cadeira junto da cama, mas 
acordou assim que ele se mexeu e ofereceu-lhe gua.
       - Obrigado, querida - disse ele com a voz um pouco mais forte. - Devias ir deitar-te.
       - Ainda no estou cansada - murmurou ela na penumbra. No queria sair dali. Se o deixasse, ele podia morrer, e enquanto ela ali estivesse, talvez ele vivesse... 
talvez... - Quer um pouco de sopa? A av fez sopa de peru esta noite, est muito boa.
       O cabelo louro escorria-lhe plos ombros como uma cortina difana, e ele contemplou-a com o amor que sentira por ela durante aqueles dezesseis anos. Queria 
estar ali para sempre, s para a proteger. Sabia como os outros eram antipticos, ciumentos e mesquinhos, at a prpria me da rapariga, e tudo porque ela era bonita. 
At os rapazes do vale a temiam, ela era demasiado bela para ser real, e, no entanto, era muito real. Conhecia-a bem, e orgulhava-se daquilo em que ela se tornara. 
E j  h meses que suspeitava que a filha visitava Hiroko, mas, embora se sentisse apreensivo quanto quela amizade, no tentou dissuadi-la. Mais do que uma vez 
teve vontade de lhe perguntar como  que ela era, mas decidiu no o fazer. Tinha direito  sua prpria vida, a ter segredos s seus. Desfrutava de muito poucos prazeres. 
Recusou a sopa, e recostou-se nas almofadas, olhando para a filha rezando para que a vida no a tratasse mal, que um dia encontrasse um homem bom e fosse feliz.
       - Nunca desistas disto, pequenita... - Foi pouco mais do que um murmrio, e a princpio ela no o percebeu.
       - O qu, paizinho? - A voz dela era to baixa como a dele, mas os seus dedos entrelaados nos do pai eram bem mais fortes.
       -O rancho... o vale... pertences aqui... tal como eu... quero que vejas mais do mundo do que... s isto... - parecia estar com dificuldade em respirar - ... 
mas o rancho h-de... estar sempre... aqui para ti.
       - Eu sei, paizinho. - No queria que o pai falasse daquilo naquele momento. Era como se se estivesse a despedir dela, e Crystal no o podia permitir. - Agora 
tente dormir.
       Ele abanou a cabea. No havia tempo. Dormira demasiado, e agora apenas queria falar cora a sua filha mais nova, a sua favorita, o seu beb.
       - O Tom no sabe governar o rancho. - Ela j tinha conhecimento disso, mas no o disse ao pai, limitou-se a assentir em silncio. - E um dia, o Jar h-de 
querer fazer qualquer outra coisa; ele no ama a terra... tal como tu e eu... Quando tiveres visto alguma coisa do mundo e a tua me tiver morrido Crystal, quero 
que regresses aqui... encontres um bom homem, algum que seja bom para a minha menina... - Sorriu-lhe e os olhos dela encheram-se de lgrimas. Apertou a mo do pai. 
- ... e que tenhas com ele uma boa vida aqui...
       - No fale assim, paizinho... - Mal conseguia falar atravs das lgrimas. Tocou-lhe no rosto com o seu rosto e beijou-lhe a testa. Estava fria, mida e pegajosa. 
Crystal recostou-se e tornou a observ-lo. - O senhor  o nico homem que quero. - Contudo, durante um breve momento, quis falar-lhe de Spencer, dizer-lhe que conhecera 
algum de quem gostara... de quem gostara muito... e por quem se podia ter apaixonado. Mas ele era apenas um sonho, tal como as estrelas de cinema coladas na parede 
do seu quarto. Spencer Hill nunca fora real na vida de Crystal Wyatt. - Agora veja se dorme um bocadinho. - Era a nica coisa que havia a dizer-lhe, s de falar 
um pouco ficara ofegante e exausto. - Amo-o, paizinho - murmurou enquanto ele fechava os olhos, mas estes abriram-se de novo e ele olhou para ela com um sorriso.
       - Tambm te amo, pequenita. Sers sempre a minha... pequenita... doce, doce Crystal... - E com isto os seus olhos tornaram a fechar-se. Tinha um ar muito 
calmo enquanto dormia, e ela pegou-lhe na mo e observou-o. Recostou-se na cadeira, ainda com a mo dele na sua, e minutos depois adormeceu, exausta pela tenso 
de o vigiar dia aps dia, e quando acordou o cu estava cinzento e o quarto frio e o pai morrera a segurar-lhe na mo. As suas ltimas palavras, os seus ltimos 
pensamentos e o seu ltimo adeus haviam sido dirigidos a Crystal. Os olhos dela abriram-se muito quando se apercebeu de que ele tinha partido. Devagarzinho, largou 
a mo dele junto do corpo, e com um ltimo olhar cheio de lgrimas saiu do quarto e fechou a porta. Sem dizer nada a ningum, correu o mais depressa que pde at 
ao riacho. Chorava abertamente, o corpo era sacudido por soluos, e ficou por ali durante bastante tempo. Quando regressou, a me chorava alto na cozinha, e Minerva 
fazia caf em silncio. Tinham-no encontrado morto.
       - O teu pai morreu. - Disse aquelas palavras iradas quando Crystal entrou na cozinha, com o rosto manchado de lgrimas. Era mais uma acusao do que um lamento, 
como se Crystal pudesse t-lo impedido de morrer. Fez que sim com a cabea, com medo de lhes dizer que j o sabia antes de se ter ido embora, perguntando-se de novo 
se poderia ter feito algo que o impedisse de morrer. Recordou-se das palavras dele na ltima noite... "quero que regresses aqui"... Sabia quanto ela amava aquela 
terra, como aquilo fazia parte dela, tal como fizera parte dele e sempre faria. Crystal veria sempre o pai ali, naquela casa, mas, mais do que isso, nas colinas, 
a galopar, ou montado no trator no meio das vinhas.
       Mandaram Jared  cidade, e o agente funerrio foi buscar Tad ao m da manh. Os amigos e vizinhos foram prestar-lhe uma ltima homenagem, enquanto a mulher 
e a sogra se mantinham por ali, a apertar mos e a chorar. Olivia dirigiu um olhar grato a Tom atravs das lgrimas... enquanto Crystal tentava reprimir o seu dio 
por ele. Estremecia com a idia de ele ir dirigir o rancho. Mas Crystal no podia pensar nisso, apenas podia pensar no homem que amara. O seu pai. Ele j partira, 
e ela ficara, assustada e sem nada, no meio de estranhos.
       O funeral foi no dia seguinte, e ele foi sepultado numa clareira junto ao riacho. Era um local que Crystal conhecia bem. Ia ali muitas vezes sentar-se e meditar, 
ou nadar, e consolava-a a idia de ter o pai ali perto, a olhar por ela. Sabia que ele nunca a abandonaria. Nessa tarde, desapareceu durante algum tempo e foi visitar 
Hiroko. O beb dela deveria nascer dali a umas semanas, e ela levantou-se sem rudo quando a amiga entrou silenciosamente na sua sala. Os olhos dela diziam tudo, 
e Boyd contara-lhe que Tad Wyatt morrera. Hiroko desejou poder ter ido at junto de Crystal, mas sabia que isso teria sido impossvel. No teriam permitido que ela 
a visse. E agora ali estava ela, parecendo uma criana despedaada, e comeou a chorar estendendo os braos para Hiroko. O corao doa-lhe ao chorar. Sem o pai, 
a vida no voltaria a ser a mesma. Ele abandonara-a entre pessoas que ela sabia que nunca a tinham amado.
       Crystal ficou com os Webster durante vrias horas, e quando regressou ao rancho era de noite. A me j estava  espera dela. Encontrava-se sentada muito direita 
no sof, sozinha na sala de estar, e olhou furiosa para Crystal quando esta entrou ligeiramente curvada pela dor e pelo cansao.
       - Onde estiveste?
       - Tive de sair daqui. - Era verdade. No suportava aquela atmosfera opressiva nem as pessoas que estavam sempre a chegar, trazendo-lhes prendas e comida para 
as ajudar a suportar a dor. Mas ela no queria comida, queria o pai.
       - Perguntei-te onde estiveste.
       - L fora, mezinha. No interessa. - Fora a casa dos Webster a cavalo. Era demasiado longe para ir a p, e ela estava demasiado cansada para sequer o tentar 
depois das emoes dos ltimos dias.
       - Estiveste na cama com um rapaz, no foi? Crystal olhou para a me perplexa. No sara de casa durante semanas, mal deixara a cabeceira do pai para ir  
casa de banho.
       -  claro que no. Como  que pode dizer uma coisa dessas? - Os olhos encheram-se-lhe de lgrimas devido s palavras cruis to caractersticas da me.
       - Sei que andas a tramar alguma Crystal Wyatt. Sei a que horas sais da escola. S chegas a casa depois do anoitecer. Achas que sou parva? - Estava furiosa, 
nem parecia que tinha perdido o marido havia poucas horas. De viva chorosa transformara-se em vbora.
       - Mezinha, no... por favor... - Tinham enterrado o pai apenas nessa manh, e j comeavam o dio e as acusaes.
       - Vais acabar como a Ginny Webster. Grvida de sete meses, e com muita sorte por ter casado.
       - No  verdade. - Quase no conseguia falar, pois chorava convulsivamente. S conseguia pensar no pai que perdera e mal acreditava que a me estivesse a 
fazer-lhe aquelas acusaes. Estava a referir-se,  claro, s ausncias de Crystal quando visitava Hiroko.
       - O teu pai j c no est para contar as tuas mentiras. No penses que me enganas. Se tentares armar-te em esperta, podes ir-te embora. No estou para aturar 
as tuas espertezas. A nossa famlia  muito respeitvel, no te esqueas disso!
       Crystal olhou-a de olhos muito abertos quando ela se dirigiu ao quarto onde o marido tinha morrido agarrado  mo da filha. A filha que estava agora sozinha 
sem ningum que a defendesse. Ficou na sala de estar, a ouvir o silncio, cheia de saudades do pai. Depois dirigiu-se devagar at ao seu quarto e atirou-se para 
a cama que outrora partilhara com a irm. Perguntou-se por que motivo a odiariam tanto. Nunca lhe ocorreu que era porque ele a amara. E era mais do que isso, era 
pelo seu aspecto, pelo modo como se movia... pelo modo como os olhava. Ali no escuro, deitada na cama, ainda vestida, soube que a sua vida nunca mais seria a mesma. 
Ele abandonara-a junto dos outros, e quando comeou a chorar no quarto silencioso Crystal estava apavorada.
       
Captulo 7
       
       O beb de Hiroko nasceu muito tarde: no em maro mas sim no dia 3 de Abril. Crystal fora visitar Hiroko nessa tarde e encontrou-a cansada e agitada, mas, 
ao contrrio de Becky, no se queixou. Era sempre simptica, calorosa e mostrava-se ansiosa pelas visitas da amiga. O pai de Crystal morrera havia quase seis meses 
e ela visitara Hiroko praticamente todos os dias. No tinha que fazer no rancho e a me era sempre muito rpida a critic-la e a admoest-la, atitudes que faziam 
com que Crystal se sentisse ainda mais sozinha. Suspeitava que havia mais alguma coisa a perturbar a me, ou talvez se sentisse sozinha sem Tad e no conhecesse 
outra forma de expressar essa solido. Crystal contou os seus pensamentos a Hiroko, e a amiga concordou que tal poderia ser possvel, mas mais tarde Boyd contou-lhe 
que Olivia nunca gostara de Crystal, nem em criana; recordava-se de ela lhe bater sob o mais nfimo pretexto, ao passo que mimava Rebecca. Boyd suspeitava que era 
porque Tad fizera de Crystal a sua favorita; at as crianas sabiam disso. Era um segredo conhecido do vale.
       Hiroko e Crystal passaram uma tarde tranqila, e ao anoitecer esta foi para casa. A me sara, fora  cidade com Becky, e Crystal ajudou a av a pr o jantar 
na mesa. Perdera peso desde a morte do pai: nunca tinha fome. Na manh seguinte, quando se levantou, arreou o cavalo e decidiu ir visitar os Webster. Era sbado, 
no tinha aulas e sabia que a amiga se levantava cedo. Mas quando l chegou, encontrou Boyd  porta. Parecia preocupado e exausto. Hiroko estava em trabalho de parto 
desde a noite anterior, e o beb ainda no nascera. Ele chamara o mdico da cidade, que se recusara a ir l, alegando que a Sra. Webster no era sua paciente. Era 
o mesmo homem que se recusara a trat-la oito meses antes, e ainda no mudara de opinio. E Boyd sabia que teria de ser ele a ajud-la. No havia maneira de a levar 
at So Francisco. O Dr. Yoshikawa emprestara-lhe um livro que o poderia ajudar, mas as coisas no estavam a correr conforme o planeado. Hiroko tinha muitas dores, 
e ele conseguia ver a cabea do beb, que se recusava a sair. Boyd explicou rapidamente a situao a Crystal, e ela ouviu Hiroko a gemer no quarto.
       - E o velho doutor Chandler? - Reformara-se havia alguns anos e estava quase cego, mas pelo menos poderia ajudar. E havia uma parteira em Calistoga, mas ela 
tambm se recusara a tratar de Hiroko.
       - Ele est no Texas, de visita  filha. Tentei ligar-lhe a noite passada do posto. - Estava a considerar a hiptese de ir com a mulher de carro at So Francisco, 
mas receava perder a criana.
       - Posso v-la? - J ajudara o nascimento de vrios animais, mas nunca vira uma mulher em trabalho de parto e sentiu na espinha um arrepio de medo enquanto 
seguia Boyd at ao quarto. Hiroko estava agachada sobre a cama, de ccoras, e a ofegar furiosamente, como se estivesse desesperada para tirar o beb de dentro de 
si, mas lanou a Crystal um olhar desamparado e encostou-se de novo s almofadas.
       - O beb no sai... - Crystal viu-a ser acometida de outra dor, e Boyd foi segurar-lhe nas mos. Sentiu pena da amiga, da sua luta. Perguntou-se se o beb 
iria morrer, ou ainda pior... Hiroko.
       Sem pensar Crystal foi lavar as mos  cozinha e regressou com uma mo-cheia de toalhas lavadas. A cama j estava manchada de sangue e o longo cabelo de Hiroko 
cobriu-lhe a cara quando ela se tornou a agachar, sem qualquer resultado. E com uma confiana que no sentia Crystal falou-lhe com suavidade.
       - Hiroko, deixa-nos ajudar-te... - Olhou para os olhos da amiga, incitando-a a viver, e orando em silncio pelo filho dela. Recordou-se dos potros que ajudara 
a nascer e rezou para que esse conhecimento lhe pudesse ser til. Tambm no havia mais ningum a quem recorrer. Da cidade ningum viria, restavam apenas Boyd e 
Crystal e aquela trmula japonesa. As lgrimas corriam-lhe pelo rosto, mas no se ouvia um nico som, e Crystal olhou e viu a cabea do beb. Tinha cabelo avermelhado, 
num tom entre o de Boyd e o de Hiroko.
       - O beb no sai... - Soluou desesperada e Boyd disse-lhe para fazer mais fora. Desta vez Crystal viu a cabea do beb avanar um pouco.
       - V l, Hiroko... j est a sair... faz fora outra vez...
       Mas ela j estava demasiado fraca e a dor tornou a fazer-se sentir. Nessa altura Crystal apercebeu-se do que estava errado. O beb estava de cara para baixo, 
em vez de virado para cima. Teriam de o virar. Ela j o fizera em animais, mas pensar em fazer isso  amiga era assustador. Olhou para Boyd e explicou-lhe calmamente 
a situao. Sabia que se no virassem o beb ele ou Hiroko podiam morrer. Podia j ser demasiado tarde para o beb. Crystal sabia que tinham de se apressar. A amiga 
teve outra contrao, e desta vez no lhe disse para fazer fora. Tateou Hiroko com suavidade, sentindo o beb no ventre dela e, mal ousando respirar, virou cuidadosamente 
o beb quando Hiroko gritava. Boyd amparou-a. Veio outra contrao e ela tornou a fazer fora, como se quisesse afastar as mos de Crystal, mas quando esta as tirou, 
a cabea tornou a avanar mais um pouco. De repente, Hiroko fez fora, uma fora que no sabia que possua. A dor era excruciante quando o beb comeou a ser expelido, 
e Crystal emitiu um grito de vitria quando a cabea saiu e, com o corpo ainda dentro da me, ele comeou a chorar. As lgrimas correram pelo rosto de Crystal enquanto 
puxava o beb. Houve um silncio tenso no quarto quando Hiroko fez novamente fora, mas desta vez ria e chorava ao mesmo tempo, pois ouvia o beb a chorar. De sbito, 
o beb saiu. Era uma menina, e os trs observaram-na cheios de espanto. A placenta saiu pouco depois, e Boyd livrou-se dela, seguindo as instrues do livro. Mas 
at ali o livro fora intil. Fora Crystal quem salvara o beb. Olhou para a minscula criana cheia de temor. Era tal e qual a me, e Hiroko chorou de alegria ao 
segur-la nos braos.
       - Obrigada... obrigada... - Estava demasiado exausta para dizer mais, e fechou os olhos enquanto segurava a menina. Boyd chorou ao observ-las. Olhou com 
carinho para a mulher e tocou no rosto da filha com muito cuidado antes de olhar para Crystal.
       -Salvaste-a... salvaste as duas... - As suas lgrimas eram de alvio, e Crystal saiu do quarto em silncio. O Sol j ia alto no cu, e ficou admirada ao aperceber-se 
de como o tempo passara. As horas haviam voado enquanto trabalhava para salvar a amiga e o beb.
       Boyd foi ter com ela passado algum tempo. Crystal estava sentada na relva, pensando como a natureza era espantosa. Nunca vira nada to lindo como aquele beb. 
Tal como Hiroko, parecia ter sido feita em marfim, e os olhos eram idnticos aos da me, oblquos. Contudo, nela tambm havia algo de Boyd, e com um sorriso Crystal 
perguntou-se se um dia ela viria a ter sardas como o pai. De repente, o amigo pareceu-lhe muito adulto ao observ-la, demasiado grato para poder agradecer-lhe por 
palavras.
       - Como  que ela est? - Crystal ainda se sentia preocupada, e desejou que tivessem chamado um mdico. Havia sempre o risco de uma infeco.
       - Esto ambas a dormir. - Ele sorriu e sentou-se junto de Crystal. - So to bonitas!
       Crystal sorriu-lhe. Eram duas crianas que tinham crescido nessa manh. A vida nunca mais voltaria a ser a mesma, e naquele momento, pareceu-lhes que o fato 
de terem presenciado o nascimento do beb tinha um valor incalculvel.
       - Que nome  que lhe vais dar?
       - Jane Keiko Webster. Queria chamar-lhe s Keiko, mas a Hiroko quis que ela tivesse um nome americano. Talvez tenha razo. - Tinha um ar triste ao dizer aquelas 
palavras, depois olhou para o vale onde haviam ambos crescido. - Keiko era o nome da irm dela que morreu em Hiroxima.
       Crystal anuiu em silncio, Hiroko j lhe contara.
       -  uma menina muito bonita, Boyd. S bom para ela. - Era uma coisa estranha para lhe dizer. Boyd tinha vinte e quatro anos e conheciam-se desde crianas. 
Becky estivera uma vez apaixonada por ele, mas no dera em nada, e Crystal sempre tivera pena. Ele era um homem bondoso e srio, muito diferente de Tom Parker. Olhou 
sonhadora para as colinas enquanto falava com ele. Estava um belo dia de Primavera e o Sol brilhava. - O meu pai foi sempre muito bom para mim. Foi a melhor pessoa 
que conheci. - Os olhos encheram-se-lhe de lgrimas quando olhou para Boyd, e limpou-as com uma ponta da camisa.
       - Deves sentir muito a sua falta.
       - Sinto. E... bem, as coisas so to diferentes agora! Eu e a minha me nunca fomos muito chegadas. Ela sempre preferiu a Becky. - Disse-o num tom casual 
com um pequeno suspiro, recostando-se na relva quente. Depois sorriu, com as recordaes. - Acho que ela pensava que o paizinho me estragava com mimos. E creio que 
ele fez isso. Mas no posso dizer que me tenha importado. - Nessa altura riu-se, e durante um momento pareceu de novo uma criana. Mas Boyd teve pena dela.
       - Creio que  melhor voltar para junto delas. Achas que lhe arranje alguma coisa para comer? - No sabia bem o que fazer, e Crystal sorriu-lhe:
       - Quando ela tiver fome. A minha me disse que depois do parto a Becky comeu que nem um cavalo, mas o nascimento do Willie foi muito fcil. Diz-lhe para no 
se preocupar muito. - Levantou-se: - Volto esta tarde ou amanh, se conseguir escapar-me. - A me andava sempre a arranjar-lhe trabalho. E agora, com Becky grvida, 
no cessava de mandar Crystal limpar a casa ou ajud-la com a roupa. As vezes sentia-se uma escrava, como quando esfregava o cho da sala de Becky enquanto esta e 
a me bebiam caf na cozinha.
       - Toma cuidado contigo - disse ele pouco  vontade quando ela foi soltar o cavalo. Depois corou e beijou-a no rosto. - Obrigado, Crystal. - A sua voz estava 
embargada pela emoo. - Nunca esquecerei o que fizeste.
       - Nem eu. - Ela dirigiu-lhe um olhar franco, quase to alta como ele, segurando as rdeas do seu velho cavalo:
       - D um beijo meu a Jane. - Subiu para a sela e tornou a olhar para ele. Por um momento, pensou em Spencer. Sentia-se to prxima de Boyd depois de ter ajudado 
o beb a nascer que teve vontade de lhe contar. Mas contar-lhe o qu? Que estava apaixonada por um homem que com toda a certeza j a esquecera? Afinal de contas, 
s se tinham visto duas vezes, mas enquanto cavalgava e direo a casa, sorrindo para si prpria, pensando no beb adormecido nos braos de Hiroko, deu consigo a 
sonhar de novo com ele. Era s o que lhe restava, os sonhos com ele, as recordaes do pai e as fotografias que enfeitavam as paredes do seu quarto.
       
Captulo 8
       
       - Onde  que estiveste o dia todo? Procurei-te por toda a parte. - A me esperava-a na cozinha quando ela regressou do parto de Hiroko. E, durante um momento 
louco, teve vontade de lhe contar o que acabara de acontecer. Fora lindo e excitante, mas muito assustador. Para uma rapariga que ainda no tinha dezessete anos, 
ela percebera rapidamente o que significava ser mulher.
       - Andei por a a cavalo. Achei que no ia precisar de mim.
       - A tua irm no se sente bem. Quis que fosses at l e a ajudasses. - Crystal assentiu. Becky nunca se sentia bem, pelo menos que o admitisse. - Quer que 
tomes conta do Willie. - A velha histria do costume.
       - Est bem.
       No lava-loua havia pratos que Olivia deixara para ela lavar, e depois de ter cumprido essa tarefa, atravessou os campos e dirigiu-se a casa da irm. Tom 
estava a ouvir rdio e a sala cheirava a cerveja. O pequeno Willie andava por ali com uma camisola interior e uma fralda. O aposento estava muito desarrumado, e 
Becky metera-se na cama, a ler uma revista e a fumar. Crystal ofereceu-se para lhe fazer o almoo e ela concordou sem sequer levantar o olhar. A jovem foi at  
cozinha e preparou uma sanduche.
       - Faz-me uma tambm, oka, querida? - gritou Tom, meio bbedo. - E traz-me outra garrafa do frigorfico, est bem? - Ela foi at  sala entregar-lhe a cerveja 
e pegou em Willie. Estivera a fazer um bolo no cinzeiro com o leite do seu bibero meio vazio. Cantarolou todo contente quando Crystal o acariciou. Cheirava mal, 
e ela percebeu que ningum se incomodara a mudar-lhe a fralda. - Por onde  que andaste? Ouvi dizer que a tua me andou  tua procura. - Ele vestia uma camisola 
interior com duas meias-luas de suor nos sovacos. Tudo nele era repugnante, mas olhou-a fixamente. Crystal tinha muito bom aspecto, enquanto a mulher estava gorda 
e cansada e lamentava-se constantemente, nem parecia que as duas raparigas eram da mesma famlia.
       - Fui visitar uns amigos - respondeu ela num tom evasivo, com o beb nos braos.
       - Tens um namorado novo?
       - No, no tenho - ripostou ela regressando  cozinha. As suas pernas pareciam interminveis nas calas de ganga justas e ele admirou-lhe o traseiro quando 
ela se afastou para lhe preparar a sanduche.
       S regressou a casa  hora de jantar, depois de ter limpo tudo, feito o almoo e ter dado banho ao pequeno Willie. Ficava doente quando via o modo como o 
sobrinho era tratado. E agora iam ter outro filho, para o deixarem andar todo sujo pela casa, a chorar durante metade do tempo com fome porque Becky no estava com 
disposio para cozinhar. Tom saiu antes de ela partir e Crystal sentiu-se aliviada. No gostava da forma como ele a olhava, nem das perguntas sobre os namorados. 
Nunca tivera nenhum. S os seus sonhos inofensivos com Spencer. Os outros temiam-na, o que no lhe importava. Nada tinha em comum com eles. As suas vidas estavam 
confinadas ao vale. No faziam idia de que havia um mundo para alm dele, nem desejavam sequer encontr-lo, ao contrrio de Crystal, que ansiava por mais do que 
aquilo que Alexander Valley tinha para oferecer.
       Becky nem se incomodou a agradecer-lhe e ao chegar ao rancho a me mandou-a descascar batatas para o jantar. Ela fez o que lhe mandavam, mas quando terminou 
foi-se deitar, demasiado cansada para se lembrar de comer. Pensou em Hiroko durante algum tempo, antes de adormecer, prometendo que iria visit-los na manh seguinte 
a seguir  missa. Teria de arranjar maneira de se escapulir da me e da irm. Pareciam ter sempre algo para ela fazer. As coisas eram to diferentes de quando o pai 
era vivo! Ao fim de dois meses Crystal tornara-se apenas noutra empregada, algum que lhes fazia as coisas e limpava as porcarias, algum com quem podiam gritar 
e tambm desprezar. Via dio nos olhos da me quando esta julgava que ela no estava a olhar. Detestava-a, mas Crystal no sabia por qu. Nunca lhes fizera nada, 
s amara o pai.
       As aulas acabaram em junho, e s lhe faltava um ano para completar o liceu. Mas o que iria fazer depois disso? A vida continuaria a ser a mesma: trabalharia 
no rancho e veria Tom destruir aquilo que o pai e o av dela tinham construdo, o rancho que Tad tanto amara. Tom ia arrancar as vinhas nesse ano, pois fora incapaz 
de vender as uvas pela primeira vez em muitos anos, e vendera tambm grande parte do gado, dizendo que lhe dava muito que fazer. Aquilo aumentara a sua conta bancria 
mas reduzira bastante os lucros do rancho, e todos o sentiram.
       O beb de Becky nasceu logo aps o fim das aulas de Crystal. Desta vez foi uma menina, que era tal e qual o pai. Mas era a filha de Hiroko que alegrava o 
corao de Crystal. Batizaram-na numa igreja em So Francisco e pediram a Crystal que fosse a madrinha. Tivera de inventar inmeras mentiras para explicar  me 
onde iria estar todo o dia, mas fora com eles, fascinada com aquilo que via, e sentiu-se viva e rejuvenescida quando regressou a Alexander Valley.
       O Vero foi muito agradvel, quando Crystal fez dezessete anos. Passava muitas horas com Boyd, Hiroko e a filha deles. A pequena Jane continuava to parecida 
com Hiroko como quando nascera, no entanto, tambm havia nela algo de Boyd, uma expresso, um sorriso, e o cabelo castanho-avermelhado que combinava to bem as cores 
do cabelo dos pais. Crystal ficava horas a fio deitada na relva  sombra da rvore, segurando o beb junto de si, sentindo o seu calor enquanto ela balbuciava. O 
tempo que passava junto dos amigos era o melhor da sua vida. S regressava a casa ao fim da tarde, a tempo de ajudar a me e a av a preparar o jantar. Tal como 
Tom, de vez em quando a me acusava-a de ter um namorado e dizia-lhe que ela devia ajudar a irm com os filhos, mas ela tinha outras coisas na cabea, e Becky tambm. 
Toda a gente no vale comentava que Ginny Webster tinha um caso com Tom. E Crystal suspeitava que havia nisso alguma verdade. Perguntou uma vez a Boyd, mas ele limitou-se 
a encolher os ombros e a dizer que no acreditava naquilo que as pessoas diziam, mas ao diz-lo, corou tanto que o seu rosto ficou quase da cor do cabelo. Ento 
era verdade Crystal no ficou surpreendida, mas perguntou-se se ele teria ousado fazer isso se o pai fosse vivo. Agora j no interessava, Tad morrera e Tom Parker 
podia fazer o que bem lhe apetecesse.
       Tom e Becky batizaram a menina no final do Vero, antes de as aulas de Crystal comearem. Mas desta vez Spencer no apareceu, e a me no deu uma festa muito 
grande. Convidaram alguns amigos para o almoo depois da cerimnia religiosa. Tom embebedou-se e foi-se embora bastante cedo, enquanto Becky chorava na cozinha com 
a me. E Crystal foi a p at ao riacho e sentou-se perto do local onde o pai estava sepultado. Era difcil acreditar que ainda h um ano ele estava vivo, e que 
ela estivera no balano a falar com Spencer. Nessa altura era uma criana, compreendeu ela, mas agora j no o era. O ano que passara fora demasiado difcil, as 
perdas demasiado grandes, a dor demasiado profunda. Crystal tinha apenas dezessete anos, mas j era uma mulher.
       
Captulo 9
       
       O convite foi entregue no seu escritrio, e Spencer sorriu quando olhou para ele. O pai tivera razo. Eleja lera a notcia nos jornais havia algumas semanas. 
Harrison Barclay havia sido nomeado para o Supremo Tribunal, e Spencer fora convidado para a sua tomada de posse.
       Tivera um bom ano, cheio de trabalho e de pessoas simpticas. A Anderson, Vincent e Sawbrook era conservadora, mas, para sua surpresa Spencer gostou disso. 
E sara-se bem. J era assessor de um dos scios. E o pai estava contente com ele. Houvera algumas escaramuas iniciais entre os dois homens, especialmente por causa 
de Barbara. Os pais haviam alugado uma casa em Long Island durante o Vero, e Barbara passara a a maior parte do ms de Agosto com as duas filhas. E Alicia e William 
Hill contavam tambm com a presena de Spencer. Ele acabou por no poder evitar a ida. Passara l duas semanas, com Barbara a atirar-se a ele, e os olhos dos pais 
cheios de expectativa. Ela esperara por ele, dissera a me. "Ela ama-te", afirmara o pai. E, por fim Spencer explodira. Ela esperara por Robert, no por ele, e no 
tinha culpa que o irmo fosse morto no Pacfico. Barbara era uma rapariga simptica, e ele adorava as sobrinhas, mas era a viva do irmo. J bastava a Spencer ter 
de ser advogado. No prometera aos pais nem ao falecido irmo que tambm casaria com a sua viva.
       Barbara abandonara a casa em lgrimas e Spencer teve uma grande discusso com os pais. Pouco depois, deixou Long Island para nunca mais voltar, e s voltou 
a v-los em meados do outono. Nessa altura j Barbara regressara a Boston com as filhas, e ele soube por um amigo que ela andava a sair com o filho de um poltico 
muito importante. Era a escolha perfeita para Barbara, e Spencer desejou que ela fosse feliz. S queria ter uma oportunidade de se sair bem e talhar uma vida  sua 
medida. Gostava de Nova Iorque, mas ainda sentia a falta da Califrnia. E, de vez em quando, dava consigo a pensar em Crystal. Mas isso acontecia com menos freqncia. 
Ela estava demasiado distante, e no era real. Fora apenas uma viso rara e muito bela, como uma flor silvestre que paramos para admirar nas montanhas, para no 
voltar a ser vista, mas nunca esquecida. Recebera uma carta de Boyd quando a filha deles nascera, mas a missiva no falava de Crystal. Tambm foi informado que Tom 
e Becky haviam tido outro beb. Mas agora tudo isso parecia muito distante. Para ele fazia parte da guerra, parte de uma outra vida. Andava envolvido no seu trabalho 
na Anderson, Vincent e Sawbrook, e comeava a aprender muita coisa sobre impostos e legislao. Os seus verdadeiros interesses estavam na rea da criminologia, mas 
nenhum dos seus clientes tinha problemas desses. Ajudava a redigir testamentos complicados, e era um trabalho interessante que podia discutir com o pai.
       Quando jantou com os pais nessa noite, descobriu que eles tambm haviam sido convidados, mas o pai informou-o que estava demasiado ocupado para poder ir.
       - Tu vais?
       - Duvido, pai, mal o conheo. - Spencer dirigiu-lhe um sorriso. O pai estava muito bem. Participava num caso muito importante e Spencer sentia-se ansioso 
por saber mais informaes do que aquelas que j lera nos jornais.
       - Devias ir. Ele  uma pessoa com quem nunca deverias perder o contacto.
       - Vou tentar, mas no sei se me poderei afastar do escritrio. - Spencer esboou um sorriso, parecendo ter menos do que os seus vinte e nove anos. Estava 
bronzeado devido aos fins-de-semana que passara na praia, e nos ltimos tempos tinha jogado muito tnis. - Sinto-me um idiota se for, pai. Ele no me conhece assim 
to bem. E no tenho tempo para me deslocar a Washington.
       - Podes arranj-lo. Estou certo de que a tua firma gostaria que fosses. - Sempre responsabilidades e obrigaes. s vezes aquilo irritava-o. A vida ali parecia 
repleta de coisas que eram "esperadas". Fazia parte do mundo adulto, parte de estar no mundo "real", mas ele nem sempre tinha a certeza de gostar.
       - Vou ver. - Mas, para sua surpresa, o scio com quem trabalhava repetiu as palavras do seu pai uns dias mais tarde. Spencer referiu-se ao convite durante 
um cocktail no River Club, e o seu mentor sugeriu que ele deveria ir  tomada de posse de Harrison Barclay.
       -  uma honra ser convidado.
       - Mas mal o conheo, sir. - Fora o que dissera ao pai, mas o scio mais velho abanou a cabea.
       - No importa. Um dia ele pode vir a ser importante para si. Tem de se lembrar dessas coisas. Alis, gostaria de recomendar a sua ida. - Spencer assentiu, 
aceitando o conselho, mas sentiu-se idiota ao aceitar o convite. A firma chegou ao ponto de lhe fazer uma reserva no Shoreham, e ele foi para Washington de comboio 
na vspera da tomada de posse. O quarto que lhe tinham reservado era arejado e espaoso, e Spencer sorriu para si prprio quando se sentou numa confortvel poltrona 
de cabedal e pediu ao servio de quartos um scotch. Era um estilo de vida bastante agradvel, e talvez fosse giro tornar a ver os Barclay. Calculou que Elizabeth 
iria estar presente; no tivera notcias dela desde que ela fora para Vassar. Provavelmente havia outros pretendentes na costa, e ele tambm tinha a sua quota de 
senhoras amveis. No ltimo ano sara com uma dezena de mulheres. Levara-as a jantar no 21, no L Pavilion e no Waldorf. Tinham ido a festas, ao teatro, jogado tnis 
com ele no Connecticut e em East Hampton, mas no havia ningum de quem ele gostasse especialmente. E trs anos depois do fim da guerra, todas pareciam ainda estar 
cheias de pressa para casar. Isso para ele no era uma necessidade premente, ainda tinha de pr muita coisa em ordem na sua vida. O Direito no parecia ser o fim 
para ele. Gostava mais do que fazia do que aquilo que tinha pensado, mas secretamente admitia para si prprio que era pouco excitante. Ainda tentava descobrir como 
se integrar em algo mais emocionante e exigente. E aos vinte e nove anos achava que ainda havia muita coisa boa que lhe estava reservada antes de assentar de vez 
com algum. Primeiro, era necessrio encontrar a rapariga certa, e ela ainda no surgira.
       Spencer comeava a reencontrar o seu rumo depois da interrupo provocada pela guerra e aps o choque que fora a morte do irmo. A dor comeava a atenuar 
nessa altura. Robert falecera havia quatro anos e os pais ainda falavam muito dele, mas Spencer j deixara de sentir que tinha de o substituir. Agora era senhor 
de si, e havia ocasies em que se sentia no topo do mundo, a controlar tudo o que fazia. s vezes, sentia-se sozinho, mas nem sequer tinha a certeza que se importava. 
Gostava de estar sozinho. E apesar de aquela profisso no ser exatamente a que quisera, acabara por a adotar.
       O dia seguinte nasceu soalheiro e luminoso. Naquela fresca manh de Setembro, Spencer dirigiu-se ao edifcio do Supremo Tribunal para a tomada de posse. Vestia 
um fato escuro s riscas, uma gravata sbria, e com o cabelo escuro brilhante e os seus olhos azuis estava muito atraente. Vrias mulheres viraram a cabea para 
o observar, embora ele parecesse no ter reparado. E depois conseguiu apertar a mo ao juiz Barclay antes de a multido o engolir e ele ser arrastado. No viu ningum 
conhecido, e teve pena de o pai no ter podido acompanh-lo.
       Nessa tarde visitou o Washington Monument e o Lincoln Memorial, e depois foi ate ao hotel para comer qualquer coisa antes de se vestir para a festa para que 
fora convidado nessa noite. Os Barclay iam oferecer um jantar danante no Mayflower Hotel para celebrar o novo cargo.
       Spencer saiu do hotel com um smoking, chamou um txi para se dirigir  festa, e esperou pacientemente atrs dos outros convidados, sendo em seguida calorosamente 
cumprimentado por Priscilla Barclay.
       - Ainda bem que veio, senhor Hill. Tem visto a Elizabeth?
       - Obrigado. No, no tenho.
       - Vi-a h poucos minutos. Estou certa de que ela ficar muito contente por v-lo de novo.
       Spencer deslocou-se um pouco para cumprimentar o juiz, e depois avanou rapidamente para deixar espao para os outros convidados na longa fila atrs de si. 
Foi at ao bar e pediu um scotch com gua, e olhou em volta para o grupo de pessoas que se reunira. A maior parte delas era de mais idade, e as mulheres envergavam 
vestidos caros. Era um ajuntamento interessante das pessoas mais conhecidas e ais importantes do pas, e ele sentiu-se orgulhoso de estar ali. Bebeu um gole da bebida 
ao reconhecer um dos outros juizes do Supremo, e depois observou uma rapariga que conversava com um homem mais velho. Quando ela se virou, descobriu que era a filha 
do juiz Barclay. Parecia muito mais velha do que no ano anterior, e de certa forma mais atraente, e quando ela lhe sorriu, reconhecendo-o Spencer recordou-se de 
como Elizabeth era adulta quando a conhecera e de como era bonita. Era ainda mais bonita do que ele se lembrava. Spencer aproximou-se dela com um sorriso e os calorosos 
olhos castanhos dela pareceram iluminar-se. O cabelo castanho-avermelhado estava agora mais curto, e Elizabeth vestia um espantoso vestido de cetim branco que ficava 
lindamente com o bronzeado adquirido nas margens do lago Tahoe. Foi um choque para Spencer perceber quanto ela era bela, muito mais do que ele se recordava.
       - Ol, como tem passado? Como  que est Vassar?
       - Uma maada. - Ela sorriu-lhe, os olhos presos nos dele. - Acho que sou demasiado velha para a faculdade. - Achava Vassar muito infantil. Ao fim de trs 
meses, estava ansiosa por terminar e fazer qualquer outra coisa, mas ainda lhe faltavam trs anos. E no incio do segundo ano, comeava a duvidar se conseguiria 
terminar os estudos. - Poughkeepsie  horrvel.
       - Depois da Califrnia, tambm Nova Iorque o  s vezes. Os invernos so um pouco rigorosos, no lhe parece?
       - Riu-se. Queixara-se amargamente no ano passado, mas tornara a habituar-se, e gostava da agitao de Nova Iorque, que nada tinha a ver com a sonolenta Poughkeepsie.
       - Ainda bem que pde vir. Tenho a certeza que o meu pai ficou sensibilizado - disse ela cortesmente, e Spencer quase deu uma gargalhada. Na multido que se 
agitava  sua volta, constituda por centenas de scios e amigos, era difcil imaginar que o juiz Barclay cara "sensibilizado" com a presena de um jovem e pouco 
importante advogado.
       - Foi muito simptico da parte dele convidar-me. Deve estar muito contente com a nomeao.
       Ela sorriu-lhe, e bebeu um gole do seu gim tnico.
       - E est. Bem como a minha me. Ela adora Washington. Nasceu aqui, sabe.
       - No sabia. Calculo que para si isto tambm seja divertido. Consegue afastar-se da faculdade? - Admirou a curva suave dos ombros dela enquanto falava, e 
decidiu que gostava do novo penteado.
       - No com muita freqncia. Mal fui a Nova Iorque no ano passado. Mas vou tentar passar aqui algum tempo com eles, nas frias.  muito mais fcil do que viajar 
at  Califrnia. - Continuaram a falar durante mais algum tempo, e quando os convidados comearam a sentar-se Spencer consultou uma das muitas listas de lugares 
e descobriu que estava na mesa dela. Calculou que fora a me quem o sentara ali, e no fazia idia de que fora a prpria Elizabeth que o pedira quando revira a lista 
de convidados com a me. Ficara bastante impressionada com ele no ano anterior e sentira-se desiludida por ele nunca ter tentado contat-la em Vassar. - O que acha 
da firma de advogados em Nova Iorque?
       J no conseguia lembrar-se do nome dela, mas no se esquecera de que era bastante importante.
       - Gosto dela. - Ele sorriu enquanto a ajudava a sentar-se, e Elizabeth riu-se para ele.
       - Parece admirado.
       Os olhos dele dirigiram-lhe um sorriso e Spencer sentou-se ao lado da jovem.
       - E estou. Nunca tive muita certeza de que queria vir a ser advogado.
       - E agora j tem?
       - Mais ou menos. Penso sempre que as coisas ho-de ficar cada vez mais difceis e excitantes, mas at agora isso no aconteceu. Por acaso at est tudo muito 
confortvel.
       Ela anuiu, e depois sorriu orgulhosa na direo do pai, numa mesa ali perto.
       - E veja aonde isso pode levar.
       - Mas no leva todos. No entanto, de momento sinto-me satisfeito a fazer aquilo que estou a fazer.
       - J alguma vez pensou na poltica? - perguntou ela quando chegou o primeiro prato. Era sopa de lagosta, servida com vinho branco, e Spencer observou Elizabeth 
com um ar divertido. Ela continuava a ter aquele olhar inquisidor que parecia sondar toda a gente, e no receava colocar perguntas srias. Ele apreciara aquela qualidade 
no ano anterior, e tomou a reparar nela. Elizabeth no receava abordar qualquer assunto e ele admirava isso. Tomava a iniciativa e seguia em frente. Era uma mulher 
com domnio de si prpria, do que a rodeava, e ele suspeitou que se tivesse oportunidade, tambm dominaria as pessoas  sua volta. Naquele momento ela observava-o 
com interesse, muito envolvida na poltica por causa do pai.
       - O meu irmo tinha aspiraes nesse sentido, ou pelo menos assim pensava. Mas no tenho a certeza de que a perspectiva me agrade. - O problema era que ele 
ainda no sabia o que  que lhe agradava.
       - Se eu fosse homem, enveredaria por esse caminho. - Elizabeth parecia to segura de si que ele a invejou um pouco. Riu-se. Ela era bastante enrgica. Recordou-se 
que da ltima vez que a vira ela lhe dissera que queria ser advogada.
       - O que  que est a estudar em Vassar?
       - Cincias Humanas. Literatura. Francs. Histria. Nada muito excitante.
       - O que  que gostaria de fazer? - Ela intrigava-o bastante, com a sua agudeza de esprito e abordagem direta. Elizabeth Barclay no era uma violeta medrosa.
       - Desistir da faculdade e fazer alguma coisa til. Pensei em vir para Washington durante algum tempo, mas o meu pai ia tendo um ataque quando falei no assunto. 
Quer que eu termine primeiro o curso.
       - Parece-me razovel. S lhe faltam mais trs anos. - Mas ao v-la, tambm ele achava esse tempo interminvel.
       - J tornou a regressar  Califrnia?
       - No - respondeu com pesar. - Ainda no tive tempo, e o ano passou muito depressa.
       Ela concordou. Tambm o achara muito rpido em alguns aspectos, noutros demasiado lento. Regressara a So Francisco no Natal para debutar no Cotillion e os 
pais tinham-na apresentado  sociedade no Burlingame Country Club, pouco tempo antes. E depois,  claro que passara o Vero no lago Tahoe. Mas estava mais interessada 
em visitar Nova Iorque e Washington nesse Inverno. Os pais j a tinham convidado para passar o Natal e Palm Beach.
       Nessa altura, a orquestra comeou a tocar e Spencer convidou-a para uma dana aos primeiros acordes de Imagination, enquanto esperavam pelo prato principal. 
Conduziu-a at  pista de dana. Ela danava lindamente, e ele baixou o olhar para o cabelo castanho-avermelhado e para os ombros bronzeados. Tudo nela sugeria sade, 
bem-estar e poder. Ela contou-lhe que no Vero seguinte iria  Europa com os pais, no lie de France, e perguntou-lhe se alguma vez l estivera. Ele respondeu que 
no. O pai prometera envi-lo at l quando acabasse a faculdade, mas nessa altura comeara a guerra, ele alistara-se logo a seguir, e, em vez disso, fora para o 
Pacfico. Elizabeth tambm comentou que dali a umas semanas iria a Nova Iorque visitar um dos irmos. lan Barclay trabalhava numa firma de advogados ainda mais ilustre 
do que a que empregava Spencer.
       - Conhece-o?
       Ela levantou o rosto para Spencer com um ar muito jovem e atraente, e ele comeou a sentir os efeitos do scotch. Gostava de a sentir sob as mos, e enquanto 
danavam reparou pela primeira vez no perfume dela.
       - No, no conheo. Mas o meu pai conhece. - Lembrou-se de que o pai comentara que Barclay estivera na sua sala de audincias. - Vai ter de mo apresentar. 
- Era a primeira vez que ele sugeria algo que indicava que a tornaria a ver.
       - Gostaria muito. - Ela parecia vitoriosa e magnificente quando ele a conduziu de volta  mesa. Sentaram-se para terminar o jantar e conversar com os amigos 
dos pais dela. No fim da noite Spencer achava que a conhecia um pouco melhor. Elizabeth jogava tnis, gostava de esqui, falava um pouco de francs, detestava ces 
e no parecia muito interessada em crianas. Durante a sobremesa, admitiu que aquilo que pretendia era conseguir fazer algo da sua vida, e no se limitar a jogar 
bridge e a ter filhos. Para Spencer era bvio que ela adorava o pai e pretendia casar-se com algum como ele, um homem que "fosse a algum lado", como ela dizia, 
no algum que se contentasse em se sentar numa cadeira e deixar que a vida lhe passasse ao lado. Queria casar com um homem que fosse importante. Era demasiado nova 
para ter j tantas certezas, ainda no fizera vinte anos, mas conhecia-se em e tinha muitas oportunidades de conhecer o homem que pretendia. E quando saam do salo 
de baile Spencer apercebeu-se de que ela teria gostado muito mais de Robert do que dele.
       - Quer ir beber um copo a qualquer lado? - Ficou admirado ao ouvir-se fazer aquela pergunta, mas gostava de falar com ela.
       - Pode ser. Onde  que est instalado? - Os olhos castanhos dela olharam diretamente para os dele. No tinha medo de nada, muito menos de Spencer.
       - No Shoreham.
       - Ns tambm. Podemos beber qualquer coisa no bar. Vou s avisar a minha me. - Assim foi, e poucos minutos depois partiram. Era quase uma da manh, a maior 
parte dos convidados j se tinha ido embora, e a me no objetou a que ela sasse com Spencer. Era um homem irrepreensvel, atraente, e sabia que podia confiar-lhe 
a filha. Fez-lhes adeus quando partiram, mas Spencer no quis interromper o que parecia ser uma conversa sria com o presidente da Assemblia Legislativa. Saram 
discretamente e apanharam um txi de volta para o hotel. Instalaram-se numa mesa tranqila a um canto do bar. Spencer reparou que vrias cabeas se viraram quando 
entraram. Faziam um casal muito atraente.
       Pediu champanhe, e falaram, durante algum tempo, sobre Nova Iorque, o emprego dele, e acerca da Califrnia. Ele contou-lhe o quanto adorara So Francisco 
e que um dia gostaria de l viver, embora no visse como isso seria possvel enquanto trabalhasse para uma firma de Wall Street. E ela riu-se, pois queria mudar-se 
para Nova Iorque quando acabasse a faculdade, ou talvez para Washington, agora que os pais iriam ali passar a maior parte do ano. Comentou que gostaria de ter a 
sua casa em Georgetown.
       Pelo modo como falava, era evidente que Elizabeth nunca tivera falta de nada. Nunca lhe ocorrera que poderia no conseguir aquilo que desejava. Mas ele j 
tinha calculado isso quando a conhecera em So Francisco. A casa onde ela vivia com os pais era opulenta e bonita, e no era difcil ver que a sua vida no tivera 
sobressaltos. Ambos os progenitores vinham de famlias muito abastadas.
       - Um dia destes tem de ir a Tahoe. O meu av construiu uma casa lindssima  beira do lago. Adoro-a desde mida. - Mas, estranhamente, quando Elizabeth disse 
aquelas palavras, Spencer pensou em Alexander Valley, e perguntou-lhe se alguma vez l fora. - No, mas fui uma vez a Napa visitar um amigo do meu pai. No entanto, 
no h l muito que ver, exceto as vinhas e algumas casas vitorianas. - Aquilo parecera-lhe muito montono, mas ficou intrigada quando Spencer lhe descreveu o vale 
mais a norte. Viu algo nos olhos dele que lhe despertou uma certa curiosidade. Era um olhar cheio de recordaes, um olhar que lhe disse que ali havia mais qualquer 
coisa. - Tem l amigos?
       Ele concordou, pensativo:
       - Dois homens que serviram no Exrcito comigo moram l. - Nessa altura falou-lhe de Boyd e de Hiroko e a expresso dos olhos dela tornou-se mais dura enquanto 
o ouvia.
       - Foi uma estupidez da parte dele casar com ela. Ningum vai esquecer o que aconteceu no Japo. - De repente, parecia uma rapariga mimada e insensvel, e 
isso aborreceu-o. Era exatamente o mesmo tipo de reao que se deparara a Hiroko desde que chegara  Califrnia.
       - Acho que os Japoneses tambm no iro esquecer o que se passou em Hiroxima - disse ele numa voz calma, mas sem conseguir ocultar a sua ira.
       - No disse que o seu irmo foi morto no Pacfico? - O olhar dela trespassou-o, e Spencer dirigiu-lhe um olhar franco.
       - Pois foi, mas no odeio os Japoneses por causa disso. Tambm lhes causamos muitas mortes. - Era uma viso pacifista a que ela no estava habituada, e que 
no era semelhante  opinio do pai dela. O juiz Barclay era ultraconservador e aprovara sem reticncias o bombardeamento de Hiroxima. - Odeio tudo aquilo que l 
fizemos, Elizabeth. Ningum ganha uma guerra, a no ser talvez os governos. As pessoas perdem sempre, em ambos os lados.
       - No sou da sua opinio. - Ela parecia muito afetada e ele tentou acalmar-se tomando as coisas de nimo leve.
       - Calculo que tambm gostaria de se ter alistado no Exrcito. - Tal como gostaria de ser advogada, ou poltica.
       - A minha me trabalhou para a Cruz Vermelha, e eu tambm teria trabalhado se tivesse idade suficiente.
       Ele suspirou. Ela era ainda to nova, to ingnua e to influenciada pelas idias dos pais! Spencer tinha a sua viso da guerra, que por sinal diferia muito 
da de seu pai. Estava contente por ela ter terminado, mas ainda recordava os amigos que perdera, os homens que tinham l estado com ele... e o irmo. Ento olhou 
para Elizabeth, e sentiu-se quase suficientemente velho para poder ser pai dela, no apenas com mais dez anos.
       - A vida  engraada, no , Elizabeth? Nunca se sabe para que lado ir. Se o meu irmo no tivesse sido morto, talvez eu nunca tivesse ido para a Faculdade 
de Direito. - Sorriu: - Talvez nunca a tivesse conhecido.
       -  uma forma estranha de encarar as coisas. - Sentia-se intrigada a respeito dele. Era honesto, meigo e inteligente, mas no to ambicioso como ela gostaria. 
Parecia saborear a vida  medida que ela passava, esperando ver para que lado o levaria. - Ns traamos o nosso prprio destino, no lhe parece?
       - Nem sempre. - Vira j demasiada realidade para acreditar naquilo. E se tivesse traado o seu, a sua vida teria sido muito diferente. - Acha que ir traar 
o seu? - Estava to fascinado por ela como ela por ele. Eram to diferentes!
       - Provavelmente. - Parecia cheia de certezas, e ele admirou-a pela sua confiana e determinao.
       - Creio que o far, se tiver oportunidade.
       - Isso surpreende-o? - Estava to segura, to serena, to senhora de si depois de uma noite to longa.
       - Nem por isso. Voc parece-me ser uma pessoa que sempre teve tudo o que quis.
       - E voc? - A voz dela tornou-se mais suave. - Teve alguma desiluso Spencer? - Perguntou-se se ele perdera algum de quem gostara muito, ou rompera um noivado, 
as no fora esse o caso.
       Ele sorriu antes de responder, pensando no que iria dizer-lhe.
       - No uma desiluso; s enviado para outra rota, digamos assim. - E em seguida riu-se enquanto servia o resto do champanhe. O bar iria fechar em breve, e 
teria de a levar para junto dos pais, ou pelo menos at  sute deles. Sabiam ambos que a noite no se prolongaria. - Quando voltei para casa, os meus pais queriam 
que eu casasse com a mulher do meu irmo, ou seja, a sua viva. Houve alguma agitao por essa altura.
       - E porque no casou? - Queria saber tudo sobre ele. Ele olhou-a nos olhos.
       - Porque no a amava. Isso para mim  importante. Ela era a mulher do Robert, no a minha. Eu no sou o meu irm. Sou outra pessoa.
       - E que tipo de pessoa Spencer? - A voz dela parecia uma carcia no aposento obscurecido. Fitou-o: - O que  que voc quer?
       - Algum para amar... e respeitar... e cuidar. Algum que se ria quando as coisas correm mal... algum que no tenha receio de me amar... algum que precise 
de mim. - Sentiu-se muito vulnervel ao dizer-lhe aquelas coisas, e no sabia o que o levara a expor-se daquela maneira. Perguntou-se se Crystal se encaixaria naquela 
descrio. No era provvel. Era estranho como a recordao dela no o abandonara. Era uma rapariga com uma beleza selvagem, de um lugar distante. Apenas sabia como 
era doce e meiga, e aquilo que sentia quando estava junto dela. Desconhecia o que lhe ia na alma, ou em que se transformaria quando chegasse a adulta. Tambm no 
sabia como era Elizabeth no seu ntimo, mas suspeitava que no era frouxa. Era feita de material mais duro, e no conseguia imagin-la a precisar de algum, a no 
ser do pai. - Se tudo fosse como queria, do que  que gostaria, Elizabeth?
       Ela sorriu e foi to franca como ele.
       - De algum importante.
       - Isso diz tudo, no diz? - Spencer riu-se, mas as palavras dela tinham atingido o alvo. Elizabeth era exatamente o que ele pensara. Forte, inteligente, interessante, 
viva, ambiciosa e independente.
       Acompanhou Elizabeth ao quarto e despediu-se dela no corredor. Ao abrir a porta, ela virou-se e olhou-o com um sorriso meigo.
       - Quando  que regressa a Nova Iorque?
       - Amanh de manh.
       - Eu fico aqui mais alguns dias. Vou ajudar a minha me a procurar uma casa. Mas volto para Vassar na prxima semana. Spencer, telefone-me - acrescentou ela 
numa voz to baixa que ele mal ouviu.
       - Como  que a posso encontrar? - Pela primeira vez pensou em ligar-lhe, embora no soubesse bem por qu. Achava-a demasiado dominadora, mas no entanto poderia 
ser divertido lev-la a jantar ou ao teatro. Decerto no o iria embaraar, e era interessante conversar com ela. Havia algo vagamente intrigante no fato de sair 
com a filha do presidente do Supremo Tribunal.
       Ela disse-lhe em que camarata estava, e ele prometeu no se esquecer. Depois agradeceu-lhe a noite.
       - Diverti-me muito. - Pareceu hesitar, indeciso quanto ao que dizer a seguir, mas ela parecia bastante  vontade ali  porta do quarto.
       - Eu tambm. Obrigada. Boa noite, Spencer. Depois a porta fechou-se devagarzinho e ela desapareceu. Ele regressou lentamente ao elevador, perguntando-se se 
lhe iria mesmo telefonar.
       
Captulo 10
       
       O scio com quem Spencer trabalhava ficou satisfeito quando este regressou a Nova Iorque e lhe falou da tomada de posse e do jantar que se lhe seguira. Agradava-lhe 
que os jovens advogados da firma se dessem com pessoas importantes. O fato de o pai de Spencer ser juiz tambm no lhe fora nada prejudicial. Este ficou muito satisfeito 
quando o filho lhe contou, e  me, a sua ida a Washington. Spencer no falou em Elizabeth, pois o assunto no lhe parecia importante e no queria que eles acalentassem 
esperanas.
       E no fim, depois de pensar no assunto durante algum tempo, decidiu no lhe telefonar.
       No entanto, Elizabeth tomou o assunto nas suas mos um ms mais tarde, quando foi a Nova Iorque visitar o irmo. Procurou o nome de Spencer na lista e ligou-lhe. 
O telefonema ocorreu num sbado, e ele ficou surpreendido por ouvir a voz dela. Ia mesmo a sair para disputar uma partida de squash com os colegas do escritrio.
       - Liguei em m altura? - Como habitualmente, a voz dela parecia cheia de maturidade, e ele sorriu, olhando pela janela e agitando a raquete.
       - De maneira nenhuma. Como tem passado?
       - Bem. Vassar est um pouco melhor este perodo. - No lhe contou que andava a sair com um dos professores. Os rapazes da sua idade sempre a tinham aborrecido. 
- Estava a pensar se voc no quereria ir esta noite ao teatro. Temos um bilhete a mais.
       - Est com os seus pais?
       - No. Estou em casa do meu irmo e da mulher. Esta noite vamos ver Summer and Smoke no Teatro Music Box. J viu?
       - No, mas gostaria - respondeu ele, sorrindo. Bolas, que perigo poderia haver com o irmo dela por perto? No confiava no seu comportamento se estivesse 
sozinho com ela. No queria envolver-se com uma pessoa que tinha idias to definidas a respeito do futuro. Ainda se recordava da resposta que ela lhe dera quando 
lhe perguntara o que procurava ela na vida e ela lhe respondera "algum importante".
       - Vamos jantar ao Chambord antes da pea. Porque no vai l ter conosco? Digamos, s seis?
       - timo. Encontrar-nos-emos l. E obrigado, Elizabeth. - No sabia se deveria pedir desculpas por no lhe ter ligado, mas decidiu que era melhor no o fazer. 
Ela estava a facilitar-lhe as coisas. O melhor restaurante, o melhor espetculo, e uma apresentao ao seu famoso irmo, lan Barclay.
       Spencer chegou ao restaurante exatamente  hora marcada e reconheceu-a de imediato, com um fato preto de impecvel corte e um pequeno chapu de veludo preto 
sobre um penteado muito atraente. Ela parecia preocupar-se muito com a sua imagem, e ele apreciava isso. Era bonita e elegante, e sempre muito notada. Para uma rapariga 
que ainda no completara vinte anos, ela tinha muito estilo, e o irmo lan tambm. Spencer achou-o um homem muito inteligente, embora um pouco radical quanto s 
suas idias polticas. Mas, apesar disso, Spencer simpatizou com ele. A mulher era uma inglesa muito bonita que ele conhecera durante os rais areos que fizera com 
a Royal Air Force. Era filha de Lord Wingham, e Elizabeth no se esqueceu de lho referir. A vida dela estava repleta de nomes importantes e pessoas ilustres, com 
cargos poderosos. De certa forma Spencer sentia-se tambm cheio de poder quando estava com ela, como se isso fosse contagioso. Sabiam todos muito bem quem eram e 
para onde iam e era fcil perceber por que motivo isso tinha tanta importncia para Elizabeth. lan e Sarah tencionavam passar o Natal em St. Moritz, e no Vero tinham 
ido a Veneza. Depois haviam passado por Roma e tido uma breve audincia com o papa Pio, porque este conhecia o pai dela. Sarah possua o enorme -vontade da aristocracia 
e parecia esperar que todos conhecessem as mesmas pessoas que ela.
       Gostaram da pea, e depois Spencer convidou-os para o Stork Club. Danaram, conversaram e riram-se, e por fim foram ao apartamento dos Barclay em Sutton Place. 
Ainda no tinham filhos, e Sarah parecia muito mais interessada nos seus cavalos. Falou dos que eram usados nos saltos e na caa e convidaram Spencer a ir montar 
com eles um dia. Era tudo muito agradvel, e desta vez, quando ele disse a Elizabeth que lhe ligaria, estava a falar a srio. Sentia que lhe devia algo depois daquela 
agradvel noite, e era precisamente isso que ela queria.
       Ligou-lhe duas semanas mais tarde, e ter-lhe-ia telefonado mais cedo, explicou, se no tivesse tido tanto trabalho no escritrio. Mas ela no o repreendeu 
por no lhe ter ligado. Combinaram encontrar-se no fim-de-semana seguinte. Ficou de novo em casa do irmo, e Spencer levou-a a jantar no Stork Club. No queria impression-la, 
mas Elizabeth era o tipo de rapariga que s se levava aos melhores locais. Falou-lhe dos casos de que se ocupara, na sua maioria litgios que envolviam negcios 
ou impostos. E nessa noite, quando a levou a casa, pararam  porta do apartamento do irmo dela e ele beijou-a.
       - Gostei muito desta noite - disse ela muito calma, mas havia no seu olhar uma expresso carinhosa que no passou despercebida a Spencer.
       - Tambm eu. - E estava a falar a srio. Ela era uma companhia agradvel, e estava deslumbrante num vestido prateado que a cunhada lhe trouxera de Paris. 
- Que vais fazer no prximo fim-de-semana?
       - Tenho exames. - Ela riu-se: -  estpido, no ? Isto d cabo da minha vida social. - Riram-se ambos, e ele sugeriu que ela poderia regressar a Nova Iorque 
no fim-de-semana seguinte.
       Ela assim fez, e tornaram a sair. Desta vez, os beijos foram um pouco mais fervorosos. O irmo e a cunhada tinham ido passar o fim-de-semana a Nova Jersey, 
para participar numa caada, e ela convidou Spencer para uma bebida no fim da noite. Ficaram no sof durante bastante tempo, a conversar e a beijarem-se. Depois 
ele sentiu-se culpado. Ela era demasiado nova para estar a us-la daquela maneira, e no imaginava que a situao pudesse ir mais longe. O mundo dela estava um pouco 
para alm dele. Spencer no estava apaixonado, mas sentia uma forte atrao fsica e sabia que gostava da rapariga. Gostava da sensao de poder que vogava to livremente 
no mundo dela, mas tambm se apercebia de uma certa falta de carinho. Tudo era muito calculado e frio. No entanto, como turista nesse mundo, tinha de admitir que 
o achava divertido.
       Elizabeth disse-lhe que iria passar o dia de Ao de Graas com os pais, em So Francisco, mas ele prometeu ligar-lhe assim que ela regressasse. E quando 
o fez, ela convidou-o para passar o Natal em Palm Beach.
       - No achas que os teus pais se iriam importar? - Ele parecia pouco  vontade, mas ela limitou-se a rir.
       - No sejas tonto Spencer. Eles gostam de ti.
       - Eu devia c ficar. Os Natais so um pouco difceis para os meus pais. - E Barbara informara-os que no traria as crianas de Boston. Estava envolvida num 
romance muito srio, e queria os filhos consigo. Sabia que os pais se iriam sentir muito sozinhos; e o Natal recordava-lhes mais o filho que haviam perdido do que 
aquele que ainda estava vivo. Spencer lembrou-se de tudo aquilo enquanto pensava no inesperado convite de Elizabeth.
       - Ento porque no vais l ter depois? Vou l ficar at depois do Ano Novo. Podes ficar na nossa casa, temos dezenas de quartos de hspedes. - Uma afirmao 
que ele suspeitava no ser um exagero. E no se enganava.
       - Vou ver se me dispensam nessa altura, e depois telefono-te. - Ligou-lhe antes de ela partir para a Florida, e para sua prpria surpresa, aceitou o convite. 
Ainda no sabia bem o que andava a fazer com ela, mas o que quer que fosse no era desagradvel.
       No Natal de Spencer no ocorreu nada de especial, e dois dias depois comeou a sua semana de frias. Embarcou no avio rumo a Palm Beach, para casa dos Barclay. 
Estes mostraram-se agradados e amveis, e a casa parecia estar cheia de convidados como ele. O irmo mais velho de Elizabeth, Gregory, tambm se encontrava presente. 
Trabalhava no Ministrio das Finanas, era um tpico banqueiro conservador. Era casado, mas a mulher no se encontrava presente;
       ningum parecia querer tocar no assunto, e Spencer no fez perguntas. Andava demasiado ocupado com Elizabeth para se importar. Foram a todas as festas da 
cidade, e ele achou que nunca vira tantos diamantes. A prpria Elizabeth punha um vestido diferente todas as noites, e uma pequena tiara que os pais lhe haviam oferecido 
no ano anterior, quando ela fora debutante.
       - Ento, ests a divertir-te? - perguntou ela um dia, quando estavam deitados na praia.
       Ele riu-se com a pergunta. Elizabeth era sempre muito direta, o que ele apreciava. No havia divagaes, rodeios, nem era preciso perguntar o que ela quisera 
dizer com certas coisas: Elizabeth dizia sempre o que queria.
       -  claro que estou. O que  que te parece? Isto  o paraso. Talvez nunca mais torne a trabalhar nem regresse a Nova Iorque.
       - timo. Quando eu acabar a faculdade podemos fugir para Cuba. - Tinham l ido de avio uma noite, para danar e jogar no cassino. Fora uma semana incrvel, 
e Spencer teve de admitir que adorara. Era uma vida fcil, repleta de gente civilizada com coisas interessantes para dizer e belas mulheres cobertas de diamantes. 
Seria fcil habituar-se a ela, mas com que finalidade? Era a vida dela, no a dele. Mas, pelo menos durante algum tempo, era divertida.
       - J gostas mais da faculdade agora? - Rolou sobre um ombro para a olhar de frente. Ela estava lindssima num fato de banho vermelho. Tinha um bronzeado que 
lhe realava o cabelo castanho-avermelhado e os olhos escuros. Era uma rapariga muito bonita, e ele gostava dela.
       - Nem por isso. Continuo a achar que estou a perder o meu tempo l.
       - J percebo por qu. - Spencer desviou o olhar para o mordomo que se aproximava com limonada e ponches de rum numa bandeja de prata, e depois tornou a olhar 
para ela. -  muito difcil largar tudo isto e ir para a faculdade e lembrares-te do motivo por que quiseste ir para l.
       - Para te ser franca, no me apetecia ir - disse ela com um sorriso.
       - Mas no podes ser advogada sem andares na faculdade. - Spencer sorriu e serviu-se de uma limonada enquanto ela bebericava um ponche de rum e lhe sorria 
sob a aba do chapu.
       - Ento acho que no vou ser advogada. - Parecia que estava a brincar, e ele riu-se.
       - Ento o que ir fazer, Miss Barclay? Concorrer a presidente?
       - Talvez case com um.
       Ele olhou-a com uma expresso meio sria.
       - Isso assentar-te-ia que nem uma luva.
       - Gostaria de se candidatar um dia a presidente, senhor Hill?
       Ele sentiu-se ligeiramente incomodado com o rumo que a conversa estava a tomar, mas limitou-se a sorrir enquanto abanava a cabea e agitava a limonada. Ela 
era uma rapariga forte, e a sua famlia era poderosa. No se podia brincar com eles durante muito tempo. E, de certa forma Spencer receava isso. No seu ntimo, atrs 
da expresso tranqila que arvorava junto dela, ele era uma alma delicada e preocupava-se com outras coisas. Coisas com que os Barclay nem sonhavam.
       - Ser presidente nunca foi uma das minhas ambies.
       - Ento senador. Um cargo pblico seria estupendo para ti.
       - Porque pensas isso?
       - Gostas das pessoas, trabalhas bastante, s honesto, direto e inteligente. - Tornou a sorrir. - E conheces as pessoas certas.
       Spencer no sabia se gostava daquilo que ela estava a dizer, e desviou o olhar para o oceano, em silncio. Perguntou-se se no teria ido longe de mais com 
ela. Talvez a ida a Palm Beach tivesse sido um erro, mas j era tarde para o corrigir. Regressaria a Nova Iorque dali a dois dias, e depois disso talvez no a visse 
durante algum tempo. Ela observou-o enquanto ele meditava, e riu-se.
       - No fiques to nervoso Spencer. No vou atacar-te. Estou apenas a dizer-te o que penso.
       - s vezes tens uma maneira muito perturbadora de o fazer, Elizabeth. De vez em quando, acho que consegues sempre o que queres. Ou antes, quero mesmo dizer 
sempre.
       E no queria ser aquilo que ela cobiava. Pelo menos por enquanto. No at sentir por ela mais do que sentia naquele momento. E no sabia se chegaria a senti-lo. 
Eram bons amigos, mas bastante diferentes um do outro.
       - Que mal h em conseguirmos o que queremos?
       - Nenhum, desde que os outros concordem que  tambm isso que querem - respondeu numa voz calma, e ela olhou-o como que a sond-lo.
       - E  isso que os outros querem? - Fez a pergunta de forma to incisiva que ele quase estremeceu.
       - Porque no vamos ao banho? - No queria responder: no estava preparado para dizer o que ela queria ouvir e no sabia se alguma vez o estaria. Ainda acalentava 
sonhos de vir a encontrar uma mulher que precisasse dele, uma mulher meiga, bondosa, terna, carinhosa. Elizabeth era algumas daquelas coisas, mas no todas. Em vez 
disso, era outras coisas. Outras coisas a que ele ainda no se acostumara.
       - No respondeste  minha pergunta. - Olhou-o quando ele se levantou. Spencer sabia que no havia maneira de fugir dela. S lhe restava dizer-lhe a verdade. 
Elizabeth no exigia menos de ningum, muito menos de Spencer.
       - Ainda no sei.
       Ela anuiu, como se desse o assunto por encerrado, e depois tornou a olh-lo nos olhos.
       - Acho que faramos os dois uma boa equipe. Temos fora e miolos para fazer coisas interessantes juntos. - At parecia que aquilo era um acordo de negcios, 
e ele sentiu-se deprimido.
       - Tais como? Dirigir uma empresa?
       - Talvez. Ou na poltica. Ou ser apenas como o lan e a Sarah.
       - Com os cavalos e os amigos, as caadas e os clubes, e o castelo do pai dela, Elizabeth? - Spencer tornou a sentar-se e olhou para ela. - Eu no sou como 
eles. Sou diferente. Quero outras coisas.
       - Que outras coisas? - Ela parecia intrigada.
       - Filhos. Nunca pensas nisso, pois no? Ela ficou admirada quando ele disse aquelas palavras. Os filhos nunca lhe tinham parecido importantes.
       - Tambm os poderamos ter. - Como diamantes, ou investimentos. Ela fazia-os parecer objetos que deveriam ser guardados no armrio. - Mas h outras coisas 
mais importantes na vida.
       - Que outras coisas? - repetiu ele, admirado com a forma como ela via o mundo. - O que  mais importante do que isso?
       - No sejas ridculo Spencer. Realizaes, feitos, criar espao para ns.
       - Como o teu pai? - Era uma crtica velada, mas ela no percebeu.
       - Exato. Um dia podias estar no lugar dele, se quisesses.
       - O problema  que no sei se  isso que quero - disse ele com pesar. - Consegues compreender?
       - Sim - respondeu ela. - Acho que tens medo. Acho que tens medo de voltar a ser confundido com o teu irmo. Mas tu no s ele Spencer; s tu prprio, e h 
muitas coisas  tua espera no mundo, basta-te sair e procur-las.
       Contudo, ele ainda no sabia se chegaria a importar-se suficientemente com isso para se dar ao trabalho de lutar para o conseguir. Por outro lado, no se 
imaginava a trabalhar em casos de litgio financeiro durante o resto da vida para a Anderson, Vincent e Sawbrook. O que iria fazer quando fosse grande? Ainda no 
se decidira quanto ao futuro.
       - Quero tomar as decises certas.
       - Tambm eu. Mas parece-me que vejo mais do que tu.
       - Porque pensas isso? Tens vinte anos. Ainda no sabes nada da vida. - De repente, sentiu-se irritado. De modo velado, ela estava a pedi-lo em casamento, 
e parecia que tentava convenc-lo a comprar algo, uma casa, um carro, ou um objeto. E Spencer queria ser ele a fazer o pedido, se fosse isso que decidisse fazer. 
Mas no o decidira, e achava que nunca o decidiria. No a amava.
       - Sei mais da vida do que pensas. Pelo menos, sei para onde quero ir, o que  mais do que aquilo que sabes.
       - Talvez tenhas razo. - Ele tornou a levantar-se e olhou para o oceano. - Vou dar um mergulho.
       Dirigiu-se ao mar, e a permaneceu durante meia hora. Ela no tornou a pression-lo, mas as suas palavras haviam--no abalado. Depois disso, precisava de ter 
cuidado para no dizer nada que fosse mal interpretado. Contudo, antes de ele se ir embora, Elizabeth foi ao quarto dele e tornou a enfrent-lo. Daquela vez no 
havia maneira de evitar aqueles olhos. Spencer observou-a, sentindo-se acossado.
       - S quero que saibas que te amo.
       - Elizabeth, no... por favor. - Magoava-o o fato de no poder dizer-lhe que tambm a amava. - No faas isso.
       - Porque no? E estava a falar a srio quando te disse aquilo na praia. Acho que juntos poderamos fazer muita coisa.
       Ele riu-se e passou uma mo pelo cabelo.
       - Sou eu quem devo fazer o pedido de casamento, mida, e quando o fizer, tu sabers.
       - Saberei? - Os olhos dela escarneceram dele quando se aproximou.
       - Podes crer. - Ento puxou-a para junto de si e beijou-a. Ela era to forte que ele teve de a seduzir para lhe mostrar quem  que mandava, e se tivesse algum 
voto na matria, a sua escolha no seria Elizabeth Barclay. Mas os seus planos tornaram a falhar. Estar com ela era como brincar com o fogo, e ele ficou sem saber 
quem seduzira quem, s soube que fizeram amor e que fora muito bom. O corpo dela encheu-o de fome e de paixo e sentiu um desejo irresistvel de a controlar, pelo 
menos na cama, se no fosse em mais nenhum local. Era uma amante interessante, e ele soube que j no era virgem.
       Elizabeth levou-o ao aeroporto; ele ficou a olhar para ela durante muito tempo, sem saber o que fazer. Precisava de tempo para pensar, e estava ansioso por 
voltar a Nova Iorque.
       - Volto para a faculdade na prxima semana. Beijou-a com suavidade e desejou tornar a fazer amor com ela, aborrecido consigo mesmo por estar de novo a ser 
controlado. Em muitos aspectos, ela era mais forte do que ele.
       - Eu telefono-te.
       Spencer acenou ao entrar para o avio e viu-a ali parada no seu vestido de Vero e enorme chapu enquanto o aparelho deslizava pela pista, os olhos procurando-o 
mesmo quando o avio levantou vo. Sentia que agora no poderia fugir dela. J no sabia se era isso que queria. Talvez ela tivesse razo. Talvez ela o pudesse ajudar 
a descobrir o que queria. J no tinha a certeza de nada, e o pior de tudo foi que, quando aterrou na neve de Nova Iorque, Spencer soube que sentia a falta de Elizabeth.
       
Captulo 11
       
       Nesse ano, o Natal no rancho foi muito deprimente: era o primeiro Natal aps a morte do pai e toda a alegria parecia ter desaparecido. Becky levou os filhos 
e passou o dia com eles, e Tom apareceu  hora do almoo, a tresandar a lcool e a tentar seduzir Crystal de forma descarada. Quando ele se foi embora, Becky desatou 
a chorar e acusou a irm de namoricar com ele, o que a deixou horrorizada. Crystal detestava-o tanto que no conseguia diz-lo por palavras.
       A famlia foi junta para a igreja, e a me chorou amargurada, pensando no marido que perdera e como a sua vida se alterara desde ento. A nica alegria de 
Crystal foi o consolo que sempre tinha quando cantava com a congregao. Depois disso regressaram a casa, e a jovem esgueirou-se discretamente para ir entregar as 
prendas a Boyd e a Hiroko. A pequena Jane j tinha oito meses e engatinhava pela sala de jantar, rindo toda contente e iando-se para os joelhos de Crystal enquanto 
todos a observavam. Tinham uma minscula rvore de Natal e Crystal entregou-lhes as suas prendas. Fizera uma camisola para Hiroko, a primeira que tricotara, um cachecol 
para Boyd e comprara uma boneca para Jane, que ela meteu de imediato na boca. Crystal achava o Natal mais feliz ali. Era uma casa repleta de amor e coraes carinhosos 
que contrastava com o silncio soturno da sua casa. Becky sabia que Tom a andava a enganar e ouvira os boatos a respeito de Ginny Webster, mas parecia querer culpar 
Crystal por tudo, como se ela tivesse alguma culpa. Insistia muitas vezes que a irm andava a seduzir o marido, e Olivia acusou-a mais de uma vez de o estar a encorajar, 
o que fez as lgrimas surgirem nos olhos de Crystal. No fizera nada para merecer aquelas acusaes, mas parecia impotente perante elas.
       At Jared se virou contra ela. Ouvira plos amigos que ela costumava visitar Boyd e a mulher, e ameaou-a de que contaria  me. Era como se todos a odiassem. 
Tinha uma existncia infeliz, excetuando os momentos que passava com os Webster.
       - No sei que mal lhes fiz - desabafou ela a chorar uma noite em que os foi visitar, depois de um dia angustiante no rancho. - Porque  que me odeiam? - Fazia 
o que lhe mandavam, trabalhava muito, raramente discutia com eles, mas mesmo assim pareciam todos determinados a faz-la infeliz.
       - Porque s diferente - respondeu Boyd numa voz calma, enquanto Hiroko segurava a filha no colo. - No s parecida com eles, no pensas da mesma forma. Sempre 
assim foi.
       E o pai j l no estava para a proteger. Sabia que o que Boyd dissera era verdade, mas no suportava a injustia de tudo aquilo. Que mal lhes fizera? Nenhum. 
Mas nascera demasiado bela. Era uma rosa de Vero silvestre num campo de ervas daninhas decididas a destru-la.
       Assoou-se enquanto pensava no assunto. Era insuportvel continuar a viver naquela casa, mas no tinha para onde ir. Boyd e Hiroko sabiam-no, e ela tambm. 
A nica coisa que lhe restava fazer era sair do vale, mas primeiro queria acabar o liceu. Prometera isso ao pai. Ainda pensava em ir at Hollywood. Mas era demasiado 
cedo: tinha de acabar os estudos... se conseguisse sobreviver. No entanto, sabia que seria capaz. No iria permitir que pessoas como a me ou como o Tom Parker mandassem 
na sua vida. Tinha muito do pai para que isso acontecesse. Por enquanto iria agentar a situao, mas sabia que partiria assim que terminasse a escola. Ainda no 
decidira para onde ir, mas tinha de deixar o vale. Precisaria de dinheiro para tal, e agora que o pai morrera, apesar do amor que sentia por aquela terra, sabia 
que tinha de a deixar. Os outros constituam uma fora demasiado poderosa para serem eternamente ignorados. Tinha de partir antes que a magoassem. E precisava do 
dinheiro suficiente.
       Em janeiro comeou a trabalhar na cidade como empregada de mesa. E at isso provocou a fria da me. Chamou-lhe meretriz e prostituta e acusou-a de querer 
encontrar-se com homens, mas tudo o que ela fazia era servir s mesas no snack-bar. De vez em quando, o cunhado ia visit-la e fazia-a passar um mau bocado, mas 
sempre que era possvel Crystal escapulia-se para a cozinha e tomava a sua vez a lavar a loua, enquanto ele l estava. As pessoas do snack-bar eram simpticas para 
ela e recebia boas gorjetas. Tambm ouviu vrias propostas de homens. Fazia sempre por ignor-las ou recusava-as de forma abrupta sempre que necessrio. O dono do 
snack-bar simpatizava com ela e certificava-se de que ningum ia demasiado longe. Era uma rapariga simptica e ele sempre gostara do pai dela. No apreciava muito 
Tom Parker, nem a forma como ele a tratava. Disse mais de uma vez a Crystal para se manter longe de Tom quando ele estivesse embriagado. Levava-a muitas vezes a 
casa depois do anoitecer e cava  espera para se certificar de que ela entrava em casa s e salva. Crystal escondia o seu dinheiro debaixo da cama, e no final de 
Abril j tinha poupado quatrocentos dlares. Era o seu bilhete para Hollywood, ou pelo menos para a liberdade, e guardava-o com a vida, contando-o ao fim da noite, 
ao luar, com a porta do quarto trancada. Contava os dias at poder partir. J no faltava muito. Mas cada dia que passava parecia uma eternidade.
       A pequena Jane fez um ano, e Crystal foi no seu velho cavalo visit-la numa soalheira manh de domingo. Passou o dia com eles e j era tarde quando regressou 
a casa, mas conhecia bem a estrada. J perto do fim, decidiu tomar um atalho, cavalgando plos campos, cheirando o ar enquanto cantava baixinho as suas baladas favoritas. 
Sentiu-se bem pela primeira vez desde h muito tempo. O pai falecera havia mais de um ano e a dor da perda j diminura um pouco. Sentia-se forte, jovem e viva e 
s pensava no futuro.
       Quando prendeu o cavalo no celeiro e lhe tirou a sela, cantarolando, ouviu um rudo atrs de si, e virou-se, assustada. Era Tom, sentado numa saca de rao, 
a beber.
       - Onde  que foste nesse velho cavalo? Tens um namorado na cidade?
       - No. - Virou-se para o enfrentar, e no gostou do que viu: Tom tinha os olhos vermelhos, e Crystal apercebeu-se de que a garrafa que ele tinha na mo j 
estava meio vazia. - Fui visitar uns amigos.
       - Aquela chinoca outra vez? - Ele tambm j ouvira os boatos, e contara a Becky, que, por sua vez, relatara  me.
       - No - mentiu ela -, uns amigos da escola.
       - Ah, sim? E quem so eles? - A sua voz estava roufenha da bebida; a de Crystal permanecia calma, mas por dentro tremia.
       - No interessa. - Virou-se para sair do celeiro, mas ele agarrou-a com fora pelo brao. Apanhou-a desprevenida e ela tombou para trs, tropeando no p 
dele, cambaleando para manter o equilbrio.
       - Para qu tanta pressa?
       - Tenho de ir para casa ter com a minha me. - Tentou olh-lo nos olhos, mas teve medo. Embora fosse alta, no era to alta como Tom Parker. Ele gostava de 
dizer aos amigos que era forte como um touro e ainda maior no stio que era importante.
       - Com a me... que querida - escarneceu -: para casa ter com a minha me. Ela est-se nas tintas para ti. Seja como for, agora encontra-se com a Becky. A 
cadela estpida est outra vez prenhe. Cus, j era altura de ela ter aprendido! Poucas vezes fornicamos, e quando o fazemos, ela engravida.
       Crystal assentiu com uma expresso compreensiva, tentando afastar-se dele, mas Tom segurava-lhe os braos como um torno e era bvio que no fazia tenes 
de a deixar ir a algum lado, pelo menos nos minutos mais prximos.
       - Eu disse-te para ficares por aqui, no disse? - Ela assentiu, muda de terror. Com dezessete anos, nenhum homem lhe tocara, e no lhe servia de consolo pensar 
que se o pai fosse vivo mataria Tom. - Queres um trago?
       - No, obrigada. - Tinha o rosto muito branco do medo e abanou a cabea.
       -  claro que queres. - Prendeu-lhe os dois braos com uma mo e com a outra levou a garrafa  boca dela. Levantou o fundo, entornando-lhe usque para a camisa, 
mas mesmo assim fazendo com que uma boa poro de lquido tivesse entrado pela boca de Cristal, apesar do esforo que ela fazia para lhe resistir.
       - Pra! Deixa-me em paz... larga-me!
       Ele riu-se, observando o mal-estar dela enquanto as lgrimas lhe enchiam os olhos. De repente, atirou-a para um monte de feno ali guardado para os cavalos.
       - Despe-te.
       - Tom... por favor... - Ela comeou a fevantar-se e a recuar para longe dele, mas Tom agarrou-lhe, as pernas e empurrou-a para o cho, ajoelhando-se e atirando 
a garrafa para longe. O celeiro ficou a cheirar a usque barato. - Por favor... no... - No lhe disse que era virgem. No sabia o que lhe dizer. Estava a chorar 
quando ele lhe arrancou a camisa.
       - Costumas dar umas com os outros, no  verdade, mana? V l, s uma boa menina aqui para um mano.
       - Tu no s meu irmo... pra com isso! - A seguir, com um punho fechado, lutando pela vida, ela atingiu-o. Atingiu-o em cheio no olho, e ele gemeu, mas agarrou-a 
e esbofeteou-a com fora. Com tanta fora que a deixou sem flego.
       - Cabra! Disse-te para te despires! - Tirou-lhe as calas de ganga com uma mo, mantendo-a no cho com a outra, com todo o seu peso sobre ela, e Crystal pensou 
que ele lhe ia partir os braos. Mas no se importava. Ele teria de a matar antes de a possuir. Lutou como um animal selvagem, mas no podia competir com ele. Tom 
atirou-a vrias vezes para o cho, praguejando e insultando-a e, de repente, com um som seco, arrancou-lhe as calas. As coxas plidas de Crystal surgiram perante 
os seus olhos. Ela tremia.
       - No... Tom... por favor... - Soluava quando ele lhe arrancou as cuecas, continuando a segur-la com uma mo forte, os braos dela bem acima da cabea, 
os joelhos mantendo-a quieta. Acariciou-a com a mo livre, e enquanto ela continuava a soluar e a implorar, baixou as calas apenas o suficiente para que ela o 
visse. No hesitou e abriu caminho dentro dela, esmagando-a contra o solo a cada investida enquanto ela gritava e gemia de dor. Tornou a esbofete-la, e desta vez 
o sangue surgiu: escorria-lhe da boca e Crystal jazia numa poa sanguinolenta enquanto Tom a violava. Tinha as costas feridas pela palha e pelo cho, e ofegou de 
dor e medo quando ele ejaculou, tornando a esbofete-la depois com toda a fora. Mas j no restavam foras a Crystal. Permaneceu no cho, enroscada e espancada 
enquanto ele se levantava e puxava as calas para cima. Pegou na garrafa e bebeu um trago, depois olhou para Crystal e riu-se.
       -  melhor lavares-te antes de ires para casa, mana. - Tornou a rir-se e bateu com a porta, regressando para junto da mulher e deixando Crystal no cho do 
celeiro a sangrar, espancada e com vontade de morrer. Ficou ali a chorar at no ter mais lgrimas. J no restava nada. Quis morrer ali. Demorou muito tempo at 
se ajoelhar e avanar na direo da mangueira utilizada para encher o bebedouro dos cavalos. Deixou a gua correr enquanto vomitava e molhou-se com o lquido gelado, 
lavando o rosto e os braos. Depois, olhou para as calas de ganga rasgadas e para as tiras que haviam sido as suas cuecas, e para o sangue que ele espalhara quando 
a possura. Tornou a cair sobre os joelhos, chorando baixinho. No podia voltar para casa. No podia explicar-lhes. No podia contar a ningum. J sabia que iriam 
culp-la. Com pernas trmulas cambaleou at junto do cavalo. Agarrando-se  crina do animal, levou-o para o exterior e iou-se para cima dele no frio ar da noite. 
Cavalgando devagar plos campos regressou para junto dos Webster. Deixara-os havia apenas duas horas, e quando viu as luzes da casa deles comeou a chorar outra 
vez. Todo o corpo lhe doa, e estava cheia de sangue e meio nua. O cavalo parou no jardim deles, e ela deslizou para o cho. Boyd viu-a pela janela e apressou-se 
a correr para fora, seguido de Hiroko.
       - Crys... oh, meu Deus... oh, meu Deus... - Julgava que algum quisera mat-la. Crystal caiu misericordiosamente aos ps deles numa poa de sangue, desmaiada.
       
Captulo 12
       
       Boyd levou Crystal para dentro, e deitaram-na na cama deles. Pegou no beb e Hiroko sentou-se junto dela, limpando-a com toalhas mornas. Tocou-lhe ao de leve 
nos ferimentos, e quando viu as costas dela gritou. As costas e s pernas e o ferimento nos lbios. Era de admirar ele no a ter matado. Crystal ficou a chorar na 
cama em que tinha ajudado a nascer a filha deles e na manh seguinte conseguiu sentar-se na cozinha, olhando-os com uma expresso de vazio. Eram as nicas pessoas 
que ela teria conseguido encarar. Tinham-se tornado a sua famlia, e tornou a chorar quando Boyd lhe estendeu uma chvena de caf.
       - Eu levo-te a casa na carrinha. Podes dizer  tua me onde estiveste. E depois vamos ao xerife.
       Ela abanou a cabea, muito infeliz. Tinha dores no corpo todo e no pregara olho durante a noite. Mal conseguia ver devido ao olho negro. Com exceo do cabelo 
louro, era difcil acreditar que aquela era Crystal. Mas no podia ir ao xerife. Se fosse Tom poderia mat-la.
       - No posso fazer isso.-
       - No sejas idiota - resmungou Boyd. Tinha vontade de matar Tom com as prprias mos.
       - No posso fazer isso  Becky e  minha me.
       - Ests louca? O tipo violou-te! Crystal comeou de novo a chorar, e Hiroko pegou-lhe na mo.
       - Ele tem de ser castigado. O Boyd tem razo. Crystal olhou para eles, em silncio, atravs das lgrimas. A humilhao era agora sua. E sentia-se confusa 
com tudo o que sentia, sentia-se furiosa e assustada e dorida, e, por qualquer estranha razo, culpada. Seria a culpa dela? T-lo-ia encorajado ao longo dos anos, 
sem o saber? Ou seria mais um castigo pelo seu aspecto? No sabia, mas isso agora j no importava. Acontecera. E era mais uma razo para sair imediatamente do vale 
que outrora amara e que agora odiava. Nada lhe restava ali com exceo de perda, dor e mgoa, alm dos Webster.
       - No podes permitir que ele se safe Crystal. - Desta vez, Boyd falou com calma. Mas por dentro ainda tremia de raiva. - Eu levo-te a casa.
       Tinham passado toda a noite a tomar conta dela. Crystal deixou l ficar o cavalo e entrou na carrinha com Boyd. Fez a viagem para casa em silncio, pensando 
no que iria fazer. Hiroko abraara-a com fora ao despedir-se, mas ficara em casa com Jane. Crystal fora incapaz de falar antes de a deixar. Emudecera devido ao 
sofrimento,  vergonha e ao medo.
       Boyd seguiu-a at ao interior da casa; a av estava na cozinha. Olhou para Crystal parada na sala de estar, com as calas de ganga que Boyd lhe emprestara, 
o rosto ferido e o cabelo ainda emaranhado da noite anterior, e correu a chamar a filha. Crystal j estava lavada, mas ainda em desalinho. E momentos depois, a me 
irrompeu pela sala, ainda a abotoar o roupo.
       - Onde raio  que estiveste? Oh, meu Deus... - De seguida, olhando para Boyd, perguntou: - O que ests aqui a fazer?
       Ele no era bem-vindo quela casa desde que casara com Hiroko, exceto para ocasies como casamentos e batizados. Mas no fora convidado a voltar desde essa 
altura.
       - Vim traz-la. Ela ficou conosco esta noite. No gostou do que viu nos olhos de Olivia Wyatt, no viu neles compaixo, s acusaes. Olivia no se aproximou 
de Crystal, enquanto a rapariga a olhava com os olhos muito abertos. Boyd ajudou-a a sentar-se numa cadeira.
       - O que fizeste para que uma coisa destas acontecesse? Boyd virou-se para voltar a encarar Olivia, e com os olhos cheios de raiva contou-lhe o que Crystal 
era incapaz de dizer.
       - O seu genro violou-a.
       -  mentira! - Olivia avanou para os dois, e em seguida virou-se para Boyd. - Vai-te embora. Eu trato disto. - E depois, para Crystal: - Como  que tens 
coragem de lhe contar uma coisa dessas a respeito do teu cunhado?
       Ela, perplexa, olhou para a me. Esta no se importava nada com o que lhe acontecia. E Crystal j no tinha dvidas. A mulher odiava-a. Talvez sempre a tivesse 
odiado. Mas agora j no importava. Para Crystal, acabara tudo. Numa nica noite crescera, e o ltimo lao que a prendia  famlia fora cortado.
       Entretanto Boyd continuava a fixar Olivia com um olhar furioso.
       - Olhe para ela! Devia estar no hospital, mas teve medo de ir para l ontem  noite. - E ele tivera medo de a forar.
       - Ela  uma vagabunda. Com quem  que estiveste ontem  noite? No chegaste a vir para casa.
       - Mas vim... O Tom estava no celeiro... No me deixou vir. Estava a beber. - A voz dela no tinha qualquer entoao, e os seus olhos nenhuma expresso. Morrera 
algo nela na noite anterior. Algo nela que, apesar de tudo, chegara a amar a me, mas nunca mais o faria. Eles haviam-na trado.
       - Devia expulsar-te desta casa. Vai para o teu quarto! Boyd no podia acreditar no que ouvia. Virou-se para Crystal e olhou-a cheio de compaixo:
       - Vem para a minha casa Crystal. No fiques aqui. No entanto Crystal limitou-se a abanar a cabea. Tinha de resolver as coisas ali, e no partiria at o fazer. 
Apesar do que isso significasse, apesar do que tivesse de fazer. Mas iria ali ficar at estar boa. E, de alguma forma, suspeitava que a me o sabia e estava satisfeita. 
No sabia como, mas pressentia que a me queria que ela deixasse o rancho. E ela assim faria. A seu tempo. Quando estivesse pronta. Boyd continuava a olhar para 
ela.
       - Crystal, por favor... no fiques aqui.
       Contudo, a jovem no se mexeu. Olhava-o sem ver, pensando apenas no que tinha de fazer. A me avanou at  porta da rua e abriu-a de repelo.
       - Mandei-te sair daqui, Boyd Webster, ou no me ouviste?
       Ele no se mexeu, e arqueou as pernas como se fosse lutar com ela.
       - No saio daqui.
       - Ser que tenho de chamar o xerife?
       - Quem me dera que o fizesse, senhora Wyatt.
       - Est tudo bem, Boyd... - disse finalmente Crystal.
       - Eu fico bem. Vai para casa... - Ele no queria deix-la. Mas os olhos dela diziam-lhe para o fazer. - Eu fico bem... vai para casa.
       Parecia calma e forte, mas os seus olhos haviam envelhecido e tinham uma expresso muito triste. Boyd hesitou durante algum tempo, depois dirigiu-se lentamente 
para a porta, olhando para Crystal por cima do ombro.
       - Eu volto mais tarde.
       Bateu com a porta e pouco depois o motor da carrinha roncou. Olivia aproximou-se dela com o olhar cheio de acusaes, mas no estava preparada para o que 
Crystal fez a seguir. Quando a me se virou para ela cheia de veneno, o brao levantado para esbofetear a rapariga ferida Crystal agarrou-lhe no brao e segurou-o 
com tanta fora que a mulher fez um trejeito de dor e afastou-se dela, repentinamente cheia de medo.
       - Afaste-se de mim, ouviu? J agentei de si o que tinha a agentar, me... de si, do Tom e de toda a gente por aqui! A sua voz era trmula e os olhos brilhavam-lhe. 
Odiava-os, odiava-os pelo que lhe haviam feito, pelo amor que nunca lhe tinham dado e pela dor que lhe haviam infligido repetidas vezes. A brutalidade de Tom na 
noite anterior fora o ponto mais alto. E perguntou-se se Tom teria ousado tocar-lhe se a me a tivesse tratado de forma diferente desde a morte do pai. Mas Tom sabia 
que todos se estavam nas tintas para ela... que diferena faria? No entanto, agora iria fazer muita diferena para ele. Crystal passou pela me e foi ao armrio 
onde o pai guardara as armas. Ainda l se encontravam, exceto aquelas de que Jared se servia. Pegou numa e a me comeou a gritar. O irmo apareceu  porta e olhou 
confuso para aquela cena histrica.
       - Que raio... Crys... por amor de Deus, mana, o que ests a fazer?
       Viu a expresso dos olhos dela e pensou que a irm iria atacar a me. Olivia gritava e a av observava a cena aterrorizada.
       - No te metas nisto Jar! - Apontou a arma para ele, desviando-a logo, e quando Jared a viu olhar para ele, pensou que ela enlouquecera.
       - D-me isso! - Estendeu a mo para a arma, e Crystal bateu-lhe com ele, apenas com fora suficiente para ele perceber que estava a falar a srio.
       - Ela vai matar o Tom! - gritou a me, e Crystal virou-se para ela com uma fria que nunca lhe tinham visto, a fria que se acumulara durante meses, fruto 
da impotncia e do desespero e da dor da perda do pai e da frustrao de ver Tom destruir tudo o que ele construra com tanto esforo. Mas nenhum deles compreendia 
isso.
       - Pode crer que vou! - Olhou bem para os olhos de Jared sem nenhum resqucio de infantilidade. Parecia quase bela ali parada cheia de fria, apesar do cabelo 
desgrenhado e das ndoas negras. - E se quiseres saber por que, vai at ao celeiro.
       - Que raio fez ele agora? - Jared parecia preocupado, provavelmente o cunhado tornara a beber e matara um dos cavalos. Mas estava mais preocupado com o que 
a irm faria para se vingar.
       - Porque no lhe perguntas? - Os seus olhos cor de alfazema pareciam pingentes de gelo, enquanto o seu olhar se desviava da me para o irmo.
       Mas Olivia tornou a gritar:
       - No acredites! Ela est a mentir.
       - O que a faz pensar isso, me? - A voz de Crystal estava estranhamente calma, e com a arma apontada na direo deles, parecia ter recuperado a sua compostura. 
J no era a vtima, ia mat-lo pelo que ele lhe fizera e a idia f-la sentir-se muito melhor. - Porque acha que ele no o faria? Porque  que eu nunca tenho razo? 
- Comeou de novo a chorar, mas eram lgrimas de raiva misturadas com lgrimas de tristeza. Era to doloroso admitir de uma vez por todas que a me no a amava! 
- Lembra-se... - As mos tremiam-lhe enquanto segurava a espingarda e a apontava alternadamente para Jared e para a me. Fizessem eles o que fizessem, no ia permitir 
que a detivessem. - Lembra-se... de quando eu era pequenina, me... amava-me nessa altura, no amava?... Disse que eu nunca lhe mentia, como o Jar ou a Becky... 
e nunca menti, nunca... nessa altura tambm a amava... - Durante um momento quase fraquejou. - Porque me odeia tanto agora? Desde que o pai morreu, age como se eu 
lhe tivesse feito alguma coisa... mas nunca fiz... nunca... ou fiz? - Dirigia-se  sala, e a princpio no houve resposta. Mas todo o dio de que suspeitava surgiu 
na voz da me quando ela grunhiu a resposta.
       - Sabes bem o que fizeste. Falavas muito mansinha para o teu pai, no foi... estavas sempre a cantar para ele... andando com ele a cavalo como uma vagabunda... 
e no fim... deves t-lo enrolado bem com as falinhas mansas... - Olhou cheia de amargura para Crystal, que continuava sem perceber a causa do dio e do ressentimento 
da me.
       Aquilo que Olivia dizia no fazia sentido.
       - De que  que est a falar?
       - Sabes muito bem do que estou a falar, sua vagabunda. Conseguiste o que querias, no foi? Mas de mim no levas nada, pelo menos enquanto eu for viva. - De 
repente, os seus olhos encheram-se de terror enquanto olhava para a filha. Era bvio que pensava que Crystal a ia matar, ao v-la mexer na espingarda. Mas Crystal 
dirigiu-se para a porta e Jared olhou confuso par a me. Quando Crystal passou por ele, tentou agarr-la, mas ela foi demasiado rpida, e sempre fora mais veloz 
do que ele. Jared correu atrs dela plos campos, contudo ela continuava a brandir a espingarda e disparou para o ar e gritou a avis-lo para que se mantivesse afastado. 
Ele sabia que algo se passara, mas ainda no sabia o qu. No entanto, tinha de a deter antes de ela fazer qualquer loucura a Tom, ou at a Becky e s crianas. Parecia 
alucinada e Jared ainda no compreendera o que a pusera louca.
       Tom ouvira-os aproximar-se muito antes de eles chegarem junto da sua casa, e ao v-la voar plos campos de espingarda em riste, tirou a sua caadeira do armrio 
junto  porta e ficou  espera que ela l chegasse. Crystal j disparara dois tiros para o ar e restavam-lhe quatro quando Becky apareceu aos gritos atrs de Tom, 
agarrando-se a ele muito histrica. No sabia o que se estava a passar, mas pressentiu imediatamente que iria acontecer alguma coisa horrvel.
       - O que ests a fazer? - perguntou Becky a tremer, apavorada, quando o marido a empurrou com brusquido para trs dele e a mandou fechar-se em casa com os 
filhos. Ela fez o que lhe mandaram, e assistiu acobardada na sala de estar quando Crystal o enfrentou e lhe apontou a espingarda com as mos trmulas. Jared apareceu 
ofegante atrs dela.
       - Baixa isso, mana. - Falou com voz calma, com medo do que ela pudesse fazer, mas Tom limitou-se a sorrir. Parecia bbedo, como de costume, mas as suas mos 
pareciam terrivelmente firmes ao apontar a caadeira para Crystal.
       - Que bom ver-te de novo Crystal. Isto  uma visita ou ests apenas a caar com o Jared? - Parecia imperturbvel, e Jared manteve-se impotente ao lado dela.
       - Tom, baixa a arma. Parem os dois com isso. - Parecia aterrorizado. Era bvio que ambos tinham enlouquecido. Quando olhou para a irm, percebeu de repente 
o que lhe acontecera e teve vontade de lhe arrancar a arma das mos e matar ele prprio o cunhado, mas isso era impossvel. Ela fez pontaria  cabea de Tom, depois 
baixou a arma na direo das virilhas dele com um ar satisfeito.
       - Vim agradecer-te por ontem  noite. - A voz dela tremia enquanto ambos seguravam as armas apontadas na direo um do outro. - No vais voltar a fazer aquilo 
a mais ningum, pois no Tom? - Queria que ele tivesse medo, que chorasse, implorasse como ela implorara na noite anterior, mas ele limitou-se a olh-la de esguelha, 
o gosto dela ainda fresco nos seus lbios, como o sorriso horrvel que exibia. E ento, sem aviso, ela disparou para o stio entre as pernas dele, mas falhou. E 
sem esperar para ver se fora atingido, ele disparou duas vezes. Um projtil assobiou junto  cabea de Crystal, mas quando ela se virou horrorizada com o barulho, 
viu Jared cair a seu lado. A cabea fora atravessada por uma bala e ele tivera morte instantnea, o sangue a jorrar para todo o lado, e Crystal ajoelhou-se a seu 
lado. Ouviu-se algures um grito distante, mais tarde ela s se conseguiu lembrar de Tom inclinado sobre ela e de Becky a gritar. Crystal embalou Jared no colo, soluando 
e agarrando-o, mas o irmo j partira. E a culpa era dela. Era melhor que tivesse disparado contra si prpria... ele estava morto... morto... e com muita calma Tom 
aproximou-se, tirou-lhe a carabina do pai das mos e entrou em casa para telefonar ao xerife.
       
Captulo 13
       
       O xerife chegou uma hora mais tarde; Jared ainda se encontrava no cho, nos braos de Crystal. Levaram-na, e mais tarde as suas perguntas eram apenas uma 
recordao confusa. Recordava-se de a ambulncia ter ido buscar Jared, e da me a gritar histrica com Becky a soluar agarrada a ela. Lembrava-se dos sobrinhos 
a observarem-na e do xerife lhe dizer que ela fizera uma coisa terrvel, e depois de lhe tentar explicar que no fora ela quem alvejara Jared. Mas eles sabiam. E 
depois a verdade veio ao de cima, o que Tom fizera, e foram ao celeiro onde o sangue dela ainda manchava o cho. Levaram-na ao hospital e Boyd e Hiroko foram com 
ela. Assinaram declaraes sobre o estado em que ela estivera na noite anterior e tiraram-lhe fotografias de todos os seus ferimentos. O xerife deixou-a ficar com 
os Webster em vez de a prender, e eles foram ao interrogatrio com ela. Crystal seria acusada de tentativa de homicdio, mas Tom queria que eles retirassem a queixa, 
porque isso significaria que ele prprio seria acusado de violao e homicdio involuntrio. Mas o juiz decidiu que fora um acidente Tom foi acusado de violao, 
mas no fim todas as queixas foram retiradas e considerou-se que a morte de Jared fora um acidente. Saram todos do tribunal e Crystal no tornou a ver Tom at ao 
funeral de Jared. Ela sentou-se ao fundo da igreja com Boyd e Hiroko, e nessa altura a notcia j estava em todos os jornais.
       Todos os amigos de Jar estavam presentes, bem como a namorada de Calistoga. Todos choraram, incluindo Tom, que olhou acusadoramente para Crystal quando saiu 
da igreja. Foi um dos homens que transportou o caixo, o que fez com que o estmago de Crystal se revoltasse, mas Olivia assim quisera. Para ela, a morte do filho 
no era culpa de Tom, mas sim de Crystal, e ele foi sepultado numa campa rasa ao lado da do pai. Foi um dia que Crystal nunca iria esquecer. Olhou para o cu, pensando 
nos dois entes queridos e em com a vida j fora to diferente. Acabara tudo. Para todos. S restava a raiva, a culpa, as mentiras e a dor pela perda do pai e do 
irmo. Quando Boyd a levou Crystal deteve-se um momento para olhar para a me.
       - No tornes a voltar ao rancho Crystal. O teu pai j c no est para te defender e sei bem o que s. Todos sabemos. s uma assassina e uma vagabunda e o 
teu lugar no  aqui, apesar das mentiras em que fizeste o teu pai acreditar. - O veneno dela em relao  filha era infinito, mas Crystal limitou-se a abanar a 
cabea, a raiva j desaparecida. Teria de viver toda a vida sabendo que a sua ira custara a vida do irmo. E agora teria feito tudo para mudar isso, mesmo que tal 
significasse que Tom no seria castigado. Mas era impossvel apagar o que ele fizera, alter-lo, transform-la no que ela j fora, ou trazer Jared de volta. A vida 
dele terminara, e a dela estava condenada para sempre.
       - No precisa de lutar comigo, me. - Falou com calma. - No quero voltar. No quero tornar a ver este stio.  todo seu. Vou-me embora.
       - Que tal pores isso por escrito? - perguntou Tom, junto dela, e o cheiro dele quase a fez vomitar. Tentou ignor-lo.
       - No precisas disso por escrito. Vou-me embora amanh. - S ali deixava um pedao de terra que uma vez amara. As pessoas de quem gostava haviam partido, 
e as que ficavam eram como estranhas.
       - V l se no voltas. - A voz de Tom era um ronco baixo.
       Boyd avanou e pegou no brao dela.
       - Anda, Crystal. Vamos embora.
       Manteve o brao dela preso e conduziu-a para longe. Quando se afastaram no carro, as lgrimas correram-lhe devagar pelo rosto e Hiroko fez-lhe uma festa na 
mo enquanto ela olhava pela janela. No podia dizer nada.  claro que a sua vida fora irreversivelmente afetada e a de Jared findara. Ele era pouco mais velho que 
um garoto, e morrera. Crystal no proferiu palavra durante toda a viagem; quando chegou a casa dos Webster afastou-se e foi dar um passeio sozinha. Atravessou as 
ervas altas atrs da casa, e prosseguiu durante quilmetros seguindo o riacho, cantando baixinho para si as canes de que o pai e o irmo tanto haviam gostado. 
E quando cantou Amazing Grace, a recordao deles assolou-a. Ao regressar a casa de Boyd e Hiroko, sentiu uma solido que nunca sentira, uma solido to forte que, 
por um momento, se perguntou se lhe conseguiria escapar com vida. Mas sabia que tinha de continuar. Havia que fazer o que prometera ao pai e a si prpria anos antes. 
Tinha de seguir para outros mundos, para outros locais. Sozinha, mas com a recordao deles sempre junto de si. Juntamente com a recordao de Jared encontrava-se 
a culpa que ela sabia que carregaria toda a vida. Se no tivesse ido atrs de Tom com a espingarda do pai, ele nunca teria morrido. De certa forma, foi como se ela 
prpria o tivesse matado, e agora sabia que teria de viver com essa verdade para sempre. Nada a poderia mudar ou mitigar a dor. Nada poderia diminuir a sua culpa 
e, acontecesse o que acontecesse na sua vida, na mente de Crystal ela matara o irmo, como se tivesse sido ela prpria a apertar o gatilho.
       Enquanto avanava devagar pela erva alta, cantou as canes que haviam cantado juntos em criana. As lgrimas molhavam-lhe a face e Crystal, cheia de mgoa, 
olhou para o cu:
       - Adeus, Jar... - Em seguida murmurou as palavras que h muito no dizia em voz alta ao irmo: - Amo-te.
       
Captulo 14
       
       Crystal ficou alguns dias na companhia de Boyd e Hiroko. Tencionara partir no dia seguinte ao do funeral, as estava com tantos sentimentos de culpa e sentia 
tanta dor que foi incapaz: precisava de alguns dias para recuperar o flego. Brincou com Jane e deu grandes passeios sozinha. Hiroko deixou-a em paz. Sabia exatamente 
do que ela precisava.
       Crystal passara por casa depois do funeral para apanhar as suas coisas, e retirara do esconderijo debaixo do colcho o dinheiro que juntara. Boyd e Hiroko 
tentaram convenc-la a ficar com eles at acabar a escola, mas ela sabia que no seria capaz. No se sentia em condies de enfrentar ningum dali, amadurecera psicologicamente 
em relao a eles do dia para a noite. Devia acabar o liceu dali a seis semanas, mas isso parecia j no lhe importar. Tinha de ir-se embora j, e sabia-o.
       - Mas para onde irs? - perguntou Hiroko, muito preocupada, quando acabaram de jantar, dois dias depois de ela se lhes ter juntado.
       - Para So Francisco. - J se decidira. Tinha quinhentos dlares, com eles alugaria um quarto e estava determinada a arranjar emprego como criada de mesa. 
Agent-lo-ia at poupar dinheiro suficiente, depois iria para Hollywood. J no tinha nada a perder e sabia que precisava de tentar.
       - s muito nova para andar sozinha na cidade - ops-se Boyd, olhando-a com uma expresso preocupada. Hiroko tinha lgrimas nos olhos, mas Crystal sabia que 
conseguiria suportar qualquer coisa, a criana que existira nela j estava morta. Tal como a bala de Tom matara Jared.
       - Que idade tinhas quando foste recrutado?
       - Dezoito.
       Ela sorriu-lhe com tristeza.
       - Deve ter sido muito mais difcil do que mudar para So Francisco.
       - A questo no  essa. Eu no tive escolha.
       - Eu tambm no tenho - disse ela muito calma. Prendera o cabelo numa longa trana, e ele apercebeu-se de que as feridas j estava a sarar, embora o olho 
de Crystal ainda estivesse muito negro. Mas mesmo com aqueles ferimentos era bela. E possua uma enorme fora. Era tempo de prosseguir, ela sabia-o melhor do que 
ningum. Os seus dias no vale haviam acabado definitivamente.
       Boyd levou-a ao terminal de autocarros no dia em que ela partiu, e aguardaram ambos pela camioneta. Ela prometeu inform-lo do local onde estava e escrever. 
Quando ele a abraou, tiveram ambos de lutar contra as lgrimas. Ela despedira-se de Hiroko em casa e isso fora ainda mais difcil.
       - Tem cuidado contigo, mida - disse Boyd. Via-a como uma irm, e ele e Hiroko eram tudo o que ela deixava. Eram as nicas pessoas de quem ela gostava, a 
nica famlia que tinha, e iria ser difcil abandon-los, mas havia um mundo inteiro  espera dela, um mundo cheio de novas esperanas e promessas. E ela era suficientemente 
nova para construir algures uma vida para si prpria, uma vida livre de pessoas como Tom Parker.
       Acenou um adeus a Boyd ao entrar no autocarro e atirou-lhe um beijo enquanto os homens que ali estavam observavam a cena com inveja. Depois, em silncio, 
ela viu o vale afastar-se, e apesar das recordaes dolorosas que levava consigo, sentiu uma ligeira excitao.
       O mundo estava repleto de locais interessantes que ela queria ver, e So Francisco era apenas a primeira paragem. Depois disso, ningum sabia para onde a 
levariam os ventos da sorte.
       
Captulo 15
       
       O autocarro parou em Third and Townsend e Crystal saiu e olhou em volta. Tudo parecia muito agitado, excitante e sujo. S estivera duas vezes em So Francisco: 
uma vez com o pai, ainda era criana, e a outra com Boyd e Hiroko, quando do batizado de Jane. Mas esta parte da cidade era diferente, gasta e feia. Havia bbedos 
deitados no cho, carros a passar, um cheiro a cerveja e vinho e corpos sujos, mas ainda assim ela sentia a aventura. No terminal dos autocarros comprou um mapa 
e um jornal, e sentou-se para os estudar enquanto os transeuntes lhe lanavam umas miradas. Estava vestida com simplicidade, tinha na mo uma mala velha, mas era 
muito atraente. E sabia que tinha de arranjar um quarto antes do anoitecer. A pergunta era onde, e no fazia idia por onde comear a procurar. Havia vrios anncios 
de quartos e penses em Chinatown, mas Crystal no sabia por onde comear. Tinha de arriscar e comear por alguns. Escolheu dois endereos, saiu para chamar um txi 
e perguntou ao condutor qual das duas zonas era mais segura. Ele percebeu imediatamente que ela era de fora e observou-a no seu vestido azul, com o cabelo preso 
num rabo-de-cavalo. Parecia jovem, mas ele nunca vira ningum to bonito como ela. Perguntou-se o que estaria a fazer sozinha em So Francisco; tinha uma neta da 
idade dela e no havia de gostar que ela andasse por Third and Townsend.
       Olhou para o jornal e sugeriu um endereo em que Crystal no reparara. Era um bairro italiano perto de Telegraph Hill, algures em North Beach.
       - Vamos tentar primeiro este. Parece melhor que os outros dois e no deve ser muito caro. - Ela no se apercebeu de que ele no chegara a ligar  taxmetro. 
Podia dar-se ao luxo de dar carona a uma mida como ela. No iria cobrar-lhe um cntimo, e ela era to jovem e bonita que lhe apeteceu ajud-la. - Vieste visitar 
amigos? - De repente, perguntou-se se ela no teria fugido de casa, mas a rapariga no parecia estar a esconder-se. Parecia apenas uma jovem que ia pela primeira 
vez  cidade, e tornou a observ-la pelo espelho. Crystal, lanando um olhar cauteloso na direo dele, explicou que no ia visitar ningum e tentou mostrar-se confiante 
enquanto conversavam. No queria que ele se apercebesse da sua pouca experincia. - Donde s?
       - De Alexander Valley. A norte de Napa. - Sentiu uma grande tristeza ao dizer aquilo. Parecia que sara de l havia dias, e no apenas horas.
       - Ests de visita?
       - No - respondeu ela tranquilamente, olhando pela janela. - Venho viver aqui. - Durante algum tempo. E depois, quem sabia? O mundo estava  espera para lhe 
abrir as portas, tal como o pai lhe prometera. Contudo, a dor de ter deixado o mundo antigo ainda era recente enquanto seguiam para North Beach.
       Atravessaram Market Street e olharam para leste. Passaram plos molhes no Embarcadero, e depois subiram para Chinatown, em direo a North Beach, para o endereo 
no jornal. Era uma casa pequena, muito simples, com cortinas limpas nas janelas, e duas mulheres idosas tagarelavam no alpendre. Tinham o cabelo preso na nuca e 
aventais brancos sobre vestidos pretos. Fizeram-na de imediato recordar a av Minerva, mas Crystal tentou afastar essa idia da cabea. Os seus dias no vale e todas 
as recordaes que dele tinha j haviam passado  histria. Agradeceu ao condutor e perguntou-lhe quanto devia.
       - Nada... no  nada... - Parecia mal-humorado e atrapalhado, mas no aceitou o dinheiro dela. Afinal de contas, era apenas uma mida, e to bonita e to 
jovem que fora um prazer olhar para ela. Crystal agradeceu-lhe e ele ficou a v-la aproximar-se das duas velhotas com a mala na mo. Depois partiu, assobiando, esperando 
que ela ficasse bem ali. Era jovem, mas uma grande beldade, e parecia saber tomar conta de si. As duas velhotas tambm se aperceberam disso quando ela lhes perguntou 
o preo da renda. Observaram-na durante um minuto antes de lhe responderem, e falaram uma com a outra em italiano.
       - Desculpem? - Quando pousou a mala no cho, Crystal pareceu ainda mais nova, o halo de cabelo louro emoldurando-lhe o rosto. As duas mulheres olhavam para 
ela, e perguntou-se o que estariam a pensar. - O quarto?... Sabem alguma coisa acerca dele?
       - Porque  que no ests na escola? - perguntou a mais velha, olhando-a com suspeita e passando a mo pelo avental. Tinha grandes olhos negros e um rosto 
cheio de rugas.
       - Acabei o liceu no ano passado - mentiu, e as duas mulheres continuaram a observ-la. - Posso ver o quarto? - No iria permitir que a intimidassem.
       - Talvez. Tens emprego? - Sentou-se nos degraus e Crystal sorriu, tentando mostrar uma confiana que ainda no senti. E se precisasse de um emprego para conseguir 
o quarto? Que faria nessa altura? Comeava a entrar em pnico, mas decidiu contar a verdade, pelo menos parte dela. Tinha de o fazer.
       - Ainda no. Acabei de chegar. Vou comear  procura de emprego assim que tiver um quarto.
       - Donde s?
       - De algumas horas a norte daqui.
       - Os teus pais sabem que ests aqui? - Como o condutor, perguntava-se se Crystal teria fugido de casa, mas ela abanou a cabea com um olhar que nada revelou 
 mulher.
       - Os meus pais morreram. - Disse-o com uma fora to calma que, por um momento, a mulher no falou. Depois, levantou-se devagarzinho, ainda a olhar para ela. 
Nunca vira uma rapariga com aquele aspecto, o cabelo louro, as longas pernas, o rosto delicadamente esculpido. Parecia uma estrela de cinema, e disse-o  amiga em 
siciliano.
       - Vou mostrar-te o quarto. Depois vs se gostas.
       - Obrigada. - Crystal parecia tranqila e muito segura de si ao pegar na mala.
       Era um quarto minsculo, pouco arejado. Num dos andares que outrora fora a casa da mulher havia quatro quartos. Agora ela alugara seis quartos, e todos partilhavam 
a mesma casa de banho. A mulher era a nica a ter um quarto com casa de banho privativa. Ficava no piso trreo, junto  cozinha, que, por mais cinco dlares por 
ms, os inquilinos podiam utilizar. O quarto custava quarenta e cinco dlares por ms, e no tinha quase nada. A janela dava para o prdio de trs. Mas para Crystal 
valia a pena. No sabia para onde mais ir. E era suficientemente limpo. Na porta havia um trinco forte, e ela sentiu que ali estaria a salvo, com a velhota a observar 
as idas e as vindas dos inquilinos.
       - Pagas-me um ms adiantado, dinheiro  vista. Quando quiseres ir-te embora, tens de me avisar com duas semanas de antecedncia. - No que todos fizessem 
isso. Iam e vinham, mas ela mantinha o local limpo e s aceitava pessoas decentes. Nada de bbedos, prostitutas nem homens que para ali levassem mulheres. S queria 
pessoas limpas e calmas como Crystal. No segundo andar estavam hospedados dois homens de idade e uma rapariga, e no piso de Crystal havia trs raparigas e um jovem 
que vendia seguros. - Se no arranjares emprego no podes manter o quarto, a no ser que tenhas dinheiro sem precisar de trabalhar.
       - Vou procurar emprego assim que puder - retorquiu Crystal, olhando-a nos olhos. Tirou do mao de notas, quatro de dez dlares e cinco de um. Era o dinheiro 
que ganhara a servir s mesas, e ainda bem que o poupara. As outras raparigas da sua idade gastavam-no em meias, no cinema e em Coca-Cola, mas Crystal poupara quase 
tudo o que ganhara, e escondera-o da me. - H alguns restaurantes aqui perto que precisem de empregadas?
       A mulher mais velha riu-se. Havia muitos, mas sabia que nenhum deles empregaria Crystal.
       - Falas italiano?
       Crystal abanou a cabea com um sorriso.
       - No, no falo.
       - Ento tens de ir procurar noutro stio. Aqui no do emprego a raparigas como tu. - Era demasiado bonita e nova, e para empregados de mesa os restaurantes 
de North Beach s contratavam homens italianos. - Talvez l na baixa da cidade.
       Quando Crystal comeou a procurar na manh seguinte, nenhum dos locais onde foi a contratou, embora ela lhes tivesse dito que possua experincia. Limitavam-se 
a rir, e a maior parte deles nem queria que ela deixasse o nmero de telefone de casa da Sra. Castagna. Sentia-se desencorajada, e comprou uma sanduche, levando-a 
para o quarto. A Sra. Castagna estava sentada nos degraus, como de costume, observando as idas e as vindas dos inquilinos e conversando no seu dialeto com as pessoas 
que conhecia ali da rua.
       - Arranjaste emprego? - Olhou para Crystal enquanto ela subia lentamente as escadas. Os ps doam-lhe nos sapatos desconfortveis, e o vestido azul parecia 
to murcho como ela. E tremia de frio  medida que o nevoeiro gelado ia caindo. Era Maio, mas ali na cidade estava mais frio do que no vale e ela ainda no se acostumara. 
Introduziu um nquel na ranhura e acendeu o pequeno aquecedor a gs que tinha no quarto. A Sra. Castagna certificara-se de que os seus inquilinos nada usufruam 
de graa. No tencionava sustentar ningum. Criara dez filhos naquela casa e eles j tinham crescido e partido. Agora estava a dar bom uso aos quartos, e a casa 
proporcionava-lhe um rendimento mensal bastante razovel. Ao contrrio de Crystal, que contou as suas economias com dedos trmulos, sentada na nica cadeira do quarto, 
olhando de seguida para o crucifixo por cima da cama. A nica decorao era uma pintura a cores da Virgem Maria, pintada por uma das filhas da Sra. Castagna que, 
veio Crystal a saber mais tarde, estava num convento. As outras eram casadas e com filhos e visitavam muitas vezes a me aos domingos.
       Crystal palmilhou as ruas durante duas semanas, e comeava a entrar em pnico visto que ainda no conseguira arranjar emprego. Uma noite, quando ia a caminho 
de casa, perguntou-se se alguma vez o iria conseguir. Tentara encontrar qualquer coisa em Chinatown, como caixa, ou at mesmo como lavadora de pratos, mas as pessoas 
haviam-se limitado a rir dela, tal como as outras em North Beach. Tinha sempre a cor errada, o sexo errado e falava a lngua errada. Mas nessa noite, foi para casa 
passando pela famosa Barbary Coast. Ali havia clubes noturnos e restaurantes, e casais subindo e descendo a rua, rindo e conversando. Ao contrrio de North Beach, 
parecia um local alegre e vivo, e muito mais vistoso. Ela levava uma saia azul, camisa branca, os sapatos brancos que j tinha havia muitos anos e uma camisola que 
pedira emprestada  Sra. Castagna. Era preta, como todas as suas peas de roupa, e dez nmeros acima do seu, mas a mulher sentira pena dela, a gelar no frio da noite. 
A nica coisa quente que ela tinha era um velho casaco de plo de carneiro que usava sempre que ia montar com o pai pela manh. O seu guarda-roupa era muito diferente 
daquilo que ela via ser usado pelas mulheres de So Francisco. Mas j no se importava. S queria um emprego, fazer qualquer coisa, esfregar o cho, se fosse preciso. 
Estava muito longe dos seus sonhos com Hollywood, mas tinha de comer e pagar  Sra. Castagna. Precisava de ganhar a vida, de qualquer forma. Decidira tentar os hotis 
na semana seguinte, mas achou que devia experimentar pela ltima vez os restaurantes, por isso, parou junto a uma elaborada fachada com um letreiro que anunciava 
simplesmente: "HARRY'S". Tudo ali era garrido, e havia um letreiro mais pequeno que oferecia uma pista de dana.
       Crystal entrou com alguma hesitao, sem reparar nos olhares dos casais que iam a sair. Estavam bem vestidos e vrias mulheres usavam vestidos decotados. 
Ficou durante algum tempo a observar um homem que se encontrava no palco com dois msicos a acompanh-lo enquanto cantava Too Darn Hot, de Cole Porter. Depois, o 
chefe de mesa aproximou-se dela, apressado, e perguntou-lhe com brusquido o que desejava.
       - No podes entrar aqui, a menos que venhas juntar-te a algum grupo. - No queriam ali prostitutas nem curiosos que ficavam  porta a assistir ao espetculo 
de borla, mas era bvio, at para ele, que Crystal no era prostituta. Na camisola demasiado grande e nas roupas gastas, mais parecia uma rf. - O que queres?
       Ela olhou-o bem nos olhos e tentou fingir que os seus joelhos no tremiam.
       - Emprego. Fao qualquer coisa. Lavar pratos, servir s mesas, qualquer coisa... Preciso muito de emprego.
       Ele ia comear a dizer qualquer coisa, mas depois observou-a com mais ateno. Ela era to bonita que fazia doer o corao s de a contemplar, e os seus olhos 
pareciam tocar-lhe na alma. Estivera quase a mand-la embora, mas de repente perguntou-se se Harry no gostaria dela. Olhou para o relgio, perguntando-se se o patro 
ainda estaria no primeiro andar, mas j era muito tarde, e sabia que ele j l no se encontrava.
       - J trabalhaste em algum restaurante? - Endireitou o lao, lanando um olhar s mesas, mas os seus olhos acabavam sempre por regressar a Crystal. Ela tinha 
um rosto que fazia uma pessoa parar e querer contempl-lo durante o resto da vida. Contudo, Crystal no se apercebeu da impresso que causara nele. Parecia ser sincera 
e aparentava uma boa dose de coragem, apesar do visvel nervosismo, e ele gostou imediatamente dela. - J foste criada de mesa?
       - Sim. - Com medo que ele a mandasse embora, no revelou que fora num snack-bar.
       Ento ele observou-a com mais ateno.
       - Que idade tens?
       - Dezoito - mentiu ela, como no soubesse como dizer uma mentira.
       Ele comeou a abanar a cabea, olhando para a porta pela qual a rapariga entrara.
       - Tens de ter vinte e um anos para trabalhar aqui.  a lei.
       - Ento tenho vinte e um... por favor... - A voz dela era meiga e os seus incrveis olhos azuis sorriam-lhe. Parte dele enterneceu-se. - Por favor... ningum 
vai saber.               
       - Cus - resmungou ele -, o patro vai dar cabo de mim! Mas ela sentiu que ele comeava a ceder.
       - Trabalharei muito. Juro que sim. Experimente-me s por alguns dias... uma semana... qualquer coisa. - Os olhos dela tocaram-lhe na alma, e ele sabia que 
seria incapaz de recusar. Era to bonita, to vulnervel e to jovem, e algo lhe disse que ela precisava mesmo do emprego e que trabalharia com afinco. Que raio, 
poderia dizer a Harry que no soubera. E podiam mand-la embora se ela no prestasse. Tornou a olhar para a rapariga, e viu-a contempl-lo com um ar muito concentrado.
       - Est bem, est bem. Volta amanh  tarde. Uma das raparigas d-te um uniforme. E pinta-te. Assim pareces uma mida. E por amor de Deus - grunhiu -, livra-te 
dessa camisola.
       - Sim, sir. - Ela sorriu, parecendo de novo uma mida. O homem nunca vira ningum to belo como aquela rapariga... e ela tinha dezoito anos... Rezou para 
que Harry no descobrisse, seno estava metido em maus lenis.
       - Aparece por c s quatro. Em ponto.
       - Sim, ir. Obrigada. - A sua voz estava rouca quando lhe agradeceu. Era de admirar que ningum a tivesse contratado. Com aquele aspecto, podiam ter feito 
dela uma danarina ou at mesmo uma artista de strip-tease. Mas ela era demasiado inocente para isso. Crystal Wyatt era mais do que ele julgava. Ela apressou-se 
em direo  porta antes que ele mudasse de idias, e quase correu at  casa da Sra. Castagna.
       A primeira coisa que fez foi devolver a camisola, com os seus agradecimentos, dizendo-lhe que j arranjara emprego. Anunciou-o com orgulho e confiana, como 
se tivesse sido eleita presidente da General Motors.
       - Arranjaste um emprego decente? - perguntou a Sra. Castagna, olhando-a com suspeita. A rapariga era demasiado bonita para seu prprio bem. O homem que vendia 
seguros j andava plos corredores na esperana de encontrar Crystal a caminho da casa de banho. Mas ela parecia nem sequer v-lo. Era muito calada, e sabia como 
comportar-se. No andava por a a namoricar com os homens nem a fazer figuras tristes. Era decente e bem-educada. Ficava no quarto e nem sequer utilizava a cozinha. 
E por razes que ainda no sabia explicar, a Sra. Castagna gostava dela.
       - Vou trabalhar num restaurante - explicou Crystal muito orgulhosa, e a velhota sorriu-lhe. Era uma menina muito doce, e fazia-lhe lembrar uma das netas.
       - A fazer o qu?
       - A servir  mesa.
       - timo. - A velha senhora fingiu resmungar, mas era visvel que gostava dela. Crystal era uma boa rapariga e nunca lhe causara transtornos. - Certifica-te 
de que te pagam. Daqui a dez dias tens de me entregar o dinheiro da renda. E este ms j  muito tarde para dizeres que te vais embora. - Metia medo a todos eles. 
Isso mantinha-os na linha. Mas Crystal limitou-se a sorrir. Conseguia ver na alma da velha senhora, e tambm gostava dela.
       - Eu sei, senhora Castagna. Mas no me vou embora. - Ainda bem, ainda bem. - Acenou-lhe e voltou para a cozinha, e Crystal foi para o quarto.
       Na tarde seguinte, ela desceu a dezena de quarteires at ao Harry's, em Barbary Coast, excitada e a pensar no trabalho, perguntando-se se seria muito diferente 
do do snack-bar no vale.
       Apareceu exatamente s quatro, com o cabelo preso num n, e pusera baton que comprara no Woolworth's nessa manh. Era vermelho e parecia demasiado vivo no 
seu rosto branco, mas ao olhar-se no espelho Crystal achara que parecia muito mais velha.
       O matre que a contratara na noite anterior apresentou-se como Charlie, e p-la sob os cuidados de uma empregada de mesa mais velha mas muito bonita, chamada 
Pearl. Ela riu-se e disse que o seu nome verdadeiro era Phyilis, mas que ningum lhe chamava isso desde mida. J trabalhava ali havia trs anos e antes fora danarina. 
De vez em quando ajudava Harry quando uma das danarinas no aparecia, ou cantava, se ele assim o desejasse. Conhecia Harry h vrios anos, mas no disse a Crystal 
que havia muito tempo fora sua amante. Observou a rapariga com muita ateno, entregou-lhe um uniforme limpo, e mostrou-lhe a cozinha.
       - Por volta das oito h muito que fazer. Mas l pelas dez as coisas abrandam, e depois os clientes tornam a aparecer para o ltimo espetculo  meia-noite. 
- Era tanto restaurante como clube noturno, e Crystal sentia-se muito excitada ao observar tudo aquilo. Desejava que gostassem do seu trabalho. Pearl convidou-a 
a comer com ela e com o resto dos empregados, antes de abrirem. E quando ouviu as conversas agradveis em seu redor, soube que adorava tudo aquilo. Havia empregados 
e empregadas de mesa, ajudantes, e cozinheiros e pessoal de limpeza na cozinha. Era um local maior do que ela imaginara, e achou que era melhor no ter sabido, seno 
no teria ousado ir ali pedir emprego. E depois, com um sorriso, apercebeu-se de que ainda nem sabia quanto lhe iriam pagar. Pearl informou-a de que podia guardar 
as gorjetas que recebesse, e que se algum se embebedasse e lhe dificultasse a vida, bastava dizer a Charlie ou a um dos barman.
       -  um local agradvel para trabalhar - explicou Pearl -, no nos fazem muita porcaria. O Harry  um tipo estupendo. - A recordao do que passara com ele 
assomou aos seus olhos enquanto Crystal a observava. Depois, para pavor dela, perguntou: - s virgem? - Crystal olhou-a em silncio, e de repente Pearl riu-se. - 
No, no dessa maneira, pois quem  que ? - Embora Crystal tivesse ar de ainda o ser. - Quis perguntar seja trabalhaste antes num stio como este.
       Crystal riu-se, aliviada pela explicao. Baixou a voz e respondeu num tom conspirador.
       - Na verdade, trabalhei num snack-bar. Pearl sorriu e deu uma palmadinha numa das mos esguias de Crystal.
       - Ento tens muito que aprender, queridinha. No te afastes de mim que eu ensino-te. - Crystal agradeceu  sua boa estrela por ter encontrado algum como 
Pearl, especialmente quando chegou a hora da azfama. Era difcil servir s mesas, com Charlie de olho nela e os clientes a esperarem que se lembrasse dos seus pedidos, 
mas esforou-se por no baralhar as coisas, e quando serviu o ltimo jantar, soube que se sara bem, e Pearl confirmou-o. E fizera vinte e um dlares em gorjetas. 
Era quase metade de um ms de renda. Teve vontade de correr para casa e contar  Sra. Castagna.
       - Queres carona? - Pearl tinha um carro velho, e nessa noite partiram juntas, pois Crystal aceitou grata o convite. Os ps doam-lhe muito e pensou em comprar 
sapatos novos para a noite seguinte.
       - Obrigada pela carona - agradeceu ela  nova amiga com um sorriso quando pararam em Green Street, em frente  casa da Sra. Castagna.
       - Sempre ao dispor.  aqui que vives? - Pearl observou a casa com curiosidade. - Vives com os teus pais?
       - No - respondeu Crystal abanando a cabea -, aluguei aqui um quarto.
       Pearl assentiu, pensando que mais tarde ela poderia arranjar melhor. Era o tipo de rapariga a que os homens davam boas gorjetas, s pelo prazer de falarem 
com ela, e esperarem merecer os seus favores.
       - Boa noite - disse ela, enquanto abria com a chave a pesada porta. Pearl afastou-se no seu velho Chevy. E pela primeira vez em semanas, Crystal dormiu bem, 
pois estava exausta. Mas estava a trabalhar e ganhara uma fortuna. Enquanto adormecia, pensou que adorava So Francisco. Era muito distante de casa, mas exatamente 
aquilo que ela queria.
       
Captulo 16
       
       Crystal conheceu Harry duas semanas depois de ter comeado a trabalhar no seu restaurante. O trabalho era rduo, mas o pagamento justo e as gorjetas que recebia 
todas as noites eram timas. As pessoas que ali trabalhavam eram simpticas, e muitas delas, pressentindo a sua tenra idade, tomaram-na sob sua proteo e tratavam-na 
como uma filha. Pela primeira vez desde a morte do pai, as pessoas eram amveis para ela, e Crystal sentia-se bem-vinda. E, de repente, pareceu florescer. Ningum 
lhe gritava, ningum a detestava por ser quem era. Cantarolava todo o dia, e assim que chegava ao trabalho parecia ficar mais feliz. Harry j ouvira falar muito 
dela, e tinha uma certa curiosidade a respeito da rapariga que todos qualificavam como uma beldade. Tinha a certeza de que estavam a exagerar, mas assim que a viu, 
deu-lhes razo. Observou-a do outro lado do restaurante, e mais tarde Crystal viu-o conferenciar com Pearl, mas no teve tempo de pensar no que poderiam estar a 
dizer. Pouco depois Pearl fez-lhe sinal e Crystal sentiu-se muito nervosa quando se aproximou deles. Perguntou-se se ele saberia que ainda no tinha dezoito anos, 
se iria ser despedida.
       - Este  o Harry, Crystal. O patro.
       Crystal apertou-lhe a mo, assustada, mas o seu sorriso nada revelou do seu receio enquanto Harry a observava, fascinado. Ela era ainda mais bonita do que 
os outros diziam. Era espantosa.
       - Ol, Harry - cumprimentou Crystal com uma voz grave e meiga enquanto ele a observava. Olhar para ela era como encontrar diamantes na banheira.
       - J sei que tens feito bom trabalho. - Tinham-lhe dito muito mais do que isso, mas ele no o revelou. - Gostas de trabalhar aqui?
       - Sim. Muito. - Ela sorriu com timidez para Pearl, que a olhava orgulhosa. Interessara-se pela mida, e s vezes era quase como ter uma filha.
       - A Pearl disse-me que sabes cantar umas coisas. - Estava a ser cuidadoso, mas queria avanar com cautela. - J alguma vez pensaste em cantar num palco? - 
Crystal abanou a cabea com um olhar divertido. - Talvez gostasses. - Ela parecia hesitar enquanto olhava para Pearl. - A Pearl pode ensinar-te algumas coisas, e 
com um rosto desses, podamos pr-te num palco uma destas noites para ver se gostavas. - Tentava falar num tom casual, para no a assustar, mas j tinha um plano 
e durante a ltima meia hora estivera a discuti-lo com Pearl. Era um desperdcio ter aquela beldade apenas a entrar e a sair da cozinha com os pratos. - Queres experimentar? 
- Olhou-a com uma expresso encorajadora e Crystal sentiu-se muito excitada. Adorava cantar, e a idia de o fazer para uma audincia num restaurante causava-lhe 
arrepios. Teve vontade de abraar Harry por ele lhe proporcionar aquela oportunidade, mas tentou mostrar-se calma ao responder.
       - No era m idia. - E depois soltou uma das suas gargalhadas roucas. - E se me atirarem ovos podres?
       - Nesse caso, tiramos-te logo do palco - respondeu ele com um sorriso. Era um homem simptico, e Crystal gostou dele. - Queres ver se aqui a Pearl te pode 
ensinar algumas coisas? Ela canta muito bem e  uma excelente danarina, pelo menos foi, antes de ter magoado o tornozelo. - Conhecera-a anos antes, quando ela trabalhara 
no Teatro Fox, e haviam sido amantes durante anos, embora j no o fossem. S anos depois  que lhe dera emprego, quando ela ficara incapacitada de danar e s era 
capaz de servir s mesas. Mas ainda tinha por ela um fraquinho. Isso era visvel na forma como a olhava e como falava da dana dela. - Deixa que a Pearl te ensine 
uma ou duas coisas, est bem, mida?
       - Est bem - respondeu Crystal, quase ofegante, sorrindo para Pearl enquanto ele se afastava. Perguntou-se o que aconteceria se no fosse capaz. Esperou at 
ele se encontrar suficientemente longe para no a ouvir e depois olhou para Pearl: - Achas que consigo? - Desejava-o muito, e Pearl anuiu, pensativa, perguntando-se 
por um momento se Harry se poderia apaixonar por Crystal. Ela era extremamente bonita, mas no fizera nada para o encorajar. No precisava.
       - No te preocupes. Vais sair-te bem. E quando as pessoas ouvirem a tua voz, vo ficar loucas. Vou ensinar-te uns truques e alguns passos de dana. Vo adorar-te. 
Aparece amanh s duas, para brincarmos um bocado com o piano. - Olhou para a rapariga, invejando a sua juventude, mas gostava demasiado dela para ficar ressentida.
       - No te importas de me ajudar? - perguntou Crystal com um olhar cheio de gratido, e Pearl riu-se.
       - Cus, no! Para mim  at divertido. - Nessa altura encolheu os ombros e esboou um sorriso cheio de nostalgia: - No me importo de o fazer pelo Harry.
       Crystal apareceu no restaurante s duas da tarde do dia seguinte, e Pearl mostrou-lhe alguns passos simples. Crystal ficou impressionada com a sua flexibilidade 
e graciosidade.
       - s muito boa. - Os seus olhos brilhavam de admirao, e Pearl sentiu-se tocada, abanando a cabea quase timidamente.
       - J no sou. Fui-o em tempos. Mas passou-se muito tempo desde que fraturei o tornozelo. No o arranjaram como devia ser e isso foi o fim da minha carreira. 
Mas mesmo antes disso, eu era apenas uma danarina vulgar.
       Estiveram no palco cerca de uma hora. Pearl ensinou-a a mover-se, a segurar o microfone, a danar o suficiente para que o corpo acompanhasse a msica, e depois 
mandou-a sentar numa cadeira ao lado do piano.
       - Agora vamos ouvir-te cantar. No precisas que te ensine isso. Age com naturalidade. Canta algo de que gostes e vai em frente. - Escolheram uma cano que 
Crystal sabia ter sido uma das preferidas do pai, e Pearl acompanhou-a. Crystal deixou-se embalar pela msica. A princpio cantou baixinho, hesitante e algo tmida. 
Mas de repente, a recordao do pai e dos anos passados dominaram-na e a voz aumentou juntamente com a dor e a ternura que sentia. Fechou os olhos, e as lgrimas 
corriam-lhe pelas faces quando acabou. Pearl contemplou-a em silncio, maravilhada. A rapariga era ainda melhor do que aquilo que ela suspeitara. A voz de Crystal 
tinha uma pureza e um poder que deixariam o pblico sem flego.
       - Deus do Cu! No sabia que conseguias cantar assim. Devias ir para Los Angeles gravar um disco.
       Crystal encolheu os ombros e limpou as lgrimas. As outras empregadas comeavam a chegar.
       - Talvez um dia. - Mas ainda duvidava que isso viesse a acontecer.
       Pearl prometeu ensaiar com ela no dia seguinte, mas sentiam-se ambas muito animadas. Era como se partilhassem um segredo importante. E nessa noite Pearl contou 
a Harry as novidades que ele queria ouvir.
       - Arranjaste uma vencedora. Ela ainda no o sabe e no quero assust-la, mas  fantstica. Tem uma voz que te far cair para o lado. Com algum treino, um 
dia poder vir a ser famosa. Espera s at a ouvires.
       Harry pareceu gostar das notcias, e na tarde seguinte desceu do seu escritrio para a ouvir. Tambm havia lgrimas no seu rosto, e sorriu para si prprio 
enquanto regressava ao primeiro andar.
       Pearl ensaiou com ela durante Maio e parte de Junho, e numa quinta-feira com pouco movimento Pearl e Crystal souberam que ela estava pronta. Ensaiara mais 
de vinte canes, e a sua atuao para Pearl fora quase perfeita. Harry sabia que nessa noite ela iria cantar e instalou-se discretamente a um canto, nervoso e expectante. 
Encontrar uma rapariga como ela era uma coisa que acontecia uma vez na vida.
       - Boa sorte - murmurou, mais para si do que para Crystal, quando ela subiu ao palco com um vestido de noite de cetim azul-claro que Pearl lhe emprestara.
       Subiu ao palco devagar, dirigindo a Pearl um olhar apavorado, perguntando-se se no seria um erro tentar, mas a sua mentora fez-lhe o sinal da vitria, enquanto 
os colegas se colocavam nos cantos da sala e aguardavam. De repente, quando a luz do projetor incidiu nela e a msica soou, Crystal esqueceu-se de que eles estavam 
ali e comeou a cantar. Escolheu God Bless the Child, de Billie Holliday. Todos ouviam, e os amigos olhavam-na, extasiados. Era tudo o que Pearl dissera e tudo o 
que Harry esperara. Era extraordinria. A sua voz dominou todas as pessoas da sala com o seu inesperado poder e delicadeza. Fez surgir muitas lgrimas, e foi aplaudida 
durante o que pareceram horas. E ao ouvir aqueles aplausos Crystal soube que estava no seu lugar. Sonhara com um momento como aquele, e agora ele chegara. J nem 
sequer precisava de Hollywood, bastavam-lhe aquelas pessoas, aquele local, aquele momento.
       Depois Harry ofereceu-lhe uma garrafa de champanhe e convidou-a e a Pearl a sentarem-se com ele. Sorriu radiante para Crystal.
       - Alguma vez pensaste que quando fosses grande serias cantora, mida?
       - No, sir. - Sonhara em ser uma estrela de cinema, mas nunca cantora.
       Ele deu-lhe uma palmadinha na mo, encheu outra taa com o vinho borbulhante, e piscou o olho a Pearl antes de tornar a sorrir para Crystal.
       - Trata-me por Harry.
       Ali sentada, ela sentiu o corpo a vibrar. Adorara. Fora um sonho que se tornara realidade, e, de repente, todas as agonias dos ltimos meses foram esquecidas. 
E quando chegou a casa nessa noite, sentia-se como a "Gata Borralheira". J no era apenas uma empregada de mesa. Era algum. Uma cantora. Ao subir as escadas ainda 
sorria, enquanto no andar de baixo se abria uma porta com um rangido. Um rosto familiar olhou para cima. A Sra. Castagna mostrava-lhe uma carranca. Adorava fingir 
que aterrorizava toda a gente, mas tinha um fraquinho secreto por Crystal.
       - Porque ests to contente? Tens um namorado? - A sua voz ressoou pelas escadas, e Crystal debruou-se sobre o corrimo, sorrindo-lhe.
       - Melhor que isso... - No sabia bem como explicar-lhe. - Esta noite comecei a fazer uma coisa diferente. - Sorriu cheia de alegria ao recordar-se da sua 
atuao no Harry's e dos aplausos interminveis que se lhe haviam seguido.
       A carranca da Sra. Castagna acentuou-se.
       - No andas a fazer nada de mal, pois no? - Durante aquele pouco tempo que Crystal vivera com ela, tornara-se uma espcie de me para a rapariga. Mas esta 
abanou a cabea e sorriu-lhe.
       -  claro que no.
       - Ento o que fizeste?
       - Esta noite deixaram-me cantar. - Estava radiante ao dizer aquelas palavras; a velha senhora de negro olhou-a com surpresa. Nunca pensara que Crystal tinha 
talento. Era apenas bonita e jovem e servia algures s mesas. Pagava a renda sempre a horas e de vez em quando trazia flores  Sra. Castagna quando recebia o salrio.
       - Cantar como? - A velha senhora continuava a olh-la com ar suspeito.
       - Ora, como num clube, est a ver?
       - No. No vou a stios desses. - Era bvio que este acontecimento merecia desaprovao. - Anda c abaixo contar-me tudo.
       Crystal estava cansada, mas no tinha coragem para lhe dizer que no. Desceu as escadas devagar, o cabelo louro em cascata sobre os seus ombros. Tornara a 
vestir as suas roupas, e o vestido azul de Pearl fora cuidadosamente pendurado no seu armrio no restaurante.
       A Sra. Castagna estava  espera dela ao fundo das escadas, e Crystal olhou-a como uma rapariguinha que regressa a casa depois do seu primeiro baile. A expresso 
dos seus olhos ainda estava sonhadora e feliz.
       - Tens ar de quem no fez nada de bom Miss Crystal Wyatt. O que te obrigaram a fazer naquele stio?
       - No me obrigaram a fazer nada. Deixaram-me cantar num palco, com um lindo vestido de cetim azul.                    
       - Cantas bem? - A Sra. Castagna semicerrou os olhos, como se esperasse ver algo diferente, mas s conseguiu ver que Crystal parecia feliz.                
       - Acho que no canto mal. O pblico pareceu gostar. A Sra. Castagna anuiu, como se tivesse decidido que aquilo era verdade, e depois tornou a olhar para Crystal.
       - Vem at l dentro e mostra-me. - Deu meia volta e regressou ao seu pequeno apartamento, enquanto Crystal a seguia, sorrindo divertida. Sentou-se na sua 
cadeira preferida e olhou expectante para a rapariga. - Canta para mim. Depois digo-te se gostei.
       Crystal comeou a rir, e sentou-se numa cadeira.
       - No consigo cantar assim sem mais nem menos. Aqui no  a mesma coisa.
       - Porque no? - perguntou a Sra. Castagna, perplexa. - Eu tambm tenho ouvidos. Canta.
       Crystal tornou a sorrir, lembrando-se de repente da av. Quando era pequena, a av Minerva tambm gostava de a ouvir entoar cnticos religiosos. Amazing Grace 
era o seu preferido. - O que gostaria de ouvir? A minha av costumava gostar de Amazing Grace. Podia cantar isso. - Era uma negociao extraordinria, naquele pequeno 
quarto, com a senhoria a olh-la expectante. Mas o seu gosto era mais ecltico do que o de Minerva.
       - Foi isso que cantaste esta noite?
       - No... cantei outras coisas.
       - Muito bem. Ento canta o mesmo para mim. Estou  espera.
       Crystal fechou os olhos durante um minuto, perguntando-se se seria capaz. Em seguida, tentou lembrar-se daquilo que sentira essa noite no palco... a excitao... 
a ansiedade... a entrega  msica... e depois, devagar, comeou a cantar uma das suas baladas preferidas. Fora a ltima cano que cantara, e prendera a ateno 
de todos os espectadores. Tornou a cant-la, agora sem a luz do projetor, sem o piano, sem o vestido azul, mas aparentemente isso no fazia diferena. Tudo o que 
contava era de novo a cano, e as palavras que ela adorava desde a infncia. A Sra. Castagna pareceu desfalecer, mas Crystal conseguia sentir a presena do pai 
ali com ela enquanto cantava, a magia da sua voz parecendo vogar, levando ambas com ela. E quando tornou a olhar para a Sra. Castagna, viu lgrimas nos seus olhos 
e sentiu-se tocada. Por um momento, nenhuma falou. Depois a velha senhora concordou:
       - Cantas bem... muito bem... nunca me disseste que cantavas assim.
       - Nunca me perguntou. - Crystal sorriu-lhe com meiguice, de novo cansada, mais cansada do que dantes. A excitao da noite comeava a transformar-se numa 
nostalgia agridoce. Pensou no pai, no rancho, e nas vezes que cantara para ele. E quando a Sra. Castagna a olhou, parecia conhecer os seus pensamentos. Nessa altura 
levantou-se, sem uma palavra, e dirigiu-se muito direita a uma antiga credencia. Inclinou-se sobre ela durante um momento, e quando se endireitou, trazia uma garrafa 
e dois copos.
       - Vamos beber um pouco de vinho. Para comemorar. Um dia vais ser muito famosa.
       Crystal riu-se, e viu-a abrir a garrafa. Estava meia vazia, e era guardada para ocasies especiais. Crystal apercebeu-se que era xerez.
       - Tens uma bela voz. Isso  uma ddiva de Deus. Tens de a tratar bem, pois  muito valiosa.
       - Obrigada. - Durante um momento, ela teve vontade de chorar ao aceitar o copo com o lquido doce. A Sra. Castagna ergueu o copo durante um momento, com um 
ar cheio de importncia.
       - Tens muita sorte por conseguir cantar daquela maneira. Brava, Crystal... brava!
       - Obrigada. - Tocaram com os copos um no outro e a senhoria bebeu o primeiro gole com um olhar de prazer, e depois de terem as duas ingerido parte do xerez, 
pousou o copo.
       - Quanto te vo pagar por isso?  
       - Nada. Quero dizer, no mais do que j me pagavam antes.  divertido fazer isto, e  tudo... Adorei. - Sentiu-se atrapalhada ao pensar naquilo. No queria 
ser paga por fazer o que gostava, mas era uma estupidez diz-lo.
       - Vais deix-los ricos. As pessoas viro de toda a parte para te ouvir.
       - Mas elas j vm ao Harry's. - Crystal estava embaraada com o entusiasmo da velha senhora, mas esta dirigiu-lhe um olhar astucioso ao tornar a pegar no 
copo e a beber outro gole.
       - Diz-lhes que queres mais dinheiro. Cantas como um anjo. - Crystal achou que a velhota exagerava, mas era certo que o pblico gostara dela. - Ouviste? Diz-lhes 
que agora que queres muito mais dinheiro. Dinheiro que se veja, no porcaria. Um dia sers famosa. E quando o fores, recorda-te do que eu te disse. - Sorriu para 
Crystal enquanto esta terminava a sua bebida e falou-lhe como teria falado a uma das suas netas. No que elas tivessem tanto talento,  claro. Depois olhou-a com 
meiguice. - Voltas a cantar para mim?
       - Quando quiser, senhora Castagna.
       - timo. - Levantou-se com um olhar satisfeito. - Agora vai-te deitar. Estou cansada.
       - Obrigada pelo vinho - agradeceu Crystal, e sentiu uma grande vontade de a beijar. J h muito tempo que no beijava ningum, e que ningum a abraava... 
desde a morte do pai... ou desde que deixara os Webster. Mas a velha senhora olhou para ela com um ar solene e no pareceu encoraj-la. - Boa noite... e mais uma 
vez obrigada.
       - Vai-te deitar! - Brandiu a bengala na direo dela. - Cuida da tua voz... agora tens de descansar!
       Crystal tornou a rir, desejou-lhe as boas-noites e fechou devagar a porta atrs de si.
       Subiu as escadas com lentido, e pensou nela enquanto se despia. Atrs daquela imagem de dureza, havia uma alma caridosa, e Crystal gostava dela. Pensou tambm 
em Pearl, como ela fora amvel, mas quando apagou a luz e se deitou, os seus pensamentos vogaram at ao vale. Sentia-se muito distante de casa, e, depois da excitao 
da noite, teve de repente saudades da famlia. E quando fechou os olhos, recordou um dia muito distante... em que estivera sentada no balano... e falara com Spencer. 
Fazia dois anos que no o via. Perguntou-se onde estaria ele agora e se se lembraria dela. Era pouco provvel, mas naquele momento Crystal soube que nunca o iria 
esquecer.
       
Captulo 17
       
       O jantar dos scios da Anderson, Vincent e Sawbrook era uma reunio estpida organizada todos os anos no clube, mas extremamente importante para os membros 
mais novos da firma, e depois de refletir Spencer decidiu convidar Elizabeth Barclay. Estivera com ela apenas meia dzia de vezes desde Palm Beach. Ela andava muito 
ocupada na faculdade, e s ia a Nova Iorque uma vez por ms, supostamente para visitar o irmo. Mas quando estava na cidade telefonava sempre a Spencer, e este levou-a 
vrias vezes a jantar. No que Spencer no gostasse da companhia dela. Apreciava, mais do que queria, alis, mas, sem saber como, acabavam sempre na cama, e ela 
conseguia fazer com que ele se sentisse sempre pressionado. Spencer sabia que ela queria mais do que ele tinha para lhe dar, e no se queria envolver muito, nem 
desiludi-la. Ainda tinha idias muito fixas a respeito do gnero de rapariga que procurava, e Elizabeth no era essa rapariga, embora ele no tivesse a certeza disso 
quando estava com ela, especialmente depois de terem feito amor. Havia uma forte sensualidade sob aquela aparncia calculista que o punha louco, mas queria mais 
do que isso. Desejava apenas o que j lhe dissera, uma mulher que precisasse dele, que o amasse como ele era, que fosse meiga, bondosa e carinhosa, uma mulher por 
quem estivesse completamente apaixonado. No pretendia algum que o remodelasse de acordo com a imagem que tinha do homem ideal, e no caso de Elizabeth, ele suspeitava 
que essa imagem era a cpia do pai. 
       Contudo, mesmo assim levou-a ao jantar dos scios, aps o que foram danar e, como de costume, fizeram amor depois de ele se tentar convencer de que dormir 
com ela no o envolveria numa relao sria. Ela prpria dissera o mesmo em Palm Beach, mas Spencer no tinha a certeza se ela falara a srio.
       Estava-se no fim de Junho, e ela acabara o segundo ano em Vassar. Na semana seguinte regressaria a So Francisco, e da para o lago Tahoe, onde passaria o 
Vero.
       - Porque no vens comigo? - perguntou ela inocentemente.
       - No posso sair do escritrio.
       -  claro que podes Spencer, no sejas idiota. - Era uma mulher que nunca aceitava um no como resposta. J zera vinte e um anos e tornara-se mais sofisticada 
do que nunca. E provocava-o imensas vezes, perguntando-lhe por que razo ele nunca a apresentara aos pais. Mas Spencer sabia que se o fizesse, eles nunca mais o 
deixariam em paz, especialmente o pai. Era exatamente o gnero de rapariga que eles escolheriam para nora, mas, com trinta anos, ele sabia que ainda no estava preparado 
para tal.
       - Nem todos podem tirar frias no Vero, minha querida - brincou ele, enquanto estavam deitados. Sabia que teria de levantar-se dali a pouco para a levar 
ao apartamento do irmo, embora tivesse a certeza que este sabia do caso entre eles, apesar de no saber se Elizabeth lho contara. - Tenho imenso trabalho.
       - Tambm o meu pai, e ele vai tirar dois meses de frias. - Elizabeth estava deitada na cama e olhava para Spencer com um ar feliz. Gostava de sexo, e tinha 
o cuidado de utilizar anticoncepcionais. No fazia tenes de engravidar. E s vezes at isso o aborrecia. Ela pensava sempre em si mesma, nunca corria riscos, a 
menos que assim o quisesse, e talvez significasse mais para ele se ela no tivesse medo de engravidar. Mas em Elizabeth Barclay no havia qualquer vulnerabilidade.
       - No estou propriamente na posio do teu pai - comentou ele com um sorriso -, ou ainda no tinhas reparado? - Elizabeth continuava a pression-lo com a 
poltica, mas Spencer limitava-se a rir. Andava suficientemente ocupado na firma, e nessa noite ela ficara impressionada com o modo como os scios mais velhos o 
respeitavam.
       - Espera mais uns aninhos, senhor Hill. A tua estrela ainda no se levantou.
       - Talvez... mas prevejo outras possibilidades no horizonte. - Virou-se e tornou a fazer amor com ela, e, como sempre, sentiu-se satisfeito, pelo menos fisicamente. 
s vezes, isso provocava-lhe sentimentos de culpa. Considerava-se um sacana por dormir com ela no estando apaixonado. Algo lhe dizia que deveria estar, mas no 
estava. Tinham prazer juntos, dizia ele a si prprio, e talvez isso fosse o suficiente, de momento.
       - Bom, e quanto a Tahoe? - recordou ela enquanto acendia um cigarro. - Aparece l uma semana, ou duas, se conseguires. O meu pai vai ficar encantado por te 
ver.
       - No sei se ele ficaria to encantado se nos visse neste momento.
       - No - concordou ela com um sorriso, enquanto soprava o fumo na direo dele -, tens razo. Mas o meu pai  muito antiquado.
       - Que curioso! - exclamou Spencer com um sorriso. Ela era extraordinria.
       - E tu tambm s.
       - Eu? Antiquado? - Ficou surpreendido. - O que te leva a dizer isso?
       - Tenho sempre a impresso que esperas que apaream no cu relmpagos antes de decidires que uma coisa est certa. No que me diz respeito, senhor Hill, isto 
basta.  tudo o que temos neste mundo, sabes: camaradagem, uma boa queca, bons amigos, um emprego, se assim o desejarmos. No temos de esperar plos violinos, pelas 
harpas, nem pelas vozes dos anjos. A vida no  isso. - Mas o problema  que ele ainda acreditava que era, e ela no.
       - Talvez tenhas razo. - Passou suavemente a mo pela parte interior da coxa dela, mas ainda no estava convencido. Continuava a acreditar nas harpas, nos 
violinos e nos troves e relmpagos. Ela conhecia-o bem, e isso era reconfortante. Mas de vez em quando Spencer ainda era atormentado pela criana que vira havia 
dois anos, sentada num balano com um vestido azul, olhando-o como se fosse gravar a imagem dele no seu corao. Ainda se lembrava da cor dos olhos dela, do toque 
da pele da sua mo. Mas tambm sabia que isso era uma loucura.
       Elizabeth observava-o atentamente, e ele perguntou-se, nervoso, se ela lhe conseguiria ler a mente.
       - Spencer, meu querido. Es muito bom na cama, mas tambm s um sonhador.
       - Deveria agradecer-te pelo primeiro comentrio e pedir desculpas pelo segundo? -As vezes ainda se aborrecia por ela ser to direta. Com Elizabeth no havia 
poesia, magia; apenas fatos concretos. Talvez ela devesse ir para advocacia.
       - No peas desculpa, aparece no lago Tahoe.
       - Se o fizer, os teus pais vo pensar que queremos anunciar o noivado. - Isso tambm o preocupava. Elizabeth no era o gnero de rapariga com quem se brincasse.
       - Eu trato disso.
       - O que lhes vais dizer?
       - Que foste em trabalho a So Francisco e que te convidei para o lago. Que te parece?
       - Plausvel, mas o teu pai  demasiado inteligente para engolir isso, no ?
       - Sim, mas eu tambm sou inteligente. No revelarei nada. Prometo.
       Ele no desejava que ela se comprometesse, mas, acima de tudo, no desejava comprometer-se. Contudo, enquanto se vestiam, pensou no assunto e decidiu que 
se aceitasse o convite poderia passar por Alexander Valley e visitar os Webster. E talvez voltar a ver Crystal. Essa idia ocorreu-lhe de repente e, com a mesma 
rapidez, ele reprimiu-a.
       - Vou pensar - concedeu ele, enquanto a via enxugar-se depois da ducha.
       - timo. Vou dizer  minha me que vais l aparecer. Que tal em agosto?
       - Elizabeth! Acabei de te dizer que ia pensar no assunto!
       - Mas ela limitou-se a sorrir, e ele soltou uma gargalhada. Aquela rapariga era extraordinria. E tinha a subtileza de uma betoneira. Quando a viu calar 
as meias, quase perdeu de novo o autodomnio. J eram quatro da manh quando a deixou no apartamento do irmo. E estava exausto quando lhe deu um beijo de boas-noites 
e prometeu ligar-lhe.
       
Captulo 18
       
       Spencer sentou-se no avio e olhou pela janela, a caminho da Califrnia. Finalmente acedera em ir, depois de vrios telefonemas de Elizabeth, j em So Francisco. 
Ela insistira, dizendo que iria ser divertido, e que iriam l estar os dois irmos e vrios amigos. Spencer queria ir, mas tinha medo do que faria quando l chegasse. 
H vrios meses que sentia que ela andava a influenci-lo, convencendo-o daquilo que dissera em Palm Beach depois do Natal, que fariam ambos uma boa equipe, e que 
a vida no tinha muito mais do que isso para oferecer. Ele ainda no estava completamente convencido, mas tinha de admitir que se divertiam muito na cama, e que 
havia poucas mulheres to inteligentes como ela. Fizera questo de sair com todas as que conhecia, como que para provar a si prprio que no havia nenhuma melhor 
do que ela. E nunca ouvira a msica e a poesia com que sonhara. Os troves e os relmpagos, como ela lhe chamava. Apenas encontrara mulheres que o entediaram, que 
no sabiam do que  que ele estava a falar durante metade do tempo e que julgavam que Napoleo era apenas uma sobremesa. Enjoara-se de todas elas, nenhuma tinha 
o fogo dela, e havia algo de lisonjeador no fato de uma rapariga o desejar tanto como ela o desejava. Depois de quase um ano a sair com ela, tinha de admitir que 
nunca se sentira aborrecido na sua companhia. Mas prometera a si prprio no fazer nenhuma loucura na Califrnia. S conseguira uma semana de frias, e ainda tencionava 
ir a Booneville visitar Boyd e Hiroko... e talvez... s talvez... encontrasse Crystal. Sabia que ela j fizera dezoito anos, e perguntou-se quanto teria a rapariga 
mudado em dois anos, se ainda era to bela como fora, to mgica e rara. Ainda se recordava da forma como ela o olhara, e isso fazia com que o seu estmago se agitasse 
cada vez que pensava nela. Sabia que Elizabeth se riria na sua cara se lho contasse. E comparada com Elizabeth, Crystal fora uma criana, e ainda o era, sem dvida. 
Mas j deveria estar mais adulta. E desejou tornar a v-la, embora fosse difcil imaginar que isso pudesse acontecer.
       Quando o avio aterrou em So Francisco, ele tencionava alugar um carro e ir diretamente para o lago. Ela dissera-lhe que era uma viagem de seis horas, mas 
Spencer no desejava perder tempo na cidade. Com apenas seis dias, queria l chegar o mais depressa possvel. E quando se dirigiu para o edifcio do aeroporto, apressou-se 
para o guich de aluguel de automveis, e assustou-se quando ouviu uma voz conhecida atrs dele.
       - Queres carona? - Virou-se, e ali estava ela a olh-lo. Vestia calas brancas e uma camisola vermelha, com o colar de prolas que sempre trazia. O cabelo 
castanho-avermelhado estava impecavelmente penteado sob um pequeno chapu de palha, e trazia tambm uns minsculos brincos de diamantes que a me lhe oferecera. 
Elizabeth fora busc-lo ao aeroporto, o que o deixou sensibilizado. Ela tinha estilo, algo que ele tambm apreciava. Mas, de repente, sentiu-se aborrecido consigo 
prprio. Estava constantemente a fazer avaliaes, como se para verificar o valor dela. Era tudo to racional, to diferente do que ele era normalmente. Durante 
toda a vida fora um romntico. Mas com Elizabeth no havia lugar para tal. No era isso que importava.
       - Que ests aqui a fazer? - perguntou ele, atrapalhado, mas mostrando o que sentia quando a beijou.
       - Vim buscar-te. Calculei que estivesses demasiado cansado para conduzir. Que tal correu o vo? - No disse "Tive saudades tuas... Amo-te". Mas pelo menos 
estava ali, e isso significava algo.
       - Obrigado por teres vindo, Elizabeth. - Olhou para ela com uns olhos muito meigos, azuis como o oceano Pacfico. - Foi um grande estico para ti, no foi?
       - Dormi na cidade de ontem para hoje. - Sempre prtica e bem organizada... era uma das coisas que ele mais admirava nela.
       Dirigiram-se de mo dada rapidamente para o local onde Spencer levantaria a bagagem, e ela provocou-o por ele ter trazido uma pasta.
       - Pelo menos estive entretido durante o vo.
       - Foi pena no teres viajado comigo, pois eu ter-te-ia arranjado algo para fazeres. - Tambm gostava disso nela: em linguagem simples, aquela mida era uma 
brasa. - A propsito, trouxeste os teus tacos de golfe?
       - No. S a raquete de tnis. - Enfiara-a na mala juntamente com as roupas.
       - No faz mal, os meus irmos podem emprestar-te os deles. - Na verdade, ele detestava golfe, mas no queria mago-la. Todos os homens da famlia dela jogavam 
golfe.
       Tambm planejamos uma excurso, e a minha me farta-se de insistir num baile no celeiro.
       - Parece divertido.  como ir para um acampamento de Vero. Ser que recebo uma T-shirt com o meu nome bordado, uma faca de escuteiro e um estojo de primeiros 
socorros?
       - Oh, cala-te! - Elizabeth beijou-o no pescoo, e com a mala na mo, ele seguiu-a at ao carro que ela deixara l fora. Era uma carrinha Chevrolet nova, com 
as partes laterais de madeira, que iria ficar no lago para ser utilizada nas frias. Ela contou-lhe todas as novidades da famlia e informou-o de que lan e Sarah 
haviam chegado na vspera. Estavam muito bem-dispostos, e dali a duas semanas iriam at  Europa, visitar os pais de Sarah no seu castelo na Esccia. Era a casa 
de Vero deles, e as palavras de Elizabeth faziam-na parecer bastante acolhedora. Era uma vida luxuosa. Spencer ofereceu-se para guiar enquanto enfiava a mala no 
carro.
       - Tens a certeza de que no ests muito cansado? - Olhou-o como se se importasse, e ele sorriu-lhe, repentinamente contente por ela ter vindo, apesar de todas 
as suas dvidas.
       Spencer no estava preparado para a grandiosidade daquela residncia estival. Era uma enorme manso de pedra, com relvados muito bem cuidados, e meia dzia 
de "cabanas" para os hspedes. As cabanas eram maiores do que as casas de muita gente. Chegaram depois da meia-noite, mas o mordomo aguardava-os com leite achocolatado 
e sanduches que Spencer devorou. Pouco depois entraram lan e Sarah, com o irmo mais velho de Elizabeth, Greg. Estavam todos muito alegres depois de um banho noturno 
no lago, que Sarah garantiu estar gelado. No dia seguinte iriam pescar, e convidaram Spencer a juntar-se-lhes.
       Era uma vida fcil e feliz, cheia de gargalhadas e pessoas interessantes. Os convidados chegara de So Francisco, e havia jantares suntuosos todas as noites 
quando todo o grupo convergia para uma enorme sala de jantar e se sentava a uma longa mesa. Elizabeth ficava muito bonita  luz das velas; quanto a Spencer teve 
vrias conversas longas com o pai dela. At jogaram ambos golfe, e ele desculpou-se pela sua inaptido. Mas o juiz Barclay parecia no se importar, gostava de falar 
com ele, e achava que a filha fizera uma escolha acertada. Deixava claro a toda a gente que gostava bastante de Spencer.
       E este ficou realmente triste quando a semana chegou ao fim. Tencionara partir um dia antes, mas no teve vontade de ir a outro lado. Nem sequer lhe apetecia 
regressar a Nova Iorque e  firma.
       - Porque no lhes pedes mais uma semana? - sugeriu Elizabeth, quando estavam os dois no barco a apanhar banhos de sol. Mas Spencer riu-se e olhou para ela. 
Apesar de toda a sua inteligncia, ela parecia julgar que todos eram to importantes como o pai.
       - No me parece que a idia lhes fosse agradar.
       - Detesto ver-te partir - disse ela baixinho, e durante um momento, olhou-o com tristeza. - Vou sentir-me muito sozinha sem ti.
       - Rodeada pela famlia e por dez mil amigos? No sejas tolinha, Liz. - Mas tinha de admitir que tambm iria sentir a falta dela. At desistira de visitar 
os Webster em Alexander Valley. No havia tempo, e era muito agradvel estar ali com aquelas pessoas. To agradvel que comeava a pensar que a amava. - Quando  
que voltas para Nova Iorque? - Haviam visitado s escondidas os quartos um do outro, e de repente, ao pensar que estaria um ms sem ela, sentiu-se deprimido.
       - A seguir ao Dia do Trabalho(*). E depois tenho de voltar para aquela maldita universidade. - Virou-se de barriga para baixo, e olhou-o com tristeza. Encontravam-se 
num dos dois barcos a motor dos Barclay.
       
(*) Nos Estados Unidos, a primeira segunda-feira de Setembro.
       
       - At parece que vais para a priso - comentou ele com uma gargalhada, e ela sorriu, tocando os lbios dele com os seus dedos delicados.
       -  verdade. Sem ti, s vezes at parece que estou numa. - De repente, ele desejou que ela fosse para Nova Iorque. Sabia agora que queria estar com ela. Ento, 
dirigiu-lhe um olhar pensativo, perguntando-se se os relmpagos o haviam finalmente atingido. Ficou em silncio, a ouvir as suas vozes interiores e interrogando-se 
se tambm iria haver troves.
       - Em que ests a pensar? - perguntou ela, semicerrando os olhos, preocupada com o que lhe poderia estar a passar pela cabea. Ele era sempre muito esquivo.
       - Estava a pensar que vou sentir muito a tua falta. - O lago Tahoe exercera finalmente efeito sobre ele: era o local mais belo que Spencer j vira, com pinheiros 
altos, grandes lagos e belas montanhas ao fundo. Tudo ali era to fcil, to saudvel, natural e feliz! Adorava stios como aquele, e desejou que a semana nunca 
terminasse. Ela olhou-o com uma nova ternura. Gostava do que lhe via nos olhos e do que ouvia.
       - Tambm vou sentir a tua falta, Spence. - Ele sorriu com aquele diminutivo idiota, no mais idiota que "Liz", que por acaso no lhe era nada adequado.
       E ento, sem uma palavra, puxou-a para os seus braos e beijou-a. Parecia confundido quando finalmente a afastou, e lhe disse o que ela esperava ouvir desde 
a primeira vez que o encontrara. - Acho que estou apaixonado por ti.
       Ela sorriu, feliz.
       - Levaste muito tempo. Ele riu-se.
       - Que raio de coisa para dizer! Apercebo-me finalmente de que estou apaixonado por ti, e tu queixas-te de que o deveria ter feito h mais tempo?
       - Comeava a pensar que iria ficar para tia.
       - Com vinte e um anos no te devias preocupar com essas coisas. - Nessa altura apercebeu-se do que ela dissera e soube com toda a certeza que teria de fazer 
algo com o que sentia. No podia mant-la eternamente  espera. "Desta  que ", disse a si prprio, ela era uma rapariga estupenda, e, tal como dissera, juntos 
poderiam fazer grandes coisas. - Casas comigo, Elizabeth?
       - Isto  um pedido formal? - perguntou ela muito excitada, e ele levantou-se, mantendo um joelho no cho, sorrindo-lhe.
       - Agora . Casas?
       - Raios, sim! - Elizabeth deu um salto de alegria e lanou os braos para o pescoo dele, quase virando o barco.
       - Espera! No nos afogues, por amor de Deus! Esta histria no  para ser uma tragdia.
       - No ser, meu amor. Prometo-te. Vai ter um final muito feliz. - E ele teve a certeza disso quando a beijou de novo. Finalmente ligaram o motor, e dirigiram-se 
a terra para contar  famlia. Mas ao atracarem, ele sentiu-se um nadinha idiota. Era difcil partilhar um dos momentos mais ntimos da vida com toda a famlia. 
No havia nada de privado na vida com os Barclay.
       Encontraram o pai dela na sala, a falar para Washington. Mas quando ele desligou, o juiz virou-se para eles com um sorriso. Spencer soube, pela expresso 
do seu rosto, que ele suspeitava de algo. Elizabeth parecia ter engolido um bando de canrios.
       - Sim, Elizabeth? - perguntou ele, sorrindo para os dois. Ela j sabia que ele gostava de Spencer.
       No esperou que o noivo falasse. Queria ser a primeira a contar-lhe.
       - O Spencer acabou de me pedir a mo. - Estava radiante, e virou-se para o futuro marido como se aguardasse confirmao.
       - J o devia ter feito h muito tempo, sir. D-nos a sua bno?
       Harrison Barclay levantou-se rapidamente e apertou a mo de Spencer, olhando para os dois com uma expresso muito benvola, especialmente para a lha.
       - J a tm h muito tempo. Desejo-vos muitas felicidades. - Abraou a lha e depois olhou-os, muito srio. - Quando tencionam casar?
       - Receio que ainda no tenhamos ido to longe. Teremos de discutir o assunto.
       - Se fosse eu a decidir, gostaria que Elizabeth terminasse os estudos, mas creio que dois anos  pedir muito a dois apaixonados. E que tal um? Podiam casar-se, 
digamos, em Junho, e Elizabeth poderia transferir-se para Columbia, para o ltimo ano, isto , se tencionam ficar em Nova Iorque.
       - Tanto quanto sei, tencionamos. Junho parece-me uma boa altura. - Spencer estava satisfeito, mas Elizabeth parecia um pouco desapontada.
       - Porque  que tenho de continuar na faculdade? - queixou-se ela, quase como uma criana, mas o pai respondeu-lhe com firmeza.
       - Porque s demasiado inteligente para no continuares, e Vassar  uma excelente faculdade. S faltam dez meses para junho. No outono daremos a festa de noivado 
e anunciaremos as coisas formalmente, e depois disso andars, com a tua me, muito ocupada a preparar o casamento. - E como se estivesse a seguir uma deixa, a esposa 
entrou na sala, exibindo um sorriso luminoso. - Priscilla, temos grandes novidades para ti. - Olhou para a filha e depois para Spencer, enquanto ela aguardava. - 
Os midos acabaram de ficar noivos.
       - Oh, querida... - Priscilla Barclay foi rpida a abraar a filha, beijando em seguida o futuro genro, enquanto ele cava com a sensao de que fora apanhado 
por uma onda e arrastado para o alto mar. Numa questo de minutos ficara noivo, e iria casar-se em junho. Mas fora isso que quisera.
       Todos conversaram muito excitados e deram a notcia aos outros durante o almoo. lan ficou encantado, e Sarah extasiada. Spencer telefonara aos pais. Ficou 
combinado que a festa de noivado teria lugar em So Francisco, depois do dia de Ao de Graas. Spencer garantiu-lhes que pedira aos pais para virem de avio at 
l. E Elizabeth anunciou que desejava casar-se em Grace Cathedral. Ainda estava aborrecida por ter de passar mais um ano na faculdade, mas Spencer consolou-a, lembrando-lhe 
que ela iria a Nova Iorque todos os fins-de-semana.
       Foi um dia extenuante para ele, e quando se deitou e esperou por ela, sentiu-se subjugado pelas suas emoes. Mal teve foras para fazer amor, e quase adormeceu 
nos seus braos. Teve de obrigar-se a ficar acordado para lembrar Elizabeth de voltar para o seu quarto, e quando deu por si j era de manh.
       Elizabeth levou-o ao aeroporto. Disse que tinha de fazer umas compras e que queria passar uns dias na cidade. Mas ele ainda se sentia atordoado quando se 
despediu dela e entrou no avio. Sentou-se e viu So Francisco a diminuir de tamanho enquanto se dirigia a Nova Iorque. Foi nessa altura que se apercebeu do que 
lhe acontecera. Ia mesmo casar com Elizabeth Barclay.
       
Captulo 19
       
       Como seria de esperar, os pais de Spencer mostraram-se encantados com a notcia. Na realidade, ficaram delirantes, e prometeram ir a So Francisco a seguir 
ao dia de Ao de Graas para a festa de noivado. Quando Spencer sara do lago Tahoe, os planos para a festa j estavam a ser delineados e pareceu-lhe que os Barclay 
iriam convidar pelo menos quinhentas pessoas.
       - Ela deve ser encantadora, querido - disse a me. - Quando  que se encontram? - Estava um pouco magoada por nunca n ter conhecido, mas Spencer prometeu 
apresentar-lhes Elizabeth quando ela regressasse de So Francisco.
       As semanas seguintes passaram a correr. Pareciam ter decorrido apenas alguns minutos quando ele foi buscar Elizabeth a Idlewild e a levou a Poughkeepsie. 
Comprara o anel de noivado no Tiffany's. Custara tudo o que ele pudera pagar, mas mesmo assim era um belo diamante com safiras de cada lado, e ela gritou de alegria 
quando o viu. As pedras no eram grandes, mas muito boas, e o anel era bonito. 
       - Spencer, era precisamente isto que eu queria! - Ele colocou-lho no dedo j no carro, e decidiram ir at ao apartamento dele por algumas horas, antes de 
seguirem para Vassar. J na cama, Elizabeth estava muito sorridente e fartou-se de lhe exibir o anel. De repente, parecia muito mais nova e muito feliz. - Cus, 
tive tantas saudades tuas! O resto do Vero foi horrvel.
       - Eu tambm me senti sozinho. - J estava melhor desde que a vira. Tinha chegado a pensar duas vezes no que fizera, e passara vrias noites apavorado, perguntando-se 
o que teria feito e por que, mas um dos seus amigos mais chegados garantiu-lhe que isso era normal. E assim que a tornara a ver, tivera a certeza de que agira bem. 
Fizeram amor durante horas, e na manh seguinte, ao regressar de Poughkeepsie, teve imensas saudades dela. No fim-de-semana seguinte ela iria a Nova Iorque para 
conhecer os seus pais.
       E quando os conheceu, eles adoraram-na. Era exatamente o tipo de rapariga que o pai esperara que ele encontrasse, e ficou muito impressionado com os seus 
conhecimentos sociais. Falava jovialmente de pessoas que eles apenas conheciam de jornais e revistas, e at a me dele ficou impressionada com o fato de ela se vestir 
to bem, de ser to inteligente e to senhora. Aprovaram a escolha de Spencer. O pai j se andava a gabar junto de todos que Spencer ia casar com a filha do juiz 
Barclay.
       Depois disso, Elizabeth foi a Nova Iorque quase todos os fins-de-semana, e em Novembro voaram todos at  Califrnia. Os Barclay deram um belo jantar de Ao 
de Graas para a famlia, fazendo com que os recm-chegados se sentissem bem-vindos. Os dois casais mais velhos gostaram da companhia um do outro, e as duas mes 
adoraram-se. Era obviamente um casamento que estivera predestinado. lan e Sarah tinham vindo para o dia de Ao de Graas e par a festa de noivado, mas Gregory estava 
demasiado ocupado em Washington, o que deixou Elizabeth um nadinha triste, mas no muito. Ela e Greg no eram muito chegados. Ele levava uma vida muito distante, 
e estava ausente na maior parte dos acontecimentos familiares e frias.
       E nessa altura, todos sabiam que ele estava a atravessar um processo de divrcio muito conturbado.
       A festa do dia seguinte foi espetacular. Para os cocktails e jantar volante havia quatrocentos convidados, e o lar dos Barclay encheu-se com as pessoas mais 
importantes de So Francisco, at o presidente da cmara compareceu, e houve baile at altas horas da noite. Spencer achou que Elizabeth nunca estivera to bonita, 
com um vestido de veludo preto, e segurou-a muito apertada a si enquanto danavam, sorrindo-lhe.
       - Feliz, meu amor?
       - Nunca estive tanto. - Adorou apresent-lo s amigas. Spencer era extremamente atraente, e todas as raparigas a invejaram. Ele conversou um pouco com elas, 
e Elizabeth soube que todas queriam estar no seu lugar.
       No dia seguinte, os jovens foram dar uma volta de carro e pararam para almoar em Sausalito. Era sbado, e todos estavam de muito bom humor, embora cansados 
devido  noitada. Iriam jantar todos juntos nessa noite, e talvez danar um pouco, enquanto os pais iriam ao Bohemian Club para um sero mais sossegado. Na segunda 
iriam todos embora, os jovens e os Hill mais velhos para Nova Iorque, o juiz e a Sra. Barclay para Washington. Tinham apenas mais dois dias e duas notes, e queriam 
aproveit-las.
       - Foi uma excelente festa, ontem  noite, no foi? - perguntou lan ao futuro cunhado, j em Sausalito, enquanto contemplavam a baa.
       - Fabulosa! - Spencer ainda achava que estava a sonhar. Tudo lhe parecia muito irreal, as pessoas, o local. E, por um momento, pensou de novo em visitar os 
amigos em Alexander Valley. Mas, mais uma vez, no dispunha de tempo. Era mesmo uma visita agitada.
       - Espera at veres o casamento que a me ir preparar - comentou Sarah, que iria ser a dama de honra de Elizabeth.
       Regressaram a casa para descansar um pouco durante a tarde, e quando saram nessa noite estavam muito alegres. Sarah levava um espetacular vestido de cetim 
cor-de-rosa e Elizabeth um de chiffon azul-escuro que comprara na I. Magnin. Disse que realava o anel de noivado, e Spencer sorriu, beijando-a.
       O jantar foi excelente nessa noite, e depois foram ao Top of the Mark para beber qualquer coisa e admirar o panorama. Spencer olhou para a noite reluzente 
e apertou a mo de Elizabeth. Era um panorama muito belo, ela era uma rapariga muito bela, e ele amava-a. Ficaram ali at s onze horas, e quando saram, lan disse 
ter ouvido falar de um stio timo para danar. Era relativamente perto dali e at tinha espetculo. O grupo concordou em unssono que era uma excelente idia. Voltaram 
a meter-se no carro e dirigiram-se ao local que lan lhes indicara. Parecia um clube acolhedor, e embora j estivesse cheio quando chegaram, o chefe de mesa arranjou-lhes 
lugar graas a uma boa gorjeta de Spencer. Havia uma banda a tocar Some Enchanted Evening e Spencer conduziu Elizabeth  pista de dana, segurando-a muito junto 
de si. Adorava senti-la assim to perto, e quando voltaram a sentar-se, ele pegou-lhe na mo. As luzes apagaram-se e apareceu uma rapariga com um microfone na mo. 
Trazia um vestido de cetim azul-claro e o cabelo louro que lhe ocultava o rosto. A luz do projetor iluminou-a. Spencer susteve a respirao e observou-a. Quando 
ela comeou a cantar, teve a sensao que ia desmaiar. Parecia que o seu corao estava a ser apertado por um torno. A rapariga era Crystal.
       Estava ainda mais bela do que Spencer se lembrava, e ele quase no conseguiu pensar enquanto a ouvia cantar. Parecia dez anos mais velha, e o corpo moldado 
pelo vestido de cetim revelava formas de que ele nunca suspeitara. Mas no era para o corpo dela que ele olhava, era para o rosto que o atormentara, para os olhos 
de que to bem se recordava, olhos da cor do cu de Agosto. A voz dela rasgou-lhe a alma, to triste e dolorida que ele sentiu essa tristeza e essa dor ao escut-la. 
Mal conseguia respirar enquanto a contemplava, sem reparar que Elizabeth o estava a observar. Queria que aquele momento nunca chegasse ao fim, mas ela acabou por 
desaparecer e as luzes acenderam-se. A banda tornou a tocar msica de dana. Mas Spencer sentia-se incapaz de falar com eles. S queria tocar em Crystal. E quando 
Elizabeth o observou mais de perto, viu que ele empalidecera. Largara-lhe a mo, sem disso se aperceber, enquanto olhara extasiado para Crystal.
       - Conheces aquela rapariga? - perguntou Elizabeth, franzindo o sobrolho, perturbada pela forma como ele olhara a cantora. Tambm observara a rapariga com 
ateno, mas no a conheceu. Crystal no podia ver contra a luz, e no se apercebera de que Spencer estava ali, enquanto cantava cheia de emoo sobre um amor perdido 
e uma vida destroada.
       - No... no... Eu... ela era muito boa, no era? - Bebeu um longo trago de usque enquanto lan tagarelava com Sarah.
       - Era muito bonita, se  isso que queres dizer. - Elizabeth parecia aborrecida e perguntava-se se ele estaria bbedo, mas achava que no. Estivera como que 
hipnotizado e agora mostrava-se acabrunhado. Convidou-a de novo para danar, mas depois manteve-se em silncio. Passado pouco tempo, foram-se embora. Era uma e meia 
da manh, e aliando lan disse que estava cansado, todos concordaram que eram horas de partir.
       No carro, Spencer falou com eles sobre coisas sem importncia, mas Elizabeth pressentiu que ele estava perturbado. Esperou at terem entrado em casa para 
repetir a pergunta, olhando-o bem nos olhos.
       - Spencer, a cantora do restaurante a que o lan nos levou. .. conhecia-a?
       - No - respondeu ele numa voz calma. Sabia que tinha de mentir. Ela no compreenderia aquela histria, nem ele prprio a compreendia. Nunca compreendera. 
Mas o sentimento ainda estava l. Mais forte, at. - Era parecida com uma pessoa que conheci.
       - Nunca olhas para mim daquela maneira! - Era a primeira vez que a via zangada, e no sabia o que lhe dizer.
       - No sejas tolinha. - Tentou no dar importncia ao assunto, e deu-lhe um beijo de boas-noites. Mas nessa noite ela no foi ao quarto dele, o que tambm 
no fez mal. Spencer ficou a p ainda durante quase mais uma hora, a contemplar a baa e a pensar em Crystal. Era muito mais bela do que aquilo que ele se recordava, 
e havia nela uma grande tristeza. Fora apenas uma cano, sabia-o, mas era capaz de pressentir que lhe estava subjacente a angstia, a dor e a solido... ainda a 
conseguia escutar... juntamente com os troves e os relmpagos. Sorriu para si prprio, imaginando vozes de anjos, violinos e harpas. Era uma loucura, e ele sabia-o. 
Mas quando fechou os olhos nessa noite, s conseguia ver Crystal.
       
Captulo 20
       
       Na manh de domingo Spencer desceu cedo para tomar o pequeno-almoo e conversou com o juiz Barclay e lan durante os ovos mexidos, o bacon estaladio e o caf. 
Tal como a me, Elizabeth tomava o pequeno-almoo no quarto, e s voltou a ver o noivo a meio da manh. Nada foi dito a respeito da noite anterior, e ela no lhe 
tornou a fazer perguntas sobre Crystal. No entanto, Spencer sentiu uma grande tenso entre os dois at  noite. 
       Era o ltimo jantar deles com a famlia dela, e todos iriam regressar a Nova Iorque no dia seguinte. Com uma sensao de pnico Spencer apercebeu-se de que 
no teria oportunidade de voltar a ver Crystal. Pensara nisso durante todo o dia, e  tarde fizera um telefonema. E fora informado de que o Harry's estaria aberto 
nessa noite. Tomou uma deciso e sentiu-se muito mal por ter de mentir a Elizabeth, mas sabia que era forado a isso. Quando saiu do pequeno gabinete onde estava 
o telefone, esboou um sorriso e informou-a de que telefonara a um ex-colega da faculdade.
       - Queres convid-lo para vir c a casa beber um copo? - Ela j voltara a descontrair-se. Spencer mostrara-se amoroso durante todo o dia, e ela achou que fora 
uma idiota na noite anterior. No tinha motivo para se preocupar, se calhar ele j bebera de mais, e achara apenas que a rapariga era bonita.
       Spencer abanou a cabea:
       - Disse-lhe que iria visit-lo depois de jantar. - Mas no a convidou a ir com ele. De qualquer das formas, ela tinha de fazer as malas, e queria falar com 
a me acerca do casamento. Tinham muitos planos a fazer antes de Elizabeth regressar a Vassar.
       Jantaram cedo, e o pai de Spencer fez um brinde  futura nora. Estavam a passar um fim-de-semana extremamente agradvel todos juntos. Mas o casamento parecia 
muito distante. Ela detestava ter de regressar  faculdade, embora Spencer lhe tivesse dito que esse ano passaria depressa.
       Spencer saiu de casa s nove horas e apanhou um txi at ao restaurante. Permaneceu em silncio, olhando pela janela durante a viagem, sentindo-se desesperadamente 
culpado. Acabara de ficar noivo, e j saa s escondidas para ver outra rapariga. Era o tipo de coisa que no se imaginava a fazer, mas sabia que tinha de voltar 
a ver Crystal antes de partir, ou pelo menos tentar. Talvez ela tivesse mudado ainda mais do que ele julgava, talvez fosse apenas uma alde amorosa, ou talvez se 
tivesse tornado uma meretriz. Spencer desejava que ela fosse isso, desejava que ela fosse vulgar, maadora e estpida. No queria que ela fosse nenhuma das coisas 
que sonhara. Queria finalmente poder esquec-la. Mas antes disso, tinha de a ver de novo, s uma vez, disse a si prprio, enquanto pagava ao taxista e entrava  
pressa no Harry's.
       Pediu um usque, e esperou que ela voltasse ao palco. Decidiu abord-la apenas depois da atuao. Queria ouvi-la outra vez. E quando ela apareceu, deixou-o 
de novo sem flego. Cantou  alma de Spencer, enquanto ele permanecia sentado e a observava. E quando desceu do palco, ele pediu ao chefe de mesa que lhe levasse 
um bilhete. Nele, recordava-lhe os encontros de ambos em Alexander Valley, primeiro no casamento da irm, depois no batizado do filho dela. Era estranho aperceber-se 
de repente de que ela podia j no se lembrar dele. Mas ela apareceu no restaurante, ficou a olhar para ele durante algum tempo, parecendo olhar para um fantasma, 
e quando ele se levantou soube de imediato que ela guardara consigo aquela recordao durante anos, tal como ele. Crystal trazia um vestido de seda branco muito 
simples, e com o seu longo cabelo louro espalhado sobre os ombros, parecia um anjo. A sua voz estava mais grave do que dantes, e ela, alta e graciosa. Ele nunca 
vira olhos como os dela, olhos to cheios de amor e de dor, olhos de cora, recordava-se ele agora, de uma cora que surgia lentamente vinda da floresta. Estendeu-lhe 
uma mo, e quando ela lhe pegou Spencer julgou que iria derreter com aquele toque. Teve de obrigar-se a larg-la. Tudo o que queria era abra-la. Era o mesmo sentimento 
que ela provocara nele, mas nessa altura Crystal era pouco mais velha do que uma criana.
       - Ola, Crystal. - Sentiu a voz tremer, e perguntou-se se ela se teria apercebido. - J h muito que no nos vamos.
       -  verdade. - Ela sorriu-lhe timidamente. - Eu... pensei que j no se lembrava de mim.
       Ele pensara o mesmo, e no lhe disse que nunca a esquecera.
       -  claro que me lembro de ti. - Tentou trat-la como uma criana, mas j no era capaz. No havia nada de infantil na Crystal de agora, com aquelas roupas 
justas que Pearl a ajudara a escolher com o dinheiro que Harry lhe dera para o "guarda-fato". E compensara. As pessoas comearam a ir ao restaurante s para ver 
Crystal. - Podes sentar-te um bocadinho?
       - Claro. - Sentou-se ao lado dele, s voltaria a atuar  meia-noite.
       - Quando  que vieste para So Francisco? - Tentava recordar-se da idade dela, mas achou que Crystal no podia ter mais de dezoito anos, embora parecesse 
bastante mais velha. Soube instintivamente que a vida no a tratara com benevolncia. Isso era visvel na forma como ela cantava, e perceptvel agora no seu olhar. 
Havia a algo oculto, algo terrvel e doloroso, e ele sentiu-o sem que ela precisasse de falar, como se soubesse, e sempre tivesse sabido tudo sobre ela. Era como 
se Crystal fizesse parte dele. E tal como h dois anos, sentiu-se muito atrado por ela. Fora precisamente isso que receara.
       - Na ltima Primavera - respondeu ela. - Nessa altura andava a servir s mesas, mas tenho cantado durante todo o Vero.
       - s ainda melhor do que aquilo que eu me lembrava.
       - Obrigada. - Sentia-se muito tmida junto dele. S queria ficar ali sentada e senti-lo perto. -  fcil. Acho que  por eu gostar tanto do que fao. - Mas 
as palavras de ambos pareciam nada significar. Olhavam-se intensamente, cada um perguntando-se o que estaria o outro a pensar. Nessa altura ele no se conseguiu 
conter, tinha de saber como  que ela estava, e por que razo sentia que algo lhe acontecera.
       - Ests bem? - A sua voz era meiga, e ela ficou sensibilizada com a pergunta. Nunca ningum lhe perguntara aquilo, pelo menos da mesma forma. J h muito 
tempo que ningum o fazia, e as lgrimas vieram-lhe aos olhos quando respondeu:
       - No estou mal.
       E ento, sentindo que havia mais Spencer continuou:
       - O que te fez vir para So Francisco?
       Ela hesitou durante um longo momento, e depois suspirou, atirando o cabelo por cima dos ombros. Por um instante, voltou a parecer uma criana, a mesma rapariga 
que falara com ele no balano, noutro local, noutra vida.
       - O meu pai morreu. Isso fez com que muita coisa mudasse para mim.
       - A tua me vendeu o rancho? Ela abanou a cabea, e quase se engasgou com as palavras seguintes.
       - No, agora quem o dirige  o Tom.
       - E o teu irmo? - Spencer ainda se lembrava dele, um rapaz de cabelo desgrenhado com pernas compridas, que gostava de provocar a irm. Recordava-se de ele 
puxar o cabelo de Crystal, e de ela o empurrar, mas tudo na brincadeira. Nessa altura haviam-lhe ambos parecido crianas, mas j no o eram.
       - O Jared morreu na primavera passada. - Ela mal conseguia dizer aquelas palavras enquanto Spencer a observava. As coisas tinham sido difceis, mas ela no 
lhe disse quanto. Nem como Jared tinha morrido. Nem por qu. Tudo fora culpa dela. Ainda era dessa opinio.
       - Lamento... foi um acidente? - No podia ter sido de doena. Ele era demasiado novo. O corao de Spencer compreendeu a emoo dela quando a viu hesitar. 
Depois Crystal assentiu. Olhava para as mos para no ter de o encarar, depois ergueu lentamente a cabea e ele quase recuou com a fora daquilo que viu neles. Era 
raiva e dio e medo, e sonhos perdidos. Eram coisas poderosas. Num gesto calmo, pegou na mo dela e segurou-a entre as suas.
       - O Tom alvejou-o. - Os olhos dela fixaram os dele como dois relmpagos.
       - Meu Deus... tinham ido os dois  caa? O que aconteceu?
       - No - respondeu ela, abanando devagar a cabea. No podia dizer-lhe que Tom a tinha violado. Nunca contara a ningum, exceto a Boyd e a Hiroko, e sabia 
que nunca mais o contaria. Teria de viver para sempre com aquela vergonha. - A culpa foi toda minha. - Falava com calma. A culpa era demasiado forte para a deixar 
chorar. - Aconteceu uma coisa entre mim e Tom, e eu fiquei louca. - Respirou fundo, como se precisasse de mais ar, e Spencer segurou-lhe a mo ainda com mais fora. 
- Fui atrs dele com a carabina do meu pai. Tom disparou contra mim e acertou no Jared.
       - Oh, meu Deus... - Olhou para ela horrorizado, mal ousando imaginar o que a teria levado a ir atrs do cunhado com a arma do pai. Percebeu de imediato a 
culpa que ela carregava.
       - O xerife disse que o Jared morreu por acidente. E vim-me embora uns dias depois de ele ter sido enterrado. - Aquelas palavras eram muito simples, mas o 
curso da sua vida alterara-se completamente. Enquanto ele ia a festas em Washington, no lago Tahoe e em Palm Beach, Crystal perdera o pai e o irmo. Era horrvel 
pensar nisso, e ficou impressionado por ela conseguir sobreviver. Sentiu-se grato por a ter encontrado em So Francisco.
       - A minha me e eu no nos dvamos muito bem desde a morte do meu pai. E agora acho que ela pensa que fui eu quem matou o Jared. De certa forma, fui. A culpa 
foi minha. No devia ter ido atrs do Tom, mas... - De repente, os seus olhos encheram-se de lgrimas. Sabia que no podia explicar nada a Spencer. Mas ao ouvi-la, 
ele teve vontade de a beijar e de a abraar. - Eu e a minha me nunca nos demos bem. Acho que ela me odiava por eu ser to chegada ao meu pai.
       - J tiveste notcias dela desde que partiste?
       - No - respondeu Crystal, abanando a cabea. - Isso acabou. - Sorriu animosamente. - Agora estou aqui. Isto  a minha vida. Isso  o passado. Tenho de pensar 
no que estou aqui a fazer. No posso olhar para trs. Deixei tudo isso. J passou. - Levantou os olhos para Spencer. - Tem visto o Boyd e a Hiroko?
       Ele abanou a cabea, com uma expresso de culpa. J era a segunda vez que no conseguia ir ao vale.
       - No, no tenho. Tencionava ir, mas s c estive meia dzia de dias. Sabes se eles esto bem?
       Ela dirigiu-lhe um sorriso triste, e Spencer enterneceu-se. Crystal fora uma criana incrvel, e agora era uma mulher incrvel. Havia nela uma grande sensualidade, 
uma meiguice e uma feminilidade que o faziam querer ficar junto dela e proteg-la, mas tambm uma enorme fora. Fora essa fora que a ajudara a sobreviver.
       - Recebi uma carta de Hiroko na semana passada. Est  espera de outro beb. Acho que desta vez querem um rapaz, mas a Jane  to amorosa! - Contou-lhe algumas 
histrias acerca da pequenita, e depois chegou a hora de voltar a atuar. Ele prometeu esperar. Era capaz de conversar com ela durante horas. No queria deix-la. 
Nunca mais. Sentia que ela precisava dele. E queria estar ali para a ajudar.
       Desta vez parecia que ela cantava apenas para Spencer, a sua voz vogando at ele como dedos travessos. Havia nela uma certa sensualidade misturada com inocncia 
que fazia com que os homens quisessem tocar-lhe. Era quase uma da manh quando saiu do palco, e falaram durante mais uma hora at o Harry's fechar. Spencer ofereceu-se 
para a levar a casa. Esperou que Crystal mudasse de roupa, e quando ela apareceu com uma saia de l, uma blusa branca e um casaco de xadrez que comprara numa loja 
barata, foi como se estivesse a olhar para o passado. Parecia outra vez uma rapariguinha, mas os olhos que olhavam para os dele eram os olhos de uma mulher. A mulher 
com que ele sonhara durante trs anos e que nunca esquecera. A mulher que sonhara com ele, sabendo sempre quanto o amava.
       Ele acompanhou-a a p, devagar, at  rua onde ela morava, em casa da Sra. Castagna, e ficaram  porta durante bastante tempo, falando sobre a vida dele em 
Nova Iorque, os seus amigos, sobre tudo o que a pudesse reter ali fora, e depois, como se fosse aquilo por que ambos haviam esperado toda a noite, ele puxou-a para 
si e beijou-a.
       - Spencer... - A voz dela foi um murmrio no ar frio da noite, enquanto ele a apertava para a manter quente e para a ter junto de si. - Sonhei contigo todos 
estes anos... s vezes dizia para comigo que se tivesses l estado as coisas teria sido diferentes. - Mas ela sobrevivera, mesmo sem ele. Spencer respeitava isso. 
E Crystal estava a tornar-se algum. Spencer interrogou-se se ela ainda pensava em ir para Hollywood, mas no lhe perguntou.
       - Quem me dera ter l estado. - Levantou o rosto dela com um dedo meigo sob o queixo. - Nunca te esqueci. Pensei em ti muitas vezes... mas nunca pensei que 
te recordasses de mim. Calculei que estarias diferente, ou talvez j casada. - Essa fora a ltima fantasia dele. Nunca pensou que a iria encontrar sozinha, a cantar 
num clube de So Francisco, e maravilhou-se com a mo do destino que o conduzira at ela. Podia ter regressado a Nova Iorque sem sequer saber que ela estava ali, 
sem a ter visto. Mas agora que a vira, no sabia o que fazer. Viera a So Francisco para ficar noivo de Elizabeth Barclay. E agora estava  porta de uma casa na 
Green Street, a apaixonar-se por Crystal Wyatt.
       - Amo-te, Spencer - sussurrou ela, como se receasse no voltar a ter oportunidade de lho dizer, e Spencer sentiu o corao a derreter-se. Como poderia ele 
falar-lhe da rapariga com quem iria casar?
       Apertou-a nos braos, e manteve-a junto de si. Queria mant-la ali para sempre.
       - Tambm te amo, oh, meu Deus, Crystal... Amo-te... - Como podia estar a dizer-lhe aquelas palavras? Nada podia prometer-lhe, s podia estar junto dela por 
breves momentos, e na manh seguinte teria de regressar a Nova Iorque com Elizabeth. Ser que tinha mesmo de fazer isso? Porque no podia ficar com Crystal? No 
havia nisso nada de errado. Durante um momento, teve a certeza absoluta de que sempre a amara. E apesar do que isso lhe pudesse custar, tinha de lho confessar. - 
Amo-te desde que te vi pela primeira vez. - Sentiu-se bem ao dizer-lhe aquelas palavras, como se a tivesse procurado durante trs anos para lhas dizer. Nada mais 
importava agora. Nada nem ningum.
       Ento ela afastou-se para o olhar, e sorriu-lhe. A criana que ele vira uma vez no balano transformara-se numa mulher, e quando a abraou, Spencer soube 
que a amava desesperadamente, para alm das palavras, para alm da razo. para alm de tudo. Ela era tudo o que queria.
       - Costumava estar sempre a pensar em ti... estavas to bonito quando foste pela primeira vez ao rancho, com aquelas calas brancas e a gravata vermelha. - 
Ele nem sequer se lembrava do que levara vestido, mas ela sim, tal como ele se recordava do vestido branco com que a vira pela primeira vez, e do azul, na vez seguinte. 
Depois, como se tivesse lido a sua mente, levantou o rosto e perguntou: - Quando  que voltas para Nova Iorque?
       - Amanh de manh. - Aquilo parecia-lhe uma loucura. S lhe apetecia ficar ali com ela. Para sempre. Mas tinha de resolver toda a sua vida naquele momento. 
E de enfrentar Elizabeth. Mas nada disso importava agora. Nada importava. S Crystal. Era por ela que ele esperara quando se sentira to relutante. E agora sabia 
por qu. Era aquilo que desejava. No faria sentido para ningum, mas fazia para ele. Fazia muito sentido quando a abraou.
       - Voltars  Califrnia? - O corao de Crystal batia com toda a fora.
       - Sim. - Os seus olhos encontraram-se e permaneceram assim durante muito tempo. Agora sabia que iria voltar. Teria muitas explicaes a dar. Mas seria capaz 
de caminhar sobre carves em brasa s para estar com ela. - Voltarei logo que puder. Primeiro tenho de resolver umas coisas em Nova Iorque. Mas depois telefono-te. 
- F-la escrever o seu nmero de telefone e beijou-a de novo, sentindo a doura dos seus lbios e saboreando a promessa do futuro. Era um futuro por que ansiava, 
no um que temia. J no tinha dvidas, no calor do momento.
       Escrevinhou  pressa o nome da firma onde trabalhava, e o seu nmero de telefone, e escreveu a morada dela, tomando-a de seguida nos braos pela ltima vez. 
No queria deix-la. Mas parecia-lhe que dali a umas horas todo o seu futuro teria de ser decidido, e desta vez era um futuro que ele desejava.
       - No quero ir-me embora - murmurou para o cabelo dela enquanto a apertava com fora, e Crystal fechou os olhos, sentindo como era bom ser abraada por algum 
que ela amava. Sentia-se segura e feliz s por estar junto dele, mas mal conseguia acreditar no que ouvia. Era como um sonho tornado realidade, e era to bom que 
a assustava. E se ele no regressasse? Se desaparecesse? Mas sabia que no o faria. Crystal afastou-se de Spencer e quase sentiram ambos uma dor fsica quando ela 
o fixou, como para gravar na memria a sua imagem para o ter junto a si para sempre. Ou durante o tempo que ele levasse a voltar. Mal poderia viver  espera desse 
momento.
       - Amo-te, Spencer.
       - Ento no fiques to triste.
       - Tenho medo. - Estava a ser sincera com ele. Sabia instintivamente que o poderia ter.
       - Medo de qu?
       - E se no voltares?
       - Voltarei. Prometo. - E era uma promessa feita com toda a sinceridade. Todo o seu ser estava vivo e cheio de esperana. Ela era tudo o que queria. - Amo-te, 
Crystal. - Acompanhou-a at  porta e beijou-a de novo. Ela agarrou-se a ele, e um momento depois tinha entrado, passando em bicos de ps em frente ao apartamento 
da Sra. Castagna. Ele ouviu os passos de Crystal a subir as escadas, e pouco depois viu que a luz do seu quarto se acendia. Ela apareceu  janela, acenou-lhe, e 
ento, como um homem que tivesse encontrado o seu sonho Spencer partiu a p para a casa na Broadway. Durante um momento de loucura, pensou em entrar no quarto de 
Elizabeth e contar-lhe tudo. Mas sabia que tinha de pensar muito bem no assunto e falar com ela durante o dia, para que no pensasse que ele estava bbedo ou louco. 
Contudo, Spencer no estava louco. Sabia que estava mais lcido do que alguma vez estivera, e sabia exatamente o que pretendia. S tinha de descobrir como o conseguir.
       
Captulo 21
       
       Estavam todos  mesa do pequeno-almoo na manh seguinte quando ele desceu as escadas: os pais, Elizabeth e os Barclay. Teria sido o momento ideal para dizer 
a todos aquilo que tinha para dizer. Mas quando entrou na sala com a barba feita e um rosto muito plido depois de duas horas de sono, mal conseguiu entrar na conversa 
animada que estava a decorrer. 
       - Ontem  noite deves ter chegado muito tarde - comentou Elizabeth baixinho, a meio de uma conversa com os pais. Estavam prontos para ir apanhar o avio, 
e os Hill comiam uma ltima refeio com os Barclay. Todos falavam dos planos de casamento e ele teve uma enorme vontade de gritar que se calassem, mas controlou-se. 
De repente, achou que no era nem a altura nem o local para lhes falar de Crystal. Achou que Elizabeth merecia que lhe contasse em primeiro lugar, e em privado.
       Pegou na cafeteira de prata e serviu-se do caf, permanecendo em silncio. lan reparou e riu-se, incapaz de resistir quela oportunidade para o provocar.
       - Ser que o meu futuro cunhado est de ressaca? Sei muito bem como so os colegas da faculdade. Cada vez que os vejo fico to bbedo que a Sarah me ameaa 
com o divrcio!
       - Ai isso  que no! - retorquiu Sarah, dirigindo-lhe um sorriso meigo. - S fiz isso naquela vez em que foste preso. - Todos os elementos do grupo se riram, 
com exceo de Spencer, que parecia inexplicavelmente infeliz.
       - Anima-te, filho. Isso h-de passar, e podes beber qualquer coisa no avio. - Mas o que ele queria no era uma bebida, era Crystal.
       Pouco depois, despediram-se dos Barclay, que seguiam diretamente para Washington. Era extraordinrio o fato de o juiz Barclay ter conseguido ir a So Francisco. 
Raramente se ausentava do Supremo Tribunal, mas aquela ocasio era especial. Teria ido  Lua para o noivado da ilha.
       Elizabeth mal falou com ele at se instalarem no avio. Nessa altura olhou-o com um ar muito srio. Sentia que havia algo de errado com ele, pois nunca o 
vira to calado nem to infeliz.
       - Passa-se alguma coisa? - Era a frase ideal para comear, mas ele no teve coragem de a aproveitar. Os pais estavam do outro lado do corredor, e lan e Sarah 
mesmo atrs, e no queria que Elizabeth ouvisse as suas palavras na presena deles.
       Spencer abanou a cabea com um ar pouco convincente, e Elizabeth virou-se para a janela. Estava aborrecida, mas no tornou a dirigir-lhe a palavra. E pouco 
tempo depois adormeceu enquanto ele a observava. S de olhar para ela sentia-se culpado. Mas no suficientemente culpado para avanar com o casamento. No a amava. 
Agora sabia-o. Estava demasiado apaixonado por Crystal.
       Ainda sentia o seu cabelo acetinado no rosto, os seus lbios nos dele... o toque da sua mo... achou que enlouqueceria antes de aterrar. Prometera levar Elizabeth 
a Poughkeepsie ainda essa noite. E receava ficar a ss com ela. Tinha de lhe revelar a verdade, mas detestava feri-la. Contudo, sabia que chegaria o momento de o 
fazer. Sentiu-se deprimido ao pensar na reao dos pais, que ficariam perplexos, e na dos Barclay, que decerto iriam ficar furiosos. Mas tudo isso tinha de ser enfrentado. 
E estava disposto a faz-lo.
       Quando chegaram, os pais dele, juntamente com lan e Sarah, embarcaram num txi para Nova Iorque, e ele dirigiu-se ao carro que deixara no aeroporto. Colocou 
as malas de Elizabeth no porta-bagagens, juntamente com as suas, e seguiram em silncio durante os primeiros quilmetros. Por fim, Elizabeth achou a situao insuportvel.
       - Spencer, o que  que se passa? O que aconteceu ontem  noite? Estavas bem quando saste. - Mas agora no estava bem. Isso era evidente para ambos, mas s 
ele conhecia o motivo. E sabia que tinha de lho revelar.
       Durante um momento louco, Elizabeth lembrou-se da rapariga que vira cantar sbado  noite no Harry's, e recordou a expresso do rosto dele. Perguntou-se se 
isso teria a ver com tudo aquilo, mas tal era impossvel. Ou no seria? Quando a vira, ele cara com cara de quem ia desmaiar.
       - Passa-se alguma coisa que eu deva saber? - Olhou para Spencer, e ele manteve o olhar na estrada durante bastante tempo. Depois, sem dizer uma palavra, encostou 
 berma, parou o carro e virou-se para ela. Estava muito plido e parecia angustiado. Sentia-se mal. Mas Elizabeth mostrava-se estranhamente calma enquanto aguardava.
       - No posso casar contigo. - Mal acreditava que proferira aquelas palavras, mas acontecera. E ainda mais inacreditvel era o ar de Elizabeth. Parecia interessada, 
mas no muito preocupada.
       - No queres dizer-me por qu?
       - No sei se posso. - No queria dizer-lhe que no a amava: seria um golpe demasiado cruel, e no era justo. Elizabeth no tinha culpa de no ser Crystal. 
No era culpada de ele no ter ouvido os troves e visto os relmpagos quando a conhecera. Tinha tudo para lhe oferecer. Era inteligente, bonita, vinha de uma excelente 
famlia, entretinha-o, e ele gostava dela. Mas no a amava. - S sei que no posso. Nunca seramos felizes.
       Elizabeth olhou-o e, por um instante Spencer achou que ela estava a divertir-se.
       - Isso  a coisa mais estpida que j ouvi. Nunca me passou pela cabea que fosses covarde.
       - O que tem isso a ver com o caso? - Ele parecia ainda mais infeliz do que antes; Elizabeth acendeu um cigarro e observou-o.
       - Tem tudo a ver com o caso. Ests apavorado Spencer Hill, e tens medo de enfrentar a situao e de lidar com ela. Ests disposto a desistir de tudo e a correr 
como um coelho. Toda a gente tem medo... e depois? Por isso v se ganhas coragem, por amor de Deus! S um homem. Vai embebedar-te algures, vai chorar para junto 
dos teus amigos e encara a situao. No te parece que todos os homens sentem o mesmo? - Mas nem todos os homens estavam apaixonados por Crystal. E Elizabeth mantinha 
um ar assustadoramente calmo enquanto o observava. - Porque no tiras uma semana de frias e te acalmas? Depois conversamos quando eu c vier no fim-de-semana.
       - Elizabeth, as coisas no so assim to simples. - Ainda se estava a conter. No queria dizer-lhe que voltara a ver Crystal... que se apaixonara por ela 
quando ela tinha catorze anos. Isso t-lo-ia feito parecer louco, mas, para dizer a verdade, naquele momento era como se sentia, enquanto tentava explicar tudo  
mulher de quem estava noivo.
       -  simples, sim, senhor, mas s se tu quiseres. - Ela sorriu e atirou fora a beata. - Porque no fingimos que nunca tivemos esta conversa?
       Spencer suspirou com um ar muito infeliz e recostou-se no banco, olhando para o pra-brisas sem nada ver.
       - Acho que ainda s mais louca do que eu.
       - timo. Nesse caso, faremos um bom par, no  verdade?
       - No, no faremos, raios! - Virou-se para a olhar: - No sou o que tu queres, nem nunca serei. No quero as mesmas coisas que tu. No quero fama, riqueza, 
nem "ser importante". Nunca serei o homem que queres que eu seja. No quero.
       - Ento e eu, j que estamos a falar nisso tudo? Onde  que eu no cumpro os teus objetivos, pois  isso que queres dizer, no  verdade? Estamos a falar 
daquilo que no sou, no daquilo que no s. - Ela era sempre dolorosamente sincera, e inteligente o bastante para saber o que estava a ver, embora desconhecesse 
as razes.
       - No precisas de mim. - Parecia uma razo muito fraca para romper um noivado, e at Spencer se sentiu um idiota ao diz-la.
       - E claro que preciso. Mas no tenho de andar por a a lamentar-me, pois no? Ou  isso que querias? E por acaso amo-te, se  que isso tem alguma importncia 
para ti. Mas no, no vou andar por a a fingir que acredito em arco-ris, milagres e vises de anjos a tocarem harpa que me digam que te amo. Gosto de ti. Acho 
que s inteligente e divertido e que podes ir longe, se ao menos concederes a ti prprio uma oportunidade, e quando l chegares, poderemos divertir-nos  grande. 
 s isso que quero. Achas que  assim to horrvel?
       - No  horrvel. Nada  horrvel. E tu no s horrvel. E tambm gosto muito de ti... mas precisamos de mais qualquer coisa. - A sua voz parecia demasiado 
alta no pequeno espao do habitculo, mas ela pareceu no reparar. Spencer estava a implorar pela sua vida, mas Elizabeth aparentemente ainda no percebera. - Preciso 
de violinos, de harpas e de arco-ris. Acredito neles. Talvez seja apenas um romntico incurvel, mas se nos decidirmos por menos do que isso, daqui a dez anos... 
cinco... dois... iremos arrepender-nos amargamente.
       - Por acaso tambm temos uma excelente vida sexual. No te esqueas disso.
       Ele sorriu, devido  frontalidade dela. Mas Elizabeth tinha razo. Era ainda mais louco o fato de estar perdidamente apaixonado por uma rapariga com quem 
ainda no dormira. De repente, ao ouvir a noiva, e ao ouvir-se a ele prprio, perguntou-se se todos os seus sonhos com Crystal seriam pura iluso. Com ela, tudo 
era harpas e violinos e sonhos e recordaes e vises. Com Elizabeth, ele tinha coisas concretas. Mas precisava de ambas. Pelo menos assim o julgava.
       - Ou ser que o sexo para ti no  importante, Spencer? Pelo que vi, no diria isso. - Ela estava a rir-se dele, e Spencer no conseguiu evitar um sorriso.
       - Acho que  importante.
       - Pelo menos ests a ser sincero. No muito corajoso, mas sincero, pelo menos. - Depois inclinou-se para ele, beijou-o no pescoo e acariciou-lhe a coxa. 
- Porque no paramos algures num motel e discutimos l o assunto?
       - Por amor de Deus, Elizabeth, estou a falar a srio! Acabei de te dizer que no quero casar-me contigo, e tu queres ir para um motel! No me ouviste? Ests 
a. ouvir? No te importas? - comeava a ficar frentico.
       -  claro que me importo. Mas no vou comear j a acenar com o lencinho. Creio que ests a comportar-te como uma criana de dez anos, e no vou fazer-te 
a vontade. Acho que ontem  noite aconteceu qualquer coisa que te apavorou, e nem sequer sei como  que adivinhei. E cheio de zelo religioso, ou algo igualmente 
idiota, queres pr-te a milhas. Bem, no quero ouvir falar mais no assunto. Por isso, leva-me at  faculdade, vai para casa, v se te acalmas e liga-me de manh. 
- Era uma mulher muito calma, disso no haviam dvidas. De certa forma, ele respeitava-a por isso, mas, por outro lado, cava apavorado. E era precisamente por esse 
motivo que no queria casar com ela, mas sim com Crystal. Elizabeth estava de novo a observ-lo quando ele ps o carro a trabalhar com um ar de desespero. - Queres 
confessar alguma coisa a respeito de ontem  noite?  disso que se trata? Porque no procuras um padre e deixas que ele te absolva? Depois poderemos continuar a 
viver como duas pessoas normais.
       - Isso no tem nada a ver com o assunto.
       - Acho que tem, e creio que tu tambm achas. Sabes uma coisa, Spencer? - Ela acendeu outro cigarro e olhou calmamente para fora da janela. - No estou interessada. 
Vai, isola-te, e tem a tua crise de conscience, como lhe chamam os Franceses, sem que ningum veja, e sem destruir a nossa vida no processo.
       - O casamento iria destruir a nossa vida. Acredita, eu sei o que estou a dizer. - Parecia muito srio, mas ela ainda no estava convencida.
       - A infidelidade s por si no  uma razo vlida para o divrcio, independentemente do que a lei possa dizer. Ento se isto tem a ver com isso, se te andaste 
a divertir ontem  noite com os teus amigos, no me sobrecarregues com as tuas histrias srdidas. V se te pes sbrio como qualquer homem normal, decente e que 
se respeita, conta-me uma mentira, compra-me uma bela jia e pra de te lamentar.
       Spencer olhou para ela abismado.
       - Ests a falar a srio?
       - No totalmente. Mas em parte. Ainda no somos casados. E se enlouqueceres de vez em quando, posso ceder em certas coisas. No entanto, depois de estarmos 
casados, posso vir a ser mais mal-humorada.
       - Vou tomar nota disso. - Era uma rapariga extraordinria, e de repente parecia que ele estava a agir como se ainda fosse casar com ela, e no com Crystal. 
- Tens um esprito muito aberto.
       - E por causa disso que estamos a ter esta conversa, no ?
       - No propriamente. - Ainda se recusava a falar-lhe de Crystal. Aquilo no era da conta dela. Contudo, Elizabeth simplificava as coisas, tratando tudo como 
um romance de ocasio, passageiro, e estava disposta a compreend-lo. Isso fazia com que falar com ela fosse ainda mais difcil. - Creio que tem a ver com uma disparidade 
naquilo que ambos queremos da vida. Em certos aspectos, quero mais coisas do que tu, e noutros tu queres mais do que alguma vez quererei. E isso, minha amiga, no 
 um casamento celestial.
       - Isso no existe. - Tinham regressado  auto-estrada, e ela aproximou-se mais dele.
       -  a que discordo de ti: acho que existe.
       - E eu acho que tu s maluco. - Ps-lhe a mo na braguilha ao dizer aquelas palavras e ele guinou o volante, com uma expresso quase aterrorizada.
       - Elizabeth, pra com isso!
       - Por qu? Sempre gostaste disto. - Ele divertia-a. Estava a rir-se dele. E recusava encarar com seriedade o que ele lhe dissera.
       - Ouviste alguma coisa do que eu te disse?
       - Ouvi tudo. E francamente, meu amor, acho que so tudo tretas. - Tornou a beij-lo no pescoo, e, apesar de no querer, Spencer comeou a ficar excitado. 
Teve uma vontade sbita de fazer amor com ela s para a convencer. Mas convenc-la de qu? De que acabara tudo? Porque teria recusado acreditar nele? O que sabia 
ela que ele ainda ignorava? Elizabeth era extraordinariamente voluntariosa e teimosa.
       - No so tretas. Estou a falar a srio.
       - Agora talvez estejas. Mas amanh irs sentir-te atrapalhado. Vou poupar-te a essa atrapalhao no acreditando numa palavra do que disseste. No achas que 
isto  desportivismo?
       Ele tornou a encostar fora da estrada para olhar para ela, mas teve de se rir. Tivera medo que a jovem fizesse algo de disparatado e, em vez disso, ela nem 
sequer se impressionara com a notcia nem com os discursos. Mostrara-se completamente inabalvel. E o pior de tudo era que parte dele gostava disso.
       - s muito mais louca do que eu.
       - Obrigada. - E, com estas palavras. Elizabeth inclinou-se e beijou-o com fora na boca, forando a lngua por entre os lbios dele, ao mesmo tempo que lhe 
abria devagar o fecho das calas. Ele tentou afastar-se, mas parte de si no o desejava.
       - Elizabeth, no... - Mas ela beijava-o e acariciava-o ao mesmo tempo, e os impulsos que provocava eram demasiado fortes para que ele lhes resistisse, mesmo 
naquelas circunstncias. Mal podia acreditar no que estava a acontecer, mas pouco depois encontravam-se os dois deitados no banco do carro, lutando desajeitados 
sob os casacos, com a saia dela puxada at  cintura e a roupa interior descida at um dos tornozelos. O vapor que se formara nos vidros do carro era testemunho 
da paixo de ambos. Foi breve e ardente, e Spencer sentiu-se completamente descontrolado. Depois, quando se afastaram, o episdio deprimiu-o. Mas Elizabeth estava 
de excelente humor.
       - Isto foi ridculo - comentou ele, parecendo-se cada vez mais com um louco, repreendendo-se. Talvez estivesse com uma depresso nervosa.
       - Eu achei muito agradvel. No sejas to emproado. - E continuou a rir-se dele durante todo o caminho at Poughkeepsie. Deu-lhe um beijo muito terno na boca 
quando chegaram a Vassar, apesar dos protestos dele, e prometeu que iriam ter uma conversa muito sria no fim-de-semana seguinte, quando ela fosse a Nova Iorque. 
Em vez de se sentir aliviado ou culpado ou arrependido ou infeliz, no regresso  cidade Spencer sentiu-se um completo idiota. E foi s  noite, j na cama a pensar 
em Crystal, que abarcou o problema com Elizabeth. Tendo conseguido que ele se declarasse, ela no iria aceitar um no. Tudo o que ele desejava fazer era regressar 
 Califrnia para fugir com outra mulher. Aquilo assemelhava-se a uma pera cmica, s que era um assunto muito srio. At se sentiu tentado a ligar ao pai para 
falar sobre isso, mas estava convencido de que o pai o consideraria louco. E, por um momento, ele prprio no teve a certeza de que no o era.
       Na manh seguinte pensou em ligar para casa da Sra. Castagna, para Crystal, mas ainda no podia dizer-lhe nada. Ela nem sequer sabia que ele estava noivo. 
Achou que no lhe devia telefonar at ter resolvido o assunto com Elizabeth. E ficou ainda mais furioso consigo prprio por ter feito amor com ela no carro a caminho 
de Poughkeepsie. S lhe faltava, no meio de toda aquela confuso, que Elizabeth engravidasse. Mas j sabia que ela s se arriscava quando tinha a certeza de que 
nada podia acontecer. Contudo, at mesmo sem essa complicao Spencer encontrava-se perante um dilema insuportvel. S conseguia pensar em Crystal e no seu at agora 
mal sucedido noivado interrompido. De vez em quando, perguntava-se se Elizabeth teria razo e se haveria mesmo um casamento celestial. Afinal de contas, divertiam-se 
quando estavam juntos, na cama e fora dela, ela era inteligente, davam-se bem... mas Crystal era muito mais do que isso... embora ele tivesse de admitir que mal 
a conhecia. No final da semana j quase no conseguia pensar. Ponderara tanto e tantas vezes sobre que atitude tomar que j nada lhe fazia sentido. Nunca fizera. 
S sabia que era atormentado pelas vises romnticas que tinha de Crystal j h alguns anos, e que essas vises contrastavam fortemente com as realidades da mulher 
de quem ainda estava noivo.
       Andou toda a semana com ar abatido, e um dos amigos da firma at fez um comentrio, tentando ser prestvel.
       - Deve ter sido um fim-de-semana difcil Hill. - Spencer sorriu, mas no dia seguinte, quando foram jogar squash, estava to distrado que perdeu os dois jogos. 
Depois, quando pararam para beber um copo, sentiu-se to miservel que teve de desabafar. George Montgomery acabara de entrar na firma. Tinha a idade de Spencer 
e um futuro brilhante pela frente. Era sobrinho do scio mais velho, Brewster Vincent.
       Spencer levantou de repente a cabea, desesperado por falar, e o outro homem pressentiu que ele estava bastante perturbado.
       - O que  que te est a incomodar?
       - Acho que estou louco.
       - Creio que tens razo, mas quem  que no est? - George sorriu-lhe e pediu mais duas cervejas. - H algum motivo para teres reparado nisso assim to de 
repente?
       No sabia o que lhe dizer. Como  que podia falar-lhe de Crystal?
       - Este fim-de-semana encontrei uma velha amiga e So Francisco. J no a via h anos, e pensei que a tinha esquecido... mas de repente... cus, nem sei como 
explicar-te!
       - Acabaste na cama com ela - sugeriu George com um sorriso. Acontecera-lhe uma coisa parecida dois dias antes de se casar. - No te preocupes, isso  medo. 
Hs-de ultrapass-lo.
       - E se no ultrapassar? O que  que acontece? Para alm disso, e para que saibas, no dormi com ela. - Afirmou-o para preservar a reputao dela mais do que 
a dele, como se isso importasse. George nem sequer a conhecia.
       - Ento, os meus psames. No te preocupes Spencer. Hs-de esquec-la. A Elizabeth  uma excelente rapariga. Entrar para a famlia do juiz Barclay no  nada 
mal.
       Ento era s nisso que as pessoas pensavam? Na importncia da ligao ao pai dela?
       Spencer olhou para ele, e de repente George percebeu que a coisa era a srio.
       - Disse  Elizabeth que queria romper o noivado. George assobiou enquanto pousava o copo.
       - Tens razo. Ests louco. E o que disse ela? Spencer abanou a cabea:
       - Nem quer ouvir falar no assunto. Diz que  um caso normal de medo e mandou-me parar com as lamrias. - Era uma situao divertida, mas Spencer no a via 
dessa forma.
       - Pelo menos  compreensiva. Ela sabe da outra rapariga?
       Spencer tornou a abanar a cabea com um ar infeliz.
       - No lhe contei. Mas acho que ela desconfia. No entanto, ainda no se apercebeu da seriedade do assunto.
       - Mas a coisa no  sria - retorquiu George com firmeza.
       - Ai isso  que . Estou apaixonado por ela... pela outra, quero eu dizer.
       - E demasiado tarde. Pensa no assunto. Pensa na confuso que irs provocar se romperes o noivado.
       - E se no romper? Passarei o resto da vida a pensar noutra pessoa?
       - No. Acabars por esquec-la. - Parecia muito seguro, contudo Spencer no tinha tanta certeza. - Tens de a esquecer.
       - As outras pessoas tambm rompem noivados - argumentou Spencer. Parecia agitado e, para piorar ainda mais as coisas, havia dias que j no dormia, o que 
o deprimira ainda mais.
       - Mas no rompem o noivado com a filha do juiz Barclay. - George parecia categrico, e a sua atitude aborreceu Spencer. Todos ficavam muito impressionados 
por ela ser quem era, e ele nunca tivera a certeza de que isso fosse importante. Pedira-a em casamento porque gostava dela, porque era inteligente e cheia de vida, 
e julgou que poderiam ter uma vida interessante, e por fim, porque afirmara a si prprio que a amava. Mas nunca sentira isso. Sabia-o desde o incio. Fora por esse 
motivo que no a pedira em casamento durante um ano inteiro. Depois, repentinamente, tinha achado que no faria mal. Mas enganara-se. E agora? Ainda no possua 
as respostas.
       - Por que motivo  isso to importante, George? Que diferena faz quem o pai dela ?
       - Ests a gozar? No vais s casar com uma rapariga, vais casar com um estilo de vida, um nome, uma famlia importante. No entras e sais sem mais nem menos 
de uma vida como a dela. Eles far-te-o pagar pela desfeita, e mesmo que no o faam, o teu nome ficar na lama daqui at  Califrnia. - Ao ouvir aquelas palavras 
Spencer pensou nos pais, e na decepo que iriam sofrer. Contudo, no podia casar-se s para lhes agradar.
       - Poderei viver com isso, se for obrigado. - Mas ser que poderia? E se Crystal no fosse a mulher certa para ele? E se fosse tudo uma paixonite juvenil? 
Afinal de contas, mal a conhecia. - A questo que se coloca  a seguinte, George: amo ou no a Elizabeth? E a verdade  que no sei. Como poderei am-la se estou 
completamente apaixonado por outra pessoa?
       - Acho que precisas de esquecer isso e voltar ao teu juzo perfeito. V l, pago-te o jantar. Bebe uns copos, deita-te e, por amor de Deus, no lhe digas 
mais nada. Daqui a uns dias vais sentir-te melhor. Provavelmente,  isso que ela disse. Medo. Todos o tm.
       No entanto, Spencer no estava assim to certo. Pelo menos, naquela noite dormiu bem, e de manh viu o anncio do seu noivado no New York Times, com uma bonita 
fotografia de Elizabeth tirada em Washington, quando da tomada de posse do pai. Aquilo fazia com que tudo voltasse a parecer real, e quando se dirigiu  firma, perguntou-se 
se George no teria razo, se ele s teria de tirar Crystal da cabea. Mas que iria dizer-lhe? Que cometera um erro? Que afinal de contas no a amava? E quanto a 
Crystal? Precisava dele, ou pelo menos de algum. No era justo para ela, e ficou abalado s de pensar em desistir de a ter. Mas no tinha de lhe dizer nada.
       Nesse dia, em So Francisco, Crystal viu a notcia do noivado nos jornais. Ele nem sequer se lembrara disso enquanto tentava resolver o dilema. Crystal estava 
a jantar no Harry's com o resto dos colegas quando Pearl lhe estendeu o Chronicle com um ar interessado. Mas no ficou to admirada como Crystal quando esta viu 
o rosto de Spencer a sorrir-lhe do jornal.
       - Eles no estiveram aqui uma noite destas? Acho que fui eu que os atendi. - Pearl estava pensativa. Andava sempre fascinada com o jet set. - Acho que foi 
no sbado. Ela era um bocado emproada, mas recordo-me de que ele era muito simptico. Estava deslumbrado contigo. Devias ter-lhe visto a cara enquanto estavas a 
cantar.
       Crystal sentiu as mos gelarem, e os seus dedos tremiam quando devolveu o jornal  amiga. J lera o suficiente. Dizia que Spencer Hill, de Nova Iorque, casaria 
com a lha do juiz Barclay, Elizabeth, e que ambas as famlias se haviam deslocado de avio  cidade por volta do Dia de Ao de Graas para celebrar e dar uma festa 
a quatrocentos amigos na manso da Broadway. Hedda Hopper dizia que a festa fora incrvel, com caviar, champanhe e um jantar volante que metia a um canto os da Casa 
Branca, e que Artie Shaw e a sua banda haviam tocado para o jovem casal at s primeiras horas da manh. A data do casamento estava marcada para Junho, e o vestido 
de Miss Barclay iria ser feito pela loja Priscilla, de Boston. Crystal olhou para o prato com uma expresso incrdula. Ele no lhe dissera uma palavra acerca do 
noivado. S lhe dissera que a amava. E que regressaria  Califrnia. Mentira-lhe. E ao recordar-se das palavras dele, sentiu o corao apertar-se. Acreditara nele.
       - J tinhas ouvido falar dele antes? - perguntou Pearl, mastigando a comida com cuidado. Ultimamente estava a engordar, mas ainda era uma excelente danarina.
       - No - respondeu Crystal, abanando a cabea, indo despejar o prato. Ainda estava cheio, mas j perdera o apetite. Nessa noite cantou com toda a sua alma, 
tentando no pensar nele, mas era escusado. S conseguia pensar em Spencer, e dois dias depois, quando ele lhe ligou, quase se recusou a atender a chamada, mas a 
Sra. Castagna insistira.
       -  interurbana! - gritara ela, impressionada, e as mos de Crystal tremiam quando pegou no auscultador.
       - Sim?
       - Crystal? - Era a voz dele, e ela fechou os olhos. No respondeu durante um grande bocado, mas ele tornou a repetir o nome dela, parecendo preocupado e infeliz.
       - Sim?
       - E o Spencer.
       - Parabns. - O corao dele quase parou quando ouviu aquela palavra, e nesse momento soube. Os Barclay deviam ter anunciado o noivado nos jornais locais. 
Desejava ter sido ele a contar-lhe, mas agora era demasiado tarde; ela j sabia.
       - Regressei a Nova Iorque para o romper. Juro. Na noite em que cheguei falei com ela.
       - Calculo que tenham ambos achado que no estavas a falar a srio.
       - No foi isso... eu... no sei bem como explicar.
       - No precisas. - Queria estar zangada com ele, e estava, mas, enquanto o ouvia, s conseguia sentir uma enorme tristeza. Perdera j tantas pessoas de quem 
gostava, que ele era apenas mais uma delas. Desaparecera. Sara para sempre da sua vida. Tal como os outros. Porm, desta vez podia ter sido tudo to diferente! 
- No me deves nada Spencer.
       - A questo no  essa... Crystal, amo-te... - Era uma coisa terrvel para lhe dizer face ao anncio do seu noivado.
       - No quero tornar as coisas ainda mais difceis. S quero que saibas isso. Talvez as nossas vidas estivessem demasiado distantes. Nunca tivemos oportunidade 
de nos conhecer...
       - Era uma desculpa esfarrapada. Instintivamente, sabia como os dois se dariam bem, como eram feitos um para o outro. Mas ele escolhera uma realidade fria 
em vez de uma iluso meiga. - As coisas complicaram-se muito depois de aqui ter chegado. - Crystal parecera-lhe to irreal nessa altura, mas ao falar com ela pelo 
telefone, desejou abra-la de novo e senti-la perto de si.
       Crystal chorava em silncio enquanto o ouvia. Queria odi-lo, mas no era capaz.
       - Ela deve ser muito especial.
       Spencer hesitou, querendo contar-lhe a verdade, que ela era muito mais especial para ele do que Elizabeth, mas isso no era real. No podia ser. Ele no podia 
permitir que fosse.
       - E muito diferente do que tu e eu sentimos. No tem a mesma magia.
       - Ento porque ests noivo? - Ela j no entendia. Era tudo muito confuso.
       - Para te ser franco, no sei bem. Talvez porque fosse demasiado complicado deixar de o ser.
       - Isso no me parece uma razo muito boa para o casamento.
       Ele era da mesma opinio, e pouco podia dizer-lhe em resposta.
       - Eu sei. Sei que isto parece uma loucura, mas vou escrever-te... s para saber como ests... ou posso telefonar-te? - No suportava perd-la de novo. No 
outra vez. Precisava de saber que ela estava bem, e estar ali se ela precisasse dele, mas Crystal no desejava isso.
       As lgrimas tornaram a correr-lhe pelas faces, enquanto ela abanava a cabea.
       - No, por favor... vais casar-te. Nunca tivemos nada. S um sonho. No quero ter notcias tuas. Isso s serviria para me lembrar daquilo que nunca tivemos.
       O que Crystal dizia era verdade, mas ele ficou ainda mais deprimido por saber que ela no queria estar em contacto com ele.
       - Telefonas-me se precisares de alguma coisa?
       - Como, por exemplo? - Ela sorriu por entre as lgrimas. - Que tal um contrato para um filme em Hollywood? Arranjas-me um?
       - Claro... - Ele sorriu por entre as suas prprias lgrimas. - Por ti, fao tudo. - Tudo exceto aquilo que ambos desejavam mais do que a prpria vida. E ele 
estava a estragar tudo, porque decidira que Elizabeth era a "escolha acertada". Ao falar novamente com Crystal, deixou de ter a certeza. Talvez ela tivesse razo 
em no querer que ele lhe telefonasse. Teve vontade de se meter no primeiro avio s para estar com ela, mas no podia fazer isso; plos dois, tinha de tentar e 
esforar-se para que tudo desse certo com Elizabeth. - Acho que um dia destes vou ver o teu nome em non... ou que estarei a comprar os teus discos. - E falava a 
srio.
       - Talvez um dia. - Mas naquele momento, no pensava nisso. S pensava nele, e em como lhe sentiria a falta. - Estou contente por te ter visto de novo... apesar 
disto tudo... valeu a pena. - Mesmo por alguns dias de sonhos. Pelo menos, vira-o. E abraara-o. E tocara-lhe. E ele dissera-lhe que a amava.
       - No sei como podes dizer uma coisa dessas agora. Sinto-me um miservel... especialmente depois de teres sabido da notcia plos jornais.
       Ela encolheu os ombros. Talvez agora j no importasse. Talvez nada importasse. Ele nunca fizera parte da sua vida. Fora apenas um sonho, do princpio ao 
fim... mas um sonho agradvel. E depois, desejando ser mais forte, comeou de novo a chorar; custava-lhe muito ter de dizer adeus a Spencer, sabendo que era para 
sempre.
       - Espero que sejas feliz.
       - Tambm eu. - Mas ele no parecia muito certo. - Promete que me telefonas quando precisares de mim. Estou falar a srio, Crystal. - Sabia que ela no tinha 
mais ningum, com exceo dos Webster, e eles no podiam fazer muito por ela.
       - Eu fico bem. - Ela sorriu e tornou a reprimir as lgrimas. - Sou rija, sabes?
       - Sim... sei... quem me dera que no precisasses de o ser. Mereces ter algum muito bom a olhar por ti. - Quis acrescentar: "E quem me dera ser essa pessoa", 
mas isso seria demasiado cruel, e intil para ambos. Em seguida, sabendo que no havia mais nada a dizer, acrescentou: - Adeus, Crystal, amo-te. - Tinha lgrimas 
nos olhos, e mal conseguiu ouvir a resposta murmurada dela.
       - Tambm te amo Spencer... A chamada caiu: ela desaparecera. Para sempre. Ele escreveu-lhe uma vez, s para lhe dizer como lamentava tudo aquilo e quanto 
significara para ele, como fora difcil p-lo por palavras, mas a carta veio devolvida, ainda por abrir. No soube se ela mudara de casa, mas achava que no. Era 
suficientemente ajuizada para no comear uma coisa que nenhum deles poderia terminar. E Crystal sabia que agora tinha de o esquecer. No era fcil. Era a coisa 
mais difcil que j fizera, com exceo de ter deixado o rancho e o vale, mas obrigou-se a tentar esquec-lo. Nem sequer quis tornar a cantar o que cantara na noite 
em que ele voltara para a ver. Tudo lhe fazia recordar Spencer, todas as manhs, todos os dias, todas as noites, todas as canes, todos os crepsculos. Cada momento 
que estava acordada era passado a pensar nele. Nos anos anteriores apenas tivera os seus sonhos, mas agora tinha tudo para tornar as coisas ainda infinitamente piores. 
Sabia a cor exata dos olhos dele, conhecia o cheiro do seu cabelo, o toque dos seus lbios, o toque das suas mos, o som da sua voz quando lhe murmurava. E agora 
tudo isso teria de ser esquecido; toda a vida pela frente e ningum para amar; no entanto Deus tinha-lhe dado um dom, lembrava constantemente a Sra. Castagna, e 
Crystal tinha Pearl para lhe recordar que Hollywood ainda estava  espera. Mas agora, sem Spencer, nada disso parecia to importante.
       
Captulo 22
       
       As coisas acabaram por voltar ao normal na vida de Spencer. Pensava muito em Crystal, mas estava determinado a ser um bom marido. Foi passar o Natal a Palm 
Beach com Elizabeth, e voltou de novo a ser o mesmo. Pensava muitas vezes em escrever a Crystal, mas no o voltou a fazer. Sabia que ela no queria ser incomodada, 
e sentia-se demasiado culpado. Quanto a Elizabeth ignorava tudo, como se se tratasse de um faux pas social que no devesse ser mencionado.
       Apesar disso, tiveram um Natal agradvel e regressaram da Florida descontrados e bronzeados. S faltavam seis meses para o casamento. 
       Normalmente, Elizabeth mantinha Spencer ocupado em festas em Nova Iorque e em viagens a Washington para visitar os pais. Ele mal teve tempo para pensar noutra 
coisa durante a Primavera, mas a lembrana de Crystal surgia-lhe com alguma persistncia e ele fez os possveis para a esquecer. No valia a pena enlouquecer por 
causa dela. Estava a proceder corretamente, dizia ele a si prprio quase todos os dias.
       A Sra. Barclay foi a So Francisco no princpio de Maio, para supervisionar os ltimos pormenores. Iriam casar-se na Grace Cathedral, como Elizabeth desejava, 
e a recepo teria lugar no Hotel St. Francis. Quisera que fosse em casa, mas como convidara mais de setecentas pessoas, no tivera outra opo seno d-la num hotel. 
Iria haver catorze escudeiros e doze damas de honra. Era o tipo de casamento acerca do qual Spencer j lera mas a que nunca assistira. E no dia seguinte ao do fim 
das aulas de Elizabeth, foram os dois de avio para So Francisco. Ela terminara o terceiro ano e iria pedir transferncia para Columbia nesse Outono, para poder 
formar-se depois do casamento. Era a nica condio que o pai lhes impusera antes de ter concordado com o casamento. Queria ver a filha licenciada, e s lamentava 
que ela no o fizesse em Vassar. Mas Elizabeth s queria estar com o marido. Iam muito animados no avio, e Spencer sabia que os aguardava inmeras festas na Califrnia. 
Ainda faltava uma semana para o casamento, a 17 de Junho, e passariam a lua-de-mel no Hava. Ela estava ansiosa, e na semana anterior anunciara a Spencer que o iria 
deixar "a po e gua" antes do casamento. Ele provocou-a imenso no avio, afirmando que j no era responsvel plos seus atos. Mas as oportunidades iriam ser mais 
limitadas do que antes. O pai dela instalara-o no Bohemian Club, tal como a todos os escudeiros que no eram da cidade, entre eles George, o colega de Spencer. Ainda 
se lembrava de como George tinha a certeza de que ele estava a proceder corretamente, e agora tambm achava o mesmo. At ter voltado a pr os ps em So Francisco.
       De repente, deu consigo a pensar noite e dia em Crystal. Estava to perto, e queria desesperadamente v-la. Mas obrigou-se a no ir, bebendo mais do que o 
costume e agindo da forma que ele achava ser a mais lcida. Teria sido uma crueldade para com ela. Spencer mergulhou de alma e corao nos planos do casamento e 
nas festas que eram todos os dias dadas em honra de ambos.
       Houve festas em Atherton, Woodside, e vrias em So Francisco, e na vspera do casamento os Barclay deram um grande jantar no Pacific Union Club para os convidados 
mais chegados. A despedida de solteiro de Spencer tivera lugar na noite anterior, e fora organizada por lan. Inclura vrias strippers e rios de champanhe, e Spencer 
tivera de resistir  vontade de passar pelo Harry's a caminho de casa para dizer a Crystal que ainda a amava. Tentou explic-lo a lan de forma incoerente, mas depois 
lembrou-se de que no devia.
       - Exatamente, filho - dissera lan com um sorriso -; bebemos sempre champanhe por copos de cristal.
       J no clube, tinham-no deitado na cama, pois ele precisara de ajuda, e no jantar de ensaio Spencer no estava em muito boa forma. Ningum estava. E Elizabeth 
aparecera radiosa num vestido de noite de cetim cor-de-rosa. A me comprara-lhe vestidos lindssimos em Washington e Nova Iorque, e agora ela usava o cabelo mais 
comprido, numa banana, o que fazia sobressair os incrveis brincos de diamantes que os pais lhe haviam oferecido. Tinham dado a Spencer um relgio Patek Philippe 
e uma cigarreira de platina com safiras e diamantes. Por sua vez, ele oferecera-lhes uma caixa de ouro que tinha gravado um verso de um poema de que o juiz Barclay 
muito gostava. E deu a Elizabeth um colar de rubis, com um par de brincos a condizer, que lhe levaria muitos anos a pagar. Mas sabia quanto ela gostava de rubis, 
e Elizabeth estava apenas habituada ao melhor. Naquela noite, no Pacific Union Club, quando sorriu  noiva soube que ela merecia.
       O casamento foi ao meio-dia do dia seguinte, e os escudeiros saram do Bohemian Club em vrias limusines. A noiva iria ter  igreja no Rolls Royce de 1937 
que pertencera ao seu falecido av e que ainda estava em timas condies. Os Barclay s o utilizavam em ocasies importantes. Elizabeth exibia um ar muito feliz 
quando duas criadas e o mordomo a instalaram dentro do carro com a cauda do vestido, de quatro metros, cuidadosamente dobrada. O pai olhava-a cheio de admirao. 
Ela levava uma coroa de renda com pequenas prolas, e presa a ela, cuidadosamente desenhada, estava a sua pequena e elegante tiara. O fino vu caa  sua volta como 
nvoa, e o vestido de renda de decote subido realava a elegncia do seu corpo. Era um vestido incrvel, um dia incrvel, e um momento inesquecvel. O motorista 
conduziu-os  Grace Cathedral, enquanto as crianas da rua apontavam para a noiva. Ela estava linda, e o pai teve de reprimir as lgrimas quando a acompanhou pela 
nave lateral ao som do Lohenrin e das vozes das crianas do coro que pareciam anjos a cantar.
       Spencer viu-a aproximar-se, e sentiu o corao a pulsar. Era o momento por que tanto tinham esperado e finalmente chegara. Estava feito. E quando ela lhe 
sorriu atravs do vu, ele sabia que tinha feito a escolha mais acertada. Elizabeth estava linda. E dali a instantes, seria sua mulher. Para sempre.
       Desceram a nave lateral, seguidos pelas damas de honra e plos escudeiros, sorrindo aos amigos, e pareciam nunca mais chegar ao fim. S saram da igreja  
uma da tarde, e chegaram ao St. Francis  uma e meia. Os jornalistas aguardavam-nos a. Era o maior casamento que So Francisco via desde h muitos anos, e havia 
uma multido nas ruas para ver a chegada das limusines. Era evidente que ela era uma pessoa muito importante. Entraram no hotel e danaram, comeram e beberam toda 
a tarde. Spencer pensou mais do que uma vez que se tratava de uma espcie de recepo poltica. Tinham vindo pessoas de Washington e de Nova Iorque. Vrios outros 
juizes do Supremo Tribunal encontravam-se presentes, bem como os democratas mais importantes da Califrnia. E tinham recebido um telegrama do prprio presidente 
Truman.
       Por fim, s seis horas, ela subiu para trocar de roupa e despiu o vestido que nunca mais tornaria a usar. Olhou-o com tristeza durante um momento, pensando 
nas muitas horas que passara a prov-lo, na ateno dos pormenores, mas agora teria de o pr de parte, guard-lo para as filhas. Vestiu um fato de seda branco e 
colocou um belssimo chapu Chanel. Os convidados atiraram ptalas de rosas quando eles saram. Foram levados no Rolls at ao aeroporto. O vo para o Hava s partiria 
s oito, e quando pararam para beber qualquer coisa no restaurante do aeroporto, Elizabeth olhou para o marido e esboou um sorriso vitorioso.
       - Bem, mido, conseguimos.
       - Foi muito bonito, querida. - Inclinou-se e beijou-a. - Nunca me hei-de esquecer de ti naquele vestido.
       - Odiei ter de o tirar. Parece to estranho que eu nunca mais o torne a vestir, depois de tantos cuidados e excitao com ele... - Sentia-se nostlgica, e 
durante o vo dormiu com a cabea sobre o ombro de Spencer. Ele sorria, certo de a amar. Iam para o Hava e depois iriam passar uma semana no lago Tahoe com os pais 
dela, antes de o juiz Barclay regressar a Washington e de eles voltarem para Nova Iorque para procurar um apartamento. Ela iria viver para a casa dele at encontrarem 
o que queriam. Elizabeth tencionava viver em Park Avenue, o que era demasiado caro para o salrio de Spencer, mas ela disse que tambm queria contribuir. Recebera 
um fundo fdeicomissrio quando fizera vinte e um anos, mas ele no se sentia muito bem com ela a ajud-lo. Ainda no tinham resolvido o assunto, e era por isso 
que era mais simples irem viver para casa dele at as coisas estarem decididas. E Elizabeth no tivera tempo de procurar nada enquanto estivera em Vassar.
       Enquanto ela dormia e o avio voava para Honolulu, ele teve a certeza de que tudo iria correr bem. Ficaram instalados no Halekulani, em Waikiki, e os dias 
voaram, tendo sido passados na praia e vrias vezes por dia no quarto a fazer amor. O sogro arranjara-lhes um carto de membros temporrios do Outrigger Canoe Club, 
e foi visit-los uma vez para ver como iam as coisas, apesar dos protestos da esposa. Ela era de opinio que os garotos deviam ser deixados em paz, mas o juiz Barclay 
queria saber como estavam e ansiava por os receber na casa do lago Tahoe.
       Regressaram no dia 23 de Junho, e estavam muito felizes e bronzeados quando chegaram. O juiz Barclay tinha um carro  espera deles, e Spencer dirigiu at 
ao lago, no mesmo dia em que Pearl mostrava a Crystal as fotografias do casamento que tinham sado nos jornais. Tencionara mostrar-lhas muito antes. O artigo falava 
do incrvel vestido de noiva de Elizabeth e da sua cauda de quatro metros. Crystal sentiu um n na garganta ao ler os pormenores, e olhou durante bastante tempo 
para a fotografia de Spencer, que segurava a mo da noiva e sorria.
       - So um casal muito bem-parecido, no achas? - Pearl ainda se recordava que eles tinham ido ao clube no Inverno anterior. Possua boa memria para rostos 
e nomes, e ainda se lembrava de ter lido uma notcia sobre o seu noivado por alturas do Dia de Ao de Graas.
       Crystal no lhe respondeu. Dobrou o jornal e entregou-lho, tentando esquecer-se de que ainda o amava. Estava com um ar adoentado, e disse a Harry que sentia 
uma enorme dor de cabea. J havia artistas suficientes para atuarem nessa noite e a maior parte dos seus clientes no se encontrava na cidade. O Harry's tornara-se 
num clube muito popular, em grande parte devido a ela e  sua crescente reputao como cantora.
       Nessa noite, quando se deitou e tentou esquecer as fotografias que vira nos jornais, Elizabeth e Spencer encontravam-se sentados na margem do lago e conversavam. 
Os pais dela j se tinham ido deitar, e era tarde, mas havia sempre muita coisa a dizer. E falavam sobre coisas que o pai dela dissera acerca da "caa s bruxas" 
de McCarthy(*). Spencer discordara violentamente dele. Achava injustas muitas das acusaes que eram feitas, e agora Elizabeth estava a provoc-lo, dizendo que ele 
era um sonhador.
       
(*) Joseph Raymond McCarthy, senador republicano que, a partir de 1950, chefiou a Comisso de Atividades Antiamericanas do Senado que pretendia acabar com a infiltrao 
comunista na Administrao. (N. ao T.)
       
       - Isso so tretas, Elizabeth! A comisso anda para a a acusar inocentes de serem comunistas. Isso  desastroso!
       - O que te d tanta certeza de que eles so inocentes? - perguntou ela com um sorriso. Concordava inteiramente com o pai.
       - O nosso pas no pode ser todo vermelho, por amor de Deus! E, para alm do mais, ningum tem nada a ver com isso.
       - Como  que podes dizer uma coisa dessas com todos aqueles tumultos no Mdio Oriente? O comunismo  atualmente a maior ameaa ao nosso mundo. Queres outra 
guerra?
       - No. Mas no estamos a falar de uma guerra. Estamos a falar de atitudes no nosso pas. O que aconteceu  liberdade de escolha? O que aconteceu  Constituio? 
- Ele detestava falar de poltica com Elizabeth. Gostava dela quando faziam amor ou estavam de mos dadas, ou apenas sentados ao luar. - Seja como for, no concordo 
com o teu pai. - Tinham discutido o assunto durante horas, e depois do longo vo do Hava e do percurso at ao lago Spencer estava exausto. - Vamo-nos deitar.
       - E eu no concordo contigo - retorquiu ela com uma gargalhada.
       - Talvez no, mas pelo menos tens outras coisas em que pensar, para alm da poltica. - Ela sorriu e seguiu-o at casa, mas nessa noite ele estava demasiado 
cansado para fazer amor e ficara perturbado por regressar a So Francisco: sempre que ali ia pensava em Crystal.
       No dia seguinte, manteve-a afastada da sua mente, pois foram fazer esqui aqutico no lago e jantaram com uns amigos dos Barclay. O dia que se seguiu foi o 
do impacto das notcias da Coria. O Governo chamou-lhe "interveno policial", mas Spencer achou que era mais uma guerra do que outra coisa. Os jovens estavam a 
ser chamados s fileiras e os reservistas convocados. Quando ouviu as notcias, percebeu o que significavam para ele e logo que se virou para a esposa, ela ficou 
horrorizada ao ouvi-lo.
       - Fizeste o qu? - Tinha os olhos castanhos muito abertos, e era evidente que estava prestes a chorar.
       - Pensei que no fizesse diferena, e quis ficar com a minha comisso. - Ele permanecera na reserva, e agora os oficiais reservistas estavam a ser convocados. 
Dentro em breve tempo estaria a caminho da Coria.
       - No podes desistir agora da tua comisso?
       - E demasiado tarde. - E era-o mais do que ele julgava. O telegrama que o mobilizava j se encontrava  sua espera no escritrio. George Montgomery ligou-lhe 
nessa tarde e Spencer informou Elizabeth com um olhar grave. No tinha medo de ir. De certa forma, at o desejava mas tinha imensa pena dela. Estavam casados apenas 
h duas semanas, e agora ele partia para a Coria. Mandaram-no apresentar-se em Fort Ord, Monterey, e tinha dois dias para l chegar. Elizabeth encontrava-se em 
estado de choque, e o juiz Barclay ficou muito srio quando ouviu as notcias.
       - Queres que tente livrar-te disso, filho?
       - No, sir. Obrigado. J servi no Pacfico. No seria correto fugir ao dever. - Tinha sentimentos muito fortes a respeito daquela questo, mas nessa noite 
Elizabeth lutou com ele com unhas e dentes. Haviam acabado de se casar, e ela no queria perd-lo. Mas Spencer mostrou-se firme.
       - Tenho a certeza de que tudo ir acabar em breve, minha querida. No  uma guerra,  uma interveno policial.
       -  a mesma coisa! - gritou ela. - Porque no deixas que o paizinho trate de tudo? - Estava furiosa com ele, e implorara ao pai que a ajudasse, mas ele no 
o faria, a menos que Spencer assim o desejasse.
       Na realidade, admirava-o por fazer uma coisa daquelas. S tinha pena da filha. Ela mal despira o vestido de noiva e j ele partia para a guerra. No parecia 
justo, at para ele, mas a nica coisa boa que da poderia advir era que, enquanto Spencer estivesse fora, ela poderia voltar para Vassar. S lhe faltava um ano 
para terminar o curso, e isso mant-la-ia ocupada enquanto Spencer estivesse na Coria. Ele prprio fez os telefonemas necessrios para Vassar no dia seguinte e 
ela ficou ainda mais aborrecida quando ele a informou do que fizera. No quarto, Elizabeth revoltou-se contra a crueldade do destino: numa questo de dias, tudo o 
que ela queria lhe escapava plos dedos. Casara com Spencer, e agora ele partia para a Coria, enquanto ela regressaria  faculdade, como se nada acontecesse, como 
se no tivessem casado. O pai nem sequer a deixava ficar em Nova Iorque a viver no apartamento do marido.
       - Spencer, no quero que te vs embora!
       - Minha querida, tenho de ir. - Nessa noite, amou-a cheio de ternura e no seu ntimo desejou que ela fosse sempre assim to terna. Gostaria de a ter deixado 
grvida. Dar-lhe-ia alguma coisa em que pensar e pela qual ansiar, e teria algo ainda mais importante para regressar. Mas ela usava sempre o diafragma e na altura 
crucial do ms obrigava-o tambm a precaver-se. Nunca corria riscos, mas desta vez ele no discutiu. Havia j muito em que pensar: ele tinha de apresentar-se em 
Fort Ord e ela regressaria a Washington com os pais dali a dias.
       - Nem sequer posso ficar contigo em Monterey?
       - Eles no me deixariam ver-te. No vale a pena. Volta com os teus pais e descansa um pouco antes de as aulas comearem; vers que tudo se passar rapidamente. 
E nos fins-de-semana podes sempre ir a Nova Iorque e ficar no apartamento.
       Tudo aquilo era um pesadelo para Elizabeth e, de certa forma, ele tinha pena dela. Mas, por outro lado, estava ansioso por partir. Gostara da camaradagem 
da guerra e o ano que passara  secretria em Wall Street fora bastante maador. No que ele o tivesse admitido a algum, e muito menos  mulher, mas a idia de 
ir para a Coria excitava-o.
       Ela foi com o marido de carro at Monterey, e aps uma longa despedida, muito lacrimejante, regressou ao lago para junto dos pais. Voaria para Washington 
dali a dois dias. Nessa altura Spencer estava ocupadssimo com um curso de reviso em treino de combate. Nem sequer teve tempo de lhe telefonar antes de ela partir 
com os pais, e quando Elizabeth se sentou no banco traseiro do carro dos pais na viagem de regresso ao Leste, chorou lgrimas amargas pelo marido. A me fez-lhe 
festas na mo e entregou-lhe uma reserva de lencinhos. O pai dormiu a maior parte da viagem. Estava cansado e tinha bastante trabalho  espera. Iria ser um longo 
Vero para todos eles. Elizabeth s esperava que a guerra da Coria no fosse muito longa. Queria comear a sua vida com o marido.
       
Captulo 23
       
       Spencer esteve sete semanas em Fort Ord, a saltar obstculos e a ser treinado em simulacros de combate. Parecia-lhe espantoso ter esquecido tanta coisa em 
cinco anos, mas,  medida que as semanas avanaram, foi ficando cada vez mais apto e em melhores condies, e o corpo parecia recordar-se de mais coisas do que a 
mente. Deitava-se todas as noites na tarimba, exausto, demasiado cansado para se mexer, para falar ou para comer, ou at mesmo para telefonar  mulher. Teve de fazer 
um esforo para lhe ligar de vez em quando, para que ela no casse muito preocupada. Estava furiosa por ele se encontrar longe quando podia estar em casa e ir a 
festas. No fora assim que ela esperara passar os primeiros tempos do casamento, mas quem  que podia ter sabido que a guerra da Coria iria surgir e mudar tudo? 
De certa forma, aquilo era para ele uma espcie de adiamento, mas um adiamento que ele no julgara querer. Tomara uma deciso ao casar, mas agora, quando falava 
com a mulher ao telefone, parecia que conversava com uma estranha. Ela falou-lhe das festas a que fora com os amigos dos pais, e contou-lhe que fora jantar  Casa 
Branca com os Truman. Era uma poca estranha para Elizabeth: era casada, mas de certa forma parecia que no o era. Fora  Virgnia visitar uns amigos, e na semana 
seguinte a me iria lev-la para Vassar.
       - Tenho muitas saudades tuas, querido. - Ela parecia muito mais nova do que antes, e Spencer sorriu.
       - Eu tambm tenho muitas saudades tuas. Daqui a pouco volto para casa. - Mas nenhum deles sabia quando. Poderiam ser meses, ou anos, e s de pensar nisso 
Elizabeth ficava deprimida. No desejava regressar a Vassar, no queria que ele se fosse embora, e mais do que uma vez repreendeu-o por ainda estar na reserva, mas 
agora era demasiado tarde. O mal estava feito e ele regressara ao Exrcito.
       Deram-lhe duas semanas de licena antes de embarcarem, mas impuseram-lhe que no se afastasse mais de trezentos quilmetros, para o caso de quererem mand-lo 
mais cedo. Esteve quase para no dizer a Elizabeth, pois sabia que ela viria a correr, e achava que no valia a pena. As aulas deviam comear dentro de alguns dias 
e no seria muito agradvel para ambos tornarem a despedir-se: se o chamassem mais cedo, ela iria ficar muito desapontada. Finalmente, acabou por lhe falar da licena 
e Elizabeth concordou que no valia a pena ir ter com ele, havendo o risco de o mandarem embarcar mais cedo. Em vez disso, ela sugeriu-lhe que ficasse na casa de 
So Francisco, e, com uma expresso pensativa, ele concordou.
       - Tens a certeza de que os teus pais no se importam? - No queria impor a sua presena, mesmo que a casa estivesse desocupada.
       - No sejas parvo, agora s da famlia. Se quiseres, pergunto  minha me, mas sei que ela no se importa. - E quando Elizabeth lhe fez a pergunta Priscilla 
veio imediatamente ao telefone, incitando Spencer a ficar l em casa. Tinha uma governanta que ocupava a casa na ausncia dos Barclay, uma chinesa idosa que trabalhava 
para eles h muitos anos.
       - Faz de conta que ests em casa. - Detestava que ele fosse enviado para a guerra, especialmente por causa da filha. Elizabeth andava muito triste desde que 
deixara Spencer na Califrnia. Seria um alvio voltar a mand-la para a faculdade. Pelo menos teria algo que fazer enquanto esperava que o marido regressasse da 
Coria.
       Spencer alugou um carro e dirigiu-se  cidade, instalando-se num dos elegantes quartos de hspedes da manso dos Barclay. Tinha duas semanas por sua conta 
e pouco que fazer, mas era um alvio afastar-se dos homens com quem estivera a viver, e do mundo das botas da tropa e das placas de identificao. Estava preocupado 
com o que ouvira a respeito da ao na Coria. Parecia uma pequena guerra muito feia, e Spencer no estava muito ansioso por regressar ao Pacfico. Tinha mais nove 
anos do que da primeira vez e menos vontade de ser atrevido e corajoso. Possua muita coisa pela qual valia a pena viver, e uma morte herica numa terra estranha 
era uma perspectiva que no lhe agradava por a alm, mas havia ocasies em que se sentia excitado por estar de novo livre. Telefonara para a firma e todos os scios 
mais velhos haviam sido muito amveis, desejando-lhe boa sorte e informando-o de que estariam  espera dele, bem como o cargo, quando tudo terminasse. Mas um dia 
tambm teria de repensar tudo isso. Depois deste interregno j no tinha tanta certeza de querer voltar para Wall Street. Continuava muito mais interessado no trabalho 
criminal, e ali no havia espao para isso. Mas tambm teria de falar com Elizabeth antes de tomar uma medida drstica. Suspeitava que ela o queria de volta  firma 
de Wall Street.
       Spencer deu um longo passeio pela cidade na sua primeira tarde em So Francisco. Estava uma tarde de Agosto bastante quente e naquele dia Crystal fazia dezenove 
anos. Partilhava um pequeno bolo de aniversrio no restaurante com os amigos, e Harry deu-lhe folga naquela noite. Ela comprou uma garrafa de champanhe para partilhar 
com a Sra. Castagna. Mudara-se h pouco para um dos quartos melhores, depois de o vendedor de seguros ter sido recrutado e enviado para a Coria. Era um pouco maior 
e tinha uma janela que dava para o canto do jardim de algum, mas tirando isso, pouca coisa mudara. Saa-se bem com as suas cantigas no Harry's, e recebera vrias 
crticas favorveis nos jornais. At cantara em festas muito elegantes.
       Boyd e Hiroko tinham ido visit-la duas vezes, com a pequena Jane, quando Hiroko fora ver o Dr. Yoshikawa. O beb nascera havia um ms, mas desta feita no 
houvera ningum a ajud-la. Ele apresentara-se com os ps para a frente e morrera antes de Boyd ter conseguido pedir ajuda. Tivera de ir at Calistoga, deixando 
Hiroko sozinha com Jane. Ainda bem que a parteira fora com ele (no lhe dissera que a mulher era japonesa), pois salvara-lhe a vida. Mas um ms mais tarde ainda 
estava de cama, e Crystal prometeu que iria visit-los; contudo, temia regressar ao vale, at mesmo para visitar a amiga. Era demasiado doloroso. Sabia que Tom ainda 
andava metido com a irm de Boyd, mas a ltima carta de Hiroko dissera que ele se realistara para ir para a Coria. Boyd tambm fora chamado, mas como sofria de 
asma j h alguns anos, no foi aceite, o que tambm no fez mal. As coisas no teriam sido fceis para Hiroko se ele a tivesse deixado sozinha entre vizinhos hostis. 
Cinco anos depois da guerra, tudo se mantinha na mesma: o dio deles por ela no diminura. As recordaes no se tinham apagado e os seus coraes continuavam frios, 
especialmente agora, com as hostilidades na Coria. Para eles, era tudo a mesma coisa: Coreanos, Japoneses, e a maior parte deles no sabia diferenci-los.
       Crystal estava deitada na cama, depois de ter deixado a Sra. Castagna, e sentia-se feliz depois de dois copos de champanhe. Pensava na sua vida. Perguntou-se 
onde estaria Spencer, se ele tambm se teria realistado. No que isso lhe interessasse. Ele sara da sua vida. Deixara de existir. Exceto no seu corao, onde sempre 
estivera. E no podia deixar de se perguntar se o casamento lhe correria bem. Tentou no pensar nele naquele momento, mas no era fcil, e, devido ao champanhe Spencer 
continuava a assolar-lhe os pensamentos. Ela acabou por permitir-se pensar nele, como se fosse uma espcie de presente de aniversrio.
       Naquela noite estava muito calor no seu quarto, e decidiu ir passear at North Beach. Havia pessoas sentadas nas esplanadas dos restaurantes e a falar italiano 
nos passeios. Algumas crianas corriam umas atrs das outras, fugindo s mes no ar quente da noite; por um momento ela recordou a sua infncia e lembrou-se de quando 
Jared a perseguia. Nessa noite vestia calas de ganga, uma camisa velha, as botas  cowboy e prendera o cabelo numa trana. Dirigiu-se  loja da esquina para comprar 
um gelado.
       - Parabns - murmurou a si prpria, virando-se de seguida para regressar  casa da Sra. Castagna. O gelado pingava para o cho e ela tentava no o desperdiar 
parecendo uma criana, inclinando-se para a frente enquanto lhe sujava as botas. Sorriu para uma rapariguinha que a observava. Mas no reparou no soldado alto de 
cabelo preto que a observava  distncia. Sentira-se sozinho naquela casa vazia e nessa noite j caminhara vrios quilmetros, pensando nela e na mulher, sentindo-se 
tentado pela primeira vez em muito tempo a ir ver Crystal. Mas contentara-se em passar pela casa onde j sabia que ela morava, quando a vira a seguir ao Dia de Ao 
de Graas. Calculou que ela estivesse a trabalhar, como deveria ter estado, e o seu corao comeou a bater com muita fora quando a viu. Era como reviver um sonho, 
a rapariga com umas calas de ganga e botas  cowboy inclinada sobre o passeio a comer um gelado: hesitou, no sabendo se devia aproximar-se. Achou-a uma rapariguinha, 
e depois, como se o sentisse a olhar para si Crystal virou-se e ficou imvel. O gelado caiu-lhe das mos. Endireitou-se, olhou para ele e desatou a correr para casa 
da Sra. Castagna, mas ele chegou l antes dela.
       - Crystal, espera... - No sabia o que lhe iria dizer, mas agora era demasiado tarde. Tinha de a ver.
       - Spencer, no... - Ela virou-se para o olhar, cheia de desejo, e nesse momento Spencer apercebeu-se de como errara ao deix-la. Sem dizer uma palavra, agarrou 
na mo dela, e Crystal quis resistir, mas no foi capaz.
       - Crystal, por favor... - implorava ele. S sabia que precisava de lhe falar, nem que fosse por um minuto, tinha de v-la, de abra-la e de estar junto dela. 
Crystal olhou para ele, e ambos souberam que a paixo ainda ali estava, exatamente onde a haviam deixado, s que ainda maior. Ele no disse uma palavra mas puxou-a 
para si e abraou-a. Desta vez ela no resistiu.
       Spencer percebeu que fora um idiota por ter dado ouvidos a Elizabeth, a George e a si prprio. Enganara-se quando casara com ela, quando aquilo que desejava 
era Crystal. Tentara fazer o que estava correto e, apesar de tudo, no o zera. Tudo o que queria agora era aquela rapariga, com cabelo dourado e olhos cor de alfazema.
       - Que vamos fazer Spencer? - murmurou ela enquanto ele a abraava.
       - No sei. Aproveitar o mximo possvel, creio eu, enquanto pudermos. - Era como um vcio que recomeava exatamente onde cara suspenso. Pensava em Elizabeth 
enquanto olhava para Crystal.
       - Porque voltaste? - Ela referia-se ao local onde vivia; no apenas a So Francisco.
       - Porque tinha de voltar. Queria tornar a ver-te, ou pelo menos ver o local onde estive contigo pela ltima vez.
       - E depois? - Ela olhou-o com tristeza, toda a sua fora e resistncia abandonando-a, deixando apenas o amor que sentia desde a primeira vez que o vira. - 
Agora s casado. - Lera sobre o casamento nos jornais. - Onde est... a tua mulher? - Odiava aquela palavra, e teve de se obrigar a diz-la. Era mais fcil pensar 
agora como as coisas poderiam ter sido diferentes se ele tivesse rompido o noivado. Pensaram ambos nisso enquanto se olhavam e Spencer lhe segurava na mo e ansiava 
por beij-la.
       - Est em Nova Iorque. - No queria dizer o nome dela, no agora, no na presena de Crystal. - Vou embarcar para a Coria daqui a alguns dias, e fiquei com 
tempo livre... eu... Cus, Crystal, no sei o que dizer-te... Sinto-me um patife. Errei. Agora sei-o. E uma coisa horrvel de dizer logo aps o casamento. Julguei 
que estava a proceder corretamente. Foi isso que disse a mim prprio. Queria acreditar nisso, mas quando te vejo, a minha cabea anda  roda... toda a minha vida 
fica virada ao contrrio. Devia ter fugido contigo em Novembro, e desprezado o "correto" e as atitudes nobres. Tinha acabado de ficar noivo... pensei... oh, credo... 
o que sei eu? - Parecia angustiado.
       Contudo, por um momento, os olhos dela lanaram fogo na direo dele, aqueles olhos cor de alfazema estavam irritados. A voz de Crystal parecia um grito, 
e ele no a culpou.
       - E onde  que eu fico no meio disso tudo Spencer? A brincar contigo enquanto estiveres de licena?... Quando tiveres um fim-de-semana livre?... Quando conseguires 
escapar-te? E eu? E a minha vida, depois de me deixares? - Prometera a si mesma no voltar a v-lo, mesmo que tivesse oportunidade, o que seria difcil. No valia 
a pena. Ele tomara uma opo, e ela iria ultrapassar tudo isso, mesmo que ele o no fizesse. Fora por isso que devolvera a carta por abrir. - Em que estavas a pensar? 
- Agora estava visivelmente irritada, e isso s a tornava mais bela aos olhos de Spencer. - Num bocadinho de pardia antes de partires? Bem, podes esquecer o assunto. 
Vai para o inferno... ou volta para ela...  isso que fars seja como for, como aconteceu da ltima vez.
       Desconsolado, ele olhou-a. No podia negar aquelas palavras, ainda que o quisesse. Desejava prometer-lhe que no voltaria para Elizabeth, mas agora estavam 
casados, e no sabia o que fazer a respeito do assunto. No podia dizer-lhe que o casamento terminara ainda antes de ter comeado. Mas era s nisso que pensava e 
era s isso que desejava. Queria ficar com Crystal para sempre.
       - No posso prometer-te nada. Neste momento nada te posso dar, exceto aquilo que sou, neste momento, minuto a minuto. E talvez isso no seja muito... mas 
 tudo o que tenho para dar, isso e o meu amor.
       - O que significa isso? - Os olhos dela estavam cheios de lgrimas enquanto o olhava, e a sua voz era grave e rouca. - Tambm te amo. E depois? Aonde  que 
isso nos levar daqui a seis meses?
       - Por agora... - Ele sorriu-lhe com tristeza, no queria mago-la, e perguntou-se se errara em ter vindo, mas no conseguira evit-lo. - Por agora, vou enviar-te 
muitas cartas da Coria... se desta vez as leres.
       Crystal virou-se para que Spencer no a visse chorar. Ele era muito belo e ela amava-o h muito tempo. Quando tornou a observ-lo, percebeu que l bem no 
fundo no se importava que ele fosse casado. Naquele momento, ele pertencia-lhe, e talvez valesse a pena aproveitar-se disso, at ele partir para a Coria.
       Crystal baixou a cabea, pensando no que ele dissera, depois tornou a levant-la devagar.
       - Quem me dera ter coragem para te mandar embora...
       - Mas no acabou a frase.
       - Irei, se quiseres. Farei o que quiseres. - "... E sonharei contigo o resto da vida..." -  isso que queres, Crystal?
       - Baixou o olhar na direo dela e tocou-lhe no rosto com dedos longos e suaves, enquanto lhe falava. Amava-a. Teria feito qualquer coisa por ela. Era precisamente 
a espcie de amor de que falara a Elizabeth. O tipo de amor que nunca haviam tido, nem teriam, como ele agora sabia.
       Ela limitou-se a abanar a cabea, o olhar entrando no dele em adorao.
       - No, no  isso que quero. - Estava a ser franca, sempre o fora, e ele mal tinha coragem para ouvi-la, mas o seu corao estremeceu quando ouviu aquelas 
palavras. - Talvez seja a isto que todos temos direito... a alguns dias... a alguns momentos emprestados... - No parecia muito, mas era tudo o que tinham e para 
ambos valia a pena.
       - Talvez um dia haja mais... contudo, agora no posso prometer-to. No sei o que ir acontecer. - Parecia perturbado, mas queria ser sincero. Ela dirigiu-lhe 
um sorriso estranho, pegou-lhe na mo e comeou a subir os degraus da casa da Sra. Castagna.
       - Eu sei.
       Ele sentiu-se de novo como um rapaz enquanto a seguia, ainda de mos dadas, observando aquela cabeleira brilhante e o corpo longo e esbelto subindo os degraus 
 sua frente. Crystal virou-se uma vez levando um dedo aos lbios, em sinal de silncio. Tirou a chave de um dos bolsos das calas de ganga e deixou-o entrar no 
quarto. No queria que a Sra. Castagna os ouvisse. Decerto faria um escndalo. No gostava que as raparigas levassem homens para os quartos, nem que os hspedes 
levassem mulheres. E de vez em quando isso acontecia, mas quando descobria pespegava-se em frente  porta dos quartos, desaprovando vivamente.
       - Descala-te - murmurou Crystal, tirando as botas e revelando um par de meias vermelhas que tinham pertencido ao irmo. Sorriu para Spencer quando se sentou 
na beira da cama, tornando a parecer uma rapariguinha. Havia momentos em que ele recordava facilmente a criana que ela fora, e depois, com a mesma rapidez, tornava 
a transformar-se numa jovem mulher muito apetecvel.
       Ele murmurou quando se sentou ao lado dela, e ela sorriu com timidez quando ele lhe tocou no cabelo, beijando-a de seguida. Era um beijo meigo, cheio de desejo, 
de gratido por ela ter aceitado o pouco que ele tinha para lhe oferecer.
       - Amo-te tanto... - murmurou ele para o cabelo dela -, s to bonita... to boa... - Ardia de desejo, e teve de recorrer a todas as suas foras para no lhe 
rasgar as roupas. Mas quando lhe tocou na camisa com dedos trmulos, viu-a retrair-se ligeiramente. Afastou-se, perguntando-se o que teria feito, mas ento ela beijou-o 
com fervor, obrigando-se de seguida a deix-lo explor-la. Ele observou-a, temendo assust-la, certo de que ainda era virgem. - Tens medo?
       Ela abanou a cabea e tinha os olhos fechados quando ele a deitou suavemente na cama e a despiu devagar. Parou para baixar os estores, e quando ela ficou 
nua e linda em cima da cama estreita, ele despiu-se e ajudou-a a enfiar-se debaixo da roupa. Recordava-se de como era tmida quando criana, e no queria embara-la, 
ou assust-la, ou mago-la. Queria que tudo corresse na perfeio e que aquele fosse um momento que nenhum deles esquecesse. Ela era ainda mais encantadora do que 
ele sonhara, e quando finalmente a penetrou, gemeram ambos baixinho. Ela contorceu-se nos braos dele, e ele beijou-a sem fim, abraando-a e murmurando em voz baixa 
o seu amor por ela. Ficaram juntos durante muito tempo, e quando tudo terminou, ele puxou-a para junto de si, como se se pudessem tornar num s corpo e numa s alma 
se ele a abraasse durante o tempo suficiente para que nada pudesse voltar a separ-los.
       Crystal jazia sonhadora nos braos de Spencer, e ele franziu o sobrolho quando viu uma lgrima escorregar-lhe pela face.
       - Crystal... ests bem? - Depois, sentindo-se culpado:
       - Arrependeste-te? - Tinha to pouco para lhe oferecer, no tinha o direito... mas sabia quanto a amava.
       Mas ela abanou a cabea e sorriu-lhe atravs das lgrimas, respondendo:
       - No estou arrependida... amo-te.
       - Ento o que  que se passa?
       - Nada. - Tornou a abanar a cabea, mas, por um momento, a lembrana de Tom envolveu-a, muito embora aquilo fosse diferente.
       - Conta-me. - Ele puxou-a ainda mais para junto de si, e as lgrimas dela caram-lhe sobre o ombro. Ela limpou-as, mas as lgrimas tornaram-se cada vez mais 
rpidas. Spencer abraou-a suavemente, preocupado. Crystal precisava tanto dele, era to vulnervel e to nova, no tinha ningum que a guardasse, exceto ele. No 
era justo, e em breve teria de partir, deixando-a sozinha.
       - No te largo at me dizeres em que ests a pensar.
       - Estava a pensar como sou feliz. - Sorriu por entre as lgrimas, mas ele no acreditou.
       - Podias ter-me enganado. Teria jurado que estavas a chorar... - Adorava estar com ela, adorava o aroma doce da sua pele e os seus cabelos sedosos. Adorava 
tudo nela. - Passou-se alguma coisa contigo, no passou? - A voz dele era to meiga que a fez chorar ainda mais. Ele suspeitara, mas no ousara perguntar-lhe, e 
a histria de ela ter ido atrs de Tom Parker com a espingarda do pai no fora esquecida.
       E agora, enquanto o olhava com tristeza Crystal assentiu.
       - Queres falar no assunto?
       Ela abanou a cabea, tornando a parecer uma criana.
       - No posso... foi demasiado horrvel.
       - Deve ter sido. Mas j no importa, minha querida. O que quer que tenha sido, j passou. E se falares sobre o assunto talvez o teu fardo se torne mais leve.
       Ela hesitou, olhando-o durante bastante tempo, perguntando-se o que diria quando lhe dissesse que Tom a violara. Depois, devagar, sabendo que podia confiar 
nele, contou-lhe aquela histria horrvel. Ele permaneceu deitado, muito quieto, agarrado a ela, deixando-a contar-lhe tudo atravs das lgrimas e dos soluos. Os 
olhos de Spencer brilhavam ao ouvi-la, mas a sua voz era meiga e bondosa, e ela sentiu-se segura nos seus braos.
       - Devias t-lo morto. Foi uma pena no o teres feito. Acho que o teria morto se l tivesse estado. - E falava a srio, mas ela abanou a cabea com veemncia. 
J sabia mais coisas. Mas era demasiado tarde para Jared.
       - Eu estava enganada... se no tivesse... se... - No suportava dizer de novo aquilo, nem sequer a Spencer. - Se eu no tivesse feito aquilo, ele no teria 
morto o Jared.. Oh, Spencer... a culpa foi toda minha... matei-o. - Soluou sem parar nos braos dele, enquanto Spencer a beijava e a abraava.
       - A culpa no  tua. Nada daquilo foi... foi tudo um acidente, e por culpa do Tom, no tua. Foi ele quem o abateu, Crystal, no tu. Ele violou-te, e tu no 
tiveste a culpa.
       - A alma inflamou-se-lhe s de pensar nisso, e os punhos fecharam-se involuntariamente com as imagens que ela lhe transmitira... o cho do celeiro... o rosto 
ignbil sobre ela... a brutalidade dele... e o assassnio do irmo. Crystal olhou muito infeliz para Spencer:
       - Quis mat-lo. Quis mago-lo tanto como ele me magoou... isso no estava certo... e Jared morreu por isso. - Pagara o preo, e ela tambm, perdera o irmo, 
o lar, a famlia. Era um preo enorme a pagar plos pecados de Tom Parker e, por um momento, Spencer soube que se tivesse estado no lugar dela teria puxado o gatilho, 
e tinha muito melhor pontaria do que ela.
       - Agora precisas de esquecer isso. No podes mudar nada. S podes decidir no guardar nada contigo.
       - No posso. A minha reao matou o meu irmo.
       - No  verdade. - Sentou-se, e Crystal enroscou-se junto dele, que lhe ps um brao sobre os ombros. - No fizeste nada Crystal. Percebes isso? - Ela tornou 
a abanar a cabea, e ele soube que nunca conseguiria convenc-la. Carregaria aquela mgoa durante o resto da vida, acreditando, por qualquer razo que no revelava, 
que fora a culpada por Tom a ter violado e sentindo que matara o irmo, acreditando que isso mudara a sua vida. Spencer no insistiu. - Agora tens de olhar para 
a frente, e pensar nas coisas boas que te aguardam. Tens as tuas canes, e um dia poders ter uma grande carreira. - Depois acrescentou, com um sorriso: - E tens-me 
a mim. - Por um minuto... ou um dia... ou talvez para sempre.
       Crystal sorriu-lhe, beijando-o com doura no rosto, e ele, incendiado por nova paixo, retribuiu o beijo nos lbios dela. E enquanto se beijavam, perguntava-se 
o que aconteceria, que futuro lhes estaria reservado, se  que teriam algum futuro. Mas era demasiado cedo para pensar no assunto. Tudo era muito recente entre ambos. 
Passado algum tempo, ela acalmou-se e parou de chorar, encostando-se mais a ele.
       - Achas mesmo que um dia terei uma grande carreira? - Parecia difcil de acreditar, mas ela gostava da idia, e ele mostrava-se convicto, o que lhe agradava.
       - Sim, acho. E estou a falar a srio. Tens uma voz belssima. Um dia sers uma grande estrela Crystal. Acredito firmemente nisso.
       - No vejo como. - So Francisco parecia estar a anos-luz de Hollywood, mas ela ainda no desistira dos seus sonhos e gostava daquilo que fazia.
       - D tempo ao tempo. Ainda agora comeaste. A vida est a comear para ti. Quando tiveres a minha idade, as pessoas enchero as ruas, implorando para te ouvir.
       Ela riu-se com a idia:
       - Obrigada, av - brincou, enquanto os seus cabelos louros tocavam no ombro dele.
       - O respeitinho  muito bonito.
       No entanto, a mo de Spencer a acariciar-lhe a anca exigiu-lhe toda a ateno, e momentos depois estava de novo nos seus braos, esquecendo tudo o resto, 
enquanto se entregava de corao aberto. S queria o que lhes pertencia, e comparada com isso at Hollywood parecia pouco importante.
       Nessa noite dormiu nos braos dele, respirando com suavidade, o rosto como o de uma criana, a cabea no seu ombro. Spencer nunca se sentira to feliz. Sabia 
que era por aquilo que sempre esperara.
       E de manh, foram dar um grande passeio e tomar o pequeno-almoo. Ela falou cheia de animao sobre o Harry's e disse-lhe que adorava cantar l. Era como 
se tivessem estado sempre juntos, e Spencer sorriu enquanto a ouvia. A rapariguinha tmida desaparecera, e ele ficara com a mulher com que sempre sonhara.
       Pareciam recm-casados e ningum teria adivinhado que ele era casado com outra mulher. Crystal tagarelava alegremente quando ele se inclinou e a beijou. Sentia-se 
fascinado por tudo o que ouvia dela. Para variar, no era poltica nem o gnero de coisas de que ele falava com Elizabeth. Era apenas a vida real, e as coisas que 
interessavam tanto a Spencer como a Crystal.
       Depois regressaram ao quarto dela e tornaram a fazer amor. Nessa tarde, quando a levou ao emprego, ficou atordoado ao aperceber-se de como sentia a falta 
dela. Todas as horas que passava longe dela eram dolorosas. Foi a casa dos Barclay buscar algumas das suas coisas para poder mudar-se para o quarto dela enquanto 
estivesse em So Francisco.
       Lembrou-se de Elizabeth enquanto arruava as coisas. Mas ela no lhe parecia importante. Nada era importante. Apenas Crystal.
       Cumpridor do dever, ligou  mulher depois de ter deixado Crystal no trabalho, e acordou-a, embora fossem j dez e meia. Ela disse que estava aborrecida e 
pareceu triste quando lhe perguntou quando  que embarcava para a Coria.
       - Ainda no recebi notcias. Ligo-te quando souber. - Depois informou-a de que iria para casa de uns amigos, pois sentia-se muito sozinho ali. Ela sorriu 
enquanto conversavam, e Spencer prometeu ligar dali a uns dias. Se ela precisasse, poderia deixar recado em casa dos pais. Ele telefonaria para l de vez em quando. 
Mas a sua voz era fria, embora ela parecesse no se aperceber.
       Meia hora mais tarde, saiu daquela casa. E Elizabeth abandonou a sua mente como se tivesse sado para sempre da sua vida. Era quase como se nunca tivessem 
casado. Mas ele negou-se a pensar no assunto quando nessa noite viu Crystal cantar, sabendo que as canes eram apenas para ele. Depois do trabalho, caminharam at 
 casa de Green Street. Ele nunca se sentira to feliz, e ela estava muito bonita num vestido s flores. Deixava os de cetim no Harry's. Eram s para quando cantava, 
e parecia de novo mais jovem, com o cabelo solto, o rosto sem maquiagem. Virou-se para ele com um sorriso tranqilo. Todas as suas dores pareciam t-la abandonado 
assim que ele regressara  sua vida. E o mundo estava limitado a ambos.
       - Spencer, escreves-me quando te fores embora? - perguntou ela com uma voz meiga, olhando-o.
       -  claro que sim. - Mas ambos sabiam que quando ele regressasse teria de enfrentar a questo do casamento. E Spencer ainda no sabia o que iria fazer. Vivia 
o dia-a-dia, e Crystal no lhe pedia mais nada. Desta vez, ele no fez promessas que no podia cumprir, no lhe escondeu nada. S sabiam o que tinham e, durante 
duas breves semanas, foi perfeito.
       
Captulo 24 
       
       Spencer regressou a Monterey no dia 3 de Setembro, e dois dias mais tarde deveria apanhar um avio para Taegu, o qual faria escala em Tquio. Antes de partir, 
regressou a So Francisco, para passar mais uma noite com Crystal. Harry dera-lhe folga naquela noite, e caminharam durante horas, de mos dadas, a conversar. Desejavam 
que a noite no tivesse fim, e desejavam recordar-se de cada momento que tinham partilhado. Nenhum deles se arrependera de nada. Fora perfeito. 
       - No ests arrependida, pois no? - Andava sempre preocupado com ela, mas dali a algumas horas pouco poderia fazer para a ajudar. Crystal teria de ser forte 
enquanto ele estivesse ausente, e talvez at para sempre depois disso. Mas fora era algo que ela possua em abundncia. O que ele lamentava era o fato de no haver 
ningum que tomasse conta dela, como ele teria gostado de fazer.
       - No, no estou arrependida. Amo-te demasiado para me arrepender de alguma coisa - respondeu ela com um sorriso. Tinha um ar tranqilo e parecia ter crescido 
ainda mais nas duas semanas que passara com ele. Sentia-se bem ao seu lado, e as noites que partilharam haviam sido repletas de amor. - Mas vou sentir muito a tua 
falta. - Depois acrescentou, cheia de preocupao: - Mantm-te a salvo, Spencer... no permitas que nada te acontea.
       - No vai acontecer nada, tontinha. Eu fico bem. E o regresso ser breve.
       No entanto, nenhum deles sabia o que iria acontecer quando ele regressasse da Coria. Parecia no haver ainda respostas fceis, e talvez nunca as houvesse. 
Contudo, ele perguntava-se se as coisas no ficariam mais claras para ele com aquela separao. Sabia que um dia teria de fazer qualquer coisa. No podiam continuar 
para sempre daquela maneira. Mas no fez quaisquer promessas a Crystal a respeito do futuro, nem ela lhas pediu. Dele s queria o que lhe tinha sido dado durante 
aquelas duas semanas, desde que, no dia do seu aniversrio, ele a encontrara na rua a comer um gelado.
       Regressaram ao quarto e fizeram amor pela ltima vez. Quando se vestiram, tinham ambos lgrimas nos olhos. Custava v-lo de uniforme, e Crystal desceu furtivamente 
as escadas quando ele partiu para Monterey. Ficou  porta, descala e em camisa de dormir.
       - Volta para dentro. Telefono-te quando l chegar - murmurou ele. Durante duas semanas haviam conseguido ' iludir a Sra. Castagna.
       - Amo-te - disse ela por entre as lgrimas. Ele abraou-a, desejando ret-la na memria e no corpo para sempre - queria que ela o recordasse, bem como s 
duas semanas que haviam partilhado, para o caso de no regressar. Afinal de contas, ia para a guerra, e s Deus sabia o que iria acontecer.
       - Amo-te, Crystal. - Era tudo o que lhe podia dizer.  Apressou-se a descer os degraus e a virar a esquina onde deixar o carro. Momentos depois passou, fazendo-lhe 
adeus, e Crystal subiu as escadas em silncio at ao quarto, que ficara to vazio sem ele. Spencer partira e ela sabia que talvez nunca mais o visse, mas tinha a 
certeza de que nunca o iria esquecer. Ele era-lhe demasiado querido, estava demasiado bem guardado no seu corao para que a pudesse abandonar, acontecesse o que 
acontecesse.
       Spencer ligou-lhe quando chegou a Monterey. Chegara a , hora. Partiria nessa manh s dez e meia. Ligou a Elizabeth depois disso, mas teve de se contentar 
em deixar-lhe um recado. Ela estava nas aulas, o que foi para ele um alvio. J h dias que a evitava, e s lhe ligava quando sabia que a isso era obrigado. Era 
difcil disputar aquele jogo, e ela conhecia-o demasiado bem. Apercebia-se de todas as inflexes, de todos os estados de esprito, dissecava todas as frases. Mas 
at quele momento, embora Spencer soubesse que deveria sentir-se mal, conseguira engan-la. No fora isso que tencionara fazer, mas todos os seus planos se haviam 
desvanecido no momento em que tornara a ver Crystal. Tivera de ficar junto dela enquanto ela quisesse. E cada momento fora inestimvel.
       E quando o avio com destino a Hickham Field, no Hava, partiu de Monterey, Spencer olhou pela janela e viu o que restava da costa oeste, conseguindo apenas 
pensar em Crystal. A rapariga dos seus sonhos, a mulher que ele amava para l da razo.
       Nesse preciso momento, ela olhava para o cu, sabendo que a sul dali ele partia para a guerra. Rezou pela segurana dele e fechou os olhos. De seguida, reprimindo 
as lgrimas, entrou em casa, dirigindo-se silenciosamente para o quarto que durante duas semanas partilhara com Spencer. De repente, pareceu-lhe que todo esse tempo 
havia sido apenas uns breves momentos. Ficara tanta coisa por dizer, tanta por fazer. Ele tambm quisera visitar o vale, mas Crystal mostrara-se reticente. Embora 
desejasse muito tornar a ver Boyd, Hiroko e Jane, no queria correr o risco de se encontrar por acaso com a me, a irm ou at mesmo Tom. No queria l voltar e 
duas semanas mais tarde, quando Boyd lhe ligou da estao de servio informando-a que a av morrera, no mudou de idias.
       A av Minerva iria ser enterrada no rancho, junto do pai e de Jared. Morrera durante o sono, e Boyd ouvira dizer que a me dela ficara bastante perturbada, 
mas Crystal endureceu o seu corao, agradeceu-lhe o telefonema, e informou-o de que no iria.
       - Mas obrigada por me teres avisado. - Era o fim de outro captulo. Morrera mais um. A nica famlia que lhe restava era Becky e a me e para ela ambas estavam 
mortas.
       - Como  que est a Hiroko?
       - J conseguiu sair da cama. Mas... tem sido muito duro para ela... sabes... - Estivera de luto pelo beb que morrera e j h dois meses que nada a consolava. 
Desta vez, o mdico informara-a de que no podia ter mais filhos. S ficaria Jane... a pequena Jane Heiko... o beb que Crystal ajudara a nascer. A sua afilhada.
       - Porque no vm c visitar-me? - No lhe contou que estivera com Spencer. Era o segredo de ambos.
       - Talvez um dia destes - respondeu Boyd. Depois acrescentou, hesitante: - Sabes que o Tom partiu, no sabes? Foi para a Coria h duas semanas. Acho que a 
tua irm no est muito bem. Pelo menos foi isso que a minha irm me disse. Creio que ela tem muita sorte em ter-se visto livre daquele pulha! - No se conseguiu 
conter, mas Crystal ficou impassvel. Odiava-os, exceto a Boyd, Hiroko e Jane. A sua vida afastara-se demasiado da deles.
       - Quem  que est a tomar conta do rancho?
       - Acho que a tua me e a Becky. Tm suficientes empregados para se safarem, a menos que eles sejam todos alistados. - Iria ser como a guerra, pelo menos era 
o que parecia. Era to cruel, aps s cinco anos de paz! Mas pelo menos Boyd no iria para parte nenhuma. Ficara contente por Hiroko com o fato de ele ter sido rejeitado. 
- Ests bem Crystal?
       - Estou tima. Estou aqui a cantar. - Houvera muito mais do que isso, mas ela no desejava contar a ningum, nem mesmo aos Webster. - Porque no pensam em 
vir at c?
       - Vamos tentar. E, Crystal... lamento o que aconteceu  tua av.
       Ela j quase se esquecera que fora por isso que ele lhe telefonara, e ele tambm, mas o velho Petersen estava a gesticular, mandando-o regressar ao trabalho, 
e ele tinha de desligar rapidamente.
       - Obrigada, Boyd. D um beijo  Hiroko e  Jane. Avisa-me se pensares vir a So Francisco.
       - Est descansada.
       Boyd desligou e Crystal ficou parada a olhar para o ar no corredor da Sra. Castagna.
       - Passa-se alguma coisa? - Ela surgia como um fantasma sempre que suspeitava que havia um telefonema interessante.
       Crystal virou-se para ela com um suspiro.
       - A minha av morreu.
       - Que pena! Era muito velha? - A Sra. Castagna sentia pena dela. Estava to sozinha, e era to jovem, bonita e decente.
       - Tinha quase oitenta anos, acho. - Mas parecera ter cem e nunca tornara a ver a neta. Crystal no queria pensar mais no assunto. Era demasiado tarde. A av 
Minerva partira. E ela j tinha com que se preocupar, com a ida de Spencer para a Coria.
       - Vais a casa para o funeral? - Gostava de saber tudo. Crystal abanou a cabea.
       - Acho que no.
       - Ests zangada com a tua famlia, no ? - Nunca havia um telefonema, uma carta, exceto de umas pessoas chamadas Webster, e nunca ia a lado nenhum, exceto 
nas duas ltimas semanas, com o rapaz que escondera no quarto. A Sra. Castagna fingira no reparar porque gostava dela.
       - J lhe disse, os meus pais morreram. - A Sra. Castagna anuiu, mas no acreditou. Os olhos de Crystal nada lhe disseram quando os observou atentamente. Era 
mais velha do que Minerva fora, mas tinha muita vida e no tencionava morrer nos tempos mais prximos.
       - Como  que est o teu amigo?
       A princpio, Crystal no respondeu. Sabia que ela tinha de estar a referir-se a Spencer e adotou uma expresso neutra, comeando a subir para o quarto.
       - Est bom.
       - Foi para algum lado?
       Ela parou no cimo das escadas, olhando para a velha senhora com um olhar de dor que tudo dizia.
       - Sim, para a Coria.
       A Sra. Castagna assentiu, e regressou  cozinha, para se pr  janela. J se interrogara a respeito dele. Sabia que estava hospedado l em cima, mas Crystal 
estivera sozinha durante tanto tempo que nada lhes disse, o que no era normal nela. Crystal no lhe causara problemas durante um ano, e ele parecia ser bom rapaz. 
S era pena que ela se deitasse com ele, mas com uma rapariga assim, sem pais nem famlia que tomassem conta dela, no era de admirar. E ele fora o nico homem com 
quem ela vira Crystal. Parecia ser um bom homem, uma pessoa decente. S era pena que tivesse ido para a guerra. Desejou, tal como Crystal, que ele sobrevivesse. 
E l em cima, no seu quarto, Crystal jazia na cama estreita que partilhara com Spencer e chorava, rezando para o tomar a ver, para que ele vivesse e que voltasse 
para ela, talvez para sempre.
       
Captulo 25
       
       Os seis meses seguintes pareceram infindveis para Crystal, que cantava noite aps noite no restaurante, para Elizabeth, na faculdade, e para Spencer, na 
Coria. Ele escrevia a ambas sempre que podia, mas s vezes sentia-se louco quando punha as cartas no correio. E se se enganasse, se as tivesse trocado, se tivesse 
colocado o endereo de Elizabeth e o nome de Crystal e mesmo assim a mulher recebesse a carta? Por vezes estava to cansado que isso seria possvel, mas o que  
certo  que nunca se enganou. Limitava-se a estar preocupado com o assunto. E torturava-se constantemente quanto a tomar uma deciso.
       Dissera a Crystal o que sentia, como a desejava e como a amava. Mas no fizera promessas para depois da guerra. Ainda no sabia o que iria fazer com Elizabeth, 
nem se queria ou no divorciar-se dela. Estava certo de que amava Crystal e que teria de desistir de uma delas, pois no poderia continuar para sempre naquela situao. 
Mas tambm devia algo a Elizabeth. Comeara algo com ela, e a rapariga no tinha culpa de ele no a amar. Ningum era culpado, mas o certo  que isso complicava 
as coisas. Contudo, ele andava demasiado ocupado a tentar sobreviver  guerra para poder tomar uma deciso. Tinha de esperar at regressar a casa, e entretanto escrevia 
a Elizabeth a respeito do que via, dos trajes, dos monumentos, dos costumes, das pessoas. Tinha a certeza de que ela ficaria fascinada por aquilo tudo, bem como 
pelas suas implicaes polticas. Crystal no se apercebia menos das coisas, mas a esfera de interesses de ambas era diferente, e a necessidade que ele tinha do 
amor de Crystal era muito mais forte. Elizabeth escreveu-lhe a dizer como estava saturada das aulas, o que eleja ouvira antes, contando-lhe os jantares que os pais 
tinham dado durante as frias. Fora ficar vrias vezes com lan e Sarah a Nova Iorque, mas estes andavam a ajudar uma pessoa a organizar uma nova caada no Connecticut 
e passavam todos os fins-de-semana no Kentucky, a comprar novos cavalos a Sarah. Mais do que uma vez, Elizabeth comentou como estava contente por no ter engravidado. 
Era precisamente o contrrio daquilo que Crystal esperara, mas devido a toda aquela confuso Spencer sentia-se aliviado por nenhuma estar grvida.
       As cartas de Elizabeth pareciam mais um jornal com as novidades de casa. As de Crystal alimentavam-lhe a alma e mantinham-no vivo.
       Elizabeth formou-se em Junho, e os pais estiveram presentes, como  bvio. Tambm convidou os pais de Spencer e parecia felicssima por aquilo ter chegado 
ao fim. Ele recebeu a carta quando se encontrava em Pusan, quase a morrer devido  umidade e ao calor, ajudando os seus homens a encontrar caminho por carreiros 
estreitos entre os arrozais. Era um combate amargo, e mais do que uma vez Spencer sentiu que o lugar deles no era ali. Sabia que iria ter grandes discusses com 
Elizabeth quando regressasse a casa, isto se ainda continuassem casados. Era estranho pensar naquelas coisas enquanto lhe escrevia, especialmente porque ela no 
sabia o que ele estava a pensar, nem o que acontecera com Crystal antes de ele ter deixado So Francisco.
       Nesse Vero, quando Elizabeth foi para o lago Tahoe como habitualmente Crystal decidiu por fim regressar ao vale. J h muito que andava a pensar no assunto, 
e com Tom Parker longe dali, resolveu-se a ir. S tinha de enfrentar as recordaes dolorosas do pai e de Jared. Era estranho estar ali e ho ir ao rancho, mas no 
desejava ver a me nem Becky.
       Ficou alguns dias com os Webster e soube-lhe bem estar de volta quando se deitou ao sol e inspirou o ar puro do vale. At se obrigou a passar de carro em 
frente ao rancho, que parecia cheio de ervas e deserto. Todos os empregados haviam sido alistados, e Boyd informara-a de que a me contratara mexicanos  jorna, 
para lhe cuidarem das vinhas e dos milharais. Ela e Becky haviam finalmente vendido o resto do gado. Foi Spencer quem lhe escreveu a informar que Tom fora abatido 
perto de Seul, e, quando leu a notcia, Crystal sentiu remorsos por ficar to contente. Nunca lhe perdoaria a morte do irmo. Perguntou-se qual teria sido a reao 
de Becky  notcia e se iria ficar no rancho com os trs filhos e a me. J lhe ocorrera que podiam vend-lo. Odiava a idia, mas j no podia fazer nada. O rancho 
pertencia  vida de outras pessoas, no  sua. s vezes era difcil acreditar que j l chegara a viver.
       No Natal, Boyd e Hiroko decidiram finalmente ir ouvi-la cantar. Pareciam felizes. Tinham deixado Jane com a mulher do Sr. Petersen, que a adorava. J fizera 
trs anos e meio e pelas fotografias Crystal viu que ela se parecia cada vez mais com Hiroko. Eles ficaram impressionados com o bom aspecto de Crystal. Ela emagrecera 
ainda mais, o que realava a sua excelente figura. E aprendera umas coisas novas com as das ao cinema. Os seus favoritos eram Um Americano em Paris e A Mulher que 
Nasceu Ontem. Pearl ainda a ajudava de vez em quando com a voz e com a dana. Mas nessa altura ela j ultrapassara em muito os conhecimentos da amiga.
       Quando a ouviram, Boyd e Hiroko ficaram espantados com o poder da sua voz. Crystal transformara o Harry's numa mina de ouro. Ele elogiava-a junto dos amigos 
e no se admirou quando dois agentes de Los Angeles foram ao restaurante e deram a Crystal os seus cartes de visita, pedindo-lhe que lhes telefonasse. Convidaram-na 
a procur-los quando fosse a Hollywood, e sugeriram que ela l podia ir a qualquer altura fazer um teste para o cinema. Estava-se nos finais de fevereiro, e Crystal 
ficou muito excitada. Mostrou os cartes a Pearl, mas ainda no se sentia pronta para ir para Hollywood. E no seu ntimo, queria que Spencer regressasse para junto 
de si. Falou dos agentes na carta seguinte, que ele recebeu um ms mais tarde, em maro, perto do paralelo 38.
       Perguntou-se se ela iria a Hollywood procur-los. Parte dele desejava que assim fosse, e outra parte queria que ela esperasse por ele para comear a viver. 
Sabia que isso no era justo, mas agora que estava to distante receava perd-la. Era jovem e bonita e merecia vencer na vida. Mas temia que ela comeasse uma vida 
sem ele. Mal sabia que no havia o perigo de isso acontecer. Crystal s pensava nele.
       Recebia cartas com menos freqncia, mas ele informara-a de que as condies haviam piorado e que as constantes tentativas de trguas falhavam, o que resultava 
em novas mortes e em inmeras decepes. Spencer pareceu deprimido quando lhe escreveu a contar isso. Como toda a gente, queria que a guerra terminasse, mas ela 
parecia eternizar-se. E Crystal ficou perplexa quando ele lhe contou que estivera com Elizabeth em Tquio. Referiu-se  mulher como se ela fosse apenas uma pessoa 
conhecida, mas Crystal ficou cheia de cimes. Porque no poderia ela ir tambm a Tquio? Spencer j partira h tanto tempo, e ela esperava devotamente por ele em 
casa da Sra. Castagna e a cantar no Harry's. No havia mais nenhum homem na sua vida. No queria nenhum. S Spencer. E nenhum homem que ela conhecia se lhe comparava. 
Crystal tinha vinte e um anos, era deslumbrante, e amava-o mais do que tudo. O nico seno era o fato de ele ser casado. A amiga Pearl incitara-a a procurar outra 
pessoa, mas sem resultados. Crystal no estava interessada, apesar das muitas ofertas. Os homens que iam ao Harry's ouvi-la cantar ficavam loucos por ela e estavam 
constantemente a assedi-la para sair, mas ela nunca aceitou. Era fiel a Spencer.
       Parecia ficar mais bonita a cada ano que passava, e nesse Vero, Harry achou que ela nunca estivera melhor. Havia uma qualidade luminosa nela quando cantava 
que fazia com que toda a sala ficasse em silncio. E havia nela uma doura que ainda a tornava mais bela. Harry tambm sentia curiosidade por no haver nenhum homem 
na sua vida e s vezes perguntava-se se ela no veria algum em segredo. Contudo, Crystal nunca falava da sua vida amorosa e ele nunca lhe fez perguntas.
       Elizabeth comeara a trabalhar, em Washington, no Comit de Atividades Antiamericanas, que investigava a infiltrao comunista. Andava muito empenhada no 
seu trabalho e tinha um cargo de prestgio. Mudaram o curso de vrias vidas em Hollywood e em Maio Elizabeth ficou furiosa pelo depoimento da bem conhecida dramaturga 
Lillian Hellman, que recusou depor argumentando que embora ela prpria no fosse comunista, o seu depoimento poderia afetar a vida das pessoas com quem trabalhava 
e de quem gostava.
       Uma noite, Elizabeth conversou longamente com o pai sobre aquele assunto e escreveu a respeito dele nas cartas que mandou a Spencer, explicando-lhe o que 
fazia e o que sentia em relao a McCarthy. Ele no tocou no assunto quando lhe respondeu, limitando-se a perguntar pela sade dela e dos pais, no pelo emprego. 
Odiava aquilo que ela fazia. Elizabeth sabia que ele desaprovava, mas tinha de fazer aquilo em que acreditava e, alm disso, gostava do seu trabalho. E no desistiria 
dele por nada, a menos que Spencer regressasse e voltasse para a firma de Wall Street. De qualquer forma, ela tencionava convenc-lo a mudar-se para Washington. 
E no Outono de 1952, decidiu desistir do apartamento dele de uma vez por todas. Comprou uma vivenda na Rua N, em Georgetown, com o dinheiro do seu fundo fideicomissrio, 
e colocou a maior parte dos pertences de Spencer em caixas de carto. Era uma bela vivenda de tijolo que lhe convinha perfeitamente e que cava perto das melhores 
lojas de Wisconsin Avenue. De vez em quando, Elizabeth ia com a me comprar antiguidades. Nesse Inverno, foram publicadas fotografias da casa na revista Look, as 
quais ela enviou a Spencer. E quando ele olhou para o artigo, reparou que nenhuma das fotografias inclua objetos seus. Perguntou-se o que teria ela feito com as 
suas coisas. De repente, sentiu que j no tinha um lar para onde voltar quando a guerra chegasse ao fim. Nem sequer sabia onde cava a casa, no a conseguia visualizar, 
exceto aquilo que vira nas fotografias. Parecia tudo to estril e perfeito. No se imaginava a fazer amor com ela no quarto cheio de folhos onde ela posara. E ao 
v-lo sentiu ainda mais saudades de Crystal e do seu quartinho em casa da Sra. Castagna. Quase tornou a enlouquecer s de pensar no que iria fazer quando a guerra 
acabasse. Devia alguma coisa a Liz? No poderia fazer o que realmente queria?
       Elizabeth passou o Natal em Palm Beach com os pais, como de costume, e depois disso tornou a ir a Tquio ver Spencer. Desta vez ele temera v-la e tivera 
de recordar a si prprio que ela era sua esposa, embora quando se encontraram lado a lado na cama ele mal lhe conseguisse tocar. E ela passou o tempo a falar do 
seu trabalho e de Joe McCarthy.
       - Porque no mudamos de assunto? - sugeriu ele com cortesia. Estava cansado e muito magro e no queria ouvir falar na guerra que ela mantinha contra os supostos 
comunistas em nome de McCarthy. Tinha apenas um trabalho de investigao, mas quando algum a escutava, ficava a pensar que Elizabeth era o anjo vingador de McCarthy. 
Ouvi-la deixava-o ainda mais deprimido. Sabia quem eram os verdadeiros comunistas e sentia-se cansado de lutar contra eles. Estava na Coria h mais de dois anos 
e queria voltar para casa, mas a presente trgua fora de novo violada e ele comeava a pensar que nunca sairia dali. S queria dela um pouco de ternura e conforto. 
Mas Elizabeth era a mulher errada para isso, tal como Spencer comeava a aperceber-se. Parecia mal reparar nele, s pensava no seu trabalho, nos amigos e nos pais. 
Aquilo nem parecia um casamento, mas ela  que era a sua mulher, no Crystal.
       E quando tentou falar com Elizabeth acerca da guerra e da sua desiluso, ela ligou pouca importncia ao assunto.
       - Mal ds por ti j ests de volta a Wall Street. A princpio, ele no lhe respondeu, mas mais tarde contou-lhe o que estivera a pensar, s para sondar.
       - No me parece que volte para l. - Ela anuiu, satisfeita. Isso adequava-se aos seus planos. Queria mudar-se definitivamente para Washington. Adorava a cidade.
       - H muitas firmas de advogados em Washington. Vais adorar, Spencer.
       - Quero repensar a minha vida quando regressar a casa.
       - Olhou para ela com um ar muito srio, tentado a falar-lhe de Crystal. A charada j durava h demasiado tempo, e era extenuante, mas aquele no era o momento 
mais propcio. Em vez disso, ele props-lhe irem dar um passeio pelas ruas de Tquio e apreciar os luxos do Hotel Imperial.
       A maior parte dos oficiais com licena tinham ficado em Lake Biwa, mas fora o pai dela quem tratara das reservas. Queria que ficassem em primeira classe. 
Elizabeth adorava comentar a generosidade do pai: estava constantemente a falar-lhe das antiguidades que o pai lhes comprara para a casa nova, o pequeno candelabro 
francs, o tapete persa. Spencer j estava farto de ouvir falar naquilo. E sentia-se uma fraude ao escut-la, fingindo estar interessado ou satisfeito ou grato. 
Assinara um contrato para uma vida de gratido, percebia ele agora, e sabia que no era isso que desejava. Fazia-o sentir-se inferior e insignificante porque no 
tinha tanto dinheiro e tanto poder como eles. Era apenas isso que contava para os Barclay. E ele no desejava competir com eles. Queria uma vida que fosse sua num 
mundo onde fosse respeitado. Mas no podia falar-lhe disso agora, poucos dias antes de regressar  Coria. Ela s falava de coisas pouco importantes para aquele 
momento. Spencer vira morrer mulheres e crianas, chorara sobre bebs mortos que encontrara  beira da estrada e que enterrara. J h demasiado tempo que vivia com 
ideais despedaados e sonhos distantes. E quando tentou falar-lhe nisso, ela nem sequer quis ouvi-lo. Era totalmente egocntrica, no se apercebendo das agonias 
por que ele passara nos ltimos dois anos. E por fim arrependeu-se de ter ido ao encontro dela. Jurou no o voltar a fazer se a guerra continuasse. Teria de esperar 
e resolver aquelas diferenas quando regressasse aos Estados Unidos. Ali era tudo demasiado irreal, demasiado estranho, e de certa forma demasiado doloroso.
       Desta vez, ele regressou  frente ainda mais deprimido. Sentia-se afastado de todos e contrara um dio fervoroso pela Coria e pelas desgraas que tinha 
de suportar l. A princpio, tentou escrever sobre isso nas cartas que dirigia a Crystal, mas quando as relia decidia sempre no as enviar. Pareciam demasiado lamurientas 
e covardes, pouco dignas de um homem. Em vez disso Crystal recebia longos silncios que de vez em quando eram interrompidos por uma carta breve que a informava de 
que ele ainda estava vivo e que revelava lapidarmente nas ltimas linhas quanto ele a amava. Spencer j no era capaz de comunicar com outras pessoas, nem mesmo 
com Crystal. No conseguia dizer como estava cansado, doente com disenteria, desmoralizado pelas carnificinas, furioso pela morte dos amigos. E tudo aquilo acabou 
por fervilhar dentro dele at que deixou de escrever.
       Quando isso aconteceu, o juiz Barclay pediu aos militares conhecidos que indagassem se ele ainda estava vivo, e eles responderam-lhe que ele se encontrava 
bem, s que muito ocupado a vencer a guerra. Mas Crystal no tinha conhecidos para quem se virar. S sabia que ele deixara de lhe escrever, e a princpio pensou 
que morrera mas quando procurou, o seu nome no aparecia nas listas dos soldados feridos, mortos ou desaparecidos em combate. Estava algures, vivo, e deixara de 
lhe escrever. Ela demorou meses a compreender que ele no morrera, que as cartas no se tinham extraviado: Spencer deixara apenas de escrever. E ela presumiu que 
isso queria dizer que o amor de ambos chegara ao fim. A princpio foi difcil acreditar, depois de tudo o que tinham dito e partilhado, mas ao fim de alguns meses 
era evidente: tudo terminara. Depois de anos  espera dele Spencer deixara simplesmente de escrever. Talvez tivesse tornado a ver a mulher e decidido continuar casado. 
Mas pelo menos podia t-la informado, podia ter dito alguma coisa, em vez de desaparecer no silncio. A princpio foi-lhe muito doloroso, e, abandonada com as suas 
confuses, ela lamentou a perda dele. Lamentou-o quase como se ele tivesse morrido, e durante algum tempo foi isso que Crystal sentiu. At tirou duas semanas de 
frias e foi a Mendocino. A, pensou muito e quando regressou soube que tinha de continuar, com ou sem ele.
       Nessa altura, telefonou aos agentes que a haviam abordado meses antes, e depois de uma conversa breve decidiu ir a Hollywood fazer um teste.
       Informou Harry nessa noite, quando regressou ao trabalho. Ele mostrou-se um pouco surpreendido, mas sempre soubera que era apenas uma questo de tempo at 
algum a encontrar e lhe dar a oportunidade por que ela esperara toda a sua vida e que tanto merecia. J no lhe restava mais nada por que esperar. Chegara o momento, 
e Crystal sabia que tinha de o aproveitar.
       - Quem so esses tipos? - Harry desconfiava de toda a gente, e durante anos protegera-a como um pai, mantendo afastados os bbedos e aqueles que a tentavam 
abordar. - Sabes alguma coisa deles?
       - Apenas que so agentes de Los Angeles - respondeu Crystal com honestidade. Ainda havia nela uma aura de inocncia.
       - Ento quero que leves a Pearl contigo. Ela pode ficar o tempo que for necessrio. Se a coisa no der certo, volta para c imediatamente com ela. H-de aparecer 
outra oportunidade. Quero que esperes pela oferta certa.
       - Sim, sir - respondeu Crystal com um sorriso, parecendo de novo uma criana. Estava encantada por Pearl ir com ela. A perspectiva de ir para Hollywood ainda 
a assustava, mas sabia mais do que nunca que era isso que desejava. H muito que as pessoas lhe diziam que um dia seria uma estrela, Boyd, Harry, Spencer, Pearl, 
e agora queria experimentar.
       Harry organizou uma festa de despedida antes de Crystal partir, e deu-lhe algum dinheiro para ela se instalar num hotel decente. Crystal gastou a maior parte 
das suas poupanas a melhorar o guarda-roupa. Era difcil deixar Harry. Era um pouco como abandonar o lar. Ali fizera amigos e encontrara segurana e agora partia 
para o mundo em busca de fama e fortuna. Crystal teria ficado apavorada se aquilo no fosse uma coisa que desejasse com tanto ardor.
       Tambm era difcil deixar a Sra. Castagna. Deixou l ficar um saco, mas saiu do quarto. A velha senhora chorou e ofereceu-lhe um dos ltimos clices de Xerez. 
Crystal sofreu muito ao deix-la, mas prometeu escrever-lhe de Hollywood a falar das estrelas que viesse a conhecer.
       - Se vires o Clark Gable, manda-lhe os meus cumprimentos! - recomendou ela durante um ltimo clice da bebida. - E toma cuidado contigo! Ests a ouvir? - 
Crystal beijara-a ao partir e chorara quando deixara Harry.
       - Se precisares de dinheiro telefona-me, est bem, mida? - Mas ele j fora demasiado bom para ela. Crystal no teria ousado pedir-lhe mais, e estava decidida 
a no o fazer. Alm disso, se o seu teste para atriz corresse bem, talvez em breve conseguisse um papel. Estava muito esperanada quando, numa tera-feira de manh, 
partiu com Pearl de comboio, porque era mais barato. J haviam reservado um quarto em Los Angeles e Crystal tinha uma reunio marcada com os agentes para a manh 
seguinte.
       Foi at ao escritrio deles com os joelhos a tremer, envergando um simples vestido branco e sapatos da mesma cor, com o cabelo apanhado e um pouco de maquiagem. 
Tinha um ar limpo e puro e incrivelmente bonito. Com vinte e um anos, era ainda mais bonita do que aquilo que eles se recordavam. E quando olharam para ela, ficaram 
eufricos com a sorte que haviam tido.
       Mas o que Crystal no sabia, e que Pearl suspeitou, foi que eles eram dos menos bem sucedidos agentes de Hollywood. Ainda assim, conseguiram arranjar-lhe 
um teste para o dia seguinte e marcaram encontro com algum que queriam que ela conhecesse. Era algum que podia ser extremamente til, se assim o entendesse.
       As ltimas raparigas que lhe tinham enviado haviam sido rejeitadas. Mas Ernesto Salvatore teria de concordar que aquela era uma beleza.
       O teste para atriz quase a matou de susto, mas foi muito excitante e, depois de ter comeado a descontrair-se, saiu-se bem. Crystal e Pearl passaram o resto 
do dia a ver as vistas. Fizeram o circuito turstico pelas casas das estrelas de cinema e foram ao Grauman's Chinese Theatre. Subiram e desceram Sunset Boulevard 
e pararam na Hollywood and Vine, enquanto Crystal ria a bandeiras despregadas deixando Pearl tirar-lhe uma fotografia. Riram-se as duas quando viram um transeunte 
a olhar para ela, a pensar que era uma estrela. Dava nas vistas ali e duas rapariguinhas foram pedir-lhe um autgrafo, convencidas de que ela era "algum". Crystal 
adorou.
       Depois regressaram ao edifcio dos agentes. Tinham-lhe pedido que voltasse ao fim do dia, mas no haviam explicado nada. Crystal levou um vestido preto escolhido 
por Pearl, sapatos de salto alto pretos e uma combinao dura que fazia armar o vestido. Este tinha alas e revelava a brancura rosada dos seus ombros. No tinha 
um grama de carne suprfluo. Tudo era suave, sedoso e perfeito. Pearl insistira para que ela levasse um chapu grande e prendesse o cabelo debaixo dele. E ensinou-a 
tambm a tir-lo.
       Quando Pearl e Crystal chegaram ao escritrio dos agentes, o homem de que eles haviam falado j estava  espera dela. Era alto, moreno e bem-parecido. Vestia 
um fato preto de bom corte, camisa branca e uma gravata estreita. Tudo nele sugeria que era algum importante. Crystal calculou que devesse ter quarenta e cinco. 
Assim que a viu, ele soube que encontrara a galinha dos ovos de ouro.
       J vira o teste dela nessa manh. Precisava de ser trabalhada,  claro, e no era nada sofisticada em termos de negcio, mas tinha uma boa voz e com aquela 
aparncia at podia ser surda-muda. Daquela vez os agentes tinham razo. Ela era uma beleza.
       Gostou do sorriso dela, e quando a saia preta se agitou, ele olhou as pernas que a iriam tornar famosa. Enquanto olhava para ele Crystal tirou o chapu tal 
como Pearl lhe ensinara. Com um gesto gracioso, a sua cabeleira loira resvalou e os trs homens quase ficaram sem flego quando aquela caiu suavemente sobre os ombros. 
O homem do fato escuro sorriu e levantou-se para se apresentar. Aquela rapariga era merecedora de Ernesto Salvatore. Avanou lentamente para Crystal, e ela viu algo 
intrigante nos seus olhos, quase como se ele pudesse ver dentro dela e descobrir os seus segredos mais ntimos. Mas no tinha nada a esconder-lhe. Nada nem ningum.
       - Ola, Crystal - cumprimentou ele. - Chamo-me Ernesto Salvatore, mas podes tratar-me por Ernie. - Apertou-lhe a mo e olhou para Pearl, perguntando-se se 
aquela ruiva seria a me dela. Tambm tinha umas belas pernas, reparou Salvatore, quando ela as cruzou com cuidado, mas no eram to bonitas como as de Crystal. 
As dela eram longas e faziam-lhe lembrar uma rosa com um caule comprido. E gostava do ar inocente dela. S precisava de um pouco de maquiagem e de treino. Um professor 
de voz, algum que a ensinasse a mexer-se, lies de representao durante um tempo e depois "Upa! At ao cimo!" Mas ele nada lhe disse, nem aos agentes. Crystal 
observava-o muito nervosa, perguntando-se quem seria ele exatamente e por que razo a quisera ver.
       - Podes estar no meu escritrio na segunda-feira  tarde? Ela hesitou antes de responder, temendo confiar nele, depois acedeu:
       - Creio que sim. Pearl sorriu perante a relutncia da amiga e reparou no olhar aprovador de Salvatore. Este explicou-lhe onde ficava e deu o seu carto de 
visita a Pearl, dirigindo um aceno de satisfao aos agentes. Daquela feita haviam conseguido. Depois de dezenas de fiascos e de raparigas sem graa, tinham por 
fim encontrado um verdadeiro diamante.
       Salvatore era um empresrio muito conhecido e algumas grandes estrelas tinham comeado com ele, embora no muitas. E houvera alguns escndalos desagradveis. 
Dois muito falados, suicdios de mulheres de que ele se ocupava e com quem tinha casos. E outros incidentes que ele no desejava recordar. Mais importante ainda, 
Ernesto Salvatore era a ponta de um icebergue que muitos temiam, pois estava muito bem relacionado. Bastava olhar para ele para se depreender algo. Mas Crystal de 
nada desconfiava: era demasiado ingnua para pressentir algo de estranho em Ernie Salvatore.
       - Podes mudar-te para Los Angeles? - perguntou ele, olhando para os olhos da jovem. Perguntou-se quem seria ela e de onde viera. Parecia casta e inocente 
e ele interrogou-se se teria algum que a protegesse, alm da ruiva que a acompanhara  reunio. Mas estava-se nas tintas para saber de onde ela era. Iria torn-la 
famosa; iria transform-la naquilo que ela sempre quisera ser: uma estrela. E bem grande.
       Se ela deixasse.
       - Sim, posso mudar-me para Los Angeles. - Durante toda a vida sonhara em vir para Hollywood, e agora iria fazer o que fosse necessrio. Dentro dos limites 
da razo. No tinha de responder perante ningum... nem sequer perante Spencer.
       Salvatore tinha uma voz grave, ardente, e uma aura de autoridade, e ela observou-o fascinada quando ele se aproximou para um exame mais pormenorizado. Mas 
gostou do que viu: era perfeita.
       - Que idade tens?
       - Vinte e um - respondeu com ar tranqilo. - Vou fazer vinte e dois em Agosto.
       J nem era menor de idade. timo.
       Era inocente, pura e exatamente aquilo que ele procurava havia anos. Iria jogar todas as cartadas. At j sabia qual era o filme que mais lhe convinha. Bastava-lhe 
ligar ao realizador para mandar embora a atriz principal. Para Ernesto isso era canja, e tencionava fazer o telefonema na manh seguinte.
       Disse-lhe o que queria que ela fizesse: que fosse s compras, que comprasse umas roupas, muitas, disse ele, passando-lhe algumas notas que retirava de um 
rolo. E que fosse ao escritrio dele na segunda-feira de manh. Iria ter l o realizador, ele poderia v-la e nessa tarde j estaria a trabalhar no filme. S rezava 
para que ela se conseguisse lembrar das falas, mas o professor de representao teria de lhe ensinar uns truques para a ajudar. Perguntou-se se a outra mulher tambm 
ficaria por ali, por isso virou-se e perguntou finalmente a Pearl se era a me de Crystal.
       Ela sorriu, lisonjeada com a pergunta, mas abanou a cabea.
       - No, sou apenas uma amiga.
       - E a tua me? - perguntou ele, virando-se para Crystal: - Onde  que ela est? - As raparigas como ela costumavam ter mes ferozes que lhe causavam imensos 
contratempos. Era muito mais fcil quando no havia ningum. Especialmente se mais tarde houvesse problemas.
       - Morreu - respondeu ela tranquilamente na sua voz suave.
       - E o teu pai?
       - Tambm morreu. - Os seus olhos deixavam transparecer tristeza, e ele soube que ela falava verdade. Era ainda melhor do que pensara. Podia fazer exatamente 
o que quisesse com ela. At gostava do nome. Soava bem para Hollywood. Crystal Wyatt. A rapariga iria longe. Agradeceu a todos, foi-se embora, e minutos mais tarde 
Pearl e Crystal imitaram-no. Esta parecia meio atordoada, e olhou para a amiga com um ar deslumbrado.
       - O que significa isto tudo?
       - Creio que conseguiste - respondeu ela, limpando as lgrimas de emoo. - Espera s at eu contar ao Harry!
       Todavia, Crystal sentiu-se ligeiramente desapontada. Aquilo era tudo o que ela desejava, no entanto, sabia que no voltaria para o mundo confortvel do Harry's. 
Agora estava no mundo real e sentiu algum medo do que l iria encontrar.
       - O que faz exatamente um empresrio como ele? - indagou Crystal, pensando de novo em Salvatore.
       - No sei bem. Creio que  uma espcie de agente.
       - Ele mete medo, no mete? - Crystal nunca encontrara ningum assim e ainda no sabia bem se gostava dele.
       - No sejas tontinha - retorquiu Pearl. - Acho que  um homem muito atraente.
       No entanto, os padres de Crystal eram bastante diferentes dos de Pearl. E ela ainda andava perturbada com as recordaes de Spencer.
       Passaram o fim-de-semana a explorar Beverly Hills com um carro e um motorista que haviam aparecido misteriosamente no hotel, enviados por Ernie Salvatore. 
Viram dois filmes e foram ao La Brea Tar Pits. Na segunda-feira, Crystal reapareceu num dos vestidos que comprara com o dinheiro de Ernie. Ele chamara-lhe um adiantamento 
quando lho dera, mas mesmo assim sentia-se um pouco nervosa. Recebera quinhentos dlares, e embora a perspectiva de ir s compras com o dinheiro dele a excitasse, 
tambm a assustava. Porque estaria ele a fazer tudo aquilo? O que quereria dela? Recordou-se de histrias horrveis sobre agentes e empresrios de Hollywood, mas 
tentou dizer a si prpria que tudo era um sonho tornado realidade. Se no conseguia ter o homem que amava, pelo menos podia ter o seu sonho de estrelato e Ernie 
iria ajud-la a consegui-lo.
       Comprara quatro vestidos, dois pares de sapatos e trs chapus e ainda lhe tinham sobejado quase duzentos dlares. As roupas ficavam bem ao seu ar virginal, 
contudo tinham uma vaga sugesto a sexo: uma abertura aqui, um decote cavado, um pouco de rede, um boto aberto. Os saltos eram muito altos e as saias tufadas, suficientemente 
curtas para deixar vislumbrar as pernas que Salvatore quase aplaudira. E o tal realizador que esperava por ela no gabinete de Ernie ficou to impressionado como 
ele esperara. J lhe devia alguns favores, pelo que a contratao estava garantida. Prometeu despedir a atriz principal desde que Crystal soubesse falar e lembrar-se 
do guio. Mas o papel no era complicado, nem a histria.
       - Conseguiste, querida. - O realizador sorriu. - Comeamos a filmar na prxima segunda-feira. Isso d-te uma semana para estudares o guio e preparares-te.
       Ela olhou-o espantada. Afinal, o sonho estava a tornar-se realidade. E tudo graas a Ernie. De repente, tudo em seu redor pareceu irreal e ela sentiu como 
se se estivesse a movimentar debaixo de gua.
       O realizador saiu pouco depois, no sem ter prometido enviar-lhe o guio, e logo de seguida Ernie estendeu-lhe um contrato.
       - O que  que eu fao com isto? - perguntou ela. As coisas estavam a avanar com demasiada rapidez. Queria falar do assunto com algum, mas no podia. Pearl 
parecia to deliciada como ela e at Harry teria ficado encantado com Ernie Salvatore. Os agentes j lhe haviam dito que ele era um dos melhores empresrios da cidade, 
e tinham-na entregue a ele sem receios. Haviam-na libertado. Mas algo lhe dizia que no devia confiar nele. Desejou poder falar com Spencer sobre o assunto, mas 
ele estava noutro mundo, e atravs do seu silncio Crystal compreendera finalmente que a abandonara. Pouco mais velha era do que uma criana quando ele a deixara 
havia trs anos, mas at mesmo ele lhe dissera que deveria ir para Hollywood. Talvez casse impressionado se ela o fizesse. Talvez um dia visse o nome dela no non... 
talvez voltasse para Crystal quando ela fosse uma estrela... mas at mesmo isso parecia uma loucura. Ele voltara para Elizabeth. Tanto quanto sabia, j podia ter 
voltado para os Estados Unidos e nunca lhe telefonara. Os seus dias com Spencer j haviam chegado ao fim e agora tinha de pensar na to almejada carreira. Finalmente. 
Sentia como se estivesse no Natal.
       Salvatore estendeu-lhe uma caneta com um sorriso sabedor, e deu-lhe uma palmadinha na mo.
       - No tenhas medo, minha querida. Vais ser uma grande estrela. Isto  apenas o comeo.
       - O contrato  para este filme? - Ainda estava confusa e perguntava-se como o teria ele conseguido to depressa. Teria sabido que ela ficaria com o papel? 
T-lo-ia trazido o diretor?
       - Isto  um acordo entre ns. Assim, posso tratar de todos os contratos para os filmes que fizeres.  muito mais simples desta forma. Um contrato entre ns 
e eu trato do resto dos disparates por ti.
       - Que tipo de disparates? - perguntou ela, encarando-o, e Ernie ficou menos divertido do que estava. Esta era inteligente. Mas tambm estava ansiosa por aquilo 
que ele lhe tinha para oferecer, e ele sabia-o. Comprara roupas, andara de limusine e, tal como todas as outras, estava mortinha por ser uma estrela. Todos os engodos 
haviam sido bem colocados. S lhe restava assinar o contrato. E iria faz-lo. Ele tinha a certeza. Todas assinavam.
       - No queres que eu te aborrea com todos os pormenores, pois no Crystal? - E depois riu-se, como se ela estivesse a ser infantil. - Confias em mim, no 
confias, minha querida? - Como poderia ela no confiar? Os agentes tinham dito que ele era um dos melhores. Crystal olhou para Pearl, que acenou quase imperceptivelmente. 
Com isso, ela pegou na caneta, olhou para o contrato que no compreendia e assinou-o. - Perfeito. - Ernie tirou-lhe a caneta e depois pegou-lhe na mo, beijou-a 
e em seguida os olhos dele encontraram os seus, fazendo-lhe sentir um arrepio. O modo como a olhava era perturbador. Mas quando ele se tornou a afastar, ela disse 
para si prpria que estava a ser estpida. Ele sabia o que estava a fazer, e era obviamente bom nisso. Conseguira-lhe um papel, no conseguira? Mas tambm despedira 
algum para o conseguir. Recusou-se a pensar nisso quando ele lhe disse que iria mud-la para outro hotel, um melhor do que o que Harry reservara. Aquele ficava 
em Westwood.
       - J tenho dinheiro para isso? - Crystal nem sabia que papel iria representar no filme, mas Ernie riu-se das suas preocupaes.
       -  claro que tens. - Depois olhou para Pearl. - Tambm vai ficar? - Mas algo nos seus olhos disse que ela no era bem-vinda, e Pearl sentiu-o.
       - Eu... bem... - Olhou nervosa para Crystal. Era como se nos ltimos minutos se tivesse tornado desnecessria. - Creio que vou regressar a So Francisco. 
- Olhou para os dois como que a pedir desculpa, e Crystal ficou desiludida. Salvatore tambm se apercebeu disso e sorriu para ambas enquanto guardava o contrato. 
Enfiou-o numa gaveta onde, assegurou ele a Crystal, guardava os documentos mais valiosos.
       - Porque no fica at  semana que vem, quando a Crystal comear a trabalhar? Depois disso ela ficar muito ocupada. E receio bem que esta semana j tenha 
algum trabalho.
       Virou-se para ela com um ar paternal e explicou que desejava p-la a trabalhar com um educador de voz.  claro que tambm teria aulas de representao, mas 
iria aprender muito nas filmagens, se estivesse atenta.
       Pearl concordou em ficar at  semana seguinte, e Ernie garantiu a ambas que j estariam instaladas no novo hotel antes do cair da noite. Sugeriu-lhes ento 
que fizessem as malas, para o motorista as levar para o hotel. Se elas no se importassem iria juntar-se-lhes mais tarde para um cocktail. Cinco minutos mais tarde, 
encontravam-se de novo no carro, mas Crystal estava estranhamente calada. Pensava em tudo o que acabara de lhe acontecer e em que ainda mal conseguia acreditar. 
Pearl falava sem parar, comentando a beleza dele, o seu ar agradvel, a excelente oportunidade que Crystal tivera e como em breve seria uma estrela. Crystal no 
sabia o motivo, mas ainda no confiava nele. No falou at chegarem ao hotel, e depois virou-se para Pearl enquanto dobravam as roupas para as meter nas malas.
       - Achas mesmo que ele  de confiana?... Quero dizer. .. Oh, no sei... - Sentou-se numa cadeira e tirou os sapatos de salto alto, desejando poder usar calas 
de ganga nessa noite. Mas eleja a informara de que a partir de agora teria de ter cuidado com a sua imagem. Teria de usar roupas bonitas e sexys, maquiagem, o cabelo 
bem arranjado, e tinha de ser vista por toda a cidade em todas as festas para que fosse convidada. E iria certificar-se de que ela seria convidada para todas. Parecia 
excitante, contudo ela no conseguia deixar de pensar por que motivo estaria ele to desejoso de a ajudar. Partilhou os seus receios com Pearl, que lhe disse que 
era maluca.
       - E claro que ele  de confiana. Ests a gozar? Olhaste bem para aquele escritrio? O tipo deve ter gasto uns milhes de dlares s na decorao, ou algo 
parecido. Achas que ele tinha um escritrio daqueles se no fosse importante? Querida, saiu-te a sorte grande e ainda no te apercebeste. Ele faz tudo isto porque 
sabe que um dia sers uma grande estrela. A nica pessoa que ainda no o sabe s tu, tontinha!
       Sorriu para a amiga, e Crystal deu uma gargalhada. Ao ouvir Pearl, sentiu-se melhor, e, depois de terem ligado a Harry antes de sarem do hotel, Crystal ficou 
de excelente disposio. Ele disse-lhe que estava muito orgulhoso e que ela se estava a tornar numa grande estrela. Afinal de contas, fora por isso que para ali 
fora. E conseguira exatamente o que queria. Tinham razo. Ela era louca por estar to preocupada: no havia motivos. Apenas tinha de se recostar e apreciar o espetculo.
       A sute do novo hotel parecia sada de um filme, bem como o trio, com veludos vermelhos e mrmores brancos. Tratava-se de um hotel pequeno localizado num 
bom bairro, e era indiscutvel que dava muito nas vistas. Mas Pearl disse-
       -lhe que seria um timo local para ser vista, sugerindo-lhe que mudasse de roupa vrias vezes ao dia e passeasse pelo trio. Crystal riu-se da idia, mas 
nessa tarde decidiu experiment-la, e as duas mulheres riram a bandeiras despregadas quando Crystal mudou trs vezes de roupa e regressou ao trio para enviar uma 
carta, para pedir outra chave para a amiga e perguntar se algum viera entregar um embrulho.
       - Algum te viu? - perguntou Pearl muito excitada. Insistira para que Crystal fosse sozinha, e esta ainda estava a rir-se quando regressara para descansar 
e vestir as calas de ganga. Trouxera-as  cautela juntamente com as botas de cowboy e as meias vermelhas de Jared, que ainda eram das coisas que mais gostava.
       - Sim - respondeu Crystal ainda a rir, enquanto pendurava o vestido e tirava os collants. - O recepcionista viu-me. Se calhar pensa que sou prostituta.
       - Espera s at ele ver os teus filmes; nessa altura saber quem s! - exclamou com tanto orgulho que Crystal se virou lentamente para ela e atravessou o 
quarto para a abraar.
       Ela fora to sua amiga durante os ltimos quatro anos! Iria estranhar quando Pearl se fosse embora.
       - Obrigada - agradeceu Crystal, baixinho.
       - Por qu? - resmungou Pearl, mas sem conseguir ocultar o seu amor. Crystal tornara-se a filha que ela nunca tivera, e iria sofrer muito quando partisse no 
domingo para So Francisco.
       - Obrigada por acreditares em mim. Nunca teria c chegado se no tivesses sido tu e o Harry.
       - Isso  a coisa mais idiota que j ouvi. Os agentes descobriram-te no restaurante. No tivemos nada a ver com o caso.
       - Tiveram tudo a ver. O Harry contratou-me, tu treinaste-me. Ensinaste-me tudo o que sei acerca de cantar num palco. Acreditaste em mim durante todos estes 
anos e agora trouxeste-me at c. Isso  muita coisa!
       - No sejas tolinha. Limita-te a ser feliz. - Voltou-se para sorrir  amiga enquanto se dirigia ao enorme bar de frmica vermelha e enfeites dourados. Tirou 
uma cerveja do frigorfico e em seguida sentou-se num banco alto de veludo preto e fez um brinde a Crystal com a garrafa. -  tua, mida... - Em seguida, com um 
gesto que abarcava toda a sute que ele lhes reservara, acrescentou: - E ao Ernie!
       - Ao Ernie! - concordou Crystal, servindo-se de uma Coca-Cola e pensando melhor a respeito dele do que de manh. J no sabia o motivo da sua preocupao, 
mas sabia que se preocupara. E parece que sem razo.
       Ele chegou s seis horas para uma bebida, tal como prometera, encontrando Pearl um pouco tocada e Crystal em calas de ganga. Esta sentiu-se como se tivesse 
sido apanhada a copiar os trabalhos de casa. Sabia que deveria ter um ar esplendoroso e portar-se bem, pois ele falara-lhe das exigncias morais nos contratos cinematogrficos. 
E ali estava ela com umas calas de ganga apenas algumas horas depois de ter assinado o contrato. Mas ele riu-se para ela, e ainda mais para Pearl, e Crystal acabou 
por o achar mais simptico. E quando o observou com maior ateno enquanto ele abria a garrafa de champanhe que trouxera, acabou por consider-lo bastante atraente. 
Mas o seu ar era diferente do de Spencer, que era muito distinto, com o ar de um jovem guerreiro. Ernie parecia ter passado por todos os sales da Europa. Pelo menos 
foi assim que Pearl o descreveu depois de ter ingerido vrios copos de champanhe. Apelidou-o de corts e afvel, mas passado algum tempo Ernie ignorou-a e concentrou-se 
em Crystal. Falou-lhe numa voz meiga, dizendo como estava contente por causa do contrato. Tambm depositou na mo dela um sobrescrito grosso. Era um sobrescrito 
cinzento, com o nome e morada dele gravados num papel muito caro.
       - Esqueci-me de te dar isto esta manh. Lamento imenso, Crystal. Normalmente no cometo erros destes. - Sorriu e fez um ar de quem estava habituado a ser 
perdoado. Estava habituado a muitas coisas, coisas com que Crystal nem sonhava.
       - O que ? - perguntou ela, abrindo o sobrescrito com muito cuidado; ficou admirada ao ver um cheque. Quando o tirou, viu que estava assinado por ele. Por 
que razo estaria ele a dar-lhe mais dinheiro? J lhe dera quinhentos dlares como "adiantamento". Mas adiantamento de qu?, perguntou-se, levantando os olhos e 
deparando-se-lhe ele a sorrir.
       - Isto  o dinheiro que te devo por teres assinado o contrato. No estavas  espera de fechar um grande negcio apenas com um beijo, pois no? Embora deva 
dizer que se for esse o caso me agrada bastante.
       Crystal olhou-o atrapalhada. No percebia nada daquele acordo.
       - Deve-me isto? - Parecia divertida e encantada. Ainda no comeara a fazer o filme e j ganhava dinheiro. E vivia como uma rainha no hotel que ele escolhera. 
Quem  que dissera que Hollywood era difcil? Essa pessoa devia ser louca... mas, por outro lado, no conhecia Ernie Salvatore. Ela comeara mesmo de cima, tal como 
Pearl lhe havia dito.
       - Na realidade, minha querida, devo-te dois mil e quinhentos dlares. Mas os quinhentos dlares foram um "adiantamento", tal como referi, por isso deduzi-os 
do teu cheque. - No queria que ela achasse que lhe devia muito dinheiro, pelo menos no j, seno iria assust-la. E no era isso que desejava. Ela tinha de sentir 
que recebia o dinheiro dele, o que era verdade. Recebera uma boa maquia nessa tarde pelo primeiro filme dela. Depois, pagar-lhe-ia um pequeno salrio e ficaria com 
o resto, como constava do contrato que ela assinara. - Amanh levo-te ao meu banco Crystal. Depois podes abrir l conta. - Ela nunca tivera uma conta bancria e 
a idia excitou-a. Bebeu outro gole do champanhe que ele lhe servia. Pouco depois ele levantou-se e desejou-lhes uma boa noite. Sorriu para Crystal quando ela o 
acompanhou  porta e deu-lhe um beijo na face antes de partir. Desta vez parecia no haver nele nada de estranho e ela comeou a gostar dele. "Quem no gostaria?", 
dissera Pearl. Ele era to bom para elas. O hotel, a sute, o champanhe... Crystal sorriu, exibindo o cheque.
       - No sei se deva gast-lo ou emoldur-lo. - Mas na manh seguinte, decidiu-se facilmente pela primeira hiptese. Depois de a secretria de Ernie lhe ter 
ligado, ela foi ao banco e de seguida  joalharia em frente, onde comprou a Pearl a pulseira de berloques que ela estivera a namorar uns dias antes. Ela ficara fascinada 
porque todos os berloques estavam relacionados com o cinema. culos escuros, um megafone, minsculos projetores e um pequeno quadro de ardsia que se abria e fechava 
como aqueles que iriam ser usados nas imagens do primeiro filme de Crystal. Pearl chorou quando Crystal lha colocou, e passaram o resto da tarde a rir, a falar e 
agir como duas turistas. Ernie tornara a pr a limusine  disposio delas, e nunca lhes ocorreu que ele o fizera para saber exatamente o que Crystal fazia. Parecia-lhes 
apenas uma enorme gentileza, e o motorista era muito simptico.
       O professor de voz foi conhec-la nessa tarde e quando cantou para ele ao piano, ele ficou admirado por ela ser to boa. S era pena no cantar no papel que 
representava no filme. Ele era simultaneamente seu professor de representao e falou-lhe do guio, dizendo-lhe que no se preocupasse. A semana passou a correr 
e Pearl partiu, depois de muitas lgrimas, abraos e promessas de lhe telefonar. De um momento para o outro Crystal ficou sozinha em Hollywood. Os seus sonhos haviam-se 
tornado realidade, iria comear a trabalhar no filme no dia seguinte e nessa noite, quando foi dar um passeio, deu por si a pensar em Spencer. Perguntou-se onde 
estaria ele, o que estaria a fazer e com quem. Se estaria na Coria, ou de regresso a casa, e se teria saudades dela. Mas embora tentasse Crystal descobriu que no 
conseguia tir-lo da cabea, nem esquecer as duas semanas mgicas que haviam passado juntos. Independentemente do que lhe acontecesse, sabia que iria am-lo para 
sempre. Ainda estava to presente na sua mente como no dia em que partira e nos dias anteriores... tal como quando tinha catorze anos e se apaixonara por ele ao 
primeiro olhar quando do casamento da irm.
       - Bem, bem, que cara to sria! No te esqueas dela para um papel dramtico. - A voz falou mesmo atrs e Crystal virou-se, admirada, deparando com Ernie. 
Afastara-se apenas alguns quarteires do hotel, mas na sua mente estava a quilmetros de distncia e no o ouvira aproximar-se.
       - Achei que te deverias sentir sozinha sem a tua amiga, por isso resolvi ver como estavas. E na recepo informaram-me que tinhas ido dar um passeio. Importas-te 
que te faa companhia?
       -  claro que no. - Ele fora to bondoso, como poderia objetar a qualquer coisa que fizesse? E na verdade sentia-se mesmo muito sozinha. Pensar em Spencer 
nunca ajudava. Era sempre um golpe recordar que ele desaparecera no silncio. J acontecera o mesmo anteriormente... entre o casamento de Becky e o batizado do beb... 
depois de se terem voltado a encontrar em So Francisco, na altura em que ele ficara noivo, e novamente at uns dias antes de ele partir para a Coria. Mas desta 
vez fora diferente. Dantes ela no tinha dormido com ele. No o amara como o amava agora. Mas no valia a pena tornar a pensar no assunto. No podia fazer mais nada. 
Ele desistira dela, deixara de lhe escrever, deixara de responder s suas cartas, e ela sabia que ele perdera o interesse muito antes disso. s cartas cheias de 
amor e de palavras de saudade haviam-se sucedido pouco mais do que postais e depois nada.
       - Ests excitada por causa de amanh? - perguntou Ernie, sorrindo e olhando-a com benevolncia.
       - Muito. - Estava a ser franca e ele gostou da sua aura de excitao. Era uma mudana agradvel depois das vedetas gastas com que ele costumava sair.
       - Vais sair-te muito bem. Talvez para a prxima te arranjemos um papel em que tenhas de cantar, para mostrares a todos do que s capaz. - Ouvira-a cantar 
no teste e sabia como ela era boa. Mas queria lanar o rosto antes de se preocupar com o resto e sabia exatamente o que estava a fazer.
       - Gostaria muito que isso acontecesse. - Crystal tinha saudades de cantar, apesar de terem passado poucos dias desde que deixara So Francisco.
       - O teu professor de voz disse-me que eras muito boa.
       - Obrigada. - Ela sorriu-lhe e ele quase sentiu o corpo a tremer enquanto a observava. Depois teve uma idia: j que ia ser seu confessor, ou tutor benvolo, 
bem que podia lev-la a jantar.
       - J foste ao Brown Derby? - perguntou ele com um ar inocente, mas o motorista informara-o de que no. Recebia diariamente relatrios da atividade dela. Queria 
certificar-se de que Crystal no era uma prostitutazinha que dormia com todos, destruindo a sua reputao e a dele. Mas at agora portara-se bem, se calhar porque 
a amiga Pearl estivera l. Porm, ele achava que ela teria agido da mesma maneira se tivesse estado sozinha. At se perguntara uma vez ou duas se ela no seria virgem. 
Era desse tipo, e isso agradava a Ernie. Dessa forma seria muito mais fcil trein-la.
       - No, no fui. - Ela sorriu-lhe muito inocente e muito bela. Sob qualquer luz, fato, penteado, ou com calas de ganga, aquela rapariga era um espanto.
       - Queres ir l jantar esta noite? Mas aviso-te j que se formos trago-te de volta muito cedo. Precisas de uma boa noite de sono antes do dia de amanh.
       - Sim, sir. - Mas os seus olhos iluminaram-se. - Gostaria bastante. - A ingenuidade dela divertia-o. Aquela iria ser fcil.
       Olhou para o relgio, fez uns clculos e ofereceu-se para a acompanhar ao hotel. Iria busc-la da a uma hora. Ainda trazia calas cinzentas e casaco de tweed 
e queria mudar de fato antes de jantar.
       - Estarei de volta s oito. E tenciono meter-te na cama s dez, acontea o que acontecer. - E infelizmente, sem ele. Mas Ernie era demasiado esperto para 
se atirar j a ela. - Parece-te bem?
       - Parece-me timo! - Ela inclinou-se para o beijar no rosto, como teria beijado um av, e ele sentiu-se envergonhado quando a deixou  porta do hotel no Mercedes. 
Tinha vrios automveis e deixara uma das limusines  disposio dela durante toda a semana. Mas preferia o Mercedes e queria estar sozinho com ela nessa noite. 
Quando a foi buscar ficou satisfeito ao ver que ela envergava um belo vestido branco de seda, com uma casaquinha a condizer. Crystal estava deslumbrante e ele ficou 
satisfeito por lhe ter feito o convite. Os restantes comensais do Brown Derby foram da mesma opinio.
       Crystal entrou, conversando com ele acerca da sua vida no vale e depois ficou plantada no cho quando se apercebeu de que todos olhavam para ela. E olharam 
ainda com maior intensidade quando viram quem a acompanhava. Ele tinha mesmo habilidade para descobrir as raparigas mais bonitas da cidade. Ningum o podia negar, 
e esta era a melhor de todas. Ernie parecia conhecer toda a gente no restaurante, e Crystal quase desmaiou quando viu um homem parecido com o Frank Sinatra passar 
por si. Ernie dirigiu-se devagar  mesa que reservara, cumprimentando toda a gente e apresentando-a a pessoas com que ela s pudera sonhar.
       - No fiques to assustada - disse ele com meiguice, sorrindo. Ficara encantado com as reaes das pessoas. Ela sara-se bem. O vestido branco chamava a ateno, 
especialmente quando ela tirou a casaquinha, pondo a descoberto um decote generoso. No era algo que ela gostasse de exibir, por acaso at se esforava por se tapar, 
mas Pearl insistira para que comprasse o vestido e ela decidira p-lo para o jantar no Brown Derby. E estava contente com a escolha. Ernie disse que o adorava. Ele 
surpreendeu-a durante o jantar. Crystal sentiu-se muito  vontade.
       Ernie era simptico e amvel e tinha muito bons modos. No havia nada de insinuante na forma como se dirigia a ela. Afinal de contas, no era um traficante 
de escravas brancas, era apenas um empresrio, como ele se auto-intitulava. Ela confessou-lhe que sempre sonhara ser uma estrela de cinema. Era uma histria que 
ele j conhecia, mas sorriu como se a ouvisse pela primeira vez. Gary Grant estava junto ao bar e Rock Hudson entrou para falar com algum e ficou por ali durante 
algum tempo. Crystal olhava em volta maravilhada. Era muito mais do que aquilo com que ela ousara sonhar. Sentiu as lgrimas a assomarem-lhe aos olhos e olhou para 
Ernie, que ficou muito preocupado.
       - Passa-se alguma coisa?
       - No posso acreditar que isto me esteja a acontecer! Ele sorriu. Gostava delas assim. Frescas e novas. Gostaria de ter ficado com ela at mais tarde para 
a conhecer melhor, mas queria-a repousada para o dia seguinte. O filme era o mais importante. Para Ernie, Crystal era mais do que uma rapariga. Era um investimento.
       Conversaram durante o caf e ele disse que gostaria de a ver pela cidade pelo brao dos homens certos. Discretamente, referiu-lhe uma lista de nomes que lhe 
iriam telefonar. Ela reconheceu alguns e pensou que'ele estava a brincar. No entanto, quando olhou para os olhos dele, viu que no.
       - Porque est a fazer tudo isto por mim? - Ainda no o compreendia. Por que ela? Mas Ernie sabia exatamente o que fazia.
       - Um dia vais tornar-nos ambos muito ricos. - Sorriu como se tivesse encontrado um diamante no caf: - Vais ser muito famosa.
       - Como  que sabe? - Porque seria ela diferente das outras? No se apercebia da sua beleza, especialmente agora com os vestidos que ele a incitara a comprar 
e com a maquiagem cuidada. Estava muito longe das camisas de trabalho e das botas de cowboy, mas por enquanto no sentia a falta delas.
       - Nunca me enganei - vangloriou-se ele, dando-lhe uma palmadinha na mo enquanto pedia a conta. Depois, enquanto esperava, fez a pergunta que o andava a intrigar 
desde que a conhecera.
       - Ests envolvida nalgum romance? - Ela ficou pensativa e ele sorriu. - Por outra palavras, tens algum namorado? - Ela tinha-o percebido, mas estivera a meditar 
no assunto.
       - No, no tenho. - A sua voz era firme mas passou-lhe pelo rosto uma sombra de tristeza quando pensou em Spencer.
       - Tens a certeza?
       - Sim.
       - Ainda bem. Mas tiveste? - Ela assentiu. - E onde est ele agora? - Queria ter a certeza de que ela estava livre e que no iria ter problemas. E claro que 
poderia livrar-se dele, mas no o desejava fazer.
       - No sei bem - prosseguiu Crystal. - Na Coria, ou de regresso a Nova Iorque. Seja como for, j no  importante. - Mas teve de reprimir as lgrimas ao dizer 
aquelas palavras.
       Depois recostou-se e viu Ernie cumprimentar os amigos que passavam pela mesa. Ele era atraente e gracioso e tinha um certo estilo que comeava a agradar a 
Crystal. Nunca conhecera ningum assim. Reparou que usava um nico anel, de ouro e muito pesado, com um grande diamante. O fato era caro e a camisa branca fora feita 
por um fabricante de Ls Vegas, mas parecia ser proveniente de um alfaiate de Londres. O homem possua muito estilo e era bvio que se preocupava com o seu aspecto. 
Era tambm muito sensual, mas havia nele uma energia que ainda a assustava um pouco. Ele escondia-o bem, mas as pessoas sentiam que Ernesto Salvatore era um homem 
que conseguia sempre o que queria. Contudo, quando se virou para ela no havia vestgios disso.
       - Ests pronta para ir? - perguntou ele levantando-se. Conduziu-a, passando por uma dezena de rostos famosos. Alguns deles cumprimentaram-no, mas desta vez 
ele no parou. Avanou at  porta, fingindo no reparar nos olhares dirigidos a Crystal e poucos minutos depois deixou-a no hotel. Crystal agradeceu-lhe, ele partiu, 
e ela subiu as escadas para uma boa noite de sono antes do trabalho do dia seguinte.
       No entanto, uma vez na cama no conseguiu dormir; contudo, daquela vez no estava a pensar em Spencer; interrogava-se acerca do empresrio, e embora admitisse 
que ele era encantador, tal como Pearl dissera Crystal apercebeu-se de que Ernie a assustava.
       
Captulo 26
       
       Crystal comeou a trabalhar no filme tal como lhe prometera o professor, e foi tudo mais fcil do que aquilo que ela julgara. As horas de trabalho eram muitas 
e rigorosas, mas todos pareciam ansiosos por ajud-la. Ela estudava as suas falas todos os dias e tencionava deitar-se cedo todas as noites, mas ficou impressionada 
com a grande quantidade de telefonemas que recebia de homens. Ernie falara-lhe em            l todos eles, por isso Crystal sabia que os telefonemas tinham sido 
mandados fazer, mas os homens mostravam-se sempre educados, agradveis e encantadores. Chegavam de smoking, ao volante de carros dispendiosos, atores, cantores e 
danarinos bem conhecidos. Ela at vira alguns deles no cinema. E levavam-na a todo o lado. Ao Chasen's, a Coconut Grove e ao Mocambo. Era tudo como um conto de 
fadas e as palavras faltavam-lhe quando tentava descrever tudo nas cartas que escrevia a Pearl. Falou-lhe das festas a que ia, das pessoas que conhecia, e por momentos 
perguntou-se se a amiga acreditaria nela. Era o tipo de histria que se encontrava nas revistas, mas era verdadeira. Toda ela. E falou-lhe tambm do filme.
       E a meio do filme, Ernie telefonou-lhe.
       - Ests a divertir-te?
       - Tenho sado todas as noites - disse ela com uma gargalhada e ele tambm se riu.
       - Ento como  que ests em casa a estas horas?              
       - Estava to cansada que cancelei a minha sada. Achei que no me conseguia vestir mais uma vez. - Ele sentiu-se tentado a fazer um comentrio, mas achou 
que ela ainda no estava preparada. Em vez disso, optou por uma resposta inocente e por no a assustar.
       - Nem sequer uma vez? S para mim?
       - Oh, senhor Salvatore...! - exclamou ela em voz baixa. Estava exausta. Tinha de levantar-se todos os dias s quatro e estar nas filmagens s cinco e meia 
para a maquiagem e para se vestir.
       - O que aconteceu ao "Ernie"? Fiz alguma coisa de errado?
       - No, desculpe. - Ele parecia to simptico e ela devia-lhe tanto que sabia no poder recusar um pedido dele. Desejou que ele no lhe tivesse ligado. Estava 
mesmo cansada.
       - No peas desculpa, lembra-te s da prxima. Que tal um jantar calmo? Nem sequer precisas de te vestir para seres vista.
       Ela suspirou de alvio. Afinal, fora simptico da parte dele telefonar-lhe. Sorriu ao olhar pela janela.
       - Posso levar calas de ganga?
       - Com certeza. E traz um fato de banho, se tiveres.
       - Aonde vamos? - perguntou ela intrigada e ligeiramente preocupada.
       - A Malibu. A um stio discreto que conheo. Podes estar descontrada e eu levo-te cedo para casa.
       - Gostaria muito. - Vestiu-se  pressa, amarrou o cabelo, enfiou as calas de ganga, uma das velhas camisas que trouxera de casa e as botas de cowboy que 
j tinha h muitos anos. Quando se olhou ao espelho, tornou a reconhecer-se e soube-lhe bem no estar bem vestida e pintada.
       Ele foi busc-la no Rolls Royce dez minutos mais tarde e ela reparou que ele tambm levava calas de ganga. Ele sorriu, agradado pelo aspecto dela.
       - As pessoas so to estpidas! Gostaria muito de te ver num filme com essa roupa, mas ningum iria entender. - Reparou que ela se sentia muito bem com as 
botas e aquelas calas e recordou-se das histrias do vale que ela lhe contara durante o jantar em Brown Derby.
       Naquela noite, ela esteve mais  vontade com ele do que j alguma vez estivera. Para isso contribua a ausncia de roupas caras e o fato de no estar num 
restaurante, onde todos a olhavam. Crystal no se lembrou de lhe perguntar para onde se dirigiam. Tagarelaram durante algum tempo acerca da infncia dela no vale 
e da dele em Nova Iorque, e de repente ela viu que tinham parado junto a uma casa com vista para o mar.
       - Onde estamos?
       - Na minha casa de Malibu. Trouxeste um fato de banho? Tenho uma piscina interior. O mar  demasiado frio para estas bandas.
       Ela sentiu um arrepio de medo, no entanto ele no lhe dera a entender que deveria preocupar-se. Mas as cicatrizes emocionais deixadas por Tom nunca tinham 
desaparecido completamente, e de repente ela perguntou-se o que pensaria Spencer se soubesse que ela estava ali com Ernie. Mas isso j no importava. E ele era casado. 
E aquela era a sua vida e a de mais ningum. Repeliu Spencer da sua mente e seguiu Ernie at  porta, que ele abriu com uma nica chave. No estava l ningum, e 
Crystal sentiu medo.
       - No fiques assustada, pequena. - Ele sorriu-lhe com ternura. - No vou magoar-te. Pensei apenas que precisavas de uma noite de folga.
       Tinha razo, ela precisava mesmo, mas no sabia se ali estaria em segurana. O seu instinto dizia-lhe para no entrar, mas teve vergonha de armar um escndalo, 
uma vez que ele estava a ser to simptico e que j fora to bondoso para ela.
       Seguiu-o, entrando, e viu que estava numa bela casa, com paredes de vidro e tetos altos, tapetes espessos brancos e enormes sofs de cabedal. A sala parecia 
ainda maior graas ao uso de espelhos. Do lado de fora das grandes janelas, o Sol punha-se lentamente sobre o Pacfico. Era lindo, e tudo lhe pareceu mais real. 
Lembrou-se do pr do Sol no rancho, que costumava ver em tempos mais felizes, com o pai.
       - Queres beber alguma coisa? - Ele dirigiu-se para o bar e abriu o frigorfico escondido atrs de uma porta espelhada, mas ela abanou a cabea. Fazia tenes 
de se manter sbria.
       - No, obrigada.
       - Qualquer coisa sem lcool, talvez? - Ela pediu uma Coca-Cola e ele sorriu. Ela era mesmo uma mida, por detrs daquele corpo magnfico. Nunca vira uma rapariga 
to bonita e ainda se admirava por a ter encontrado. - No bebes ou no confias em mim?
       Ela hesitou e depois riu-se.
       - Acho que as duas coisas.
       - Esperta. - Ele serviu-se de um vodca com gua tnica e convidou-a a sentar-se no sof. Ela ainda estava a tentar descobrir onde ficava a piscina, mas agora 
que estavam l dentro, a casa parecia muito maior. Quando entrara achara-a muito pequena.
       - Encomendei jantar para ns os dois. Tenho a certeza de que est para a algures muito bem escondido. H um homem que vem c todos os dias. Mas no uso esta 
casa muitas vezes. Vivo em Beverly Hills. - E sabia que ela estava a viver no hotel. - Podes usar esta casa sempre que quiseres Crystal. Vem at c para te descontrares. 
Depois de um dia de trabalho duro no filme, bem precisas.
       Ela ficou sensibilizada pela amabilidade. J fizera tanto por ela! Era difcil compreender o motivo. Para ganhar dinheiro,  claro, mas havia mais qualquer 
coisa. Tambm se encarregava de todas as pequenas coisas, das flores, dos pequenos presentes, da escolha dos seus acompanhantes, e agora daquilo: uma noite na praia 
com calas de ganga. Era mesmo isso que ela teria desejado. Ele estava sempre  altura; era mesmo o que fazia melhor; tinha uma grande capacidade para adivinhar 
os desejos dos outros.
       Crystal encostou a cabea ao sof enquanto o Sol se punha atrs deles e suspirou satisfeita.
       - Acho que este  o dia mais agradvel que passei aqui.
       - timo. Gostarias de dar um mergulho antes de jantar ou preferes esperar? Talvez um passeio na praia? Ela sorriu.
       - Gostaria muito.
       Ernie pousou o copo e abriu a porta para a varanda. Uma brisa fresca entrou e ele seguiu-a pelas escadas at  areia. Crystal comeou a correr, sentindo o 
vento no rosto e no cabelo, e pela primeira vez desde h muito sentiu-se verdadeiramente feliz. Parecia de novo uma criana a correr, e tirou as botas para molhar 
os ps no mar. Estava a escurecer, mas ele seguiu-a em silncio, observando-a deleitado como um pai orgulhoso. Por m, ela regressou para junto dele, o rosto corado 
pelo ar fresco e pelo vento.
       - Tens frio?
       - No, estou bem.
       Ernie apercebeu-se de que ela estava com frio e tirou o casaco, colocando-o sobre os ombros de Crystal. Cheirava  gua-de-colnia que ele usava. Crystal 
no se apercebera dela antes, mas gostou do cheiro. Perguntou-se se eleja fora casado, ou se tinha filhos, quem estaria atrs daquela fachada, mas ele no revelava 
nada de si prprio. Parecia estar ali apenas para lhe agradar e pouco depois levou-a para dentro e foi  procura do jantar. Encontrou uma lagosta fresca com maionese 
e uma salada de espinafres. No balde de prata de gelo gelava a garrafa de champanhe e junto estavam ovos cozidos recheados com caviar.
       - J alguma vez comeste caviar? - Ela abanou a cabea, s ouvira falar dele, e Ernie dirigiu-lhe um sorriso paternal. - De incio talvez no gostes. H coisas 
assim. - Mas ela decidiu agradar-lhe e acabou por achar que o caviar no era assim to mau. No entanto, quando se sentaram  mesa, em cadeiras confortveis, Crystal 
descobriu que gostava muito mais da lagosta e do champanhe. Bebeu pouco e ele no a forou a beber mais. Tinha tempo, e muito, e no a queria antes de ela o querer 
a ele. Sabia que ela acabaria por o querer. Estaria demasiado endividada para que isso no sucedesse.
       Falaram acerca do vale, do pai dela, sobre todas as coisas importantes para ela, e ele ouvia-a como se a sua vida dependesse disso. Meia hora depois do jantar, 
ele tornou a sugerir-lhe um mergulho com um sorriso caloroso.
       - Talvez te descontrasse.
       Ela riu-se com aquela escolha de palavras.
       - Se eu ficasse mais descontrada adormecia j aqui no cho. - Tivera um dia longo e muito difcil e a sobrecarga de trabalho j se fazia sentir. Para ajudar, 
o ar fresco do mar fizera-lhe sono. - Um banho no faria mal, isto se eu no me afogar depois de tanta lagosta.
       - No te preocupes, eu salvo-te.
       Ela sorriu-lhe com gratido, sem se aperceber da beleza da sua imagem, descontrada, com calas de ganga, botas, uma camisa velha e o cabelo louro.
       - Acho que j o fez.
       - Espero bem que sim. - O seu benfeitor dirigiu-lhe um sorriso benevolente e disse-lhe onde poderia mudar de roupa enquanto ia acender as luzes da piscina. 
Momentos depois ela apareceu num fato de banho branco que lhe tirou o flego. Crystal no fazia idia da sua enorme beleza, o que tambm no era prejudicial. Ernie 
apreciava isso nela. E o pblico iria ser da sua opinio. Ele nunca se esquecia disso.
       - Espero que esteja suficientemente quente. - Observou-a a entrar na gua, e depois foi mudar de roupa enquanto ela boiava muito contente. A piscina era enorme 
e quente e ela achou que nunca se tinha sentido to confortvel. Olhou para Ernie com um ar muito satisfeito quando ele regressou envolto numa enorme toalha branca. 
Tinha-a enrolada  cintura e enquanto ela olhava, ele desenrolou-a e Crystal ficou estupefata. Ernie estava nu. Virou discretamente a cara, com receio de o embaraar, 
e ouviu-o rir.
       - No te preocupes Crystal. No te vou violar. Nunca fui acusado disso. - Mas fora acusado de outras coisas de que ela nem fazia idia. Entrou na piscina 
e ela comeou a nadar, com receio de ver algo que no devesse. Quando passou junto dela, sorriu-lhe. - Porque no tiras tambm o teu fato de banho? Esta gua est 
to quente que parece a da banheira. - Parecia no ter outros motivos para fazer aquela sugesto, estava apenas muito  vontade consigo prprio e com ela. No tentou 
tocar-lhe quando ela sorriu e tentou parecer despreocupada, mas sabia que a deixara nervosa por estar nu.
       - No, estou bem assim, obrigada.
       - Como queiras, minha querida. - Ele era muito delicado e inteligente, nunca apressando o objeto das suas atenes. Todas acabavam por vir ter com ele, por 
um motivo ou por outro. Pouco depois, saiu da gua e ficou de p junto  piscina. Crystal, sem o desejar, reparou que ele tinha um corpo muito bem cuidado. Era alto, 
esguio e estava em forma; nadava todos os dias. Possua o corpo de um homem muito mais jovem. Ofereceu-lhe mais champanhe, mas Crystal no ousou olhar para ele, 
o que o levou a perguntar-se se a rapariga seria virgem. Isso traria certos inconvenientes,  claro, mas nenhum obstculo era insupervel. Ele teria estado a fazer 
o sacrifcio por ela, mas quando a observou, foi obrigado a sorrir. Ela nadava como um peixe, esforando-se pateticamente por no parecer nervosa.
       - Sentir-te-ias melhor se eu baixasse a intensidade das luzes? Acho que tenho uma grande fobia: detesto fatos de banho. Vais ter de me desculpar.
       - Ora essa. - Ela tentava parecer adulta e comportar-se como achava que as estrelas de cinema se comportavam, mas ele estava a deix-la bastante nervosa. 
E antes de conseguir responder, ele acendeu as luzes na sala. Ali na piscina havia apenas luzes fracas e as lmpadas junto ao teto pareciam velas.
       - Ests melhor?
       - Muito - mentiu ela.
       Ernie bebeu um gole de champanhe e tornou a entrar na gua. Desta vez nadou diretamente para ela, agarrando-a com firmeza plos pulsos. Ela imobilizou-se, 
olhando-o nos olhos.
       - O que me vai fazer? - perguntou, apavorada.
       - Vou transformar-te numa estrela de cinema - murmurou ele, mas de repente Crystal perguntou-se o que quereria em troca. Talvez as histrias que ouvira sobre 
Hollywood fossem verdadeiras: rezou com fervor para que desta vez no o fossem... "Por favor, meu Deus, desta vez no." - No quero magoar-te. Crystal. Confia em 
mim. - Ela assentiu, incapaz de falar, enquanto ele a puxou para si e a beijou. - s muito bela... talvez a mulher mais bela que eu j vi. - Tornou a beij-la e 
ela comeou a chorar.
       - Por favor... no... por favor... - Tremia com tanta violncia que ele se comoveu.
       - Desculpa, pequena. No quis assustar-te. S quero que sejas feliz. - Ento, enquanto ela o observava, nadou at  borda, saiu da gua e enrolou-se na toalha. 
Ela observou-o de boca aberta, espantada. Ernie gostava dela, admirava-a, no iria viol-la. De repente, sentiu-se uma idiota e foi sentar-se junto dele enquanto 
o seu anfitrio bebericava o champanhe.
       - Lamento imenso... - Sabia que tinha de explicar o seu comportamento. - Fui violada h quatro anos... acho que... pensei... - Comeou a chorar e ele ps-lhe 
um brao por cima dos ombros.
       - Desculpa. No tenhas medo de mim. Se fores sempre sincera comigo, nunca te magoarei. - Havia ali uma ameaa velada, mas Crystal ficou demasiado aliviada 
para reparar. Encostou-se a ele muito grata e deixou-o segurar no copo enquanto bebia uns goles de champanhe.
       - Isto  tudo to novo para mim. E aconteceu com tanta rapidez. No sei o que hei-de pensar durante metade do tempo. Peo desculpa por me ter comportado como 
uma idiota.
       - No faz mal - retorquiu ele com um sorriso benvolo. - Es uma idiota bonita e gosto de ti. - Aquilo pareceu uma das frases de Spencer e a compreenso dele 
comoveu-a. - Queres regressar agora ao hotel Crystal? Sei que tens de te levantar cedo. Ou queres nadar mais um bocado?
       Ela precisava de tornar a descontrair-se depois da sua tamanha estupidez, e olhou-o com os olhos muito abertos, o azul forte surpreendendo-o. Ela era encantadora.
       - Gostaria de nadar mais um bocado. Importa-se? Est com pressa?
       -  claro que no - respondeu ele, rindo. Desta vez baixou as guardas, e no ficou to assustada quando ele voltou a tirar a toalha e entrou na gua. Crystal 
nadou um pouco, depois ps-se a boiar, e quando olhou para o lado, ele estava ali. Ernie virou-se de bruos, para no a constranger, e aproximou-se devagar, beijando-a. 
Desta vez ela no o afastou. Sentia que lhe devia isso por ter feito figura de parva antes, mas quando ele a beijou e a acariciou ao de leve nos seios, ficou admirada 
ao aperceber-se de que gostava. Nadou para longe dele, mas Ernie seguiu-a, sem qualquer violncia, nadando com graciosidade, as mos tocando nela e entrando-lhe 
pelo fato de banho enquanto a beijava. Crystal queria que ele parasse, mas ao mesmo tempo, num momento de loucura, apercebeu-se de que no queria. Nadou at aos 
degraus e tentou recuperar o flego, mas sentiu-o atrs de si, despindo-lhe devagar o fato de banho. Ela quis voltar-se, mas ele encostou-se a ela, as mos explorando 
com habilidade. Crystal atirou a cabea para trs, angustiada, e gemeu baixinho.
       - Ernie, no... - Desta vez no havia convico nas palavras, enquanto ele lhe tocava uma e outra vez, os dedos provocadoramente meigos. Ele era um mestre 
e ela apenas uma novia. Fora at  ratoeira e ainda nem o sabia. - Oh, meu Deus... no... por favor... - Ernie parou de repente, como se por ordem dela, e o corpo 
de Crystal estremeceu. Virou-se para ele, expectante, e, sem dizer uma palavra, penetrou-a debaixo de gua. Os olhos de Crystal abriram-se de admirao mas segundos 
depois foi invadida pelo prazer. Ele fez amor como uma sinfonia e quando o crescendo aumentou foi Crystal quem o puxou para mais perto, desejando que ele nunca mais 
parasse. Depois, quando ele lhe sorriu, sentiu-se atrapalhada. No podia culp-lo pelo que fizera, pois quisera-o. No que desejasse Ernie, mas o que ele lhe fizera 
no se comparava a nada do que j conhecia. Nem sequer com Spencer.
       - Ests zangada comigo? - Parecia preocupado, e ela franziu o sobrolho, zangada no com ele mas consigo.
       - No - murmurou -, no sei o que me aconteceu...
       - Sinto-me lisonjeado. - Beijou-a ao de leve e tornou a tocar-lhe nos mamilos. Minutos depois ela tornava a desej-lo. Passaram horas na piscina a fazer amor, 
e  meia-noite ele levou-a ao colo para o primeiro andar. O quarto estava cheio de veludos brancos e peles espessas - raposas, ursos - e uma colcha de marta branca 
onde ele a deitou, encharcada. Limpou-a cuidadosamente com uma toalha, indo aos stios certos com a toalha que estivera enrolada  sua cintura, depois, com dedos 
meigos e finalmente com os lbios e uma lngua que entravam e saam dela como pirilampos. Crystal gritava por Ernie quando ele finalmente acedeu, e passaram o resto 
da noite a amar-se. Ela nunca fizera nada parecido. Com Spencer fora diferente. Aqui havia angstia, medo. Quanto mais ele a possua, mais ela desejava ser possuda. 
Era quase como uma droga, pensou ela, mas no era. Era um extraordinrio poder que ele tinha, uma mestria e um desejo de lhe ensinar coisas novas. Mas ela estava 
com medo quando finalmente pararam.
       - Que me ests a fazer? - Estava exausta e teria de partir para o trabalho dali a meia hora. Nunca passara por uma coisa assim.
       - Todas as minhas coisas preferidas, queridinha. - E depois sorriu-lhe quase com malvadez. - Mais uma?
       - No... no... - Ela abanou a cabea. No conseguia explicar, mas sabia que tinha de se afastar, pois receava querer que ele voltasse a fazer o mesmo. Tomou 
uma ducha quente, depois um frio, mas ele deixou-a em paz. Quando desceu j vestida tinha  sua espera na cozinha caf e pezinhos. Olhou para ele. - Porque ests 
a fazer tudo isto por mim?
       Ele riu-se e tocou-lhe no rosto com um dedo, sorrindo feliz.
       - Porque s minha. Pelo menos enquanto assim o desejares. O que achas da idia? - Parecia assustadora e errada. Contudo, ele dera-lhe a carreira que ela sempre 
quisera. Dera-lhe acompanhantes para as noites, at lhe dera roupas novas. E agora dera-lhe uma noite como ela nunca tivera. Que havia de errado nisso? Mas no ntimo 
ela sabia que havia algo mais. E sentia-se muito culpada. Pensar em Spencer quase lhe despedaava o corao. As recordaes daquilo que tinham partilhado pareciam, 
de alguma forma, manchadas. Fora tudo inocncia e amor. Mas agora era diferente. Sentia-se uma meretriz. No amava aquele homem, mas ele fora bom para ela, e se 
a desejasse durante algum tempo que mal havia nisso? O que estaria assim to errado? Havia pessoas que lhe teriam dito que estava a brincar com o fogo e outras que 
ele era um homem bondoso. Ambas as opinies eram verdadeiras. Ele era vrias coisas. Mas por agora, no desejava fazer-lhe mal. Tornou a beij-la com meiguice e 
quando ela saiu para o trabalho disse-lhe para levar o Rolls.
       - Como  que regressas?
       - Mando o meu motorista vir buscar-me. No te preocupes, pequena. Eu fico bem. - Beijou-a com ternura, e s de lhe tocar Crystal recordou-se do que ele lhe 
fizera durante a noite. No se parecia nada com aquilo que Tom Parker fizera no cho do celeiro... e ainda menos com aquilo que ela e Spencer tinham partilhado... 
aqui no havia amor, mas Ernie estava ali, era bom para ela... e o que importava isso, afinal de contas?... Spencer partira. Para sempre.
       
Captulo 27
       
       Nessa tarde, quando Crystal regressou ao hotel, havia uma encomenda  sua espera. Levou-a para o quarto, desembrulhou-a com cuidado e os olhos abriram-se-lhe 
de espanto e de atrapalhao. Era uma pulseira de diamantes, enviada por Ernie. No sabia o que fazer com ela, tinha medo de a colocar. Sentou-se com ela na mo, 
a tremer. Ainda se sentia horrorizada pelo que tinha feito na noite anterior. Nunca fizera nada do gnero nem queria tornar a faz-lo. Contudo, quando Ernie ligou 
nessa noite, foi muito meigo e parecia adivinhar o que ela queria dizer.
       - Gostaste da pulseira? - Parecia uma criana que tinha levado flores  me.
       - Eu... sim... Ernie...  incrvel. Mas no posso ficar com ela. - Fazia-a sentir-se como uma prostituta. No existia amor entre eles, apenas as coisas espantosas 
que ele zera com o seu corpo.
       - Porque no? As raparigas bonitas merecem coisas bonitas. - Pelo menos no disse que ela a merecera. - Posso passar por a daqui a pouco?
       - No... eu... - Crystal comeou a chorar em silncio, ainda com medo dele e das suas prprias reaes. No sabia o que lhe acontecera na noite anterior. 
Durante as filmagens sentira-se cheia de culpa, tentando no pensar em Spencer.
       - Minha querida, no vou magoar-te. - Parecia triste, e ela teve pena dele. Afinal, no era culpado de ela se ter portado daquela maneira. Pelo menos Crystal 
assim o pensava. Ernie no a forara. S a enganara, com as suas carcias e dedos hbeis. - S quero falar contigo um bocadinho.
       - Encontro-me contigo no trio.
       - Tudo bem. Estarei a daqui a meia hora. Chegou com uma camisa branca e um pulver de caxemira sobre os ombros e beijou-a ao de leve no rosto, enquanto todas 
as cabeas presentes se viravam. Ele era uma figura muito conhecida em Hollywood e ela uma mulher muito bela.
       Pediu bebidas no bar e Crystal sentou-se com um ar ligeiramente constrangido. Ele pegou-lhe na mo, parecendo adivinhar-lhe os pensamentos.
       - No te sintas mal pelo que aconteceu a noite passada. Foi uma coisa natural e muito bonita. Podemos ser amigos.
       - Mas os amigos no faziam amor numa piscina  noite, e Crystal virou para ele os olhos cheios de lgrimas.
       - No sei o que aconteceu. - Desejava contar-lhe quanto amava Spencer, quanto tempo esperara por ele. Porm, no o fez. Aquilo que ele significara para ela 
antes de partir j no era importante. Tinha direito  sua prpria vida, mas no com um homem como Ernie. Era demasiado rico, demasiado experimentado, demasiado 
poderoso, e ela sabia-o. - Acho que agi como uma louca. - Era uma desculpa esfarrapada, mas foi tudo o que conseguiu dizer-lhe enquanto ele bebia e sorria, novamente 
admirado com a sua beleza. Crystal tinha um rosto que fazia todos pararem e olharem para ele, e provocava nos homens o desejo de lhe tocar. Ernie vira excertos do 
filme dela no dia anterior e era visvel que a cmara a adorava.
       - Eu tambm agi como um louco. Mas no h mal nenhum nisso Crystal. s uma rapariga to bonita que eu me descontrolei. Perdoas-me? - Sabia exatamente o que 
lhe dizer. Ela olhava-o com cautela. - Foi por isso que te mandei a pulseira. Para pedir desculpa pela noite de ontem. - J conhecia os remorsos dela, e desejava 
que ela considerasse a pulseira um pedido de desculpas e no um pagamento. Sabia que isso era importante para Crystal. Ela era muito diferente das atrizes com quem 
ele saa, as quais se sentiam felizes em oferecer o corpo em troca dos seus favores. Mas esta rapariga era completamente o oposto. Era decente, meiga, e no se comparava 
a mais nenhuma. Mas era disso que ele gostava. - Desculpa, Crystal... - O seu olhar parecia to sincero que ela comeou a sentir-se melhor. Talvez tivessem os dois 
enlouquecido um pouco; Crystal tentou convencer-se de que fora to responsvel pela situao quanto ele, contudo no conhecia Ernie Salvatore. - Um dia irs consider-la 
uma recordao dos teus primeiros tempos em Hollywood. Poders mostr-la aos teus lhos. - Crystal hesitara, mas Ernie mostrara-se to magoado quando tentou devolver-lhe 
a pulseira que acabou por ficar com ela. - Podemos comear tudo de novo?
       Ela assentiu devagarinho, sem saber ao certo se era aquilo que desejava fazer, mas sentiu-se de novo em dvida para com Ernie quando ele lhe contou como ela 
ficara bem nas filmagens. Afinal de contas, era tudo graas a ele, e ficaram sentados durante um grande bocado a conversar sobre o filme. Ele j tinha outro  espera 
dela.
       - To cedo? - perguntou Crystal admirada e sentindo-se muito grata. - Quando  que comea? - Estava hesitante e ainda envergonhada, e tentava esquecer-se 
do que vira quando ele ficara nu na beira da piscina.
       - Uma semana depois de acabares este. Calculo que no princpio de abril. - Falou-lhe das pessoas com quem iria contracenar e ela olhou-a abismada. Conhecia 
todos os nomes e alguns deles eram bastante importantes.
       - Ests a falar a srio?
       - Claro. - No lhe disse foi quanto tivera de pagar para a meter no filme. - Desta vez  um papel secundrio, mas creio que talvez te deixem cantar. E o elenco 
 fabuloso. Participar no mesmo filme que eles vai ser muito bom para ti. - Parecia saber o que era necessrio para iniciar a carreira dela e esforava-se bastante. 
E na manh seguinte, Crystal viu o seu nome nos jornais. Era um artigo que falava do prximo filme que ela iria fazer. Tudo era verdade. Ele conseguira.
       Nessa noite, depois do artigo sobre o novo filme dela, Ernie levou-a a jantar, e no dia seguinte havia uma fotografia de ambos nos jornais, e a legenda dizia: 
"Empresrio Ernie Salvatore e a sua nova amiga, Crystal Wyatt." Era como estar a ler sobre outra pessoa, e Crystal saboreou a notcia em silncio. Enviou uma cpia 
a Harry e Pearl; ainda continuava a telefonar-lhes todas as semanas. Tinha imensas saudades deles, mas no tantas como de Spencer. Ainda se interrogava sobre se 
iria tornar a receber notcias dele, mas, no seu ntimo, tinha a certeza de que tal no aconteceria. E quando pensava nisso, sentia-se muito sozinha sem ele. O nico 
amigo que tinha agora era Ernie.
       Ele mandava-lhe flores, comprava-lhe prendas e embaraou-a mais do que uma vez mandando o Rolls e o motorista busc-la depois das filmagens. Mas no tornou 
a tentar seduzi-la. Estava  espera que ela fosse ter com ele, e sabia que ela acabaria por faz-lo, de uma forma ou de outra. Duas semanas depois da primeira visita, 
tornou a convid-la para a casa de Malibu. Ela hesitou, mas nessa altura j se sentia mais  vontade com ele, e achou que nada iria acontecer. Desta vez no foram 
para a piscina e caminharam lado a lado na praia. Crystal iria comear as filmagens do novo filme da a semanas e tinham muito sobre que falar. De repente, ele virou-se 
para ela e sorriu. Havia nele algo de paternal, reconhecia agora Crystal. Tomara-a sob sua proteo, tomara as decises por ela. Depois de quatro anos a lutar sozinha, 
aquilo era uma experincia, mas tinha de admitir que a apreciava.
       - Ando j h algum tempo para te perguntar uma coisa, Crystal. - Hesitou, tornando a olhar para o pr do sol, e pegou-lhe na mo. - Que tal achas da idia 
de vir ficar uns dias comigo?
       - Aqui? - Ela pensou que ele estava a falar de um fim-de-semana, s conseguia pensar na noite em que tinham feito amor, e tornou a corar com as recordaes.
       Ernie sorriu: ela era ainda to inocente e to nova. Com quase vinte e dois anos, era ainda uma criana, pelo menos plos padres de Hollywood.
       - Aqui e no s, tontinha. Tambm em Beverly Hills. Achei que isso poderia ajudar a tua carreira, e seria mais agradvel do que viver num hotel, para alm 
de mais barato.
       - Tentou apresentar a coisa em termos prticos, em vez daquilo que era na realidade: uma declarao.
       - No sei... eu... - Virou os seus olhos cor de alfazema para ele e at o ncleo duro de Ernie Salvatore derreteu um pouco. - Ernie, o que queres dizer? J 
foste to bom para mim, acho que no devia... no quero abusar. - Ainda no tinha percebido, e ele colocou um brao sobre os ombros dela.
       - Quero dizer que desejo que venhas viver comigo. Quero estar perto de ti. - Houve um longo silncio enquanto ela o observou e olhou com tristeza para o Sol 
no ocaso. Onde estaria Spencer? Para onde fora? Porque no estaria ele a fazer-lhe aquela declarao em vez de Ernie? - Hollywood  um stio difcil. Quero oferecer-te 
a minha proteo. - Que mais poderia ela pedir? E, no entanto, sabia que no o amava.
       Abanou devagar a cabea.
       - No posso.
       - Porque no?
       Crystal olhou-o com um ar franco, pondo a sua carreira em perigo, mas sem poder mentir-lhe. Eleja fizera demasiado para a ajudar, pelo que no podia esconder-lhe 
nada.
       - Porque no te amo.
       Ernie no lhe disse que isso nada significava para si. No era o amor dela que queria. Era o resto dela, o seu corpo para aquecer as noites, o rosto dela 
para vender aos cineastas. Lucrava bastante com o que ela fazia e lucravam tambm as pessoas muito importantes que o apoiavam. Era a figura de proa de um grupo interessante, 
mas, tanto quanto se sabia, era ele que importava. E ela ser-lhe-ia til. Soubera-o desde o primeiro momento em que a vira.
       - Talvez o amor surja depois. Somos amigos, no somos?
       Ela anuiu, ainda a olhar para o Sol a pr-se. Ernie fora bom para ela, melhor do que ningum, mas aquilo que desejava era mais do que aquilo que ela queria 
dar-lhe. No entanto, tudo o que ele fazia por ela era grandioso: as roupas, os carros, os filmes, a pulseira de diamantes.
       - Posso pensar no assunto durante algum tempo? Havia pessoas que teriam tremido s de pensar em repelir Ernie Salvatore, mas ele exibiu um ar paciente e bondoso 
enquanto se dirigiram para casa. Serviu-lhe um copo de vinho e ela foi bebendo enquanto ouviam msica. Sentia-se em paz. Ernie nunca a pressionava, limitava-se a 
estar ali, e de certa forma compreendia o que ela queria: ser uma estrela de cinema. Era ainda um sonho infantil, contudo sabia que ele poderia torn-lo realidade. 
Mas no desejava sacrificar a sua integridade por esse sonho, vivendo com um homem que no amava. Mas o que mais lhe restava? Na realidade, nada tinha. S um sonho. 
E a recordao de um homem que a deixara havia trs anos e que no voltaria, independentemente de como ela o amava.
       - Queres ir j para casa? - perguntou ele. Estava sempre disposto a fazer o que ela queria, e quando ela lhe sorriu, inclinou-se e beijou-a. Era a primeira 
vez que o fazia desde a noite em que tinham feito amor. Desde h duas semanas que ele se afastara um pouco e nada exigira dela. E agora tambm no exigia. Mas oferecera-lhe 
o seu corao e a sua casa, e isso para Crystal tinha muito valor. Ernie tornou a beij-la, com muita ternura, e as suas mos tocaram-lhe ao de leve. Crystal quis 
afastar-se, mas ele agarrou-a com uma fora surpreendente.
       - No te vs - murmurou -, por favor...
       Ela quase sentiu pena dele. Ernie dava-lhe tanto e pedia to pouco em troca. Permitiu que ele a beijasse e passado pouco tempo o seu corpo comeou a responder 
ao dele. Desta vez, foi Crystal quem despiu a roupa dele, e fizeram amor no enorme sof branco, com os espelhos por cima e o pr do Sol atrs.
       Desta vez no houve remorsos, no houve surpresas. Crystal sabia o que fizera e por qu. Sentia que estava em dvida para com ele, por tudo o que ele fizera. 
Sabia que no o amava, mas no havia mais nada nem ningum. Aquela era agora a sua vida. Hollywood, com o seu brilho e a sua magia, e ele era parte integrante. J 
no podia resistir-lhe. Devia demasiado a Ernie e este tinha demasiado para lhe oferecer. A vida nunca fora fcil e ela j estava saturada. Com Ernie, as dificuldades 
iriam terminar.
       Nessa noite ficaram em Malibu. Crystal no tinha de se justificar perante ningum, no havia que regressar ao hotel. Ningum se importaria, nem ningum saberia. 
Nem Harry, nem Pearl, nem a velha Sra. Castagna. E quando regressou ao hotel, trs dias mais tarde para buscar o correio, encontrou uma carta de Spencer que Pearl 
lhe enviara. Depois de todo aquele tempo ele acabara por lhe escrever, tentando explicar o seu longo silncio. Dizia-lhe quanto odiava a guerra e que perdera a esperana 
durante algum tempo, mas que ainda a amava. Contudo, era demasiado tarde. Ela j concordara em ir viver com Ernie Salvatore. E a carta de Spencer no lhe dizia nada 
de novo. Ainda estava na Coria, no sabia quando regressaria, e continuava casado. Ela fizera bem em ir para Hollywood. Talvez nada mudasse com Spencer. Mas am-lo 
era um luxo que ela j no queria suportar. Vendera a alma a Ernesto Salvatore. E nunca respondeu  carta de Spencer.
       Ernie ajudou-a a levar as suas coisas para a casa de Beverly Hills, e a vida de Crystal mudou da noite para o dia. Havia uma cozinheira, duas criadas, e ela 
tinha um quarto de vestir forrado a cetim cor-de-rosa que parecia um cenrio adequado a Joan Crawford. Quando foi pendurar as suas roupas, descobriu que os roupeiros 
estavam repletos de coisas que ele lhe comprara. Sobre uma cadeira estava um casaco de marta branca. Ela vestiu-o sobre as calas de ganga e riu-se como uma rapariguinha, 
dando voltas enquanto se olhava ao espelho. Telefonou a Pearl e contou-lhe que se mudara para casa de Ernie. Pearl no pareceu ficar chocada nem admirada. Quando 
muito, um pouco ciumenta.
       Iam juntos a todo o lado, aos melhores restaurantes, s maiores festas, s estrias e inauguraes e  entrega dos scares antes de ela comear o novo filme.
       - Um dia estars ali - murmurou-lhe ele quando Shirley Booth subiu ao palco para receber um Oscar como melhor atriz em A Cruz da Minha Vida. Gary Cooper recebeu 
um para melhor ator em O Comboio Apitou Trs Vezes, e Serenata  Chuva, com Gene Kelly, foi o melhor filme. Tudo aquilo era para ela um sonho, o sonho que alimentara 
desde a infncia no vale.
       - s feliz? - perguntou Ernie com um sorriso uma noite, depois de terem feito amor, e ela anuiu em silncio. Sentia-se feliz, muito embora no o amasse. Ele 
cuidava dela, mimava-a, certificava-se de que todos a tratavam bem, e quando comeou o novo filme Crystal foi tratada como uma rainha. Agora era uma pessoa importante: 
a rapariga de Ernie Salvatore. No entanto Crystal desejava mais do que isso. Desejava ser uma boa atriz e cantora, embora agora quase no cantasse. As canes faziam 
parte de outra vida. E ela concentrava-se essencialmente na representao. Mas aquilo que tinha com Ernie era agradvel. Trabalhava bastante com o seu professor 
de voz e os professores de representao que iam agora a sua casa ensin-la. Crystal tinha boa memria e dizia as suas falas na altura certa. Nunca chegava atrasada 
e nunca armava escndalos. Nas filmagens, as pessoas gostavam dela porque trabalhava bastante e estava bem preparada. Gradualmente, a comunidade de atores comeava 
a conhec-la e a respeit-la. E a maior parte deles tambm conhecia Ernie. O Rolls vinha busc-la  noite, e s vezes Ernie estava no banco traseiro com uma garrafa 
de champanhe num balde de gelo e dois copos de cristal. Era um estilo de vida de que ela apenas ouvira falar e que agora tambm era seu. Todo ele. O sonho tornara-se 
realidade. Tornara-se aquilo que sempre desejara, e por agora no se importava com o que tivera de sacrificar para o conseguir.
       Acabou o segundo filme em finais de Maio e Ernie levou-a ao Mxico durante uns dias. Dissera-lhe que tinha de tratar de uns negcios, e ela gostou de ver 
algo to novo e to diferente. Havia crianas amorosas nas ruas, descalas, com rostos radiantes e olhos grandes; roupas coloridas, paisagens bonitas. Ela adorou, 
embora no tivesse estado muito tempo com Ernie. Quando regressaram a Los Angeles, ele entregou-lhe um guio com um sorriso e um beijo, um dia ao chegar do escritrio. 
Estava to bem vestido e elegante como de costume, e havia momentos em que at parecia que estavam casados. Nessa altura Crystal j se habituara a ele, sentia-se 
bem ao seu lado, e ele nunca a obrigava a dizer o que no sentia. Isso no era importante.
       - O que  isto? - perguntou ela com um sorriso. Essa noite iam danar e jantar ao Coconut Grove.
       - O teu Oscar. Parece que conseguiste, mida. - Era um guio, mas para outro estdio, com um papel talhado para ela. Crystal aparecia constantemente nos jornais, 
pois ele pagava uma fortuna aos seus homens na imprensa para despertar o interesse de toda a gente em relao a Crystal. E quando a levava algures, todos a olhavam 
com descrena. Ningum tinha aquele aspecto, nem sequer em Hollywood. Ela tinha o ar desconfiado de uma cora a sair do bosque e um corpo que chamava a ateno de 
todos. Ele ensinou-a a vestir-se, a andar, a entrar numa sala de forma a que todos parassem o que estavam a fazer. E tinha de admitir que ela o fazia com naturalidade. 
Um dia iria ser uma grande estrela. Uma superestrela. Ernie j no duvidava disso, especialmente depois da oferta que lhe fora feita, e em breve haveria outras. 
Para alm do mais, ela pertencia-lhe. E um dia, se fosse necessrio, dir-lho-ia.
       O guio era para um filme que comearia em Junho, e a mulher que tinham escolhido para atriz secundria discutira com a vedeta e fora necessrio despedi-la. 
Procuravam desesperadamente uma substituta, e Crystal servia na perfeio. Alm disso, j tinha reputao de ser uma pessoa de bom trato no trabalho, e em Hollywood 
isso era mais raro do que diamantes. Iria ser uma estrela e bem depressa.
       Havia alturas em que Ernie se perguntava se a amava. No que isso fosse importante para si. J ultrapassara tudo isso. Tinha quarenta e cinco anos, cinco 
divrcios, dois filhos algures em Pittsburgh, ambos mais velhos que Crystal, e no os via desde crianas.
       Crystal passou horas a ler o guio e a tomar notas. Era um bom papel e ficou admirada por lho terem dado. Falava mais do que nos dois filmes que fizera, e 
desta vez iria ser tudo mais difcil, seria necessria bastante emoo, teria de trabalhar bastante com os professores, mas estava a adorar.
       - Ernie,  magnfico - disse ela quando o encontrou na piscina. Ele tinha l um telefone, e passava a vida a fazer chamadas e a assinar papis. Nem no Polo 
Lounge o deixavam em paz. As vezes passava l a noite num bangal com os scios at um negcio estar fechado.
       -  um bom filme Crystal. Ir ser muito bom para ti. Mas ela parecia preocupada quando se sentou junto dele.
       - Achas que vou conseguir?
       Ele riu-se e beijou um punhado do seu cabelo louro. Antes das filmagens, as cabeleireiras levavam um tempo infinito a pente-lo, mas ela recusara-se a cort-lo. 
E era a nica rapariga que ele conhecia em Hollywood que se preocupava se estaria  altura para o filme. A maioria queria papis para subir na vida, sem se preocupar 
com a qualidade do seu trabalho, mas Crystal era diferente. Era isso que a diferenciava das outras, isso e a sua beleza. Ele escolhera uma rapariga destinada a vencer.
       - Irs fazer um excelente trabalho.
       - Vou ter de trabalhar que nem um burro para me lembrar de todas as falas.
       - No te preocupes.
       Nessa noite foram celebrar, e ela trabalhou noite e dia antes do primeiro dia de filmagens.
       Comearam no dia 9 de Julho, e durante as duas primeiras semanas ela mal dormiu. Trabalhava com os professores at depois da meia-noite. Levantava-se todos 
os dias s quatro da manh. s cinco, o motorista levava-a para o estdio. William Holden e Henry Fonda tambm entravam no filme e Crystal ficou abismada quando 
os conheceu. Trataram-na com amabilidade e todos a respeitavam, mas ela nunca tinha tempo para fazer amigos. Trabalhava demasiado para poder perder tempo a falar 
e nunca ficava no estdio depois de as filmagens terminarem. Os professores at iam ao seu camarim durante a hora do almoo.
       Uma vez viu Clark Gable no estdio, de visita a um amigo, e achou que nunca vira ningum to bem-parecido. Falou disso a Ernie muito excitada, e ele riu-se:
       - Espera s uns meses. Nessa altura, ir dizer aos amigos que viu Crystal Wyatt!
       Ela sorriu. Ernie fazia-a sempre sentir-se to importante. Contudo, mal o via durante as filmagens. Andava muito ocupada e no tinha tempo para sair. Sentia-se 
uma reclusa. Estava no camarim, quatro dias mais tarde, a estudar o papel quando algum bateu  porta. Ouviu gritos excitados e abriu para ver o que se estaria a 
passar.
       - Acabou! Acabou!
       - O filme? - perguntou ela chocada, perguntando-se o que teria feito de errado. Mal tinham comeado, e aquele deveria durar mais do que os outros. Tinham-lhe 
dito que tencionavam continuar at ao fim de Setembro.
       - A guerra! - exclamou um dos tcnicos com as lgrimas nos olhos. Tinha l dois irmos. De repente Crystal percebeu e ficou sem flego. - A guerra da Coria 
chegou ao fim!
       Abraaram-se e os olhos dela tambm se encheram de lgrimas. Tentava esquec-lo h meses. E nunca respondera  carta que ele lhe enviara em Abril. Mas agora 
ele iria regressar a casa, tal como os outros. Spencer... o homem que ela trara quando fora viver para casa de Ernie... e agora ele iria regressar. Mas para quem? 
Ainda estava casado com Elizabeth. E a menos que Pearl lhe dissesse, no saberia onde a encontrar. Por um momento, enquanto via os outros a rir e a chorar, perguntou-se 
o que iria agora fazer.
       
Captulo 28
       
       Elizabeth encontrava-se atrs do porto, esforando-se por ver o rosto dele, enquanto era empurrada pela multido que viera receber os soldados. Spencer demorara 
trs semanas a ser libertado do servio militar; ela quisera ir ter com ele ao Japo, para da irem passar uns dias em Honolulu. Mas o Exrcito quisera que eles 
voassem at So Francisco, onde ele ficaria livre assim que pisasse terra firme. Os pais dela tambm l estavam, bem como os dele, juntamente com trezentas mulheres 
que tagarelavam ansiosas. Eram as felizardas. Havia inmeras outras que tinham ficado em casa a lamentar a morte dos maridos. Para elas, ningum regressava a casa. 
Mas Spencer sobrevivera. Fora ferido uma vez, contudo fora apenas um ferimento superficial, e ele estava de volta ao combate uma semana mais tarde. Fora uma guerra 
desagradvel, uma "ao policial" que custara muitas vidas, a segunda guerra em que ele combatera no espao de doze anos.
       Elizabeth tirara um ms de frias e iriam ao lago Tahoe com os pais dela. Os Barclay tambm tinham convidado os Hill mais velhos, embora Spencer ainda no 
o soubesse. E estava planeada uma enorme festa-surpresa para a casa de So Francisco.
       Quando Elizabeth o viu sair do avio, endireitou o chapu e ficou  espera, muito nervosa. J havia muito tempo que no o via, e agora tudo iria ser diferente. 
Os seus encontros no Hotel Imperial tinham acabado por se tornar inoportunos, porque ele estava sempre sob presso; agora Spencer regressava  vida real,  qual 
levaria algum tempo a acostumar-se. Praticamente no tinham vivido juntos antes da guerra, e j h trs anos que ele partira. Com vinte e quatro anos, Elizabeth 
tornara-se uma mulher independente e estava profundamente envolvida no mundo da poltica. Era recebida em todo o lado e conhecera pessoas muito interessantes em 
Washington durante a ausncia dele. Mas quando finalmente o viu, a ltima coisa em que pensava era na poltica. Ao olhar sobre a multido Spencer parecia muito alto 
e magro. Em seguida, caminhou na direo deles, conversando com alguns dos seus homens. Ainda no a vira. Ela viu-o apertar as mos aos soldados, que depois se dirigiram 
apressados para as mulheres, e ele continuou a avanar pela multido enquanto ela tentava aproximar-se dele. A Sra. Hill chorava ao ver o filho pela primeira vez 
em trs anos, mas ele ainda no sabia que eles l estavam. Os seus olhos pareciam tristes ao olhar para a multido e nos cabelos haviam aparecido fios grisalhos. 
Com trinta e quatro anos estava ainda mais bonito do que na noite em que Elizabeth o conhecera em casa dos pais. De repente, com um olhar de surpresa, ele viu o 
rosto dela sob o enorme chapu de palha, hesitou um momento, e depois largou o saco e correu na direo da mulher, puxando-a para os seus braos e levantando-a no 
ar com uma pirueta enquanto os pais se aproximavam. At o juiz Barclay tinha lgrimas nos olhos quando lhe apertou a mo e Priscilla chorava abertamente ao abra-lo.
       - E bom ter-te de volta so e salvo!
       - Obrigado. - Ele abraou-os e beijou-os e a me viu qualquer coisa nos olhos dele que l no estivera antes, e isso preocupou-a. Era o mesmo olhar de dor 
que ela conhecera quando o filho mais velho morrera. Parecia que Spencer tinha perdido algo na guerra: uma f, uma crena, uma certeza que tivera antes. Aquela fora 
uma guerra na qual ele no acreditara.
       Dirigiram-se  limusine que os aguardava e seguiram para a casa da Broadway, tagarelando, conversando, rindo e chorando. As duas mulheres mais velhas dirigiam 
uma  outra olhares de compreenso, acompanhados de sorrisos ternos. Eram mes e s vezes isso no era fcil. S Elizabeth parecia contente a segurar a mo do marido, 
que lhe passara um brao por cima dos ombros. Tinham-se visto diversas vezes no Japo, ao contrrio dos pais, que no o viam desde o incio da guerra, trs anos 
antes. Fora um longo perodo para todos eles, e Spencer denotava-o mais do que ningum. Inclinou a cabea para trs e fechou os olhos, falando com todos e ningum, 
enquanto Elizabeth tagarelava animadamente com a me.
       - Mal posso crer que estou em casa. - Ainda no estava, mas aquilo j era suficientemente perto. Regressara ao solo americano e tinha a mulher ao seu lado. 
Mas havia ainda uma coisa por resolver. Pensava nela desde que sara de So Francisco.
       - Bem-vindo a casa, filho - disse o pai, fazendo-lhe uma festa no brao. As lgrimas interromperam-no e Spencer inclinou-se para ele, apertando-lhe com fora 
a mo.
       - Gosto muito de si, pai. Cus, espero que este pas no se meta noutra guerra durante uns bons tempos. J tive a minha conta.
       - Espero que desta vez no tenhas continuado na reserva - brincou Elizabeth, dirigindo-lhe um sorriso.
       - Nem pensar - retorquiu ele com uma gargalhada. - Para a prxima vo ter de chamar outra pessoa. Vou ficar em casa a engordar, refastelado no sof, enquanto 
a minha mulher tem filhos. - Disse-o meio a brincar e tambm para ver como paravam as modas. Havia muitas coisas que desejava discutir com ela e essa era importante. 
Elizabeth no fez qualquer comentrio e sorriu, mas nada mudara quando fecharam a porta do quarto pouco depois de terem chegado  casa da Broadway. Ele atirou o 
uniforme para o cho, desejando v-lo queimado, e depois de uma ducha aproximou-se de Elizabeth com cautela. Decidira muita coisa enquanto estivera ausente, mas 
no tudo. Elizabeth era agora mais real para ele porque j h muito tempo que no tinha notcias de Crystal, que regressara aos seus sonhos. Embora sentisse a falta 
dela, ainda no decidira o que fazer quanto a Elizabeth e ao casamento. Ela mudara bastante em trs anos e havia muita coisa que ele desejava saber a seu respeito, 
em especial se desejava ou no ter filhos. Mas j h muito que Spencer decidira ser franco com ela. Queria saber exatamente quem ela era e o que desejava, e se isso 
no lhe servisse no iriam continuar casados. Tinha de lhe dar uma oportunidade, mas tambm se sentia com direito quilo que desejava, e no sabia bem se isso era 
Elizabeth Barclay. Vira morrer muitos homens, vira demasiado sofrimento para agora desperdiar a sua vida com a mulher errada. A vida era demasiado curta, e agora, 
com trinta e quatro anos, a sua j ia a meio. O sentido da vida era-lhe demasiado precioso para ser desperdiado com uma mulher com quem no desejava sequer estar. 
E ele tocou no assunto quando ela se sentou na banheira para um banho de espuma perfumada, antes de se vestirem para o jantar.
       Acabado de sair da ducha Spencer sentou-se com cuidado na beira da banheira, com uma toalha  cintura, sentindo-se pouco  vontade com ela. Estava mais bonito 
do que nunca. Tinha o corpo firme como o de um adolescente. Haviam sido tempos difceis para todos eles na Coria.
       - O que  que pensas a respeito de filhos? Ela olhou para cima com surpresa e sorriu.
       - Em geral, ou a respeito dos meus prprios filhos? O irmo e a cunhada, Sarah, tinham anunciado que no desejavam nenhum e ela no ficara chocada com aquela 
deciso.
       - Dos nossos. - Spencer no sorriu enquanto aguardava a resposta dela. Essa era outra das coisas por que ele no estava disposto a esperar.
       - No tenho pensado muito no assunto. No era uma das minhas prioridades contigo ausente. - Sorriu e moveu as pernas com graciosidade na gua coberta de espuma. 
- Por qu? Temos de resolver isso hoje? - Parecia aborrecida, e era estranho t-lo ali a olhar para ela na banheira.
       - Talvez. Acho que at o fato de termos de "resolver" j quer dizer alguma coisa, no te parece?
       - No, por acaso no. Creio que ningum se deve apressar a tomar uma deciso dessas.
       - Tal como o teu irmo e a Sarah? - Spencer apercebeu-se de que queria discutir com ela. Desejava tomar uma deciso, e rapidamente. Ter duas mulheres na cabea 
durante os ltimos anos quase dera com ele em doido.
       - Eles nada tm a ver com isto Spencer. Quero dizer, conosco. Tenho vinte e quatro anos, ainda no estou velha, e tenho um emprego muito importante em Washington. 
No vou p-lo em perigo por causa de um beb.
       Spencer ouvira a sua resposta. Mas ficara irritado com a forma como ela a dera.
       - Parece-me que as tuas prioridades esto erradas.
       - Tu vs as coisas de maneira diferente. Um filho para ti  s uma coisinha bonita que est em casa quando regressas do trabalho. Para mim,  um grande sacrifcio. 
 uma grande diferena.
       - Pois . - Ele levantou-se, ajustou a toalha em torno da cintura, e ela sorriu, achando-o ridculo com a toalha cor-de-rosa. - Mas no deveria ser um sacrifcio, 
Elizabeth. Deveria ser uma coisa que ambos desejssemos.
       - Bem, no desejamos. Tu, sim, e talvez eu um dia tambm a deseje, mas no agora, no  a altura apropriada. O meu trabalho  demasiado importante.
       Ele j estava farto de ouvir falar naquilo, e ela sabia bem o quanto ele odiava McCarthy.
       - O trabalho  assim to importante para ti? - Mas j sabia que o era. Ela s falara a respeito disso em Tquio, quando se tinham encontrado.
       - Sim - respondeu ela, olhando-o bem nos olhos. No tinha medo de ser franca com ele, nunca tivera. - Este trabalho  muito importante para mim, Spencer.
       - Por qu?
       - Porque me faz sentir independente. - Era algo que ele no desejava numa esposa, e no entanto... havia algo nela. .. ainda no se habituara a viver com Elizabeth. 
Depois do casamento s tinham estado juntos duas semanas antes de ele partir, mas havia nela um certo desafio, que o fez querer conquist-la, contudo no seu ntimo 
sabia que Elizabeth nunca seria conquistada. - Pedi uma licena para vir at aqui encontrar-me contigo, mas vou regressar ao trabalho assim que regressarmos a casa. 
Espero que saibas isso.
       - E sei, no sei? - Acendeu um cigarro enquanto ela o observava. A guerra fora dura para ele e para muitos outros. Conseguira sair bem dela depois de um perodo 
bastante difcil em que deixara de escrever a Crystal. Mas havia coisas que ele nunca esqueceria, tal como aquele homem que morrera nos seus braos, em vo, tudo 
por uma guerra que afinal nem era a deles. Sofrera muito, e era difcil agora regressar a casa e esquecer tudo. - E onde  a nossa casa, a propsito? Presumo que 
tenhamos abandonado Nova Iorque. E como  que eu fico? Desempregado, calculo.
       - Tambm no gostavas muito do teu emprego - retorquiu ela com um ar frio. Era um adversrio de valor. - Disseste-mo em Tquio.
       - Talvez. Mas seria agradvel ganhar para viver. No sou to "independente", chamemos-lhe assim, como tu. Preciso de um emprego, Elizabeth.
       - Tenho a certeza que o meu pai ter todo o prazer em apresentar-te a quem quiseres. E tenho algumas idias sobre esse assunto, tal como algo no Governo. 
Seria muito adequado para ti.
       - Sou democrata. Isso agora no est muito na moda.
       - O meu pai tambm , e eu tambm. Em Washington h espao para todos. A questo  essa. Estamos numa democracia, no numa ditadura, por amor de Deus!
       Aquilo era ridculo. Ele estava em casa h quatro horas e j estavam a discutir sobre poltica e sobre o trabalho dela, quando tudo o que ele queria era sentir-se 
de novo confortvel e bem instalado junto da mulher que amava e que o amava. Mas no era nada confortvel estar ali. Spencer no tinha casa nem emprego, e de repente 
sentiu-se perdido sem o Exrcito. At isso o deixou confuso; desejara apenas regressar a casa e agora que j ali estava, sentia-se infeliz.
       Vestiu-se, desceu e duas horas mais tarde ficou perplexo. Tinham sido convidadas para jantar duzentas pessoas que ele no conhecia. Era uma festa-surpresa, 
e o pai apercebeu-se de que ele ainda no estava preparado para ela. Passara rapidamente de Seul para So Francisco e era necessrio um maior ajustamento. Nessa 
noite Spencer teve dificuldade em adormecer, e saiu para a rua. Caminhou quilmetros enquanto ouvia as sirenas do nevoeiro, dando consigo em North Beach. Mas de 
cada vez que ouvia um rudo, dava um salto, receando um atirador furtivo.
       Estava  porta da casa da Sra. Castagna, olhando para as janelas, o corao a bater furiosamente. Era por aquele momento que sonhava regressar a casa. As 
janelas estavam todas s escuras. Teve vontade de entrar por uma e surpreend-la. Mas tornou a perguntar-se por que motivo no teria ela respondido s suas cartas.
       Tentou abrir a porta com uma mo trmula, mas aquela encontrava-se trancada, pelo que tocou  campainha. Durante algum tempo, ningum respondeu; finalmente 
apareceu uma mulher com ar ensonado, embrulhada num roupo.
       - Sim? O que deseja? - Falou atravs da porta, e ele conseguiu v-la plos vidros. Era de meia-idade e pouco atraente.
       - Desejava ver Miss Wyatt. - Vinha de uniforme, e era evidente que se tratava de um soldado.
       A mulher ficou pensativa durante algum tempo e depois abanou a cabea. Achava que j conhecia toda a gente, mas depois lembrou-se.
       - J c no mora.
       - Claro que mora - insistiu Spencer, apercebendo-se depois de que ela poderia ter-se mudado. Ficou assustado ao ver que no sabia onde ela estava agora. - 
Ela vivia no quarto do canto l em cima - esclareceu ele, apontando. Mas isso fora h trs anos. Talvez fosse por isso que no respondera s suas cartas.
       - Ela foi-se embora antes de a minha me morrer. O corao de Spencer quase parou. A Sra. Castagna tambm partira. Tudo tinha mudado. Esperara tanto por aquele 
momento e agora ela partira, bem como tudo o que ele conhecia.
       - Sabe para onde se mudou?
       Ainda estavam a falar atravs da porta e a mulher no a abriu. Era j muito tarde, e no o conhecia. Era uma das filhas solteiras da Sra. Castagna e tomava 
agora conta da casa, com austeridade e muita cautela. Subira o preo das rendas e estava a pensar em vender a casa. Ela e os irmos tinham decidido que era prefervel 
ficarem com o dinheiro.
       - No sei para onde  que ela foi nem nunca a conheci.
       - Por acaso no deixou um endereo?
       A mulher abanou a cabea e acenou-lhe com a mo, desejando que ele se fosse embora para poder regressar ao seu apartamento.
       Spencer desceu as escadas e tornou a olhar para as janelas escuras. Ela partira, e no fazia idia de onde a encontrar.
       Depois foi at ao Harry's, certo de que a encontraria l, e o estabelecimento estava a fechar quando chegou. O chefe de mesa tinha tirado o casaco e havia 
dois homens a esfregar o cho. As cadeiras estavam em cima das mesas.
       - Desculpe, sir, j fechamos. - Ficou aborrecido ao ver Spencer entrar. As portas j deviam estar trancadas, mas era evidente que algum se esquecera de o 
fazer e as deixara abertas.
       - Eu sei... desculpe... a Crystal est c? - Sentiu medo ao fazer a pergunta. E se no estivesse? E se lhe tivesse acontecido alguma coisa? Durante aqueles 
anos ele estivera preocupado consigo prprio e com as misrias da sua existncia. Desiludira-a. S Deus sabia o que lhe acontecera.
       O chefe de mesa abanou a cabea, ansioso para que Spencer se fosse embora.
       - Ela mudou-se para Los Angeles. Mas temos uma mida tima a substitu-la. Volte amanh  noite. - Mas a outra "mida" era a nica que ele amava e cuja recordao 
o ajudara a sobreviver na guerra.
       - Sou um velho amigo. Acabei de regressar de Seul... Sabe por acaso onde  que ela est instalada em Los Angeles?
       - Talvez ela tivesse mesmo ido para Hollywood. A idia excitou-o, mas estava desejoso de a encontrar. Tinham muito sobre que conversar, muito para dizer, 
e ele devia-lhe uma explicao pelo longo silncio. Mas o homem limitou-se a abanar a cabea, com um ar pouco interessado e compreensivo. Nada tinha a ver com soldados 
regressados da Coria.
       - No. O Harry deve saber. Foi de frias durante duas semanas. Telefone quando ele regressar.
       - E a... - Tentou lembrar-se do nome e conseguiu, aliviado. Que noite mais infeliz! - A Pearl... ela est c?
       - Volta amanh s quatro. Pode telefonar-lhe a partir dessa hora. Oua, amigo, tenho de fechar. Telefone amanh.
       - Depois acrescentou: - Constou-me que ela agora anda a fazer filmes. A Crystal, quero eu dizer.  pena que no cante. Era a melhor.
       Sorriu, tentando mostrar-se amvel enquanto acompanhava Spencer  porta, e este assentiu. Momentos depois encontrava-se l fora, continuando sem fazer a mais 
pequena idia do paradeiro de Crystal. Ela partira para Hollywood, tal como sempre sonhara. E agora tinha de enfrentar Elizabeth sozinho e decidir o que fazer com 
o casamento. Talvez fosse melhor assim. Talvez fosse melhor tomar a deciso de uma vez por todas antes de ver Crystal: depois iria ter com ela para comear do zero. 
Pensar nisso f-lo arrastar-se at  casa da Broadway. E quando entrou no quarto, Elizabeth dormia profundamente. No fazia idia de que ele sara. Tinha um ar to 
tranqilo ali deitada, pensou, observando-a  luz da casa de banho. Perguntou-se com o que estaria ela a sonhar, se  que sonhava. Era to terra-a-terra, to prtica. 
At o seu regresso fora tratado como um acontecimento social, algo a ser organizado e planeado. No havia ternura, carcias ou mos dadas. No fizera amor com ela 
desde que regressara, e a verdade  que nem sequer lhe apetecia.
       Entrou na cama e apagou a luz, ficando a ouvir a respirao dela. Depois virou-se e olhou para Elizabeth no escuro, acariciando-lhe o cabelo e pensando que 
ela merecia mais do que aquilo que ele lhe dera. Ela abriu um olho, sentindo a presena dele, mas estava meio a dormir.
       - Ests acordado? - Levantou a cabea, tentando ver as horas, mas estava demasiado sonolenta para se concentrar.
       - Que horas so? - murmurou.
       -  tarde... dorme... - sussurrou Spencer, e ela virou-se, de costas para ele, acenando.
       - Boa noite, Elizabeth. - Queria dizer-lhe que a amava, mas foi incapaz de proferir aquelas palavras. S conseguia pensar que Crystal estava em Hollywood 
e que ainda no sabia onde a encontrar. Iria telefonar a Pearl no dia seguinte para o restaurante, e rezou para que ela soubesse. No entanto, decidira no contatar 
com Crystal at ter resolvido o que fazer com a sua vida. Isso no demoraria muito, e era mais justo para com ela. Mas desejava ardentemente tornar a v-la. Fora 
um regresso bastante solitrio, um dia h muito esperado que finalmente chegara. Agora que regressara, s sabia que se sentia um estranho.
       Quando adormeceu j era madrugada, e sonhou com armas a disparar ao longe... havia algum a falar-lhe durante os tiros... algum que murmurava, dizendo algo 
que ele no conseguia ouvir por causa dos disparos... mas quando se -esforou mais, chorando no sono... teve a certeza de que era a voz de Crystal.
       
Captulo 29
       
       Spencer descobriu no dia seguinte que j tinham feito planos para ele. Iriam para o lago Tahoe durante trs semanas, os pais estariam l nas primeiras duas, 
e os Barclay iriam organizar vrios jantares para o entreter.
       - E melhor comprares umas roupas antes de ires para o lago - aconselhou Elizabeth. Ele s tinha os uniformes, as botas e as placas de identificao, pouco 
adequadas para o estilo de vida no lago Tahoe. Ela acompanhou-o e ele sentiu-se de novo uma criana quando ela o ajudou na escolha e insistiu em meter tudo na conta 
do pai. Spencer tomou nota da importncia e garantiu ao juiz Barclay que assim que chegasse a casa e reabrisse a sua conta bancria lhe enviaria um cheque. Permitira 
que Elizabeth fechasse a conta em Nova Iorque quando desistira do apartamento e se mudara para Georgetown.
       - No te preocupes com isso, filho - retorquiu o juiz Barclay com uma gargalhada. - Eu sei onde encontrar-te!
       Tudo era to fcil e preparado! Foram todos juntos para o lago, Elizabeth na carrinha com Spencer e os dois casais mais velhos na limusine. Pararam para almoar 
em Sacramento e da seguiram para o lago, onde tudo fora excelentemente organizado. Houve quase todos os dias convidados para o almoo, um jantar para cinqenta 
pessoas, iam nadar na parte da tarde e s dez dias mais tarde  que ele teve oportunidade de ir pescar com o pai. Estava sentado na borda do barco a motor a olhar 
para a gua e William Hill olhou para ele com tristeza.
       - Ests a ter algumas dificuldades em te readaptares? Spencer suspirou. Era um alvio estar sozinho. Havia uma enorme tenso entre ele e Elizabeth, e embora 
os Barclay o tratassem com extrema amabilidade, j estava saturado deles.
       - Sim, estou. - Dirigiu um olhar franco ao pai e anuiu. - Nunca julguei que as coisas fossem assim depois do meu regresso.
       - O que  que esperavas que fosse diferente? - Era um homem sbio com um corao bondoso e desejava ajud-lo. Detestava v-lo infeliz.
       - No sei, pai... No tenho nenhum stio a que possa chamar meu. Estive no pas de outros durante trs anos, e agora estou na casa de outros, a fazer o que 
os outros querem... sou demasiado velho para isto. Quero ir para casa, e nem sequer tenho uma.
       -  claro que tens. Uma casa maravilhosa que eu e a tua me visitamos no Natal.
       - Ainda bem para vocs. Vivo numa casa que nunca vi, com moblia que no comprei, numa cidade que mal conheo. - Pintara um quadro to negro e estava com 
tanta pena de si prprio que o pai foi obrigado a rir-se.
       - No  to mau como pensas. Concede a ti prprio uma oportunidade. Ainda nem h duas semanas que voltaste!
       Spencer passou a mo pelo cabelo e o pai sorriu ao ver aquele gesto familiar. Era to bom t-lo de volta, vivo e de sade: no estava preocupado com as reaes 
do filho. A seu ver eram normais. Ele e Alicia tinham falado sobre o assunto na noite anterior e ela sugerira que ele falasse com Spencer.
       - No sei, pai. - Pensou em falar-lhe do caso que tivera com Crystal antes de partir, mas no se atreveu. Ela era sua, e o que sentia por ela era uma coisa 
muito ntima. Pelo menos agora sabia onde ela estava. Pearl dera-lhe o nmero do telefone dela em Los Angeles e ele agarrou-se quele pedao de papel como se a sua 
vida dependesse dele. Pegara vrias vezes no telefone durante as ltimas duas semanas, mas obrigara-se a no lhe ligar. Era demasiado cedo. Ainda no se instalara, 
e sabia que tinha de o fazer primeiro. Mas Elizabeth agia como se tudo estivesse bem e isso tornava as coisas ainda mais difceis.
       Como que pressentindo que ainda havia mais qualquer coisa, William Hill decidiu fazer ao filho uma pergunta delicada.
       - Ainda ests apaixonado pela Elizabeth, no ests? - Ela era um partido to bom que ele detestaria ver aquele casamento destrudo s porque Spencer se sentia 
nervoso e impaciente. Mas o filho no lhe respondeu durante um longo momento.
       - J no tenho a certeza de nada. Nem sequer sei se a conheo.
       - Estiveste ausente muito tempo, filho. Na tua idade, e at na minha, trs anos so uma eternidade.
       - Quero ter filhos. Ela, no. Isso  bsico, pai.
       - Ela ainda  muito jovem. D-lhe tambm uma oportunidade. Vai para casa, instala-te, voltem a habituar-se um ao outro e depois tenta esclarecer as coisas. 
Ela ir ceder. Teve de viver sozinha durante os ltimos trs anos e  uma grande mudana ter-te de novo por perto.
       Mas Spencer parecia desgostoso.
       - Ela nunca est sozinha. Sempre teve o pai. Ele at pagava a minha roupa interior se eu deixasse. -Referia-se s recentes compras que fizera na cidade, e 
o pai dele riu-se.
       - Na vida h problemas maiores do que esse, Spencer. Querem ambos ver-te feliz.
       - Eu sei... lamento... devo parecer um ingrato. Mas estou to confuso! - Tornou a olhar para o lago e depois para o pai. Desta vez falou em voz mais baixa, 
e havia nos seus olhos algo distante e triste que preocupava o pai desde que Spencer regressara. - Havia outra pessoa antes de eu me ir embora, pai... Uma pessoa 
que conheo h muitos anos. - No lhe disse que ela tinha catorze anos quando a conhecera.
       William Hill parecia triste quando olhou para o filho.
       - Foi uma coisa sria?
       - Sim - respondeu Spencer sem hesitao. - Muito. Elas so muito diferentes... to diferentes como duas mulheres podem ser...
       - J a viste desde que regressaste? Spencer abanou a cabea, mas tencionava faz-lo. Era para isso que vivia.
       - Ento no o faas. S vais complicar ainda mais as coisas. Ests casado com uma rapariga encantadora, tenta agentar o casamento. Acaba o que comeaste.
       - A vida no tem mais nada? - Os seus cabelos brancos brilharam ao sol e William Hill ficou surpreendido ao v-los.
       - s vezes, no. s vezes, o casamento  apenas segurar as pontas, quer se queira quer no.
       - No parece muito divertido.
       - s vezes no . - Estendeu a mo e segurou a do filho. - Aceita o conselho de um velho, Spencer, no compliques a tua vida. Seria um enorme erro. Fica com 
a Elizabeth. Ela  boa rapariga, e casaste com ela. Deves-lhe algo depois de ter esperado por ti todos estes anos. - Ele tambm o sabia. Fora por isso que regressara 
para junto dela, depois de trs anos passados a sonhar com Crystal.
       Nessa altura, o anzol do pai foi mordido por um peixe e estiveram ambos entretidos durante algum tempo. Depois, o pai olhou para Spencer, sensibilizado por 
este ter confiado nele. S esperava t-lo encaminhado na direo certa.
       - Pensa bem no assunto e s paciente durante algum tempo. Tudo se h-de resolver. Nunca te perdoarias se a desiludisses agora. Pensa tambm nisso. No deves 
nada  outra rapariga. Casaste com a Elizabeth. E agora tens de ficar junto dela.
       Tudo fazia sentido, mas ele estava bastante deprimido quando ligou o motor e encaminhou o barco at  doca.
       - Obrigado, pai. - Olhou-o durante algum tempo antes de entrarem em casa, e sentiu pela primeira vez que o pai o amava por aquilo que ele era e no como um 
substituto de Robert.
       - Apanharam alguma coisa? - perguntou Elizabeth, muito animada quando eles regressaram. Adorava estar ali, a rever os velhos amigos e gostava tambm de todas 
as atenes que eram dirigidas a Spencer.
       - Um par de sapatos velhos - respondeu ele com um sorriso. Estava com melhor aspecto do que nos ltimos dias. A conversa com o pai aliviara-o bastante. - 
Trs peixes...
       - Inclinou-se sobre Elizabeth e ela fingiu tapar o nariz. - .. E um beijo para a minha mulher. - Mas pelo menos ela deixou que ele a beijasse. Depois disso 
foram para dentro, e Elizabeth limou as unhas enquanto ele tomava ducha. Falou-lhe da festa a que iriam nessa noite e ele olhou-a pensativo.
       - Fiquemos em casa esta noite.
       - No podemos, querido. Esto a contar conosco. E so amigos do meu pai.
       - Diz-lhes que ests com dor de cabea ou que os meus ferimentos de guerra esto a doer. - Sorriu-lhe como um garoto, queria passar uma noite sozinho com 
ela. Ainda no haviam tido um momento de privacidade desde que ele voltara, mas ela no parecia importar-se.
       - Amanh. Prometo. - Mas na noite seguinte o irmo chegou e ela disse que seria uma falta de educao no sarem com eles. E na noite seguinte foram a uma 
festa de cerimnia. Era como se estivesse numa priso, a beber champanhe em vez de gua. Mas sentia-se sozinho na companhia dela e sempre rodeado de pessoas. Tentou 
explicar-lhe isso quando se achavam uma tarde deitados na praia, mas ela retorquiu que ele estava a ser tolo. - Como  que te podes sentir sozinho com todas estas 
pessoas agradveis  volta?
       - Porque ainda no estou preparado para isso. Quero estar sozinho contigo, apenas a falar, para nos conhecermos melhor de novo. - Mas ela recusou-se a compreender 
isso. E de um momento para outro, ele soube o que devia fazer. Decidira ir a Los Angeles no fim-de-semana. J sabia o que iria dizer a Crystal. Tomara uma deciso. 
E quando regressasse diria a Elizabeth que queria o divrcio. Depois de se irem embora da casa do lago. No queria causar uma cena com os pais de ambos ali.
       - Mas os meus pais convidaram pessoas para te verem! - Elizabeth ficou furiosa. Tinham convidados quase todas as noites.
       - Lamento. No posso evitar. Tenho de tratar de uns assuntos em Los Angeles. - Falava com uma voz muito calma. Agora sabia o que iria fazer.
       - O que ? - perguntou ela, olhando-o desconfiada. Spencer nem sequer tinha emprego...
       - Uns investimentos que fiz quando terminei a faculdade.
       - No podem esperar?
       - No, nem mais um minuto. Isto  importante, Elizabeth. Tenho de ir. - No telefonou a Crystal antes de partir. Ligar-lhe-ia de l para fazer uma surpresa.
       Elizabeth ainda estava de mau humor e ficou a almoar com os pais quando Spencer partiu, deixando depois o carro em casa e apanhando u txi para o aeroporto. 
Era um vo de duas horas, e quando l chegou o tempo estava muito abafado. Era final de Agosto. Apanhou um txi para a cidade e instalou-se no Hotel Beverly Hills 
com o dinheiro que pedira emprestado ao pai. E assim que entrou no quarto, marcou o nmero que lhe tinham dado no Harry's. Foi atendido por uma criada que disse 
qualquer coisa como "Salvatore", fazendo-o sorrir. Ela alugava sempre quartos em casa de italianos. Perguntou por Crystal Wyatt e foi-lhe dito que ela estava a trabalhar. 
Pearl contara-lhe que Crystal estava a rodar outro filme. Sentiu-se feliz por ela, e tambm um novo homem ao perguntar onde a poderia encontrar. Achara de repente 
o rumo da sua vida. Estava de novo em paz e era senhor do seu destino. Pelo menos sabia que tomara a deciso certa.
       - Na MGM - respondeu a mulher, dando-lhe o nmero do estdio com toda a inocncia. Ele assentou-o e apressou-se a sair do hotel, dando a um taxista o endereo 
que procurara na lista telefnica. O estdio cava longe do hotel, e Spencer sentiu o corao aos pulos perante a perspectiva de a tornar a ver. Nunca sentira aquilo 
por ningum, s por Crystal. Sabia que lhe devia muitas explicaes e pedidos de desculpa por ter agido como um louco; que lhe devia muitas coisas, mas agora tinha 
o resto da vida para a compensar. E sorriu no banco do txi, pensando nela e no futuro de ambos.
       A entrada da MGM infundia respeito, e ele olhou em volta como um turista enquanto se dirigiam para o parque de estacionamento, depois de terem sido interpelados 
por um segurana. Disse-lhe que desejava ver Crystal Wyatt e qual o filme que se encontrava a rodar. O segurana respondeu-lhe que era um estdio fechado e que precisaria 
de um passe para poder entrar. Mas quando Spencer lhe disse onde estivera e durante quanto tempo, o segurana hesitou e olhou por cima do ombro. O seu filho morrera 
na guerra e ele faria qualquer coisa por um soldado.
       - No diga a ningum que o deixei entrar - disse ele, fazendo-lhe sinal para que entrassem, e Spencer agradeceu-lhe. O taxista dirigiu-se para o estdio indicado 
pelo guarda enquanto dezenas de atores passeavam por ali em roupas espetaculares. Havia cowboys e ndios, grupos de prisioneiros acorrentados e belas raparigas em 
fatos de banho e vestidos justos. Era um mundo muito diferente do Harry's em So Francisco. Quando pagou ao taxista, ficou um bocado a olhar em volta e depois dirigiu-se 
com cautela para o edifcio. Este era enorme, quase como um hangar de avies, e  distncia viu pessoas aglomeradas sob as luzes fortes, um homem que lhes gritava 
enquanto tudo o resto permanecia em silncio. Spencer ficou imvel, e quando dez minutos mais tarde fizeram um intervalo, ele aproximou-se mais. Ento, como num 
sonho, viu-a, de costas, mas mesmo  distncia soube instintivamente que se tratava de Crystal. Lutou contra a vontade de correr e de a abraar e aproximou-se devagar, 
sem querer perturbar ningum, e ento, como se o pressentisse, ela virou-se e ficaram ambos imveis. Crystal continuava a mesma, s que mais bonita do que trs anos 
antes. A criana desaparecera por fim, revelando aquela mulher magnfica. Tinha o cabelo preso num n, muito bem penteado, e envergava um vestido sem alas branco 
e sapatos brancos de cetim, cobertos de brilhantes. Parecia sada de um conto de fadas. Os seus olhos encheram-se de lgrimas, toldando-lhe a viso, e avanou devagar 
na direo dele. No falou, limitou-se a olh-lo, como uma mulher num sonho, e pouco depois estava nos braos dele e beijava-o. Ele julgou que o seu corao iria 
rebentar. Nunca a amara tanto como naquele momento. Sobrevivera  guerra apenas para regressar para ela, para a abraar de novo. Fora s isso que procurara em So 
Francisco e no encontrara. Mas encontrava-o ali, tal como sabia, com Crystal.
       - Oh, meu Deus... no fazes idia das saudades que tive de ti... - Enquanto a abraava recordou toda a angstia que sentira, a solido, a infelicidade, e 
as lgrimas rolaram plos rostos de ambos. Crystal sabia o que tinha feito e isso atormentava-a. Dissera a si prpria que ele no iria voltar, mas ele voltara. Estava 
de novo ali. E ela vivia com Ernie Salvatore. Mas agora no conseguia pensar em Ernie. No conseguia pensar em ningum. S em Spencer, que a apertava e a beijava, 
enquanto ela tocava no seu rosto com lbios famintos e dedos gentis. - Oh, querida, amo-te... - Nessa altura afastou-se um pouco e sorriu. - Ests to bonita! - 
Sorriu-lhe como um pai orgulhoso. - J s uma estrela de cinema?
       Ela ficou atrapalhada e beijou-o de novo.
       - Ainda no, mas j estou perto. Este filme  excelente. - Disse-lhe com quem contracenava e Spencer ficou impressionado. Ela acabara mesmo por conseguir 
enquanto ele estivera fora. Fora para Hollywood e j fazia filmes. Crystal tocou com um dedo nos lbios e murmurou: - Vo recomear as filmagens. Vem at ao meu 
camarim. - Ele seguiu-a em bicos de ps at ao aposento onde ela se vestia, comia e estudava durante horas. Era pequeno, limpo e estava arrumado e encontrava-se 
l uma mulher a preparar a roupa para a prxima cena. Crystal sorriu, dispensou-a e depois virou-se para Spencer: - Estou livre durante mais uma hora. - Os seus 
olhos observaram o rosto dele, desejando saber por que motivo ele viera, onde estivera, quando chegara e se ainda estava casado. - Isto estar mesmo a acontecer? 
s mesmo tu? - Olhou-o e recordou os meses sem fim do seu silncio. E quando se sentaram, de mos dadas, ele tentou explicar-lhe tudo, a solido, a dor e a sua confuso, 
o desespero por se encontrar l, a sensao de que j nada importava exceto o sofrimento constante e a destruio que presenciava.
       - Era como se as coisas de caj no fossem reais... nem sequer tu, durante algum tempo, acho eu. No conseguia falar com ningum. E as cartas que me enviavam 
pioravam ainda mais as coisas. Tentavam fazer com que tudo aqui parecesse normal e feliz, o que criava um contraste ainda mais brutal entre a vossa vida c e a minha 
l. Acho que alguns dos homens mais velhos tambm sentiram o mesmo. Falamos bastante do assunto quando vnhamos no avio. At essa altura ningum quisera falar nisso. 
Ningum desejava admitir como tudo fora mau; se o tivssemos feito talvez no consegussemos suportar o que suportamos. - Ele nunca se sentira to vazio, to sem 
esperana e infeliz. - J acabou tudo, creio eu... mas  difcil esquec-lo. - Olhava-a com tristeza ao dizer aquelas palavras.
       - Julguei que decidiras terminar tudo entre ns. - Crystal falava em voz baixa e triste; o ter julgado isso mudara a sua vida. Levara-a para Hollywood e empurrara-a 
para uma vida com Ernie. Achara que nada tinha a perder e ele fora muito bom para ela. Fizera muito para a ajudar e ela sentia que lhe devia bastante. Alm disso, 
Ernie tornara as coisas muito fceis.
       Spencer pareceu chocado com aquelas palavras.
       - No teria feito uma coisa dessas sem falar contigo. Nessa altura no sabia o que fazer... continuava a receber cartas da Elizabeth, que me faziam sentir 
muito culpado. Ela estava  espera que eu regressasse para junto dela, que tudo continuasse como dantes, mas eu sabia que no podia fazer isso. Encontramo-nos algumas 
vezes em Tquio e at isso tornava as coisas mais difceis quando eu voltava. Era como passar um fim-de-semana com uma estranha. As coisas agora tambm esto assim. 
Regressei h duas semanas e j estou a dar em doido. - Olhou-a muito srio, e Crystal desviou o olhar. Agora era ela quem se sentia culpada. Era ela quem estava 
em dvida para com Ernie. - Procurei-te na noite em que regressei - prosseguiu ele. - Fui a casa da senhora Castagna, mas a mulher que l estava disse que j partiras 
e depois fui ao Harry's, mas j havia fechado... - Tinha um ar to desesperado como aquele que tivera na altura. No ficou surpreendida por as coisas terem mudado 
em casa da Sra. Castagna. A sua ltima carta, h j vrios meses, fora respondida por um postal enviado pelo filho, dizendo-lhe que a me falecera, e Crystal ficara 
muito triste com a notcia. Gostava muito da velha senhora. - Por fim, a Pearl deu-me o teu nmero e liguei esta manh. A tua senhoria disse-me onde estavas e agora 
aqui estamos. - Sorriu, parecendo um rapazinho no Natal, e Crystal no lhe disse que quem o atendera no era a sua senhoria, mas a sua criada, ou, para ser mais 
precisa, a criada de Ernie.
       - O que vais fazer a respeito da Elizabeth? - perguntou ela com o corao aos pulos, enquanto parte de si rezava para que ele no tivesse decidido divorciar-se. 
Isso tornaria as coisas mais fceis para si, pelo menos por enquanto. No podia abandonar Ernie sem mais nem menos, no depois de ele lhe ter arranjado trabalho no 
cinema e depois de tudo o resto que fizera por ela. Mas tal como Spencer em relao a Elizabeth, ela no o amava.
       Spencer parecia calmo quando lhe respondeu. Pensara bastante no assunto durante o vo da manh. Iria propor-lhe o divrcio assim que chegassem a Washington. 
Depois pegaria nas suas coisas, no que restava delas, e apanharia o primeiro avio para a Califrnia. No tinha emprego. Poderia procurar um em Los Angeles to facilmente 
como em Washington ou em Nova Iorque. Um advogado conseguia emprego em qualquer lado. E depois, assim que estivesse empregado, e obtido o divrcio, casaria com Crystal, 
se ela quisesse. Era tudo incrivelmente simples.
       Sorriu para ela nessa altura. Estava demasiado feliz at para se sentir culpado.
       - Vou divorciar-me da Elizabeth. Creio que j lho devia ter dito h muito tempo. Acho que sabia isso antes de me ter ido embora h trs anos, mas parecia-me 
que no era correto. Tnhamos acabado de casar. No sei. Fui um idiota por no o ter feito na altura. No posso continuar com esta charada durante muito mais tempo. 
E horrvel fazer isto depois de ela ter esperado todos estes anos - comentou ele, lembrando-se do que o pai lhe dissera no lago -, mas nem sequer sei se ela se importa. 
S pensa no trabalho e nas malditas festas. - Havia mais do que isso, mas no muito, por aquilo que ele vira desde que regressara da Coria. - Ela est agora na 
casa do lago, e daqui a uns dias regressamos a Nova Iorque. - Olhou bem para os olhos de Crystal. - Est quase terminado. Posso estar de volta daqui a uma ou duas 
semanas, e, assim que arranjar emprego, entro com o pedido de divrcio e depois disso podemos casar-nos... - Estava certo de que Elizabeth seria razovel e aceitaria 
divorciar-se. Mas, de repente, ficou preocupado. E se as coisas tivessem mudado para Crystal? Embora depois do beijo que ela lhe dera no achasse isso. Mas acrescentou 
por precauo: - ... Isto se ainda me quiseres. - E se Elizabeth se quiser divorciar. Mas estava certo de que ela no recusaria depois de lhe dizer o que achava 
do casamento.
       Crystal olhou-o durante bastante tempo, depois os seus olhos encheram-se de lgrimas e nada disse. Era isto que ela desejara anos antes, aquilo com que ela 
sonhara enquanto ele estivera ausente, e j perdera a esperana de o ouvir. Pensara que ele escolhera Elizabeth e nem sequer se dera ao trabalho de lhe dizer.
       - Ento? - perguntou ele, vendo as lgrimas a correr-lhe pelo rosto, sem saber se eram de alegria ou de desiluso. Tomou-a nos braos e apertou-a, enquanto 
ela chorava, e sorriu, olhando sobre o ombro dela. - No chores, querida. As coisas no vo ser assim to ms. Prometo-te. Vou olhar por ti... juro que vou. - Era 
s o que queria. Afastou-a um pouco e olhou-a enquanto ela abanava a cabea. Havia muitas coisas que ela ainda no lhe dissera.
       - Talvez agora j no me queiras. - Tinha de lhe falar de Ernie.
       - No vejo por qu. A menos que te tenhas casado enquanto estive fora - disse ele com um sorriso, certo de que no era esse o caso -, mas at isso pode ser 
resolvido. Podemos ir at Reno daqui a seis semanas e casar, se estiveres casada. - Estava a brincar, mas ela olhava-o como se tivesse o corao destroado. A realidade 
era pior. Ele ia finalmente libertar-se e ela estava presa a Ernie. Mas se ele lhe tivesse escrito... se mantivessem o contacto... se ele desse uma explicao... 
E depois ela lembrou-se da carta a que no respondera. Julgara que era demasiado tarde e no queria atormentar-se ou continuar a iludi-lo. A situao arrastara-se 
durante bastante tempo e ela pensara que quando ele escrevia a dizer que se encontrava com Elizabeth em Tquio j tivesse decidido continuar com o casamento.
       - Spencer... - Crystal lutou por encontrar palavras para lhe explicar, mas sabia que no iria ser fcil. - Estou a viver com uma pessoa. Com o meu empresrio, 
para ser mais especfica...  uma histria muito comprida... e no sei o que te dizer.
       Spencer ficou a olhar para ela com um ar infeliz, querendo ouvir, mas no era daquilo que estava  espera. No sabia o que iria encontrar. Talvez encontrasse 
raiva, ou indiferena ou mudana. Mas no esperava encontr-la ainda apaixonada por si e a viver com outra pessoa. E aquilo no lhe agradou.
       - Quando vim para Hollywood, fui-lhe apresentada por dois agentes. Disseram-me que ele era o melhor da cidade, e num pice ele conseguiu-me um papel num filme. 
Alis, comecei a trabalhar na semana a seguir a c ter chegado. Ele fez tudo por mim, comprou-me roupas, instalou-me num hotel, e pagou-o... - No lhe falou de Malibu 
nem da pulseira de diamantes. - Assinei um contrato com ele, e ele faz tudo por mim Spencer. Devo-lhe muito... no posso abandon-lo assim... no seria justo...
       Aquilo soava a escravido e Spencer mal podia acreditar no que estava a ouvir.
       - Ests apaixonada por ele?
       Ela abanou a cabea com um ar muito infeliz:
       - No, no estou. E falei-lhe em ti logo no princpio. Mas disse-lhe que acabara tudo entre ns. Era isso que eu achava na altura. J no recebia notcias 
tuas h meses e pensei que tinhas decidido ficar com a Elizabeth... - A voz de Crystal fraquejou e comeou de novo a chorar.
       Spencer ps-se a andar de um lado para o outro com um ar furioso.
       - Estava preocupado em sobreviver, se  que isso te interessa. - Olhou-a cheio de frustrao. Durante todo aquele tempo andara a rastejar pelo cho, cheio 
de gangrenas provocadas pelo frio, vivendo em valas plos campos da Coria e ela achara que ele no a amava.
       - Desculpa... estiveste ausente durante tanto tempo... e... as coisas aqui eram to diferentes! Quis tanto ter xito em Hollywood! - Aquilo era verdade, mas 
isso no facilitava as coisas para Spencer, que no estava a gostar nada do que ouvia.
       - Tanto que tiveste de vender o corpo juntamente com o resto?
       - Olha l, raios! - exclamou ela, levantando-se, repentinamente to furiosa como ele. - Quando saste dos Estados Unidos estavas casado, ou no te recordas 
desse pequeno pormenor? Esperei quase trs anos por ti, Spencer Hill, e durante metade desse tempo nem sequer te deste ao trabalho de me escrever. E, por fim, escreveste 
dez palavras numa folha de papel que podiam ter sido dirigidas a qualquer pessoa. No falaste de ns, nem do futuro, nem daquilo que irias fazer. Contavas que eu 
ficasse  espera e foi isso que fiz, durante demasiado tempo. Mas tambm queria ter uma vida. Tinha direito a mais do que ficar em casa da senhora Castagna o resto 
da vida,  espera do Messias. - Ele no respondeu, porque tudo aquilo era verdade. No o podia negar. - Por isso vim para c e o Ernie tomou-me sob a sua proteo. 
 um homem poderoso Spencer. Um dia vai fazer de mim uma grande estrela. E no tenciono ficar junto dele para sempre, mas no me vou embora assim sem mais nem menos 
s porque tu queres. Devo-lhe mais do que isso e no quero transformar um amigo num inimigo. Ele tem sido bom para mim. Alm do mais, se eu fizesse uma coisa dessas 
ele poderia magoar-me um dia.
       - Queres dizer fisicamente? - Spencer parecia horrorizado, mas Crystal foi rpida a abanar a cabea.
       -  claro que no. A nvel profissional. Podia destruir o meu contrato.
       - No tenhas tanta certeza. Ele no  idiota. Sabe que tem um bom negcio nas mos. A propsito, que tipo de contrato assinaste com ele? - Tambm estava preocupado 
com essa questo, embora fosse de pouca importncia para a relao de ambos.
       - Um contrato normal. - Tentou parecer confiante, mas na verdade sabia muito pouco acerca do contrato. Ernie dissera-lhe sempre que no era importante.
       - O que quer isso dizer?
       - Ele serve de intermedirio entre mim e os estdios. Falam com ele, que trata de tudo por mim. - Era uma boa desculpa, e ela acreditara.
       - Quem  que te paga?  ele, ou os estdios pagam-te diretamente? - Spencer estava muito desconfiado. J ouvir falar de contratos daqueles, com os empresrios 
a devorarem as fortunas das grandes estrelas e os prprios atores a acabarem sem nada.
       -  o Ernie quem passa os cheques. Assim pode deduzir os meus impostos.
       - J alguma vez viste os contratos com os estdios ou os cheques dos teus honorrios, passados por eles?
       -  claro que no. - Crystal ficou aborrecida. - Ele trata de tudo por mim.  esse o seu trabalho. - Era precisamente isso que Spencer temia.
       - Ento podes ter a certeza de que ele anda a fazer fortuna contigo e tu, minha querida, recebes uma ninharia daquilo que pagam por ti.
       - Isso no  verdade! - exclamou ela, defendendo-o rapidamente, mas sabendo tambm que a questo central no era o seu contrato com Ernie. - Seja como for, 
no posso abandon-lo sem mais nem menos - disse, a ira desaparecendo quando se sentou, e olhou com tristeza para Spencer. - Poderia, um dia mais tarde. Mas ele 
no vai compreender se eu me for embora amanh e isso no seria justo. No mais do que tu teres abandonado a Elizabeth duas semanas depois do casamento. - Estava 
a tocar num assunto delicado, e sabia-o. Mas sentia-se em dvida para com Ernie, mesmo que Spencer no compreendesse. Fora demasiado bom para que ela pudesse virar-lhe 
j as costas por causa de Spencer.
       - Ento o que ests a dizer Crystal? Que acabou tudo? Que queres ficar com ele? - A sua voz temia ao fazer-lhe aquelas perguntas, no de raiva mas sim de 
medo.
       No entanto, os olhos dela encheram-se de lgrimas ao responder. Apetecia-lhe sair do camarim, agarrada  mo de Spencer, e dirigir-se para a igreja mais prxima 
para se casar. Mas tambm sabia que no podia fazer isso. No por enquanto. Queria resolver a situao com Ernie de forma delicada. E apercebera-se de algo importante: 
ele tornar-se-ia um inimigo temvel se casse zangado. E teria motivos para isso, se ela o abandonasse depois de toda a sua ajuda.
       - Preciso de tempo. Preciso de tempo para falar com ele e para acabar este filme, e depois digo-lhe que preciso de viver sozinha ou qualquer coisa do gnero. 
Mas no posso faz-lo numa semana Spencer. Levaste trs anos com a Elizabeth. D-me um ms ou dois, pelo menos. Quero resolver tudo com muita calma. E estou a meio 
de um filme.
       - Por que tanto tempo? Porque tens medo que ele prejudique a tua carreira ou porque o amas? - Ainda no sabia bem o que  que ela sentia por aquele homem 
ou por que motivo se senta em dvida para com ele. No compreendia as complexidades do mtodo de trabalho de Ernie nem o modo como ele brincava com os escrpulos, 
os medos e a conscincia de Crystal.
       - Porque acho que lhe devo isso. Por cortesia, se no for por mais nada. No se pode abandonar um homem que fez tanto por ns. E quero que ele continue a 
ser o meu empresrio depois de o deixar.
       - Isso pode no ser muito boa idia Crystal. E, por amor de Deus, h muitos outros!
       - No to bons como o Ernie. - Ele tambm a convencera disso, e Spencer tornou a sentir-se irritado ao ouvi-la. Parecia que iam ficar presos ao tipo para 
o resto da vida.
       - J pareces a Elizabeth a falar do McCarthy! Cus, regresso a casa depois da guerra, desejoso por me instalar e ter uma via normal, e toda a gente est muito 
envolvida com a sua carreira profissional. Toda a gente menos eu.  engraado, no ? - Estava com pena de si prprio, mas Crystal no sabia se o haveria de culpar. 
Sentia-se grata por ele ainda a querer depois de ter sabido de Ernie. Alguns homens ter-se-iam ido embora assim que ela lhes tivesse dito.
       - Talvez arranjes emprego aqui. Os estdios podero at querer contratar-te. Todos tm batalhes de advogados.
       Gostaria de dizer que Ernie podia arranjar-lhe qualquer coisa, mas no ousou, e s dentro em breve perguntaria a Ernie se o podia fazer.
       - Que queres que eu faa enquanto espero por ti Crystal? - No percebia quais eram as regras, e ela estendeu-lhe a mo enquanto respondia.
       - Tem pacincia. Lamento tudo isto. - Atrapalhada, baixou o olhar. Ele inclinou-se e beijou-lhe o cabelo sedoso, puxando-lhe em seguida o queixo para cima 
para que ela o pudesse ver.
       - No te preocupes. Eu mereo isto. Podia ter sido muito pior. Podias ter-me mandado  fava. Tenho muita sorte por ainda me quereres.
       - Amo-te - murmurou ela, e ele abraou-a. Nesse momento bateram  porta e uma voz informou-a de que as filmagens se iniciariam dentro de dez minutos. Olhou 
para Spencer com um ar muito infeliz, no querendo que ele se fosse embora, mas tinha de voltar ao trabalho e depois teria de pensar numa maneira de contar a Ernie. 
- O que vais fazer agora?
       - Podes passar algum tempo comigo, ou no te d muito jeito? - Sabia aquilo que podia esperar de Elizabeth e dos Barclay.
       - No me parece que possa. - Nos seus olhos havia uma grande tristeza e ele tornou a beij-la; Crystal desejou que Spencer nunca mais a deixasse.
       - Ento vou voltar para So Francisco. Telefono-te daqui a uns dias. E despacha-te, est bem? - brincou. No estava satisfeito com a situao dela, mas podia 
suport-la durante algum tempo. A culpa era sua por as coisas terem corrido daquela forma e no a condenava, embora a situao no lhe agradasse. Podia ter sido 
bem pior. Ela podia ter-se apaixonado por outra pessoa e casado. Raios, podia at j ter dois filhos. O que acontecera era desagradvel, mas pelo menos Crystal ainda 
o amava.
       Beijou-a com fora e durante bastante tempo antes de partir, e ela mal conseguia perd-lo de novo, mas desta vez seria por pouco tempo. Agora sabia onde ele 
se encontrava. Podia ligar-lhe, e ele prometera telefonar e inform-la do andamento das coisas na sua vida. Assim que dissesse a Elizabeth, tencionava regressar 
 Califrnia durante algumas semanas para procurar emprego; nessa altura ela j deveria estar no fim das filmagens e, esperava ele, a resolver o problema com Ernie. 
Tinham de arranjar um local para viver, e havia agora muito em que pensar. Isso dava esperana a ambos. Spencer tornou a beij-la e abraou-a, recordando o doce 
perfume do seu corpo.
       - Detesto deixar-te mais uma vez - disse ele baixinho.
       - Tambm eu - sorriu Crystal. Mas desta vez no seria por muito tempo, e quando tornassem a juntar-se seria para sempre.
       - Volto em breve - prometeu ele. Ela assentiu. Tinham ambos muito que fazer durante o ms seguinte, muitos obstculos a ultrapassar antes de poderem estar 
juntos.
       Depois, com um ltimo beijo, ele saiu do camarim e ela acompanhou-o, ficando a olh-lo com uma expresso de tamanha ternura que quem a visse compreenderia 
tudo. Quando ele lhe acenou, respondeu da mesma forma, para no perturbar o trabalho dos outros atores, mas nenhum deles viu Ernie a observ-los do fundo do estdio.
       
Captulo 30
       
       Spencer regressou ao hotel e foi-se embora nessa mesma tarde. No tivera exatamente o fim-de-semana que planeara e ainda se sentia chocado por Crystal estar 
a viver com outra pessoa, mas tinha de ser justo: tambm ele continuava com Elizabeth. E sabia que fora em parte por culpa sua que Crystal perdera a esperana e 
se envolvera com Ernie. Isso no lhe agradava nada e ansiava que ela o largasse. Alm disso, estava preocupado com o contrato que Crystal assinara. Suspeitava que 
Ernie escondia mais alguma coisa do que aquilo que a jovem lhe contara.
       Regressou de avio a So Francisco nessa mesma noite e alugou um carro. Sem saber para onde ir, dirigiu-se para norte. S pensava nela, no seu ar quando ele 
a beijara no minsculo camarim. O amor entre ambos continuava a existir, mas tinham-se ambos tornado mais fortes.
       Chegou a Napa s dez horas, e prosseguiu viagem. Tencionava parar num motel, e quando viu as tabuletas soube por que seguira naquela direo. Estava a prestar 
uma homenagem ao passado, e  criana que ela era quando a conhecera. Eram onze horas quando passou pela cidade, e parou junto ao rancho. A cerca estava fechada 
e a casa oculta por rvores, mas perguntou-se se o balano ainda l estaria. No ia ali h seis anos. E fora h sete anos que a conhecera.
       Parou num motel e procurou os Webster na lista telefnica, mas no os encontrou e j no se recordava onde viviam. Porm, no fora ali para os ver. Fora ali 
por ela, e por aquilo que ela j tinha sido. Antes de Hollywood, antes da guerra, antes de Elizabeth, antes do homem com quem Crystal estava a viver... antes de 
todos eles... quando a vira pela primeira vez com um vestido branco, no casamento da irm. Fora tudo to simples naquela altura, no comeo.
       Ficou sentado no carro durante bastante tempo, depois ligou o motor. Tinha de pensar agora na sua vida, dera a ambos o prazo de um ms. Agora j no parecia 
muito tempo, mas naquela tarde parecera quase uma eternidade. Parou e jantou algures, numa cidade que no conhecia, e depois disso levou seis horas at ao lago Tahoe. 
Passou por cima de Donner Pass quando o sol nasceu, e s conseguia pensar na rapariga que deixara na MGM, a mulher que amava e com quem iria casar.
       Estacionou e entrou em casa, indo em bicos de ps at ao quarto onde Elizabeth dormia. Enquanto se despia, ela mexeu-se e olhou-o com um ar ensonado.
       - J voltaste? - perguntou, meio a dormir. Ele assentiu, com medo de dizer mais. Estava demasiado cansado para dizer fosse o que fosse. E prometeu a si prprio 
que esperaria at deixarem o lago Tahoe.
       - Dorme - disse, mas ela sentou-se na cama, observando-o atentamente.
       - Pensei que s voltavas no domingo.
       - Resolvi tudo mais depressa do que pensava. - Demasiado depressa, mas no suficientemente depressa. Tencionara passar o fim-de-semana com Crystal.
       - Onde estiveste? - Elizabeth observava-o enquanto ele se despia, e ele evitou olhar para ela enquanto se enfiava na cama a seu lado.
       - J te disse. Em Los Angeles. Tive de tratar de uns assuntos.
       - E trataste? - Falava com frieza, e j estava totalmente desperta.
       - Mais ou menos. No consegui estar com toda a gente, por isso vim mais cedo.
       Ela assentiu, sem saber se acreditava nele. Achava-o diferente nos ltimos dias, alis, desde que regressara, e perguntou-se o que andaria a tramar.
       - Queres falar do assunto?
       - Nem por isso. Conduzi toda a noite. - Spencer fechou os olhos, esperando que ela se calasse, mas isso no aconteceu.
       - Porque no ficaste na casa de So Francisco?
       - Quis voltar.
       - Foi muito simptico da tua parte. - Ele no soube se ela estava a ser sarcstica ou no, e a ltima coisa que tencionava fazer era perguntar-lhe. - J andas 
a sentir-te melhor? - Conversava como se estivessem a meio da tarde, e Spencer gemeu quando abriu os olhos e a viu sentada a seu lado.
       - Por amor de Deus, Elizabeth! Porque no conversamos de manh?
       - J  de manh. - O sol j ia alto e os pssaros tinham comeado a cantar.
       - Sim, j estou melhor. - Muito, depois de ter visto Crystal.
       - Queres falar no assunto? - Elizabeth estava  procura de algo e se sondasse durante tempo suficiente acabaria por encontrar aquilo que procurava.
       - Nem por isso. No h nada de que falar. - Ainda no. No com a famlia nos quartos em redor. Durante duas semanas no haviam tido privacidade, e ele desejava 
pelo menos isso quando lhe dissesse que queria terminar o casamento.
       - Acho que h muito sobre que falar. No sou estpida, como sabes. - Ao sentar-se ao lado da mulher Spencer perguntou-se por instantes se ela saberia da existncia 
de Crystal. Mas isso era impossvel, a no ser que o tivesse mandado seguir. - Sei que h coisas que te tm incomodado. Falei com o teu pai h uns dias. No  fcil 
regressar de uma guerra. Sei isso muito bem. Tambm no foi fcil para mim.
       Spencer sentiu pena dela, e perguntou-se quanto lhe teria dito o seu pai. Desejou que ele no se tivesse entusiasmado e falado com Elizabeth do assunto.
       - Foste uma valente durante todos estes anos. - Acendeu um cigarro, desejando poder dizer-lhe mais, dizer-lhe que ainda a amava. Se  que alguma vez a amara. 
J no tinha a certeza disso. Os seus sentimentos por Crystal tinham eclipsado tudo o resto, e a sua relao com Elizabeth sempre fora muito diferente.
       - Havemos de nos tornar a habituar um ao outro - disse ela com meiguice, olhando-o, e ele viu ternura no seu olhar. Sentiu que a havia trado. E j h muito 
tempo. Agora estava certo de que nunca se deviam ter casado.
       - Tens a certeza de que  isso que queres? - Tocava num tema sobre o qual no quisera falar at deixarem o lago, mas ela estava a for-lo e dali a pouco 
teria de lhe dizer.
       - Creio que sim. Foi por isso que esperei todo este tempo. Acho que o mereces. - Sorriu e isso f-lo sentir-se pior. O pai tinha razo. Devia algo a Elizabeth. 
Mas no o resto da sua vida. Isso seria pedir demasiado. Era um preo demasiado elevado a pagar plos anos que ela esperara por ele.
       - s uma mulher extraordinria, Elizabeth. - Mas em demasia. Spencer no queria ter de aturar algum como ela. Elizabeth tinha as suas idias prprias, os 
seus modos, a sua casa e a famlia, com quem ele tinha de competir. Neste esquema no havia espao para Spencer, ou pelo menos ele assim o achava. Com Crystal poderia 
construir uma vida nova. Podia fazer tudo por ela. Podia partilhar o princpio de uma carreira, comear uma nova vida, ter filhos. E tudo isso era importante. - 
No sei o que dizer-te. - Nessa altura virou-se para a mulher, e ela leu tudo no seu rosto. - Creio que no posso continuar assim. Acho que nunca deveramos ter 
casado.
       -  j um bocado tarde de mais, no te parece? Depois de todo este tempo? - Ela parecia zangada e magoada, mas no surpreendida. J h dias que esperava aquilo. 
Antes de o juiz Hill falar com ela, j Elizabeth adivinhara. Ele dissera-lhe que Spencer se sentia um pouco "desapontado" e que ela necessitaria de muita pacincia. 
Elizabeth achava que j tivera pacincia suficiente. Durante trs anos.
       - Estive ausente trs anos. Antes disso, passamos juntos duas semanas. E mudamos. Ambos. J no quero as mesmas coisas que queria. Mal nos conhecamos quando 
me fui embora e nos ltimos trs anos tornamo-nos uns estranhos.
       - No posso fazer nada. As coisas so mesmo assim. Mas depois de ter esperado trs anos no vou desistir agora, se  isso que ests a sugerir. - Os olhos 
dela tinham uma expresso dura, e Spencer sentiu o corao apertar-se quando a olhou.
       - Por qu? Porque no? Por que continuar? S nos vamos tornar ainda mais infelizes. - Tentava argumentar, mas percebeu que ela no estava interessada em escut-lo.
       - No necessariamente. Temos muito para oferecer um ao outro. Sempre tivemos, sempre fui dessa opinio.
       - E eu sempre duvidei. Disseste-me isso quando ficamos noivos.
       - Disse-te que no me importava. Temos exatamente aquilo de que precisamos para um bom casamento. Boas carreiras, inteligncia, vidas interessantes; so estas 
as coisas que compem os melhores casamentos.
       - De onde venho, as coisas no so assim. E o amor, a ternura, a lealdade, os filhos? - Mas fora ele leal para com Crystal, e vice-versa? Ambos viviam com 
outras pessoas. Tentou no pensar nisso enquanto falava com Elizabeth. Mas aquilo que tinham era mais do que aquilo com que Elizabeth poderia sonhar.
       - Ls demasiados romances. Estiveste demasiado tempo afastado da vida real, Spencer.  claro que essas coisas so importantes, mas isso so acessrios, no 
coisas fundamentais. - Eleja sabia tudo o que ela dizia. Eram demasiado diferentes. No se importavam com as mesmas coisas. Ele queria amor. E ela um grande negcio.
       - Que sentes por mim? - perguntou ele de repente, olhando-a com ar angustiado. - Fala a verdade. Que  que sentes quando me deito ao teu lado  noite? Paixo, 
amor, desejo, amizade? Ou sentes-te to s como eu? - S haviam feito amor uma vez desde o regresso dele, e fora uma catstrofe.
       - Tenho pena de ti - respondeu ela com frieza, olhando-o bem nos olhos. - Acho que andas  procura de uma coisa que no existe. Sempre andaste. - E se ele 
lhe dissesse que a tinha encontrado? Mas preferiu calar-se. Queria deix-la, mas sem a magoar desnecessariamente. No queria isso. Apenas desejava recuperar a sua 
vida. Mas era bvio que ela no lha queria dar. - Acho que s um sonhador... e acho que tens de comear a viver no mundo que te rodeia, no mundo em que vivemos Spencer. 
Um mundo cheio de pessoas importantes com carreiras importantes. Todos fazem coisas teis, no esto para a sentados de mos dadas com as mulheres e a fazer festas 
aos filhos.
       - Ento tenho pena deles, e de ti, se  assim que encaras as coisas.
       - Tens de readquirir o domnio sobre ti mesmo, arranjar um emprego em Washington, comear a fazer amigos, dares-te com as pessoas que interessam...
       - Tal como as pessoas que o teu pai conhece? - interrompeu ele, comeando a ficar irritado. Estava farto deles e da sua busca constante de maior "importncia". 
Aquilo que consideravam importante no lhe interessava minimamente. Em especial agora, depois de trs anos na Coria.
       - Sim, como elas. O que tm de errado?
       - Nada. Mas eu no gosto delas.
       - Tens a sorte de elas falarem contigo! - Tambm estava zangada com ele. J no suportava v-lo com ar acanhado em todas as festas a que iam. - Tens a sorte 
de teres casado comigo. E tens tambm a sorte de eu ser demasiado esperta para me divorciar. Um dia vais ser algum e eu vou estar aqui para garantir isso. E um 
dia, Spencer Hill, irs agradecer-me.
       Ele olhou-a e riu-se. Riu-se at as lgrimas lhe carem pelo rosto. Elizabeth era a mulher mais egocntrica que ele conhecia, e alm disso tinha a certeza 
que estava certa. Mas tambm era uma adversria poderosa.
       - Exatamente, o que  que tencionas fazer de mim, Elizabeth? Que tal presidente? Ou rei? Isso podia ser giro... por acaso poderia agradar-me.
       - No sejas idiota. Podias muito bem ser aquilo que quisesses. Todas as portas em Washington esto abertas para ti, at ao Gabinete Oval, se jogares as cartas 
certas.
       - E se jogar as erradas?
       - A escolha  tua. Mas estou a falar a srio. Se queres o divrcio, no to vou conceder. - Ele ainda no lhe fizera a pergunta, mas ela j respondera.
       - Porque queres continuar casada se eu no o quero? - Era incapaz de compreender, mas ela sabia bem o que sentia e explicou-lho em poucas palavras, levantando-se 
e dirigindo-se-lhe numa expresso dura:
       - No vou permitir que me faas passar por tola depois de todo este tempo. Esperei por ti, agora vais pagar as tuas dvidas. Se pensares bem, o preo no 
 assim to elevado. Podia ser pior. - E acrescentou: - Alm disso, amo-te. - Isso poderia t-lo sensibilizado se ela o tivesse dito de outra maneira e um pouco 
mais cedo.
       - No sei se conheces o significado da palavra.
       - Talvez no. - Estava implacvel. - Mas se for esse o caso Spencer, podes ensinar-me. - E com isso dirigiu-se  casa de banho, trancando a porta. Ele ouviu-a 
encher a banheira e meia hora mais tarde Elizabeth reapareceu com um ar imperturbvel, calas brancas e uma camisa de seda muito bem engomada, sapatos brancos, o 
colar de prolas em volta do pescoo, e brincos de prolas e diamantes. Era uma mulher bonita, mas nada nela o sensibilizava ou o confortava. - Desces para o pequeno-almoo 
ou queres dormir um bocado?
       Ambos sabiam que ele no conseguiria voltar a dormir, mas Spencer estava com um ar bastante cansado. A noite tinha sido cansativa e a manh no fora muito 
melhor. A recusa do divrcio era como uma punhalada no seu corao repleto de Crystal.
       - Deso daqui a pouco.
       - timo. Os Houston esperam-nos para o almoo. Tenho a certeza de que ficaste satisfeito com a notcia.
       - Encantado. - Mas de certa forma, estava mais aliviado desde que falara com ela. Pelo menos j no precisava de fingir que se sentia ansioso por continuar 
com o casamento. Elizabeth sabia o que ele pensava, e vice-versa. Tornou a olhar para a mulher antes de esta sair do quarto. - Ests a falar a srio, Liz? - Falava 
com suavidade. Queria que ela percebesse que no valia a pena continuarem juntos.
       - Acerca de qu? De continuar casada contigo? - Ele assentiu. - Sim, estou.
       - Por qu? Por que motivo no podes admitir que est tudo errado? Para qu forar as coisas?
       - J te disse, no vou permitir que ningum me faa passar por idiota. E, alm disso, seria uma situao muito embaraosa para o meu pai.
       - Isso  a pior desculpa que j ouvi.
       - Ento pensa nas tuas, se quiseres. Mas falo a srio. E creio que, a longo prazo, ambos seremos felizes.
       Ele no podia acreditar no que acabara de ouvir, mas, sem mais uma palavra, Elizabeth saiu do quarto e desceu para tomar o pequeno-almoo, enquanto Spencer 
ficava na cama a pensar em Crystal.
       
       Ela j tivera os seus problemas nessa noite. S terminara o trabalho s dez. Um dos projetores avariara-se e depois estragou-se uma grande parte do cenrio. 
Ficaram ali durante horas, e quando chegou a casa j era meia-noite. Ernie esperava-a.
       - O que fizeste hoje? - Permaneceu imperturbvel vendo-a despir-se. Crystal estava exausta e passara a noite a pensar em Spencer, no que teria de fazer e 
no que iria dizer a Ernie.
       - Nada de especial. Os projetores avariaram-se e ficamos parados durante horas. - Tinham-se queixado do calor, da longa espera e da m comida ao jantar.
       - S isso? - Ele aproximou-se devagar de onde ela estava, nua sob o roupo.
       - Claro. Por qu?
       Ele agarrou-lhe num punhado de cabelo, puxando-lhe a cabea para trs de forma abrupta, com quanta fora tinha, enquanto ela tentava respirar e libertar-se 
dele.
       - Nunca me enganes!
       - Ernie!... Eu... - Mas as palavras morreram-lhe nos lbios. Via nos olhos dele que sabia da visita de Spencer. - Um velho amigo foi visitar-me... nada mais...
       Ele tornou a puxar-lhe os cabelos, e os olhos de Crystal encheram-se de lgrimas de medo e de dor.
       - No mintas!  o tipo da Coria, no ? - Era inteligente e a altura era apropriada. Deduzira, a partir de um palpite, quando a criada lhe dissera que tinha 
telefonado um homem, depois fora ao estdio verificar se ela recebia algum. Chegou a tempo de os ver entrar para o camarim dela. E esperara bastante tempo at tornarem 
a sair, olhando um para o outro como dois amantes que h muito no se viam.
       - Sim... sim... - Mal conseguia respirar enquanto ele lhe torcia o cabelo. - Era ele... desculpa... no pensei que ficasses aborrecido...
       - Vaca estpida! - Esbofeteou-a com fora, atirando-a quase at meio da sala. - Se tornas a v-lo ou a telefonar-lhe vai acontecer-lhe uma coisa muito desagradvel. 
Percebeste, "Miss Pureza"?
       - Sim... Ernie, por favor... - Estava horrorizada. Nunca vira antes aquela faceta dele.
       - Agora despe-te. - Ela ofegou quando viu a expresso do rosto de Ernie, e ele nem sequer estava bbedo. Mas havia nos seus olhos algo que a apavorou enquanto 
se dirigia a ela. Arrancou-lhe o roupo e ela ficou a tremer, nua. - E lembra-te de uma coisa: agora pertences-me! E a mais ningum! Porque sou o teu dono. Percebeste? 
- Ela assentiu, as lgrimas a correr pelo rosto enquanto ele tornava a esbofete-la. Sem cerimnia, atirou-a para uma cadeira e tirou o seu prprio roupo, rindo-se 
do pavor que via nos olhos dela. - Exato. Vou fazer exatamente aquilo que me apetece, porque tu s minha. - E possuiu-a com tal fora e brutalidade que desta vez 
ela gritou de dor e no de prazer. Quando tudo acabou, atirou-a para o cho, onde ela ficou a chorar cheia de dores. Era exatamente o que Tom Parker fizera, mas 
de certa forma pior, porque ela confiara em Ernie. Devia ter fugido nessa tarde com Spencer. Sabia-o agora, mas era demasiado tarde. Era muito mais tarde do que 
ela julgava, e tinha medo do que ele poderia fazer a Spencer, no caso de estar a falar a srio. E ela no faria nada que pusesse Spencer em risco. Mesmo se isso 
a matasse.
       Ernie olhou para Crystal, deitada no cho, e riu-se enquanto ela chorava, sem ousar olh-lo.
       - Levanta-te! - Iou-a de novo plos cabelos, enquanto ela olhava em volta, apavorada. - E se tornares a v-lo de novo Crystal Wyatt... mato-te. - Depois 
foi para a cama enquanto ela ia vomitar  casa de banho. Quando se olhou ao espelho, os olhos que ali viu estavam vazios. Ele dera-lhe tudo e agora julgava que era 
propriedade sua. Mas uma coisa era certa: Crystal sabia agora o que aconteceria se tentasse deix-lo para ir ter com Spencer.
       
Captulo 31
       
       A 6 de Setembro, Spencer foi de avio para Washington com Elizabeth e os sogros. Tivera uma semana terrvel. A tenso entre ambos fora devastadora. Mas ela 
continuara a agir como se nada se passasse, decidida a continuar a iluso do casamento. No sabia o que teria de fazer para ela compreender, mas dali a um ms queria 
estar de volta  Califrnia com Crystal. E iria tornar a falar no divrcio assim que chegassem a Georgetown. Ficara bastante surpreendido com a resistncia dela 
 idia. Ele e Crystal haviam sido muito ingnuos quanto  vontade dos parceiros em desistir deles, e agora Spencer s pensava em convencer Elizabeth a conceder-lhe 
o divrcio.
       Contudo, quando chegaram a Washington, ela mostrou-se to orgulhosa da casa, andava to ocupada com os amigos e com o emprego que ele mal a viu. Elizabeth 
contratou uma governanta para cozinhar e limpar, e o casal Hill parecia ser convidado para todas as festas da cidade. Spencer ficou desesperado. Sentia-se afogar 
num mar de gente, noite e dia, e de cada vez que tentava falar com Elizabeth ela conseguia evitar o assunto. Finalmente, na segunda semana depois de terem regressado 
a casa, ele explodiu ao pequeno-almoo. Ela acabara de lhe dizer que tinham sido convidados para almoar em casa dos pais e que depois ele talvez gostasse de ir 
jogar golfe com o juiz Barclay.
       - Por amor de Deus, Elizabeth, no podemos continuar assim! No podes fingir que nada aconteceu. - Para ele, nada mudara desde o lago Tahoe nem desde muito 
antes.
       - J te disse o que pensava Spencer.  isto. At morrermos. Podes deixar de lutar e comear a apreciar. - Tinha o mesmo ar frio e controlado de sempre e isso 
dava com ele em doido.
       Sentou-se e passou uma mo pelo cabelo, no gesto familiar que ela ainda no passara a considerar com afeto. Na realidade, esse gesto aborrecia-a. Mas estava 
disposta a agentar tudo. Aquela era a vida deles e ele era o seu marido.
       - Temos de conversar. - No desistia. Ela era uma mulher honrada e ele dava valor ao que fizera por si. Mas no era aquilo que queria. Agora sabia-o. Tinha 
a certeza. E no queria um casamento que fosse apenas fingimento e aparncia.
       - Sobre que queres conversar? - O tom da sua voz era gelado. Estava farta da dificuldade dele em adaptar-se. A seu ver, ele tinha tudo o que queria. Uma casa 
bonita, uma criada, uma mulher interessante com um bom emprego e sogros importantes. Mas Spencer no via as coisas dessa forma. Nem nada que se parecesse.
       - Temos de falar acerca do nosso casamento. O olhar dela endureceu. J falara naquilo antes e no estava interessada em aprofundar o assunto. No iria conceder-lhe 
o divrcio. Ele teria de crescer e encarar a situao.
       - No h nada a dizer.
       - Eu sei - retorquiu ele com tristeza. - O problema  precisamente esse.
       - O problema  que ainda tentas ir contra isso, e quando deixares de o fazer, as coisas parecer-te-o muito melhores. Olha para os meus pais. Achas que as 
coisas sempre foram fceis para eles? Tenho a certeza que no. Chegaram a um acordo. Tambm podemos chegar, se aceitares as coisas como elas so - disse com frieza.
       - Mas esta coisa para mim no  um casamento - retorquiu Spencer, tentando manter a calma.
       - No concordo contigo - contraps ela zangada, mas no triste. Estava farta de falar no assunto.
       - No estamos apaixonados. Nunca estivemos. Isso no te importa?
       -  claro que importa. Mas o amor surgir mais tarde. - Parecia despreocupada, o que fez com que ele se sentisse ainda mais louco.
       - Quando? Quando  que achas que isso surgir, Elizabeth? Aos sessenta e cinco, como a reforma ou um bnus? Ou existe no comeo, ou ento j no existe. E 
para mim nunca existiu. Tentei convencer-me do contrrio, mas entre ns nunca houve amor. Quis afastar-me assim que ficamos noivos, e disse-te. Mas deixei que me 
convencesses e fui um idiota. No foi justo para ti, nem para mim, e agora estamos a pagar por teres sido to teimosa.
       - E que preo ests a pagar? - Agora sentia-se furiosa e, finalmente, mostrava-o. - O preo do conforto, de teres uma mulher de que te podes orgulhar ou um 
sogro que  um dos homens mais importantes do pas?
       - Estou-me nas tintas para isso tudo, e tu sabe-lo bem.
       - No tenho assim tanta certeza. Ests-te nas tintas? Ento porque casaste comigo, se no me amavas? - Era uma boa pergunta.
       - Disse a mim prprio que te amava. Pensei que conseguiramos que tudo desse certo, mas isso  impossvel e temos de encarar a realidade.
       - Encara-a tu. Resolve-a. O problema  teu. Passas a vida a lamentar-te. Ento pra de te lamentar e faz qualquer coisa.
       -  isso que quero fazer, raios! - Deu um murro na mesa e teve vontade de atirar qualquer coisa a Elizabeth. - Quero o divrcio para que possamos ver-nos 
livres disto e comearmos a viver como seres humanos normais.
       - No vamos a lado nenhum Spencer. Estamos casados e  assim que iremos continuar, para o melhor e para o pior, at que a morte nos separe. Por isso, pra 
de te queixar e habitua-te. Mexe esse eu, arranja um emprego. Faz o que te apetecer, mas v se percebes uma coisa: no te darei o divrcio!
       Spencer sentiu o desespero envolv-lo enquanto a escutava. S queria voltar para junto de Crystal.
       - Durante quanto tempo achas que podemos continuar assim?
       - Para sempre, se tiver de ser. Tu  que sabes o quanto queres tornar as coisas difceis.
       - Queres mais do que isto? Eu quero. Quero algum com quem possa conversar. Algum que queira o mesmo que eu. Vida, amor, felicidade e filhos. - Estava  
beira das lgrimas. - Elizabeth, quero ser feliz.
       - Tambm eu - retorquiu ela olhando-o com frieza, e de repente lembrou-se de uma coisa. Nunca pensara no assunto, mas ainda se recordava da forma como ele 
olhara para a rapariga no clube em So Francisco, a seguir  festa de noivado, e de ele ter dito dois dias depois que j no se queria casar. - Spencer, h outra 
pessoa? - perguntou, olhando-o bem nos olhos.
       Ele no lhe podia responder. No era isso que estava em causa. O que estava em causa era o fato de terem cometido um erro e de agora ser preciso encar-lo. 
O que acontecera depois disso no era da conta dela.
       - No, no h. - No iria falar-lhe nisso. No queria encapotar o assunto.
       - Tens a certeza? - Conhecia-o melhor do que ele gostaria, mas Spencer abanou a cabea, decidido a mentir-lhe a , respeito de Crystal.
       - No  importante. O que estou a dizer-te  bastante mais importante. Este casamento no est a correr bem a nenhum de ns nem ir correr.
       Mas ela tocara-lhe num ponto fraco, isso era visvel, e apercebeu-se.
       -  importante. Tenho o direito de saber se h outra pessoa.
       - Isso mudaria alguma coisa? - perguntou ele cauteloso.
       - No te concedo o divrcio, se  isso que queres saber. Mas revelar-me-ia algo a teu respeito. Acho que s te ests a queixar porque queres encobrir algum, 
no ?
       - J te disse que a questo no  essa.
       - No acredito.
       - Elizabeth, s razovel. Por favor. - Que lhe podia dizer? Que havia outra mulher? Que ela era a mulher mais bela que ele j vira e que se apaixonara quando 
ela tinha catorze anos? E que agora queriam casar?
       - O meu pai queria apresentar-te a umas pessoas importantes esta tarde. - Estava a ignorar tudo o que ele dissera. - Acho que devamos ir.
       - Por amor de Deus, estamos a falar da nossa vida! Porque no ds ouvidos  razo?
       - Porque a tua idia de razo  o divrcio, Spencer. A minha, no. E no vou permitir que saias da minha vida.  to simples como isso. No vou permitir que 
me envergonhes publicamente. Quero continuar casada. - Sempre quisera casar com ele, e conseguira aquilo que queria. Quase. Mas para ela isso era tudo o que se conseguia 
na vida. Quase tudo. Bastava-lhe, mesmo que a ele no, e no iria deix-lo fugir to cedo.
       - Mas queres continuar casada assim?
       - Sim - respondeu ela sem a mais pequena hesitao. - Um dos amigos do meu pai queria oferecer-te emprego hoje. Acho que nos deveramos encontrar com ele.
       - Estou farto dos amigos do teu pai e do teu pai.
       - Ele  um democrata muito importante e  um trabalho no Governo. - Continuou a falar como se no o tivesse ouvido, e Spencer teve vontade de gritar. - E 
ele acha que lhe podias ser til.
       - Neste momento no quero ser til a ningum. Exceto a mim prprio. E a ti. Quero resolver esta embrulhada.
       - No h embrulhada nenhuma, Spencer. Pelo menos no que me diz respeito. E no vou deixar-te ir embora, por isso, esquece tudo isto.
       E ao olh-la Spencer percebeu que Elizabeth falava a srio. Nunca concordaria com o divrcio. Estava preso. Talvez para sempre.
       - Ests a falar a srio, no ests?
       - Completamente. - Olhou para o relgio. - Temos de l estar ao meio-dia. Sugiro que te vs vestir.
       - No sou uma criana, Elizabeth. No gosto que me digam o que devo fazer, quando me devo vestir, o que devo comer e quando devo ir a uma festa. Sou um homem 
e quero viver com uma mulher que me ame.
       - Lamento. - Ela levantou-se e olhou-o com frieza. Ele destrura essa possibilidade, mas mesmo assim no iria deix-lo partir. E estava convencida de que 
havia outra mulher. Mas quem quer que ela fosse, no iria ficar com ele. - Vais ter de te contentar com isto, no ? - Saiu calmamente da sala e desceu uma hora 
depois com um fato azul-escuro bem engomado, mala e sapatos azuis de crocodilo que o pai lhe oferecera pelo aniversrio. E detestando ter de ceder, Spencer vestiu-se 
tambm. Levava um fato cinzento e um rosto que seria perfeito para um funeral.
       Ela conversou com ele como se nada tivesse acontecido entre ambos. Spencer achou que a sua vida tinha acabado. Pelo menos a parte que interessava. J no 
havia esperana. E o amigo do pai era, como seria de esperar, um indivduo importante. Ofereceu emprego a Spencer num departamento do Governo que lhe teria interessado, 
se ele quisesse continuar em Washington e se quisesse um emprego que lhe tivesse sido oferecido essencialmente por causa dos Barclay. Mas o emprego era bom. Era 
a primeira oferta que lhe interessava e disse ao homem que iria pensar, mais por boa educao do que por outra coisa. S queria mesmo era falar com Crystal. Mas 
quando lhe ligou nessa noite, depois de Elizabeth se ter ido deitar, ficou a saber que ela no se sara melhor. Ernie vigiava-a noite e dia, e uma ou duas vezes 
julgava ter sido seguida. At tinha medo de falar com Spencer ao telefone, mas felizmente Ernie no estava em casa quando ele lhe ligou. Ela contou-lhe que Ernie 
a ameaara. Mas, na realidade, agora temia pela vida de Spencer. Sabia que Ernie falava a srio.
       Depois do que acontecera, Ernie costumava aparecer nas filmagens sem avisar, sentava-se no camarim, controlava-lhe as chamadas, embora ela recebesse muito 
poucas. A nica coisa que estava autorizada a fazer era trabalhar e regressar a casa para Ernie. Este no tornou a bater-lhe, nunca mais a violou, nem sequer lhe 
tocou. No precisava. Dissera-lhe que mataria Spencer. E no dia a seguir  violao, aparecera em casa com um enorme colar de diamantes. Dirigira-lhe um sorriso 
malvolo e no carto que acompanhava o colar lia-se "V-o como um cinto de castidade. Beijos, Ernie." Mas agora Crystal j no tinha dvidas do que lhe aconteceria 
se tentasse deix-lo para se juntar a Spencer. Ele mat-los-ia. Tinha a certeza disso. E fora o que ele dissera.
       Agora sabia o que tinha de fazer. Havia que deixar Spencer livre, para bem dele, mas no podia dizer-lhe por qu. Receava contar-lhe a verdade, com medo das 
suas retaliaes, ou de que regressasse  Califrnia para a tentar libertar de Ernie.
       - Como vo as coisas por a? - Spencer parecia exausto ao telefone. J passava da meia-noite e ele estava psiquicamente arrasado devido ao inglrio esforo 
de tentar convencer Elizabeth a conceder-lhe o divrcio.
       - Tem sido tudo muito difcil - respondeu Crystal numa voz calma. Era a primeira vez que falava com ele desde que se tinham visto, e as lgrimas encheram-lhe 
os olhos ao pensar no que iria ter de dizer. Mas isso era necessrio, para bem dele.
       - Isso  para rir, no ? - Ele tentava mostrar-se alegre, mas sentiam-se ambos deprimidos. Cometera o seu primeiro grande erro quando decidira casar com 
Elizabeth sabendo que no a amava. E dera ouvidos a toda a gente exceto a si prprio. Julgou que o estava a fazer pelas razes certas. At tentara convencer-se de 
que a amava, e que os seus sentimentos por Crystal eram apenas uma paixonite.
       - J falaste com a Elizabeth?
       - Sim. Mas nada consegui. Ela recusa-se a colaborar, e se no lhe bater nem a apanhar na cama com outro no terei motivo para o divrcio, a menos que ela 
concorde. Mas no vou desistir. D-me mais algum tempo, Crystal, acabarei por convenc-la. - Ainda no sabia de que forma, mas teria de o fazer. No entanto, no 
estava preparado para as palavras de Crystal. Atingiram-no como um soco no estmago.
       - No precisas de fazer isso. J conversei com o Ernie sobre o assunto e... - Quase se engasgou com aquelas palavras, mas obrigou-se a falar com normalidade. 
Era o papel mais difcil da sua carreira, mas acreditava que a vida de Spencer dependia disso e tinha de o convencer, independentemente do que ele viesse depois 
a pensar a seu respeito. Isso j no era importante. Comeara a perceber qual era o papel de Ernie em Hollywood. Ouvira pessoas a falar dele no estdio depois de 
o terem visto com ela. E os boatos sobre os seus conhecimentos apavoravam-na. Ernie escondia algo e, aparentemente, havia pessoas perigosas a apoiarem-no. E para 
elas Crystal representava muito dinheiro no futuro. - Ele acha que a minha carreira ser prejudicada se eu o deixar agora. A publicidade poderia afetar-me de forma 
negativa - prosseguiu ela.
       Spencer sentiu o corao parar ao ouvir aquilo.
       - O que  que ests a dizer?
       - Estou a dizer... - Esforou-se por falar com alguma frieza, mas no estava habituada. A sua voz era normalmente repleta de ardor e paixo, tal como as suas 
canes. - Estou a dizer que acho que no deves vir para c. No estou preparada para mudanas.
       - Vais ficar com ele? Por causa daquilo que as pessoas podero dizer? Enlouqueceste?
       - No - respondeu Crystal, aparentemente to a srio que sentiu o corao despedaar-se com aquelas palavras, mas era melhor mago-lo daquela forma do que 
permitir que Ernie o fizesse com os seus sabujos. - Acho que me descontrolei um pouco quando te vi. No consegui evit-lo... j passara tanto tempo... no sei. Talvez 
estivesse apenas a representar um papel... o papel do amante h muito perdido e da rapariguinha que uma vez o amara. - As lgrimas corriam-lhe pelo rosto como uma 
cortina de chuva, mas a sua voz mantinha-se firme.
       - Ests a dizer-me que no me amas? Ela engoliu com esforo, pensando apenas nele, no em si e na vida vazia que a esperava.
       - Acho que aconteceu tudo h muito tempo... creio que nos entusiasmamos ambos quando nos vimos.
       - No me venhas com essas tretas! Eu no me "entusiasmei" com nada. Sobrevivi a trs anos daquela maldita guerra s para voltar para ti e para dizer que te 
amava. - Estava quase aos gritos, e teve de se obrigar a falar em voz baixa. Elizabeth estava a dormir no andar de cima e no queria acord-la. - Talvez tenha esperado 
demasiado. Talvez tenha sido um idiota ao fazer uma srie de coisas. Parece que dei cabo da vida de toda a gente, mas uma coisa te garanto: no me "entusiasmei" 
nem estava a representar quando te vi. Amo-te. Estou disposto a ir para a e a casar-me contigo assim que resolva toda esta trapalhada, e gostaria de saber o que 
raio ests para a a dizer.
       - Estou a dizer... que acabou tudo. Houve um silncio interminvel de ambas as partes, e a voz dele era grave e rouca quando falou.
       - Ests a falar a srio? - Tinha um soluo preso na garganta, mas reprimiu-o enquanto esperava.
       - Sim. - Ela mal conseguia falar. - Sim, estou a falar a srio. A minha carreira  demasiado importante agora... e devo muito ao Ernie.
       - E ele que te est a obrigar a dizer essas coisas? Ele est a? - perguntou de repente. Isso explicaria tudo. Ela no podia estar a falar a srio. Vira o 
rosto de Crystal e sabia que ela ainda o amava. Pelo menos julgara isso.
       -  claro que no. Ele no me obrigaria a dizer nada. - Era mais uma mentira a acrescentar a todas as outras que dissera para o proteger. - No quero que 
venhas para c. Acho que no devamos voltar a ver-nos, nem como amigos. No vale a pena, Spencer, acabou tudo.
       - No sei o que te hei-de dizer. - Estava a chorar, mas no queria que ela ouvisse. Por momentos, achou que sobrevivera  guerra para nada.
       - Toma cuidado contigo. E, Spencer...
       - Sim? - Parecia que algum lhe morrera.
       - No quero que me telefones.
       - Compreendo. Vive bem a tua vida. - No sentia amargura, estava desfeito. - Mas quero que saibas uma coisa: se alguma vez precisares de mim, aqui estarei. 
S precisas de me telefonar. E se mudares de idias... - A voz dele fraquejou e pensaram um no outro, mas ela tinha de pr fim a todas as esperanas dele, isso era 
muito importante.
       - No irei precisar. - O seu rosto tinha a lividez da morte, mas ele no o podia ver. Crystal fizera o que tivera de fazer, e agora no mundo s lhe restava 
Ernie. Era um pensamento horripilante, mas no podia deter-se nele agora. Durante aqueles ltimos minutos, podia agarrar-se a Spencer, embora este no o soubesse. 
Ainda no queria desligar. Desejava ouvir a voz dele, ouvi-lo, estar perto dele pela ltima vez. - O que vais fazer a respeito da Elizabeth? - Era uma coisa importante, 
e ela j se interrogara a respeito disso.
       - No sei. Ela diz que no me deixa partir. Talvez no deixe, ou talvez se aborrea com a situao.  bvio que no temos um casamento.
       - Ento para que  que ela te quer? - As lgrimas corriam-lhe pelo rosto enquanto tentava fazer conversa.
       - No quer ser ridicularizada. E creio que era isto que ela ambicionava. Algum que jogasse golfe com o pai e que pudesse levar s festas. - Era uma perspectiva 
simplista, mas no em demasia, pelo menos plos padres dele. No era nada como o que ele partilhara com Crystal. E embora fosse estranho, por ter passado to pouco 
tempo com ela, sentia que conhecia Crystal melhor do que conhecia a mulher ou do que a viria a conhecer. - No sei o que vou fazer. - Ficar em Washington, regressar 
a Nova Iorque, abandonar a mulher ou aceitar o emprego que lhe tinham proposto. J nada importava. Sentia-se um rob. - Seja como for, acho que  uma grande embrulhada, 
como se costuma dizer... ou ser que isto no se diz?
       - Diz-se, sim. - Crystal ficou calada por um momento, ansiando por lhe dizer que o amava. Odiava deix-lo a pensar que j no o amava. - Acho que ... uma 
embrulhada, quero eu dizer.
       - Cuida bem de ti Crystal... - E depois as palavras que quase lhe despedaaram o corao: - Amar-te-ei sempre. - E quando desligou o telefone, Spencer ficou 
sentado no escritrio que Elizabeth decorara para ele, a chorar como uma criana que tivesse acabado de perder a me. Ali ficou a chorar durante horas, pensando 
nela, saboreando os momentos que tinham partilhado e tentando acreditar que ela sabia o que estava a fazer. Era difcil acreditar que era aquilo que ela queria, 
a carreira em vez dele. Sabia como os sonhos de Hollywood tinham sido importantes, mas de certa forma o que acabara de passar-se nem parecia dela. Contudo, agora 
tinha de respeitar os desejos de Crystal. Devia-lhe isso. S tinha de descobrir como iria viver sem ela.
       E na Califrnia, Crystal pousou o telefone com mos trmulas. Tinha o corpo gelado e sabia que fizera a nica coisa possvel, embora sentisse que tinha destrudo 
tudo o que lhe importava. Sem saber, vendera a alma a um homem maligno e agora teria de pagar um preo de que se iria arrepender para o resto da vida, e nada daquilo 
valia a pena.
       Ficou a olhar para o vazio durante muito tempo, incapaz de acreditar que ele se afastara de vez. Era como se Spencer tivesse morrido, e fora ela quem o matara. 
Isso f-la recordar-se do que sentira quando Jared morrera, o vazio, a culpa e a solido que a tinham invadido.
       - Porque  que ests to alegre? - Ela olhou para cima, assustada. No o ouvira entrar no quarto, mas Ernie estava ali  sua frente, com um ar zangado. - 
Passa-se alguma coisa? - Ela abanou a cabea. No queria falar com ele. - timo. Ento veste-te. Esta noite vamos a uma estria. E depois disso quero apresentar-te 
a uns realizadores.
       - No posso... - Olhou-o cheia de lgrimas. - No me sinto bem.
       -  claro que sentes. - Serviu-lhe uma bebida. Ela bebeu um gole e pousou o copo, no se sentindo melhor. A bebida no a iria ajudar. Nada iria. Mas Ernie 
dirigiu-lhe um sorriso encorajador: - s uma boa menina. Agora vai-te vestir. Temos de sair daqui a meia hora.
       Ela olhou para ele como se estivesse a olhar para o vazio, e depois levantou-se, dirigindo-se devagar para o quarto enquanto ele a observava. No sabia, mas 
ele estava satisfeito com ela. Estivera a ouvir a conversa telefnica no aparelho que tinha escondido no escritrio.
       Nessa noite Crystal saiu com Ernie e havia fotgrafos por toda a parte. Fotgrafos que a fotografaram deslumbrante pelo brao de Ernie. Ela manteve-se calada, 
muito plida, mas ningum reparou. Chegaram tarde  estria, mas Ernie no se importou. Atrara ainda mais as atenes. Deu-lhe uma palmadinha no brao quando entraram 
e ficou satisfeito por os realizadores terem gostado dela. Crystal mal lhes falou, ou a ele. Estava perdida noutro mundo, num mundo que j no existia. Aquele que 
um dia partilhara com Spencer.
       
Captulo 32
       
       No princpio de novembro, Spencer tinha aceitado o emprego que lhe fora oferecido plos amigos do juiz Barclay. Parecia-lhe que se vendera, mas sabia que 
tinha de fazer algo para manter viva a sua mente. No podia ficar sentado em casa  espera que algo mudasse. Nada iria mudar. Elizabeth no o deixaria partir, e 
Crystal dissera-lhe que no o queria ver de volta  Califrnia.
       Todavia, para sua surpresa, pelo menos descobrira que gostava do emprego, e por volta do Natal as coisas tinham voltado ao normal, apesar de sentir que parte 
de si morrera quando desistira de Crystal. Isso f-lo deitar mos ao trabalho, dia e noite, descobrindo que gostava mais de poltica do que pensava.
       Washington era excitante e divertida, e ele ter-se-ia sentido feliz no fora o vazio da sua relao com Elizabeth. Qualquer esperana de reaproximao fora 
destruda quando lhe pedira o divrcio. E no tumulto subseqente, era bvio que ele no gostava dela e que ela no confiava nele. E Spencer sentia-se preso a Elizabeth 
pelas razes erradas.
       Ela era uma companheira animada, espirituosa e divertida. Mas a vida de ambos mudara bastante depois de ele lhe dizer que no a amava. Fora um ato idiota, 
mas ele agira movido pelo desespero e pela emoo, na esperana de casar com Crystal. Elizabeth nunca tocava no assunto, mas ele sabia que no estava esquecido. 
Toda a paixo inicial desaparecera, e embora tivessem recomeado a fazer amor, faziam-no com reservas e remorsos, ambos at com uma certa amargura. Mas para aqueles 
que os viam, pareciam um casal realizado, que se completava. Representavam bem esse papel e as desiluses eram mantidas em segredo. Elizabeth estava satisfeita com 
o trabalho dele, e para ela isso era o mais importante. O nico contacto de Spencer com Crystal fazia-se nas escuras salas de cinema. Fora ver o primeiro filme dela, 
numa noite em que Elizabeth ficara a trabalhar at mais tarde, e depois de terem regressado de Palm Beach, leu no jornal que ela fazia parte do elenco de um filme 
importante.
       Crystal ainda no se tornara uma grande vedeta, mas era requestada por toda a parte, e ele sabia que todos os estdios que a queriam tinham de negociar com 
Ernie. Ela estava a acumular uma fortuna para ele e para os homens que o apoiavam. Fora por isso que ele ameaara mat-la se ela o deixasse. Ernie estava a proteger 
o seu investimento. Os jornais diziam que ela devia comear o novo filme em Junho, e entretanto era notcia pelo brao de Ernie e junto de artistas bem conhecidos, 
com quem Ernie a mandava sair para conseguir mais publicidade. Crystal aparecia regularmente nas colunas sociais, sendo conhecida de um nmero cada vez maior de 
pessoas.
       Estava bem lanada, mas Spencer estremecia ao pensar no que seria a sua vida ao lado de Ernie. Ficava doente s de pensar no assunto, e tentava no o fazer 
muitas vezes.
       E quando ela comeou o novo filme, em junho, filmado em Palm Springs, Spencer encontrava-se em Boston com o seu novo chefe, a angariar apoiantes. Tinham falado 
com um jovem senador e teriam reunies com vrios outros antes de ele regressar a Washington. Elizabeth largou o emprego no Outono. Estava decidida a estudar Direito. 
E sentia-se satisfeita com Spencer. Estava a sair-se bem e o seu pai aprovava o que ele fazia. Isso f-la trat-lo com mais carinho. Ele no tornara a falar no divrcio 
e ela calculava que tivesse voltado ao estado normal.
       Quando o telefone tocou numa fria tarde de Novembro, Elizabeth ainda estava nas aulas e Spencer acabara de chegar do escritrio. Ainda no lera o jornal da 
tarde e nem ouvira as notcias. O seu corao parou quando pegou no telefone e ouviu algum a soluar. A telefonista tinha feito a ligao e ele sabia apenas que 
era uma chamada interurbana. Mas s ouviu a voz dela alguns minutos mais tarde, e ficou sem flego ao aperceber-se que era Crystal. J h mais de um ano que no 
a via.
       - Crystal... s tu?
       Houve um silncio do outro lado da linha, s se ouvindo o crepitar da eletricidade esttica. Por momentos, julgou que a ligao tinha sido cortada, mas depois 
ouviu-a de novo, a chorar de forma histrica e a dizer algo que ele no conseguiu entender. Perguntou-se se ela estaria ferida e estava ansioso por v-la.
       - Onde ests? De onde ests a ligar? - gritou ele em vo, e depois ouviu-a de novo chorar. A nica palavra inteligvel que dissera at  altura fora o nome 
dele. O resto era impossvel de decifrar. Spencer olhou para o relgio e apercebeu-se que eram trs horas da tarde na Califrnia. - Crystal... escuta... tenta controlar-te... 
fala comigo. O que se passa? - Aparentemente, tudo. E ele estava tambm quase a chorar de frustrao. - Crystal, ests a ouvir-me?
       - Sim - respondeu ela com um pequeno gemido, recomeando depois a soluar.
       - O que foi, querida? Onde ests? - Esquecera-se do local onde se encontrava. S conseguia pensar na rapariga do outro lado da linha. Desejou estar junto 
dela para a ajudar, mas graas a Deus ela telefonara-lhe. E se o outro filho da me lhe tinha tocado, ele mat-lo-ia.
       O choro abrandou um pouco e ele ouviu-a tomar flego.
       - Spencer... preciso de ti. - Ele fechou os olhos ao escut-la,  espera do resto. - Estou na priso.
       Abriu imediatamente os olhos, e todo o seu corpo se retesou.
       - Por que motivo?
       Houve uma longa pausa e um soluo com o qual ela quase se engasgou, depois novamente silncio.
       - Homicdio.
       Spencer sentiu a sala andar  roda.
       - Ests a falar a srio? - Sabia que sim, e um arrepio percorreu-o.
       -No fui eu... juro... algum matou o Ernie ontem  noite em Malibu. - Tentou explicar-lhe o resto, mas estava ainda demasiado abalada e ele no conseguiu 
perceb-la. Agarrou instintivamente numa caneta e comeou a tomar notas do pouco que percebia. Ela estava na penitenciria de Los Angeles, e nessa manh haviam encontrado 
o corpo na casa de Malibu. Depois tinham ido a Beverly Hills prend-la por homicdio.
       - H alguma coisa que os leve a pensar que foste tu?
       - No sei... no sei... ontem discutimos na praia... algum nos deve ter visto. Ele bateu-me. - Spencer fez um esgar, quase sentindo ele prprio a pancada. 
- E eu virei-me a ele, as foi s isso... depois deixei-o l ontem  noite. Ele disse que esperava uns amigos para tratar de negcios. No sei quem eles eram.
       Spencer continuava a tomar notas.
       - Haver algum que saiba?
       - No fao idia.
       - Por que motivo discutiram? - Estava a representar na perfeio o seu papel de advogado.
       - De novo por causa do contrato. Quis rescindi-lo. Ele tem-me cedido a vrios estdios como se eu fosse um carro. Fica com o dinheiro todo, e eu comecei a 
estar farta. Nem sequer me deixava escolher os filmes em que queria entrar. Estava apenas a usar-me... - Crystal recomeou a chorar, percebera finalmente o que ele 
era, mas era tarde, demasiado tarde. No podia livrar-se dele e j tinha perdido Spencer. - Odiava-o... mas era incapaz de o matar Spencer. Juro.
       - Podes prov-lo? Algum te viu em Beverly Hills? Foste a algum lado? Telefonaste a amigos?
       - No. Ningum. Nada. Fiquei com uma dor de cabea horrvel depois de ele me ter batido e fui para a cama. A criada estava de folga e nem sequer vi o motorista. 
- Nesse momento ele soube que fora por isso que a tinham prendido. Possua um motivo, nenhum libi e ningum que corroborasse a sua histria. - Spencer - a sua voz 
parecia de novo a de uma criana -, sei que no devia pedir-te isto... se calhar mandas-me dar uma volta... mas no tenho mais ningum a quem recorrer... ajudas-me?
       Houve de novo um longo momento de silncio e ele ouviu-a assoar o nariz. Sabia o que tinha a fazer. No havia deciso a ser tomada, nenhuma alternativa: iria 
 Califrnia.
       - Amanh estou a. Tenho de arranjar algum que te represente.
       - Fazes isso por mim? Oh, cus Spencer... tenho medo. E se no conseguir provar que no estive l? - Parecia de novo uma rapariguinha e ele enterneceu-se. 
Estava to embrenhado na conversa que nem viu entrar a mulher. Ela ficou no vestbulo a ouvir tudo o que ele dizia a Crystal.
       - No te preocupes. Havemos de o provar. Agora escuta, eu no sou criminologista. Precisas do melhor. No brinques com isto, Crystal... por favor. - Receava 
no conseguir ajud-la, e havia muito em jogo. A vida dela. E a dele, indiretamente.
       - S quero que o faas... se tiveres tempo. - Ainda nem pensara nisso, mas ao ouvi-lo ficara mais calma e agora ocorria-lhe que ele talvez no tivesse tempo. 
Calculava que tivesse um emprego, que talvez no conseguisse afastar-se. Mas no era com isso que ele se preocupava. Nunca fora criminologista, apesar de isso muito 
o fascinar e embora a amasse muito.
       - Falamos do assunto quando eu chegar a. Precisas de alguma coisa, entretanto? - Estava de novo aos gritos. Havia interferncias.
       - Sim - respondeu ela sorrindo atravs das lgrimas -, de uma serra para as grades.
       - Linda menina. Havemos de te safar. Agenta-te. Estarei a num instante. E Crystal... - Sorriu ao pensar nela, e nesse momento viu Elizabeth a observ-lo. 
J no pde acabar a frase. - Fiquei satisfeito por me teres telefonado. - Ela tambm ficara, mas sentia-se algo culpada ao faz-lo depois de lhe ter dito, no ltimo 
ano, que a deixasse em paz. Mas no tinha mais ningum. E sempre o amara.
       - Disse-lhes que eras o meu advogado. No h problema, pois no?
       - Nenhum. Diz-lhes que eu to confirmei agora. E no digas mais nada. Nada! Percebeste?
       - Sim. - Mas parecia hesitante. Tinham-lhe feito tantas perguntas. Fora interrogada durante todo o dia, at ficar prestes a ter um ataque de histeria, altura 
em que a haviam deixado ligar ao advogado.
       - Estou a falar a srio. No lhes digas nada. Primeiro quero discutir o assunto contigo. Entendido?
       - Sim. - J parecia mais segura.
       - timo. - Ele estava satisfeito. - Vemo-nos amanh. Vou livrar-te de tudo isso, acredita.
       Ela agradeceu-lhe e comeou de novo a chorar. Pouco depois Spencer desligou. Ficou a olhar para o telefone durante um bocado, e virou-se para ver Elizabeth 
a observ-lo.
       - Sobre que era tudo isso?
       Os seus olhares cruzaram-se durante um longo momento antes de ele responder. Sabia que tinha de dizer-lhe a verdade, ou pelo menos a maior parte. De qualquer 
forma, ela iria descobri-la assim que a histria chegasse aos jornais. Crystal j era conhecida, e isso bastava para que os jornalistas metessem o assunto na primeira 
pgina.
       -  uma velha amiga que est em apuros na Califrnia. - Susteve a respirao quando a viu franzir o sobrolho. - Vou para l amanh.
       - Posso perguntar por qu? - perguntou ela com frieza, acendendo um cigarro.
       - Quero ver o que posso fazer para a ajudar.
       - Posso perguntar quem  essa amiga?
       Ele hesitou uma frao de segundo antes de responder:
       - Chama-se Crystal Wyatt.
       O nome no lhe dizia nada, ao contrrio da expresso dos olhos dele.
       - No me parece que j tenhas falado dela. - Sentou-se com cuidado no sof, mal tirando os olhos do rosto dele. Soube instintivamente que aquela era a mulher 
que se metera entre ambos. - Que tipo de amiga  ela Spencer? Uma velha paixo?
       - Uma mida que eu conhecia. Mas agora j  grande e meteu-se numa enorme embrulhada. - No se sentou ao lado dela; parecia que havia uma parede de gelo a 
separ-los.
       - Ah, sim? E o que tencionas fazer para a ajudar?
       - Defend-la, se possvel, ou arranjar-lhe um bom advogado.
       - De que  ela acusada?
       - De homicdio - respondeu, encarando-a de frente. Houve um longo silncio na sala, e ela assentiu.
       - Compreendo.  grave, no ? Mas ser que j te ocorreu, Sir Galaaz, que no s um criminologista?
       - Foi isso que lhe disse. Vou ver quem consigo encontrar para a defender.
       - Podes faz-lo daqui - retorquiu ela com firmeza, enquanto apagava a beata.
       - No, no posso - ripostou Spencer, abanando a cabea. Apercebeu-se que tinha de l ir. S para a ver. Ela ligara-lhe, desesperada, e no tencionava desiludi-la. 
Era a nica oportunidade que tinha de a ajudar. A vida dela estava em risco, e sentia-se disposto a fazer qualquer coisa para a ajudar, at defend-la se a isso 
fosse obrigado. - Parto amanh de manh.
       - Se fosse a ti, no fazia isso - disse ela, olhando-o com firmeza. Havia naquelas palavras uma ameaa velada, mas ele manteve-se inabalvel.
       - Tenho de o fazer.
       - Se fores, divorcio-me - contraps ela muito calma. Fora isso que ele quisera um ano antes, e agora ela oferecia-lho como ameaa. Mas independentemente do 
que Elizabeth dissesse ou fizesse, Spencer sabia que iria.
       - Lamento ouvir isso.
       - Ah lamentas? - Estava cada vez mais mordaz. - Mas era isso que desejavas. E Miss Wyatt? - Nunca mais se esqueceria daquele nome. - O que sentir ela?
       - A nica coisa que ela sente agora, Elizabeth,  medo.
       - Tinha as palmas das mos midas ao enfrentar a mulher. Haviam finalmente chegado a um ponto de viragem. E demorara bastante tempo. - No sei quanto tempo 
estarei fora.
       - Eu estava a falar a srio. No quero ser envergonhada publicamente pela figura de parvo que irs fazer.
       - Poderemos falar do assunto quando eu regressar. - O divrcio j no era importante.
       - No me parece Spencer.  melhor pensares bem antes de partir. - O silncio da sala envolvia tudo. - Tenho a impresso que tens certas ambies polticas 
e um divrcio no seria muito benfico.
       - Isso soa-me a chantagem.
       - Chama-lhe o que quiseres. Mas isso d que pensar, no d?
       - No tenho alternativa. - Passou as mos plos cabelos e nas suas tmporas havia cs. Tinha trinta e cinco anos, e j h oito que amava Crystal. Agora ela 
precisava de si. No iria decepcion-la, independentemente da atitude de Elizabeth, ou das suas ameaas. - Elizabeth... ela precisa de mim.
       - Ests apaixonado? - Mas ao olh-lo apercebeu-se de que fizera uma pergunta desnecessria.
       - J estive. - Pela primeira vez Spencer estava a ser sincero. Era demasiado tarde para no o ser. O casamento de ambos fora um erro desde o incio. Ele nunca 
deixara de desejar aquilo que no tinha. Aquilo que tivera por breves momentos com Crystal.
       - E agora?
       - No sei. J h muito que no a vejo. Mas no  por isso que vou. Vou porque ela no tem mais ningum.
       - Que comovente. - Elizabeth levantou-se e dirigiu-se para as escadas. - Pensa no que te disse. Antes de partires. Sugiro que lhe arranjes outro advogado.
       Mas quando ela subiu para o quarto Spencer ligou para a companhia de aviao e reservou um bilhete. Encaminhou-se lentamente para o primeiro andar, perguntando-se 
o que lhes iria acontecer. Por agora nenhum deles era importante. S lhe interessava Crystal. O assunto era srio. A vida dela estava em jogo, mas pelo menos vira-se 
livre de Ernesto Salvatore. No entanto, a que preo! Sabia que ela podia ser condenada a pena capital, ou pelo menos a priso perptua.
       Fez a mala e ligou ao chefe, a inform-lo de que se iria ausentar para a Califrnia, a fim de resolver uns assuntos pessoais. Ele mostrou-se compreensivo 
e Spencer disse-lhe que ligaria assim que soubesse em que p se encontravam as coisas. Depois foi para o quarto e encontrou Elizabeth a ler calmamente o jornal. 
Ela olhou para ele com uma expresso estranha, e ao olhar para o jornal Spencer viu que ela se debruava sobre o assassnio de Ernie. Na primeira pgina constava 
uma grande fotografia de Crystal. Parecia menos bela do que na realidade, mas mesmo assim estava deslumbrante, com um chapu de abas largas, um vestido decotado 
e o cabelo louro espalhado plos ombros, os olhos fitando diretamente quem os observasse. Passado um longo momento Elizabeth levantou a cabea. Tinha uma expresso 
estranha. J vira aqueles olhos e lembrava-se bem dela quando olhou para o marido.
       -  a rapariga daquele clube em So Francisco, no ?
       - Lembrara-se. Isso era parte do encanto de Crystal. Depois de a ver uma vez, era impossvel esquec-la. E ele anuiu devagar. A verdade viera ao de cima. 
Mentira-lhe a respeito de Crystal desde o incio, mas isso fora quando dizia a si prprio que estava apaixonado por Elizabeth Barclay. E assentiu devagar enquanto 
a fitava, sentindo pena, remorsos e culpa. Mas o casamento fora um erro desde o incio e ambos o sabiam. - Tem graa, sempre pensei que era ela. Ainda me lembro 
da tua cara naquela noite. Parecia que tinhas sido fulminado por um raio.
       Ento ele sorriu. Foram essas as palavras que empregara h muito, ao falar daquilo que desejava. J nessa altura estava a pensar nela, quando dissera a Elizabeth 
em Palm Beach que queria ouvir troves e ver relmpagos.
       - Sempre vais? - perguntou ela.
       - Sim.
       Ela concordou e apagou a luz. E quando se deitou ao lado dela Spencer s conseguiu pensar em Crystal presa na Califrnia.
       
Captulo 33
       
       O porto abriu-se rangendo de forma desagradvel, e ele foi conduzido a um pequeno aposento com uma janela bastante ampla, uma mesa de madeira j velha e 
duas cadeiras. O guarda fechou a porta atrs de si quando saiu. Era horrvel estar ali, e ficou atordoado quando viu Crystal, trajando uma bata azul, vir segura 
por um guarda, os braos atrs das costas, presos por algemas. Os olhos dela estavam muito abertos devido ao medo, e ele quase desfaleceu quando os carcereiros rodaram 
a chave, libertando-lhe as mos, e a deixaram depois com ele. Mas como seu advogado Spencer no ousava sequer beij-la. S podia olhar para ela e sentir-se invadido 
pela mesma vaga de amor que sempre o assolara. Quando os olhos de Crystal encontraram os seus, no duvidou que ela o amava. O ano que passara pareceu desvanecer-se 
e ele sentiu-se forte ao lado dela.
       Tambm suspeitava que a sala estava sob escuta e manteve a voz baixa, enquanto a observava e lhe segurava na mo, sem lhe dizer aquilo que sentia. Ela agarrou-o 
com firmeza e os seus olhos encheram-se de lgrimas. Sentira muito a falta dele e o ltimo ano fora um pesadelo.
       - Ests bem?
       Ela assentiu e sentou-se, ainda agarrada  mo dele, e Spencer aguardou alguns minutos antes de lhe fazer as perguntas. Falaram de tudo, e ele ficou horrorizado 
com a histria. Salvatore mantivera-a como uma escrava, bem protegida, na proverbial jaula dourada, mas nos ltimos meses ela fora sua prisioneira e s podia fazer 
o que ele autorizava: os filmes, as festas, as aparies em pblico, as sadas. Passava o resto do tempo em casa, sob vigilncia cerrada. E lutara constantemente 
contra ele. Mas no era uma ameaa. No houvera outro homem na sua vida desde Spencer.
       - Algum vos viu discutir?
       - As criadas - respondeu ela. - O motorista.
       - E os amigos dele?
       - Alguns. Ernie levava a maior parte deles para Malibu.
       Mantinha os seus assuntos muito bem guardados. - E ela tambm suspeitava que ele se encontrava com outras mulheres. Abusara dela vrias vezes nos ltimos 
meses, e deixara-a com um olho negro, que a levara a ficar afastada das filmagens durante duas semanas; a notcia chegara aos jornais. Disseram que ela tivera um 
acidente e que tinha o rosto demasiado ferido para poder trabalhar. Em vez disso trabalhara na banda sonora, uma vez que j comeara a cantar nos seus filmes.
       Spencer ficou abalado com aquela histria.
       - Porque no me telefonaste?
       - Ele disse-me que te mataria se eu voltasse a falar contigo. Soube quem eras assim que te viu. Foi por isso... que te liguei o ano passado a dizer que tudo 
acabara. Tinha medo que te acontecesse alguma coisa. - Olhou-o com tristeza, sabendo a dor que causara, mas ele rejubilou. Afinal, ela amava-o e acabara com tudo 
para o proteger. Os seus olhos estavam cheios de amor quando a olhou sorrindo, e ela continuou, dizendo que Ernie tambm ameaara mat-la, mais do que uma vez, em 
especial nos ltimos tempos, quando ela discutia por causa do contrato. - O dinheiro ia todo para ele. Todo. Eu s recebia algum para comprar roupas. - "Tal como 
uma prostituta com o seu chulo", pensou Spencer, mas no o disse, limitando-se a ficar sentado, a ouvi-la e a tomar notas quando ela dizia alguma coisa que ele considerava 
importante. Fez-lhe perguntas acerca de datas, acontecimentos, pessoas e lugares. Fora uma poca terrvel para ela, uma vida construda sobre um pesadelo. - Eu costumava 
pensar que lhe devia muito. Nunca percebi o que ele fazia.
       - Olhou para Spencer e o corao dele derreteu-se ao ouvi-la. Ainda mais agora que sabia por que motivo ela lhe tinha dito para no vir  Califrnia. - Acho 
que ele sempre pensou que eu era propriedade sua. Como um objeto. Algo que ele comprou por bom preo e com o qual fez muito dinheiro, tal como um bom investimento. 
E a princpio deixava-me pensar que fazia tudo por mim. - Olhou para Spencer com amargura: - Eu achava que lhe devia muito. Mas ele tirou-me tudo o que eu tinha 
para dar, at te tirou de mim.
       Spencer lembrava-se disso muito bem.
       - E depois?
       - Tivemos inmeras discusses.
       - Em pblico?
       - s vezes. - Foi franca com ele. - Uma vez disse-lhe que iria rescindir o meu contrato e procurar um agente. Quase me matou. Acho que estava mais algum 
metido no negcio, e ele receava a reao dessas pessoas. Mas nunca o soube, porque nunca mais tornei a ver o meu contrato e fui muito estpida por no o ter lido 
no dia em que o assinei.
       - At deixara de falar com Harry e Pearl. Salvatore acabara por separ-la de toda a gente. S lhe era permitido trabalhar, entrando em filmes cada vez mais 
importantes e melhores. O investimento dera bom resultado. Tal como um cavalo de corrida campeo...
       - Discutiste com ele na noite em que morreu?
       - S tivemos aquela discusso na praia de que j te falei. Mas dessa vez ripostei. Com fora. Creio que ele tinha a orelha a sangrar quando regressei a casa, 
mas no me importei nada. Odiava-o. Spencer. Era um homem mau e acho que seria mesmo capaz de me matar.
       - Algum o viu a sangrar? Ou viu quando tu lhe bateste?
       - Acho que um vizinho. Estava a passear na praia com o co. Contou  Polcia que me vira agredir Ernie com um pau. Mas no foi assim, eu tinha na mo um bocado 
de madeira que apanhara do cho, mas bati-lhe com a outra mo.
       - Spencer assentiu e tomou notas, ouvindo-a, enquanto um guarda passava junto da janela.
       - E depois?
       - Fui para casa, e ele bateu-me quando entrou.
       - Deixou-te alguma marca? Ela abanou a cabea.
       - Desta vez, no. Ele tinha muito cuidado com isso. No queria impedir-me de trabalhar. Se eu no trabalhasse, ele e os amigos perderiam dinheiro.
       - Quem eram eles? Sabes? - Mas ela abanou a cabea.
       - O que aconteceu depois disso? - Estava a reconstruir a histria com todo o cuidado. Queria pormenores exatos quando pedisse a um advogado para a defender. 
Queria o melhor que houvesse e lamentava nunca se ter ocupado de um caso criminal anteriormente. Ela precisava de algum com qualidade. E ele iria arranjar o melhor.
       Crystal suspirou e assoou o nariz a um leno branco que ele lhe estendeu, depois olhou-o com gratido e respirou fundo enquanto fechava os olhos e se tentava 
recordar do que acontecera.
       - No sei... andei de um lado para o outro l em casa... discutimos durante bastante tempo. Parti um candeeiro.
       - Como?
       - Atirei-lho.
       - Acertaste-lhe?
       - No - respondeu ela sorrindo com tristeza por entre as lgrimas -, falhei. - Depois o seu sorriso esmoreceu. - Em seguida, disse-me que estava  espera 
de algum e que queria que eu voltasse para a casa de Beverly Hills.
       - Disse quem era?
       - Nunca o fez - respondeu ela abanando a cabea.
       - Algum te viu sair? Um vizinho? Uma criada?
       - No estava l ningum. Encontrvamo-nos sozinhos.
       - A que horas saste de l?
       - Por volta das oito. Tinha de trabalhar no dia seguinte. Nesse dia estivera de folga. Mas queria ir para a cama. Ele disse que passaria a noite em Malibu. 
E depois... nunca mais ouvi nada dele. Pensei que estava tudo bem. Sa para trabalhar s cinco, o motorista levou-me como de costume. - Depois falou a soluar: - 
Ento a Polcia apareceu no estdio s nove... disseram... disseram que ele morrera. Tinha sido encontrado com cinco balas na cabea, e pensavam que havia morrido 
por volta da meia-noite.
       - Encontraram a arma?
       Ela tornou a anuir, com um ar assustado.
       - Sim... estava na praia. Algum tentara livrar-se dela, mas no a tinham lanado suficientemente longe, creio eu... e havia pegadas de uma mulher na praia... 
e Spencer... juro que no o matei! - exclamou ela a soluar.
       Ele apertou-lhe a mo.
       - J tinhas visto aquela arma?
       Crystal assentiu.
       - Era do Ernie. Vi-a na secretria dele algumas vezes, mas creio que ele deve ter receado que eu a utilizasse e por isso nunca mais a vi depois disso, at... 
at que a Polcia ma mostrou ontem de manh.
       - Conheces algum que possa ter querido mat-lo?
       - No sei... no sei... -  claro que ela sofrera vrias provocaes no ltimo ano, mas Spencer sabia que isso no significava que ela o tivesse morto. E 
com o tipo de conhecimentos que suspeitava que Salvatore tivera, poderia ter sido qualquer pessoa. Algum que ele enganara com um contrato, uma mulher que tivesse 
abandonado, um homem a quem ele ganhara s cartas, um subalterno que o odiasse, ou at mesmo os seus chefes. Mas Spencer tambm sabia que quem quer que tivesse sido 
o culpado, se fizesse parte do submundo, seria tudo muito abafado e o verdadeiro criminoso nunca seria descoberto. Tinham deixado Crystal arcar com as culpas. E 
o lao servia-lhe muito bem em torno do pescoo.
       - O que te parece que vai acontecer? - murmurou ela. Spencer no queria responder quela pergunta. Se no conseguisse saf-la, ela poderia apanhar priso 
perptua, ou pior. Nem queria pensar no assunto. S sabia que no podia permitir que isso acontecesse.
       - No te vou mentir. Vai ser um caso difcil. Tiveste uma oportunidade e um motivo, e no possuis libi. Isso no  nada bom. E muitas pessoas sabiam dos 
teus problemas com ele, qualquer pessoa podia odi-lo. Quem me dera que algum te tivesse visto sair ou chegar  casa de Beverly Hills. Tens a certeza que ningum 
te viu?
       - Creio que no. No imagino quem possa ter visto.
       - Bem, pensa no assunto. E vamos precisar de um bom detetive. - J decidira pagar todas as despesas. Sabia que ela no tinha um tosto. Salvatore ficara com 
tudo.
       - Que vais fazer agora? - indagou ela com olhos receosos. Tinha de regressar  cela, o que a apavorava. Todos os guardas tinham olhado para ela e vrias detidas 
haviam mostrado um interesse considervel pela sua pequena "estrela de cinema", como lhe chamavam. Crystal Wyatt era notcia na Penitenciria de Los Angeles, e Spencer 
queria libert-la o mais depressa possvel. Mas todas as tentativas de lhe pagar a fiana nessa tarde foram infrutferas. Tentou que as acusaes passassem para 
homicdio involuntrio, mas consideravam-no homicdio premeditado e ela teria de aguardar na priso at ao julgamento. Spencer disse-lhe que tinha de tentar agentar-se 
o melhor possvel ali dentro, e depois regressou ao hotel para fazer alguns telefonemas. Falou com dois colegas da Faculdade de Direito que lhe deram os nomes dos 
melhores criminologistas de Los Angeles. Mas a maior parte deles no se mostrou muito entusiasmada com o caso, era uma coisa corriqueira, e mais do que um deu a 
entender que a histria do mafioso e da namorada era demasiado banal. Quando desligou Spencer estava furioso, e ficou a olhar para o ar. A deciso fora tomada por 
ele, no teria confiado Crystal a nenhum daqueles homens, iria ele prprio ocupar-se do caso, e s rezava para que conseguisse valer a Crystal. Tinham tudo em risco. 
A vida dela e o futuro de ambos.
       Nessa noite ligou a Elizabeth e ao departamento do Governo onde trabalhava, e disse-lhes que ficaria at ao julgamento em Los Angeles. O chefe no gostou 
nada do que ouviu e Elizabeth ficou furiosa. Spencer lembrava-se perfeitamente das ameaas que ela fizera antes de ele partir, mas agora nada disso era importante. 
A vida de Crystal encontrava-se em perigo, e ele estava decidido a defend-la.
       - E exatamente quanto tempo vai ser Spencer? - perguntou Elizabeth quando ele lhe disse que assumira a defesa de Crystal.
       - Ainda no sei. Ela tem o direito de ser julgada daqui a trinta dias e o julgamento poder levar semanas. Acho que vou c ficar durante dois meses, talvez 
mais. - Suspirou e esticou-se no sof enquanto conversavam. Fora um dia interminvel, e alm de ter registrado a histria de Crystal, no conseguira mais nada.
       Elizabeth ficou furiosa com o tempo que ele tencionava ficar na Califrnia.
       - Presumo que no tenciones vir a casa pelo Natal. - Faltava apenas um ms e, como de costume, eram esperados em Palm Beach.
       - No pensei que ainda fosse bem-vindo.
       - No s, mas o que  que achas que vou dizer aos meus pais? - Ento era esse o problema. Salvar as aparncias era o mais importante, em vez de salvar o casamento. 
Mas no tinham um casamento que pudesse ser salvo e agora ele sabia a verdade sobre Crystal.
       - No me parece que tenhas de dizer-lhes algo. Vai tudo aparecer nos jornais durante o ms que vem. - Tinha sido fotografado por vrios jornalistas quando 
sara da priso e contava ver-se nos jornais da manh seguinte.
       - Bestial. E o teu emprego? Acho que ainda no pensaste nisso. - Fora tambm o pai dela quem lho arranjara. At parecia que lhe devia tudo, incluindo a filha.
       - Pedi uma licena sem vencimento, o Governo ainda deve estar no mesmo stio quando eu regressar, e se me despedirem, nada posso fazer. Terei de procurar 
outra coisa quando voltar, no ? - Se  que alguma vez iria voltar. Mas tudo isso poderia ser decidido mais tarde.
       - Fazes tudo parecer muito fcil.
       - Mas no . No entanto, estou a fazer os possveis por melhorar uma situao desagradvel. A vida da rapariga est em perigo, Elizabeth. E no vou virar-lhe 
as costas.
       - J sei por qu. - Hesitou e ele suspirou. - Ela pode matar-te.
       - Boa noite, Elizabeth. Ligo-te daqui a uns dias.
       - No o faas. Estou nas aulas e no fim-de-semana vou esquiar com uns amigos. E depois vou passar o Dia de Ao de Graas com os meus pas.
       - Manda-lhes cumprimentos. - Estava a ser sarcstico, mas ela no achou graa. Spencer j fora demasiado longe e Elizabeth estava quase decidida a no permitir 
que ele voltasse, mesmo que ele o quisesse.
       - Vai pro Inferno!
       - Obrigado. - L, pelo menos, poderia juntar-se a Crystal.
       Passou dias a trabalhar com ela, a verificar a sua histria, interrogando-a e contra-interrogando-a, mas ouvia sempre a mesma coisa. No terceiro dia soube 
que acreditava nela. Foi a vrias audincias em lugar de Crystal e contratou um detetive para verificar tudo, mas as coisas passaram-se como ela dissera, ningum 
a vira sair nem entrar, e a nica testemunha dissera que ela o agredira com um pau na praia, tendo ido ao ponto de dizer que ela no ficara abalada ao ver Salvatore 
sangrar. No era nada agradvel. E no havia forma de eludir o fato de ela haver tido oportunidade e motivo, para alm de no poder provar o seu paradeiro na noite 
do crime.
       Cada dia que passava Crystal ficava mais magra, e quando a via Spencer achava que os seus olhos estavam maiores. Parecia atordoada com tudo aquilo que lhe 
acontecera, e no dia de Natal Spencer sofreu bastante ao deix-la na priso para partilhar o magro peru com as outras reclusas. Ainda no tinham ousado dizer nada 
um ao outro sobre os seus sentimentos. Mas ele segurou-lhe na mo antes de sair, e os olhos de ambos diziam tudo. Estavam unidos.
       Depois de alguns adiamentos, o julgamento fora marcado para 9 de Janeiro. No fora Spencer quem os pedira. Queria acabar com aquilo tudo o mais rapidamente 
possvel. E a histria que tinham alinhavado era a da autodefesa. Era a nica possibilidade que Crystal tinha e ele iria incluir no jri todas as mulheres que conseguisse.
       Ligou para Palm Beach, para Elizabeth, na noite da Consoada, mas ela recusou falar com ele. Priscilla Barclay mostrou-se muito distante e disse-lhe com alguma 
frieza que lera sobre ele nos jornais. Mas as suas explicaes no serviram de nada. O mesmo aconteceu quando ligou aos pais na manh do dia de Natal.
       - Que raio ests a fazer? - perguntou o juiz Hill, indo direto ao assunto. - No s um criminologista. Vais perder o caso. - Mas era precisamente isso que 
Spencer temia.
       - No consegui que algum suficientemente bom aceitasse o caso to em cima da hora.
       - Isso no  razo para te pores a brincar.
       - No estou, pai. Estou a fazer o melhor que sei.
       - A Elizabeth no deve estar muito satisfeita.
       - E no est.
       - No percebo. - O pai abanou a cabea, abalado, quando Spencer lhe desejou um feliz Natal. Perguntara-se mais do que uma vez se seria aquela a rapariga de 
que Spencer falara quando regressara da Coria. Era apenas um palpite, mas algo lhe dizia que sim, e se fosse esse o caso, iria haver sarilhos com os Barclay. Perguntou-se 
se o filho saberia o que estava a fazer. Mas de vez em quando Spencer ligava-lhe e ele dava-lhe conselhos. Tambm era da opinio que a autodefesa era a nica possibilidade, 
embora no fosse muito grande.
       Demoraram dez dias a escolher os jurados, mas no m Spencer conseguiu o que queria. Tinha sete mulheres e cinco homens, e todos tremeriam ao ouvir os abusos 
de Salvatore. Spencer comprou-lhe roupas para ela usar no tribunal, para que parecesse a rapariga de anos antes, inocente e pura. Crystal no tinha de fingir-se 
assustada, pois estava apavorada ao lado dele na sala de audincias. A acusao foi direta e brutal. Falou de uma rapariga que fora para Hollywood disposta a fazer 
tudo para conseguir o que queria, incluindo dormir com um homem que tinha o dobro da sua idade e que por acaso conhecia gente no muito recomendvel. No tentou 
ocultar quem fora Salvatore, em vez disso usou esse fato. E o promotor pblico saiu-se bem. Apontou para Crystal do outro lado da sala: f-la parecer uma prostituta 
que colecionava roupas caras, pulseiras de diamantes e que era gananciosa. Sara-se muito bem a viver com a vtima, salientou. Assim como a sua carreira. Graas 
ao homem que matara a sangue-frio, era agora uma atriz relativamente conhecida. Enumerou todos os filmes em que ela entrara, fazendo parecer que ela nada fizera 
para merecer isso. Depois pintou um quadro de violncia, uma rixa familiar que conduzira  morte do irmo, a levara a fugir de casa aos dezessete anos e a obter 
emprego num clube de segunda categoria em Los Angeles com o propsito de conseguir apanhar algum que a pudesse ajudar a conseguir o que queria. E quando essa pessoa 
deixara de servir os seus objetivos, querendo rescindir o contrato, ela matara-a.
       No entanto Spencer estava bem preparado e no poupou dinheiro para conseguir trazer a tribunal pessoas que a defendessem. Pearl falou da sua inocncia, do 
seu trabalho esforado, da sua moral. Harry descreveu-a no como uma cantora num bar de segunda, mas como um doce anjo. E Crystal chorou quando eles depuseram, olhando-os 
cheia de gratido. O detetive que Spencer contratara desencantara todos os empregados de mesa, todos os criados de Hollywood que tinham visto os maus tratos de Salvatore. 
Falou-se de violaes na casa de Malibu, de um contrato que ela nunca compreendera, dos espancamentos, dos insultos e dos abusos de toda a espcie. Spencer at falou 
da sua violao ainda criana, enquanto Crystal olhava muito infeliz para as mos, lembrando-se do episdio no celeiro com Tom Parker. Era uma rapariga que enfrentara 
vrios reveses, mas que sempre conseguira sobreviver, uma rapariga que trabalhara com afinco, que se sara bem, que nunca fizera mal a ningum, at que Ernie tentara 
novamente viol-la, at que ele lhe batera, e a ameaara, e em autodefesa ela o matara. No valia a pena dizer que ela no o matara. Spencer sabia que perderia o 
caso se o fizesse, por isso apresentou-lhes o retrato de um monstro. Um monstro que tentara destruir aquela rapariga, sem famlia, sem amigos, sem ningum no mundo 
que a defendesse. E o que ele disse fez com que os jurados odiassem Ernie pelo que ele fizera a Crystal. No ltimo dia ela falou em sua defesa, parecendo to jovem 
e inocente no vestido cinzento simples que todos os jurados a olharam enlevados. Quando Spencer acabou a sua argumentao, rezou para que os tivesse conquistado.
       Era um caso bastante comovente, mas ainda assim o jri deliberou durante dois dias, revendo as provas, discutindo. Havia dois homens que ainda a consideravam 
culpada de homicdio premeditado. Entretanto, Spencer andava de um lado para o outro plos corredores com Crystal  espera do veredicto, mal ousando olhar para ela. 
Se tivesse perdido o caso, a vida dela chegaria ao fim. Era agonizante estar ali junto dela. Crystal pouco falava, olhando-o com uns olhos azuis muito abertos, e 
quando o oficial de diligncias os mandou entrar, os joelhos dela tremiam tanto que mal conseguia acompanhar Spencer. O juiz mandou-a levantar-se, virou-se depois 
para o jri e perguntou qual o veredicto a que este chegara. Crystal fechou os olhos e esperou. No conseguia pensar enquanto aguardava. Fora acusada de homicdio 
premeditado e no havia alternativa: ou era inocente ou era culpada. Tinha planeado a morte dele? Tencionara mat-lo? Sabia o que estava a fazer quando o alvejou 
a sangue-frio? Ou t-la-ia ele ameaado, estaria ela a lutar pela vida, t-la-ia ele finalmente feito disparar? Se assim fosse, ela estava inocente, embora as pessoas 
fossem continuar a pensar que o matara. Encolhera-se perante essa perspectiva, e insistira junto de Spencer que no o assassinara, que nem sequer estivera presente 
quando ele fora alvejado. Mas Spencer sabia que nem podia tocar nisso. Tinha de limitar-se a construir uma histria que apresentasse Crystal como vtima, e no Ernie.
       - Qual o veredicto a que chegaram, senhores jurados? Culpada ou inocente de homicdio premeditado? - Era tudo muito simples, e houve uma enorme pausa enquanto 
todos aguardaram.
       O porta-voz do jri pigarreou e olhou para ela enquanto Spencer tentava ler-lhe no rosto. Estaria ele satisfeito? Ou lamentava aquilo que iria ter de fazer? 
No viu indcios de nada no rosto do homem.
       - Inocente, meritssimo.
       Tornou a olhar para Crystal com um sorriso tmido enquanto o juiz batia com o martelo e dava a sesso por encerrada, e Crystal caiu nos braos de Spencer. 
Quase desmaiara. Fora claramente uma situao de autodefesa, disseram eles. Crystal estava livre. Apesar disso, via-se destinada a carregar para o resto da vida 
o estigma de homicdio. Estava livre para viver a sua vida, e sem pensar Spencer abraou-a. No ousara tocar-lhe naqueles dois meses, mas agora abraava-a enquanto 
o tribunal enlouquecia em redor dos dois. Os reprteres entraram e disparavam flashes por toda a parte e Spencer saiu dali com ela o mais rapidamente que pde. Tinha 
um carro com motorista  espera e tiveram de abrir caminho por entre a multido. Fora um caso sensacional e quem quer que tivesse morto Ernie estava safo. Crystal 
assumira o homicdio, mas estava livre. Spencer conseguira-o.
       Ela ainda chorava, mal acreditando na sorte, quando se afastaram do edifcio do tribunal. Deixara os seus poucos haveres na priso. No queria voltar a v-los. 
Nunca mais queria ver Hollywood nem as coisas que Ernie lhe dera. Queria apenas ir-se embora. Pararam no hotel de Spencer por alguns minutos, ele fez a mala e uma 
hora mais tarde iam a caminho de So Francisco num carro alugado.
       - Mal posso acreditar - murmurou ela enquanto ele conduzia rumo a norte. - Estou livre.
       O mundo nunca lhe parecera to doce. E numa tarde de Fevereiro, com Spencer a seu lado, deixou Hollywood dois anos depois de l ter chegado.
       
Captulo 34
       
       Estavam j a trinta quilmetros da cidade quando Spencer encostou o carro na berma e parou. Ficou sentado a olhar para Crystal e de repente ela sorriu. Acabara 
tudo, o pesadelo terminara e ele salvara-lhe a vida. Spencer tambm sorriu e puxou-a para junto de si com tanta fora que Crystal ficou sem flego por alguns momentos.
       - Meu Deus, Crystal, conseguimos!
       Ela ria e chorava ao mesmo tempo e afastou-se um pouco para o olhar, tornando a mergulhar nos braos dele, sabendo que nunca mais haveria de querer deix-los.
       - Tu  que conseguiste. Eu limitei-me a ficar sentada, cheia de medo.
       - Tambm eu tive medo - admitiu ele, agarrado a ela. Depois recostou-se no banco e olhou-a como no ousara olh-la desde que chegara  Califrnia. Mas ali 
no havia ningum a observ-los. Estavam finalmente ss. E ele viera a olhar pelo espelho retrovisor desde o hotel para se certificar de que no eram seguidos por 
jornalistas. - Nunca tive tanto medo na minha vida. - Nem queria pensar no que teria acontecido se ela tivesse sido considerada culpada. Mas no fora. E agora tudo 
acabara. Precisavam ambos de recuperar o flego, e Spencer desejava passar algum tempo com ela para decidirem o que iriam fazer com a sua vida. De repente, desatou 
a rir. Haviam tido tanta pressa em sair da cidade que nem sequer sabiam para onde se dirigiam. - Para onde queres ir? - Instintivamente, ele dirigira-se para So 
Francisco.
       - No sei. - Ela ainda se encontrava em estado de choque. Olhou para ele. Quatro horas antes, a sua vida ainda estava em perigo e agora tinham o futuro pela 
frente. Levantou o rosto para o sol de Inverno, envergando o vestido simples que ele lhe comprara. - Apetece-me ficar aqui sentada um pouco a recuperar o flego. 
Nunca pensei que voltaria a estar c fora.
       Ele absteve-se de dizer que tambm chegara a pens-lo.
       Do hotel, ligara ao pai para lhe dizer que ganhara o caso, e o pai dera-lhe os parabns, tendo-se mostrado ansioso por ler tudo nos jornais. Perguntara a 
Spencer quando  que tencionava regressar, e ele respondera que ainda no sabia. Precisavam ambos de recuperar o flego e era agradvel estarem longe da Polcia 
e dos jornalistas. Tinham-no enlouquecido durante o julgamento. Perguntou a Crystal se ela iria ter saudades.
       - De Hollywood? - Pensou um pouco, e depois abanou a cabea. - Nem por isso. O trabalho... as canes... a representao que fiz. Gostava bastante de tudo. 
Mas o resto  muito vazio. - E pagara um preo demasiado elevado, Quase a vida, por culpa de Ernie. Mesmo depois de morto ele quase acabara com ela. - Nunca mais 
poderei regressar.
       - Porque no? Poders um dia, se o desejares. - Mas perceberia se ela no o quisesse.
       - No, no posso. A clusula da moralidade no permite que ningum contrate uma assassina para um filme. - Soltou uma gargalhada, mas era uma gargalhada forada. 
Ele tornou a ligar o carro e ela olhou pela janela. O mundo nunca lhe parecera to doce, e o que lhe chamava mais a ateno eram as cores. Tudo era to verde e to 
azul e to belo! - Devo-te a vida - disse ela a Spencer. - Mas creio que j sabes isso. - Tocou-lhe na mo e aproximou-se dele, parecendo de repente muito jovem. 
A tenso desaparecera, tinha soltado o cabelo e apenas os seus olhos deixavam ainda antever algum medo. Depois, enquanto lhe tocava ao de leve o rosto Spencer inclinou-se 
e beijou-a.
       - Amo-te muito. Teria morrido se te tivesse acontecido alguma coisa. - Ela agarrou-o com fora e ele passou-lhe um brao por cima dos ombros.
       - No sei o que teria feito se... - Mas Crystal no conseguiu acabar a frase.
       - No penses mais nisso Crystal - disse Spencer, olhando para a estrada e apertando a jovem nos braos. -J acabou tudo.
       Enquanto se dirigiam para So Francisco falaram do que ela iria fazer. Ainda no pensara no assunto. S quisera sair de Los Angeles o mais rapidamente possvel. 
Apetecia-lhe visitar Harry e Pearl e estar com Spencer. Tinham muito que conversar, especialmente agora que ele sabia que ela terminara tudo no ano anterior por 
causa das ameaas de Ernie e no porque deixara de o amar.
       Chegaram a So Francisco s dez horas da noite e foram direito ao Harry's. Harry j ouvira as notcias. Abraaram-se e choraram, ele ofereceu-lhes bebidas 
e depois disso Spencer levou-a para o Hotel Fermont. Reservaram dois quartos, para o caso de algum ligar  imprensa. Eram lado a lado, pelo que ele ficou satisfeito. 
Crystal ficou  porta a olhar para ele; parecia-lhe que os joelhos se iriam dobrar. Ele agarrou-a e deitou-a na cama. E teve-a nos braos durante horas, redescobrindo 
tudo aquilo de que se recordavam. E quando finalmente ela adormeceu Spencer apagou a luz. Crystal s acordou de manh. Ele j estava a p, e tinha caf e croissants 
 espera. Sorriu-lhe quando ela se espreguiou e voltou a enfiar-se na cama a seu lado.
       - Bom dia, "Bela Adormecida". Sentes-te melhor? J ligara para o escritrio e tivera uma longa conversa com o chefe. O que este dissera no fora nenhuma surpresa, 
e ele nada lamentava. O chefe achava que a sensao que Spencer causara nos ltimos dois meses era incompatvel com um cargo no Governo, o que lhes causara um certo 
embarao. Esperavam que ele entendesse, e lamentavam bastante que tudo aquilo fosse aborrecer o juiz Barclay. Mas Spencer sentira uma vaga de alvio ao ouvir aquelas 
palavras. No falou do assunto a Crystal. Sabia que ela iria ficar aborrecida. E o nico recado que recebera fora um, bastante misterioso, proveniente de um jovem 
senador da Califrnia. O mais estranho era que Spencer nem sequer o conhecia.
       Ficaram na cama e tornaram a falar do julgamento. Durante o pequeno-almoo ele mostrou-lhe os jornais. O assunto era primeira pgina em todos, e Crystal teve 
medo de ser reconhecida quando sasse.
       -  uma maneira muito estranha de ficar famosa - disse ela com um sorriso enquanto comiam os croissants e bebiam o excelente caf. Ento Spencer fez uma sugesto 
que a deixou pensativa. Queria ir at ao vale visitar Boyd e Hiroko. Mas Crystal no queria ir. Sabia que iria ser demasiado doloroso. - No quero voltar a ver o 
rancho. - No iria suportar. Tinha a certeza que Becky j h muito se fora embora, Tom tambm, mas achava que a me ainda l estava. E l encontravam-se muitas recordaes 
dolorosas. Mas com Spencer a seu lado, ela admitiu que as coisas seriam diferentes. - Ento e tu? - perguntou ela, preocupada. - No tens de voltar para casa? - 
Sabia que ele ainda no ligara a Elizabeth desde que haviam chegado a So Francisco.
       Spencer no sabia o que dizer. J no falavam h semanas. S queria encarar o assunto depois do julgamento. E agora no queria deixar Crystal.
       - No estou com pressa. - Ainda no lhe dissera que perdera o emprego. Mas era um preo a pagar por ter salvo Crystal.
       Nessa tarde passearam junto ao cais e ela comprou algumas roupas. Restava pouco do dinheiro que ganhara em Los Angeles. Ernie absorvera-o todo e ela deixara 
as suas coisas na casa de Beverly Hills. No as queria, nem lhe apetecia vend-las, mas teria de arranjar emprego em breve. No podia permitir que Spencer a sustentasse 
durante o resto da vida. Voltava ao ponto em que comeara havia alguns anos, sem casa e sem um tosto. Tinha mais quando chegara a casa da Sra. Castagna. Mas conseguira 
alcanar o seu sonho de Hollywood e saboreara-o durante momentos. Pelo menos agora tinha Spencer. Por um momento, ou por um dia. Sabia que ele teria de regressar 
a Washington. Mas sentia-se grata por todos os momentos que passavam juntos. Durante o julgamento no tinham falado de nada. E sob o olhar atento dos guardas, com 
os fotgrafos em toda a parte, ele no ousara tocar nela. Mas agora tinham alguns dias pela frente em que podiam desfrutar-se.
       Regressaram ao hotel j ao fim da tarde e depois de Crystal ver que algumas pessoas a olhavam no trio, resolveu que seria melhor comerem nos quartos. Agora 
muita gente a conhecia, e a maior parte pelas razes erradas. Tinham falado de muitas coisas nesse dia, de Washington, do seu trabalho e da sua vida l. De como 
ele acabara por gostar de poltica e do mundo governamental, admitindo que isso o surpreendera. Crystal falou das pessoas que conhecera em Hollywood, das estrelas, 
do trabalho rduo. E confessou que apesar de Ernie, acabara por gostar.
       - Acho que um dia iria ser uma boa atriz - disse ela depois de ele ter encomendado jantar para os dois. Estavam sentados muito juntos vestindo apenas os roupes 
comprados nessa tarde no I. Magnin. Sentiam-se bem perto um do outro e a intimidade de outrora sobrevivera a tudo o que se interpusera entre os dois.
       - J eras boa antes de teres ido para l - retorquiu Spencer. Ainda se lembrava da voz dela e da forma como cantava no Harry's. - Talvez possas regressar 
um dia depois de as coisas terem acalmado.
       - No sei se isso me agradaria. - Falava com suavidade, e havia nos seus olhos uma enorme tristeza. - A vida l  muito dura. - Mas se no queria Hollywood, 
para onde iria? No sabia fazer mais nada a no ser representar e cantar. E agora tinha medo de mostrar a cara. Todos a conheciam. Harry voltara-lhe a oferecer o 
seu velho emprego na vspera, mas ela no o aceitara.
       - As pessoas no se iro recordar do julgamento para sempre. A recordao ir desaparecendo. - De repente, Spencer lembrou-se do telefonema do senador e perguntou-se 
o que quereria ele.
       O jantar veio em tabuleiros de prata, mas Crystal debicou a comida. Ele tocou-lhe suavemente na mo e perguntou-lhe em que estava a pensar.
       Ela sorriu, com os olhos rasos de lgrimas, mas depois soltou uma gargalhada.
       - Estava a pensar que gostaria de ir para casa, mas no tenho nenhuma!
       Ele tambm se riu. Era verdade. Ela no tinha para onde ir, nem ningum que a esperasse. Pearl oferecera-lhe um quarto, mas Crystal no queria ser uma sobrecarga 
e ainda no decidira se iria ficar em So Francisco. Muitos dos seus planos iriam depender de Spencer.
       - Vamos at ao vale. No temos de ficar l. Paramos de visita ao Boyd e  Hiroko e depois seguimos para um lado qualquer. Precisas de tempo para pensar. S 
passaram dois dias Crystal. Partamos amanh.
       Crystal hesitou durante bastante tempo, olhando para ele, e depois anuiu.
       - Ento e tu? No podes ficar por c a tomar conta de mim para sempre!
       - Gostaria muito de o fazer - murmurou-lhe ele ao ouvido na penumbra do quarto.
       - Tens a tua vida em Washington, Spencer, no  verdade? Pelo menos o que resta dela depois de eu te ter arrastado de l para fora durante trs meses. Acho 
que  um preo muito alto a pagar. - Pensava em Elizabeth, e no percebia muito bem aquele casamento. Desconhecia em que p estava a relao de ambos. Ele nunca 
falava no assunto, ou ento fazia-o muito raramente. Contudo, ela sabia que ainda continuava casado. Ernie desaparecera, ela j estava livre, mas no era esse o 
caso de Spencer. O espectro da mulher dele ainda pairava entre ambos, ou pelo menos na mente de Crystal. Spencer ligara-lhe uma vez, e deixara recado  criada de 
que se encontrava em So Francisco, embora omitindo que se encontrava no Hotel Fermont. Ainda no estava pronto para falar com ela. No queria que ela entrasse em 
pnico se ligasse para o hotel onde ele ficara em Los Angeles e descobrisse que ele sara de l a seguir  leitura do veredicto. Sabia exatamente o que ela iria 
pensar e no lhe apetecia admiti-lo ou neg-lo. Da forma como estavam as coisas entre ambos, aquilo no era da conta de Elizabeth. Spencer recordava-se da ameaa 
que lhe fizera antes de ele partir, e perguntou-se se ela concordaria finalmente com o divrcio.
       Ento contou a Crystal que perdera o emprego, com um ar desinteressado, enquanto ela o olhava aterrorizada.
       - No perdeste!
       - Perdi!
       - Meu Deus! Estamos os dois desempregados! - Riu-se, mas sentia-se culpada. Ainda nessa manh ele lhe dissera como gostava do trabalho no Governo e da poltica. 
O que faria ele agora? Ento ele falou-lhe do telefonema do senador e ela incitou-o a ligar-lhe na manh seguinte. - Achas-te capaz de concorrer a um cargo poltico?
       - Se calhar. Ou talvez venha um dia a ser um juiz como o meu pai. - Sorriu-lhe. Tudo aquilo parecia ter pouca importncia agora. O que importava era que ela 
estava em segurana e que ambos estavam juntos. Nada mudara entre eles durante nove anos. Spencer ainda pensava nela noite e dia e a nica coisa que sabia era que 
no a queria deixar.
       Falaram at altas horas da noite acerca das suas vagas aspiraes polticas, dos filmes dela, e depois de coisas como filhos e ces e tambm sobre Boyd e 
Hiroko. Crystal estava ansiosa por tornar a v-los na manh seguinte, apesar do seu receio de visitar o vale. Tinham alugado outro carro e iriam partir cedo. Mal 
podia esperar por ver Jane. J no a via desde que fora para So Francisco. A menina tinha agora sete anos, e provavelmente nem se lembrava de Crystal.
       Por fim, foram para a cama e tornaram a fazer amor, e ele manteve-a nos braos durante muitas horas. Os anos que os tinham separado desfizeram-se de novo 
em momentos. Era como se o tempo que tinham perdido tivesse desaparecido e, abraados, dormiram como duas crianas.
       
Captulo 35
       
       Seguiram para norte no dia seguinte, e Crystal passou a viagem a cantarolar as msicas da rdio, mergulhada nos seus pensamentos, enquanto ele sorria ao pensar 
como era agradvel estar junto dela. No lhe exigia nada, no havia desiluses, nenhuma diferena de opinies, nem acusaes. Inevitavelmente, isso f-lo pensar 
em Elizabeth e nas diferenas entre as duas. Mas Crystal era como um sonho, sempre fora do seu alcance, sempre a fugir-lhe dos dedos, mas sempre bem  vista e exatamente 
onde ele queria.
       Atravessaram a ponte de Golden Gate e seguiram para norte com o Sol bem alto no cu. Tudo era verde e novo, lavado pelas tempestades do Inverno que deixaram 
as colinas cor de esmeralda e reluzentes sob um cu da cor dos olhos dela. Crystal parecia em paz quando olhava para ele e sorriam um para o outro. Era agradvel 
estarem juntos, e nem precisavam de falar.
       Ela indicou-lhe o caminho e desta vez ele recordou-se do stio onde viviam os Webster. Sentindo o corao a bater com fora Crystal atravessou o minsculo 
jardim e tocou  campainha. Esperaram bastante tempo at que a porta foi aberta por uma rapariguinha e os olhos de Crystal encheram-se de lgrimas.
       - Ol! - cumprimentou a rapariga, levantando o rosto, e souberam de imediato que era Jane. Tinha os olhos orientais da me e cabelo ruivo-escuro, tal como 
no dia em que nascera. - Quem so vocs?
       - Eu sou a Crystal e sou amiga da tua me. No houve receio nos olhos de Jane e Spencer pegou na mo de Crystal.
       - Ela est l dentro a fazer o almoo.
       - Podemos entrar?
       Jane anuiu e desviou-se. A sala estava tal e qual Crystal se recordava: pouca coisa mudara. Podia ver-se que ainda eram pobres, mas eram ricos no amor que 
partilhavam. Havia fotografias de Jane, gravuras japonesas que Hiroko trouxera do Japo e a sala estava limpa, repleta com os tesouros que tinham. As lgrimas encheram 
os olhos de Crystal quando entrou na cozinha e viu a amiga. Hiroko estava a cantarolar em japons, e virou-se,  espera de ver Jane. Os seus olhos abriram-se muito 
e as duas mulheres caram nos braos uma da outra.
       Ficaram bastante tempo abraadas, os anos desvanecendo-se, tal como tinha acontecido com Spencer. No se viam h bastante tempo, mas nada mudara entre ambas.
       - Tive tanta pena de si Crystal. - Depois viu Spencer a olh-las e sorriu ao ver que estavam juntos. Ainda havia uma fotografia dele com Boyd no dia do seu 
casamento no Japo pendurada na parede da cozinha. - Ests to bonita! - Tornou a beij-la, depois limpou as lgrimas. De repente desataram todos a falar ao mesmo 
tempo enquanto Jane os observava, perguntando-se quem seriam aquelas pessoas. Hiroko explicou-lhe que fora Crystal quem a ajudara a vir ao mundo, e Spencer ouviu 
uma histria que desconhecia e olhou para Crystal admirado.
       - A tens - brincou -, agora podias tornar-te parteira.
       - No contes com isso - retorquiu ela com um sorriso. Depois virou-se para Hiroko e falaram as duas durante bastante tempo, enquanto Spencer e Jane brincavam. 
Estava tudo bem com eles. O velho Sr. Petersen morrera e deixara a bomba de gasolina a Boyd. Hiroko perguntou a Crystal como ia a sua carreira de estrela de cinema, 
e falaram calmamente sobre o julgamento. Depois ouviram o motor de uma carrinha, e Boyd entrou com alguma pressa, desejando saber quem estava de visita. Vira o carro. 
Estacou  porta e abarcou a cena, depois lanou os braos em torno de Crystal, apertando de seguida a mo a Spencer.
       - Temos lido muito a teu respeito - gracejou ele, aliviado por ver os dois. - J desconfiava que eras capaz de aparecer por aqui.
       Spencer disse-lhe que passara por ali dois anos antes mas que no fora capaz de descobrir a casa deles. Ficava junto a uma estrada secundria, e teria voltado 
a perder o desvio se Crystal no lhe tivesse indicado o caminho.
       Hiroko fez almoo para todos, e Crystal ajudou-a, sentindo-se muito confortvel naquela cozinha, alis como sempre se sentira. Passado algum tempo, Boyd contou-lhe 
todas as novidades. Becky voltara a casar e vivia no Wyoming com mais dois filhos. Depois hesitou, sem saber o que Crystal desejava ouvir naquele momento.
       - A tua me tem estado bastante doente - disse ele muito calmo. Ela era a nica famlia que restava a Crystal. Mas esta no queria v-la agora, e j informara 
Spencer de que no queria visitar o rancho. Seria demasiado doloroso e sentiria muita solido ao v-lo passados todos aqueles anos. Havia seis anos que partira, 
seis anos desde que Jared morrera, e l j no havia mais nada para ela, exceto a campa do pai e a do irmo. Mas perguntou a Boyd como estavam as coisas, interrogando-se 
sobre se a me teria ido para outro lado.
       - No, ainda l est. Com o que resta. Venderam as pastagens j h alguns anos. No h gado. Mas creio que as vinhas ainda produzem bastante, pelo menos foi 
isso que ouvi dizer. J l no vou h bastante tempo, mas sei que o doutor Goode a tem ido visitar muitas vezes. Ela adoeceu em Julho. - Fez outra pausa, olhando 
para Spencer e depois para ela. - No me parece que ela dure muito mais tempo, Crystal. Se  que isso tem para ti alguma importncia.
       Ela abanou a cabea com tristeza.
       - Para mim j acabou tudo.
       Ele assentiu. Fora isso que calculara.
       - Tinha pensado escrever-te, para o caso de a quereres ver antes de morrer.
       Crystal abanou a cabea, tentando esquecer a sua infncia. J no pensava nisso, nem no rancho.
       - No me parece que valha a pena, e acho que ela tambm no havia de me querer ver. Nunca mais tive notcias dela desde que me fui embora. A Becky est c? 
- Se a me estava a morrer, era natural que a irm se encontrasse no rancho.
       - A minha irm disse-me que ela esteve c no Natal. Mas eu no a vi. E j se foi embora. - Crystal ficou aliviada por ela j l no estar. Becky no significava 
nada para si, nem nunca significara. Aqueles que ela amara j haviam morrido, exceto as pessoas com quem agora conversava.
       Depois do almoo foram todos dar um passeio, antes de Boyd regressar  bomba da gasolina. Prometeram ir fazer-lhe uma visita antes de se irem embora. Spencer 
e Crystal ainda no tinha decidido para onde iriam. Ele achava que ela talvez gostasse de visitar a regio dos vinhos e de ficar numa pequena estalagem. Mas quando 
finalmente saram de casa de Hiroko, Spencer virou no sido errado e de repente Crystal empalideceu. Estavam do lado de fora do rancho. Spencer tambm se apercebeu 
disso e olhou para ela preocupado.
       - Queres que pare um pouco? Ningum saberia que aqui estivemos. Se a tua me est assim to doente, tenho a certeza que no andar para a a passear.
       Com um aceno imperceptvel de cabea Crystal apontou para uma estrada cheia de ervas.
       - Vai dar ao rio. - Mas ele teve medo de danificar o automvel e seguiram a p, de mos dadas. Caminharam durante bastante tempo, depois Crystal parou, ficando 
em silncio, quando chegaram a uma clareira e avistaram as trs campas. Jared, o pai e a av estavam ali sepultados, como se  espera dela, e Crystal limpou as lgrimas. 
Ele passou-lhe um brao por cima dos ombros e voltaram para trs. Recordou-se do casamento de Becky e de ver Crystal com um vestido branco e ps descalos, os sapatos 
atirados para algures, o cabelo brilhando como ouro  luz do Sol. A certa altura, Crystal afastou-se um pouco dele. Ficou parada a olhar para a casa onde nascera. 
Tornou a pensar no pai e sentiu uma grande dor.
       - Queres entrar? Eu vou contigo - sugeriu Spencer, observando-a atentamente e pressentindo o sofrimento dela.
       - No sei o que dizer passado todo este tempo.
       - "Ol"  um bom princpio! Ela virou-se e sorriu.
       - Engraadinho!
       Riram-se e recomearam a andar, mas de repente a porta de rede bateu e viram que a enfermeira estava de sada. O Dr. Goode encontrava-se no alpendre e Crystal 
olhou para Spencer. Ele acenou a encoraj-la, ela hesitou durante bastante tempo, e depois avanou para a casa onde outrora tinham vivido as pessoas que amara e 
que agora continha apenas recordaes desvanecidas.
       - Vai - murmurou ele, e Crystal apertou-lhe a mo. Pouco depois subia os degraus da frente. Tinha as mos midas e o Dr. Goode ficou a olhar para ela durante 
bastante tempo com uma expresso de estranheza. Tinha-a reconhecido, mas estava admirado com a sua presena. J h muito tempo que estava ausente e fora-se embora 
no meio de um enorme escndalo.
       - Como soubeste? - perguntou ele.
       - Soube o qu? - retorquiu Crystal olhando-o e sentindo-se de novo uma criana.
       - Ela pode morrer a qualquer momento. Agora est acordada, se quiseres ir l dentro.
       De repente Crystal perguntou-se se o choque no seria demasiado para a me depois de todo aquele tempo.
       - J no a vejo h seis anos. No sei se ela me quer por perto numa altura destas.
       - As coisas mudam quando as pessoas sabem que esto a morrer. - Falou calmamente, perguntando-se quem seria o homem. -J casaste? - Ela respondeu que no 
com a cabea e ele nada mais lhe disse. No sabia onde ela estivera nem o que fizera. Andara muito ocupado a tratar dos doentes. Ouvira dizer que fora para Hollywood, 
a fim de se tornar uma estrela de cinema, mas naquele momento no se parecia com uma estrela. O mdico achou-a na mesma, um pouco mais velha, talvez mais magra, 
mas ainda to bonita como dantes. - Vai l dentro cumpriment-la. Ela agora j no pode fazer-te mal.
       Crystal entrou devagar na cozinha, quase  espera de ver a av, mas no havia ali ningum agora. A sala estava s escuras, e tudo tinha um aspecto velho e 
usado. J h muitos anos que mos cuidadosas no reparavam nada. Parecia que a me deixara tudo deteriorar-se, tanto dentro como fora. Spencer seguiu-a pelo corredor 
at ao quarto da me, e ficou  espera enquanto ela batia  porta e entrava. Olivia estava deitada, e j quase nada restava dela. Mirrara, e tudo o que parecia restar 
eram os olhos, que fixavam Crystal.
       - Ol, me.
       Olivia ficou admirada, mas no tanto como Crystal pensara. Era como se tivesse sabido que ela viria visit-la, e se no fosse, no se importava.
       - Como tens passado?
       No falou do dia em que ela partira, nem da dor que lhe causara, nem da morte de Jared, ou do que Tom fizera. Estava apenas deitada, olhando para a filha 
mais nova,  espera de morrer e poder juntar-se aos outros.
       - Bem.
       A me no ouvira falar do julgamento. J no sabia nada, nem sequer se importava. H meses que o seu mundo estava limitado ao quarto.
       - Ouvi dizer que tinhas ido para Hollywood.  verdade?
       - Sim, fui. Durante algum tempo.
       - O que ests a fazer agora?
       - A visit-la - respondeu Crystal com um sorriso, mas no viu nenhum nos olhos da me; estava demasiado cansada.
       - Presumo que j saibas o que vai acontecer ao rancho. Calculei que te procurassem depois de eu morrer. A Becky disse que o Boyd Webster sabia onde te encontrar.
       - Sempre soube. E o rancho? Sempre vai vend-lo?
       - Isso agora  contigo. Foi sempre muito para mim, mas o teu pai deixou-o e tive de ficar c a viver. E agora  teu. A Becky ficou furiosa durante algum tempo. 
Mas agora vive bem. Tem um bom marido. Sabias que o Tom morreu na Coria?
       - J me tinham dito. - Mas s conseguia pensar naquilo que a me acabara de dizer. Sentou-se com cuidado na cadeira de balano ao lado da cama e com cautela 
agarrou a mo da me. Esta no objetou e deixou-a ficar ali como um ramo nos dedos de Crystal. - O que quis dizer com isso do rancho?
       -  teu. Foi assim que ele quis. Eu pude usufruir dele enquanto vivi. Mas depois disso ele queria que o rancho ficasse todo para ti. Disse que eras a nica 
que se preocupava com a terra. - Ao ouvir aquelas palavras os olhos de Crystal encheram-se de lgrimas. O pai deixara-lhe o rancho e nunca lhe dissera nada. Tinham-na 
deixado partir, sem lhe dizer que um dia o rancho seria dela. - Agora at podes ficar na vivenda que foi da tua irm, se quiseres. J no  usada h muitos anos. 
Eu j no duro muito - disse ela, tirando a mo da da filha -, daqui a pouco tudo isto  teu.
       - No fale assim. Tem algum que lhe faa o comer?
       - Sim. As raparigas da igreja costumam passar por c. Tenho muita comida, o doutor Goode visita-me duas vezes por dia e a maior parte das vezes traz a enfermeira.
       Fechou os olhos, demasiado cansada para continuar a falar. E enquanto caa no sono Crystal levantou-se e olhou para ela, para a mulher que lhe zera tanto 
mal, que nunca fora capaz de a compreender nem de a amar, que guardara aquele segredo durante tanto tempo. Era difcil sentir qualquer coisa por ela agora, exceto 
piedade. Estava a morrer. E depois tudo aquilo seria de Crystal. Era incrvel! Saiu do quarto em silncio e viu Spencer ali parado. Fez-lhe sinal para que a seguisse, 
e j l fora ela sentou-se nos degraus da frente e olhou-o espantada.
       - No vais acreditar naquilo que acabei de ouvir.
       - Ela perdoou-te tudo - aventou ele com um sorriso, e ela sorriu-lhe tambm.
       - No,  demasiado tarde para isso. Ela est j demasiado doente para se preocupar com essas coisas. - Olhou para os campos que eram quase seus e sentiu uma 
vaga de amor pela terra; fora precisamente por isso que o pai lha deixara. E depois recordou-se das ltimas palavras dele: "Nunca desistas disto, pequenita... do 
rancho..." E sentira-se to culpada quando se fora embora! Tornou a olhar para Spencer: - O meu pai deixou-me o rancho quando morreu, e elas nunca me disseram nada. 
Acho que era por isso que me odiavam tanto. Porque ele mo deixou todo. - Parecia em estado de choque. Vira a me ao fim de todos aqueles anos, e agora aquilo. Abanou 
a cabea e levantou-se: - O que irei fazer com tudo isto?
       - Viver aqui e ter uma vida agradvel.  um stio encantador. Ou pelo menos j o foi e poder muito bem tornar a s-lo. Aposto que as vinhas do muito lucro. 
E talvez os milharais tambm.
       - Spencer - disse ela com um sorriso -, estou em casa.
       - Pois ests. Podes crer que ests. E nem sequer estavas com vontade de c vir hoje. - Sorriram os dois, e depois lembraram-se da moribunda. Dirigiram-se 
para o carro, sem saber o que fazer a seguir.
       - Ela disse que se quisssemos podamos ficar na vivenda.
       - Podamos? Ela sabia que eu estava c?
       - No... est bem... ela disse que eu podia. Mas deve estar tudo sujo. - E no tinha vontade de ficar ali enquanto a me estava a morrer. - Vamos ficar a 
outro lado, depois voltamos.
       Ele concordou e entraram no carro. Seguiram para a bomba da gasolina, despediram-se de Boyd e disseram-lhe que iriam voltar. E nessa noite ele ligou-lhes 
para o hotel onde estavam hospedados. Crystal ligara a Hiroko para deixar o nmero de telefone. A me morrera pouco depois de ela ter sado do rancho. Crystal ficou 
sentada durante bastante tempo, sem saber o que sentia. No era dor, nem perda, nem sequer ira. Quase tudo desaparecera, exceto a recordao distante da mulher que 
conhecera em criana. E agora o rancho era seu, tal como o pai desejara. No fazia idia do que iria fazer com ele, mas pelo menos agora tinha um stio onde viver.
       Ela e Spencer regressaram no dia seguinte, e dois dias mais tarde a me foi sepultada junto dos familiares. Crystal hesitou dois dias enquanto ficaram na 
casa de Hiroko e Boyd; finalmente decidiu mudar-se para a casa principal do rancho, ficando no seu antigo quarto com Spencer. A sua cama ainda l estava e o cho 
continuava a ranger nos mesmos locais. De certa forma, nada mudara. Mas tudo estava diferente. Ao fim da tarde caminharam plos campos at ao local onde se tinham 
visto pela primeira vez, e Spencer sorriu-lhe. A vida s vezes era bastante estranha. Crystal ainda mal acreditava no que lhe acontecera: ainda h dias nada tinha 
no mundo e agora era dona do rancho que o pai lhe deixara.
       Beijaram-se enquanto o sol se punha e regressaram a casa de mos dadas, gratos plos preciosos momentos que tinham partilhado, quando Crystal comeou a cantar 
baixinho.
       
       
Captulo 36
       
       Spencer percorreu com ela o rancho no dia seguinte. A maior parte das terras estava coberta por ervas e j no havia trabalhadores. S as vinhas estavam mais 
ou menos bem cuidadas, e viram dois mexicanos a tratar delas quando passaram de carro.
       Nadaram no riacho, que ela adorara quando criana, depois sentaram-se na margem embrulhados em cobertores, rindo-se e acariciando-se, e Crystal entoou as 
canes que cantara com o pai. Sentiu uma certa culpa como se se estivesse a rir na campa da me, mas no era isso. A me morrera para ela j h muitos anos e o 
rancho era uma ltima prenda do pai.
       Quando regressaram a casa, ps a velha chaleira ao lume e isso f-la recordar-se da av com o seu avental branco imaculado. Contou a Spencer algumas das suas 
primeiras recordaes, e ele ouviu-a deleitado. Por fim, falaram de Washington e de quando ele voltaria para l.
       - E a Elizabeth? - Ambos sabiam que ele tinha de tomar uma deciso. Mas esta surgiria por si prpria se ele ficasse tempo suficiente com Crystal. No conseguia 
imaginar-se a deix-la de novo, e ambos sabiam que ele no o desejava. J no via Elizabeth h trs meses, e estava quase certo que com um pouco de presso da parte 
dele ela lhe daria o divrcio. Era um grande vexame para ela o fato de Spencer ter largado tudo em Washington e ter ficado na Califrnia com Crystal. E esta desejava 
que ele ficasse ali, mas queria que fosse ele a tomar a deciso. No queria que ele desistisse da vida que tinha em Washington, se era isso que desejava. Nada tinha 
para oferecer em comparao com a vida que ele tivera com Elizabeth e com os Barclay. Soubera na vspera que o rancho mal produzia para se sustentar. Crystal conseguiria 
sobreviver ali, mas, comparada com Elizabeth, nada tinha. A nica coisa que possua era o seu amor por Spencer e tudo o que sentia por ele desde o casamento de Becky.
       Ele lembrou-se de ligar ao senador nessa tarde, e Crystal estava a lavar a loua enquanto ele fazia a chamada. Ouvia rdio e levantou os olhos quando o ouviu 
desligar o telefone. Sorriu e limpou as mos s calas de ganga novas que comprara.
       - Que tal?
       Ele ficou a olhar para ela. Estavam a acontecer coisas estranhas a ambos. O jovem senador da Califrnia seguira o julgamento com bastante avidez e queria 
que Spencer fosse trabalhar com ele quando regressasse a Washington, o que o senador esperava que fosse depressa. Tinha um cargo importante a oferecer-lhe, na preparao 
da sua campanha, e, pelo menos daquela vez, nada se devia ao juiz Barclay.
       -  isso que queres? - perguntou ela depois de ouvir a explicao. Era um cargo de grande prestgio de que ele iria gostar, mas Spencer no queria regressar 
a Washington e deix-la. Queria viver com ela ali, em Alexander Valley.
       - Era precisamente isso que eu teria desejado h seis meses. Teria dado o brao direito para o conseguir. - Sentou-se numa das velhas cadeiras da cozinha 
e ela serviu-lhe um caf. - Mas agora, no sei. Prefiro ficar aqui contigo.
       - Puxou-a para o seu colo e olhou para ela, ainda atordoado com a proposta do senador.
       - O que lhe disseste? - Observava-o atentamente. Precisava de saber o que era melhor para ele e aquilo que ele realmente desejava.
       - Disse que lhe ligava para a semana quando regressasse. Ele volta para Washington amanh  tarde. Custa-me a crer que esteja a falar a srio, mas deve estar. 
- Depois da catstrofe estavam ambos com muita sorte. - Mas onde  que isso nos deixa? Virias comigo? - Quase se esquecera de Elizabeth. Naquele momento s contava 
Crystal.
       - Isso agora no  importante. O que interessa  em que situao ficas.
       Ele bebeu um gole do caf fumegante, olhou-a com ar pensativo, e admitiu que aquilo era o que sempre desejara. De repente, o horizonte poltico estava  abrir-se 
para ele, mas demasiado tarde, pois agora tinha Crystal. No queria perd-la de novo, nem sequer por um emprego como aquele. Mas ao ouvi-lo falar da poltica, ela 
apercebeu-se de como ele gostava daquilo. E tambm sabia que iria sair-se bem com uma mulher como Elizabeth. Todas as esperanas de Spencer morreriam se casasse 
com uma mulher como ela, acusada de ter morto Ernie. O escndalo t-lo-ia arruinado, e depois o que lhe restaria? A vida de agricultor. No fora talhado para ela. 
Estava destinado a coisas mais elevadas, e nessa noite, depois de ter feito amor com ela Spencer achou-a muito calada. Perguntou-se o que a estaria a incomodar, 
embora talvez fosse a casa e as recordaes que lhe trazia. Estava tudo to velho e gasto, tal como a me antes de morrer. Havia ali uma aura de dor, at que se 
saa l para fora e via a majestade do vale.
       - Em que ests a pensar? - Fez-lhe uma festa no cabelo e apertou-a junto de si. Ela sorriu-lhe com tristeza ali na cama estreita que outrora partilhara com 
Becky.
       - Estava a pensar que j  altura de regressares a Washington e enfrentares os touros. - Era o maior sacrifcio que ela faria, mas sabia que era necessrio.
       Ele abanou a cabea.
       - No quero tornar a deixar-te - contraps ele. - J passamos por bastante. Merecemos isto.
       Ela soergueu-se num cotovelo e baixou os olhos para ele.
       - No pertences aqui, meu amor. Ests destinado para coisas mais grandiosas do que governar um velho rancho como este. - Tinha a certeza daquilo, mas ele 
no a queria ouvir.
       - Ento e tu? No sejas ridcula. H trs meses eras uma estrela de cinema, e agora olha para ti! Voltaste para onde partiste.
       -  diferente Spencer. - Deu-lhe um beijo na ponta do nariz. - Isso era tudo faz-de-conta. Aquilo que fazes  importante. Um dia podes vir a ser um grande 
homem. At podes chegar  Presidncia. - Mas isso nunca sucederia se o deixasse ficar com ela. No ali. No em parte alguma, casado com uma assassina. Crystal podia 
custar-lhe tudo. E no iria permitir uma coisa dessas. Spencer tinha de voltar para Elizabeth. Ela era exatamente o gnero de esposa de que ele precisava. - Quero 
que voltes agora para Washington.
       - Por qu? - Ele olhou-a admirado. - Como podes dizer uma coisa dessas?
       - Porque o teu lugar  l. Ainda no acabaste o que tinhas a fazer. Tens stios onde ir, pessoas a visitar, idias ainda no nascidas a partilhar com as pessoas 
que precisam de ti. Eu passei um bom bocado, mas isso foi tudo divertimento, e a um preo demasiado alto. J no quero mais. Tu queres.  essa a diferena. - Vira 
a expresso nos olhos dele depois do telefonema ao senador. No podia priv-lo daquilo. E sabia que se o fizesse, ele poderia vir a odi-la mais tarde.
       - E o que  que eu fao? Deixo-te aqui? Porque no vens comigo? - Os seus olhos imploravam-lhe.
       - Para Washington? - perguntou Crystal com um sorriso.
       - Porque no?
       - Porque iria destruir-te num instante, apesar de todo o amor que sinto por ti. Pensa naquilo que arrasto atrs de mim. Fui acusada de homicdio Spencer. 
E o jri limitou-se a dizer que eu o fiz em autodefesa. No disse que eu no o matara. A tua carreira acabaria assim que eu aterrasse em Washington, e tu sabe-lo.
       - No vou voltar. - Ele puxou-a para junto de si, apertando-a com fora, com medo de a perder.
       Mas ela falou muito sria na escurido, e as suas palavras assustaram-no.
       - No vou permitir que fiques aqui.
       - Porque no?
       - Porque isso iria destruir-te.
       Ele no lhe respondeu, e depois de ela ter adormecido, Spencer ficou acordado durante bastante tempo, abraado a ela, a ouvi-la respirar. Sabia que se a deixasse 
morreria, ou pelo menos parte dele. Para sempre. Mas no dia seguinte ela tornou a falar no assunto, e foi categrica. Por fim Crystal soube o que havia a fazer. 
Tinha de o mandar embora, a qualquer preo, mesmo que tivesse de dizer que no o amava. Mas no foi preciso chegar a esse extremo. Limitou-se a dizer que ainda no 
estava pronta para viver com ele. Queria ficar sozinha no rancho, apesar de parecer insensvel depois de tudo o que ele fizera por ela. Com vinte e quatro anos, 
depois de tudo o que passara Crystal no queria pensar em casamento. Disse que precisava de ficar sozinha, mas ele no acreditou. Lembrou-se de quando ela lhe ligara 
cerca de ano e meio antes e lhe dissera que no o amava, para o salvar de Ernie.
       Spencer estava devastado quando regressaram a casa vindos do riacho.
       - Porque queres ficar aqui sozinha?
       - Porque preciso.  tudo. Quero ficar sozinha para fazer o que me apetece. Tenho direito a isso, no?
       Spencer ficou muito ferido, e Crystal teve de reprimir as lgrimas toda a noite enquanto ele a abraava. Discutiram durante alguns dias, mas ela manteve-se 
firme, e depois de uma semana de agonia soube que o convencera. Ele iria aceitar o cargo em Washington, mas garantiu que viria v-la muitas vezes. Ela sabia bem 
o escndalo que isso iria causar, e prometeu a si mesma no permitir tal coisa. Tinha de ser forte por ele. Sabia que qualquer lao que mantivessem, qualquer contacto, 
qualquer relao poderia destru-lo. A reputao dela estava agora manchada e se ele fosse outro tipo de homem a histria teria sido diferente. Mas Spencer tinha 
a vida pela frente, e os seus olhos iluminavam-se de cada vez que falava do novo emprego em Washington com o senador da Califrnia. Ela no iria tirar-lhe isso nem 
o que da pudesse advir. Um dia, ele poderia fazer grandes feitos e no iria ser ela a impedi-lo. Crystal tambm sabia que o lugar dele era junto de Elizabeth, independentemente 
de Spencer lhe afirmar o contrrio. Mas quando pensava em desistir dele, Crystal sentia-se como uma mulher que abandona os filhos na soleira de uma porta.
       Ele partiu ao fim de uma tarde, e beijaram-se com ardor e durante bastante tempo, enquanto o Sol se punha atrs deles. Spencer ainda insistiu para que ela 
o acompanhasse, mas Crystal recusou at ao fim. Spencer s acedeu em ir com a condio de regressar em breve para a ver, mas ela foi mais esperta. Ficou de p com 
ar altivo, acenando-lhe como se esperasse v-lo de novo, mas tal no era verdade. Seria demasiado perigoso para ele, e com o tempo Spencer acabaria por agradecer-lhe. 
Deitou-se na cama depois de ele ter partido, chorando como se o seu corao fosse rebentar. Ele tornara a partir, e apesar de todo o amor que ela sentia por ele, 
daquela vez tinha de ser para sempre. Libert-lo fora a ltima ddiva de Crystal. Era tudo o que lhe restava para dar. Ele tinha tudo o resto: o seu corao, a sua 
alma, o seu corpo.
       
Captulo 37
       
       Crystal ofereceu a vivenda a Boyd e a Hiroko e eles mudaram-se em Maro, depois de tudo limpo e pintado, de terem arrancado as ervas daninhas e plantado um 
jardim. Contratara dois homens para tratar do milho, e mais mexicanos para trabalharem na vinha. Boyd ia todos os dias para a bomba da gasolina, mas Hiroko e Crystal 
trabalharam como escravas para porem a casa de novo em ordem, com a ajuda da pequena Jane.
       E em abril, quando o sol j estava quente, e depois de ter esfregado paredes todo o dia e de as pintar ao anoitecer, Crystal quase desmaiou. Hiroko ajudou-a 
a sentar-se e olhou-a com uma expresso preocupada. Passava-se algo com ela, embora Crystal o negasse. Mas os dois ltimos meses haviam sido duros, e o julgamento 
antes disso, e pior ainda fora a poca que passara com Ernie. No entanto, o mais difcil era a saudade que tinha de Spencer. Este ligara-lhe vrias vezes, mas ela 
fora sempre muito vaga, insistindo que ainda no era altura de voltar. Spencer estava a trabalhar para o senador, dirigindo a campanha em Washington, e adorava o 
trabalho, mas mesmo assim desejava voltar para ver Crystal. Ela disse-lhe com alguma frieza que andava a encontrar-se com uma pessoa da cidade e que j tinha o rancho 
bem controlado. Quanto a ele voltara para Elizabeth que, mais uma vez e apesar de tudo, recusara o divrcio.
       Hiroko colocou um pano mido sobre a testa de Crystal e sentou-se a seu lado, insistindo para que a amiga fosse ao mdico.
       - No sejas ridcula. Estou bem. S j no estou habituada a trabalhar tanto. - Mas o rancho voltara a ter um aspecto limpo, quase melhor do que dantes. O 
pai dela teria sentido orgulho, e Boyd mal podia acreditar nas modificaes que ela fizera em to pouco tempo. S regressara havia dois meses.
       Trs dias depois ela tornou a desmaiar, desta vez enquanto arrancava as ervas do jardim. Jane encontrou-a estendida no cho e correu a chamar a me. Gostava 
da sua nova casa e da nova amiga, e Crystal prometera ensinar-lhe a montar, no Vero. Mas desta vez Boyd levou-a de carro  cidade, deixando-a em frente ao consultrio 
do Dr. Goode.
       - Mexe-me esse eu l para dentro Crystal Wyatt, ou ser que tenho de te arrastar?
       Crystal sorriu-lhe: estava um dia muito quente, mas ela sentia frio e trazia uma camisola grossa. Teve medo de que fosse alguma coisa sria, e era. O Dr. 
Goode disse-lhe de forma muito concisa que ela estava grvida. Ela ficara a olh-lo com uma expresso descrente mas, ao fazer as contas, soube que ele tinha razo. 
Nessa noite contou a Hiroko.
       - Que  que tencionas fazer? - perguntou Hiroko calmamente. Sabia bem quanto Crystal amava Spencer e que o mandara embora para o seu prprio bem, no porque 
j no o amasse.
       Crystal olhou-a com tristeza, mas no tinha dvidas quanto ao beb nem quanto ao que queria.
       - Vou ter o meu filho. - Era tudo o que lhe restava dele, e tinha um lar para a criana. Deveria nascer no final de novembro. Calculou que devesse ter engravidado 
da primeira vez que tinham feito amor em So Francisco.
       Boyd ficou atordoado quando Hiroko lhe deu a novidade e Crystal obrigou-o a jurar segredo, para seu desgosto. Achava que ela devia contar a Spencer. Mas Crystal 
foi categrica. Spencer estava muito longe. E Crystal iria certificar-se de que ele ficava por l.
       - Queres dizer que no tencionas contar-lhe? Ela abanou a cabea. Essa era a ltima coisa que faria. J lhe custara um emprego, e o que lhe estava a acontecer 
agora era demasiado importante.
       - No vou dizer a ningum, exceto a vocs os dois. - Nem sequer contaria a Harry e a Pearl. Eles faziam parte de outra vida. E Crystal iria ficar no vale 
at ter o filho. E  medida que o ventre crescia nos meses de Vero, s conseguia pensar no lho de Spencer. Era a nica grande alegria da sua vida... a ltima recordao 
de Spencer.
       
Captulo 38
       
       Crystal tivera razo Spencer adorava o emprego. Trabalhar para o jovem senador era exatamente o que ele desejara. Ficava at tarde no escritrio e as suas 
responsabilidades eram enormes. Viu-se de repente no centro do mundo poltico, e a o seu passado de advogado conferia-lhe bastante prestgio, ao ponto de pensar 
concorrer um dia ao Congresso. Mas gostava demasiado do senador para se afastar naquele momento.
       At Elizabeth andava satisfeita, e essa era a nica razo pela qual, mais uma vez, no lhe concedera o divrcio. Apesar do seu desempenho no tribunal, e do 
romance que ela calculava que ele tivera, Elizabeth conseguira por fim aquilo que desejara. Era casada com "uma pessoa importante". Ficara furiosa com o regresso 
dele, e durante a primeira semana ele mal a vira. Preparava-se para mudar de casa. Com ou sem Crystal sabia que no podia continuar casado. O tempo que passara com 
ela demonstrara-lhe o que tinha perdido com Elizabeth e j no estava disposto a viver sem isso. Teria preferido ficar sozinho, como lhe disse, quando finalmente 
falaram do assunto. E ele no lhe mentiu nem apresentou desculpas nem explicaes.
       - No  bom para nenhum de ns. Mereces melhor, e eu tambm.
       Passara uma semana aps ele ter aceitado o emprego, e depois das ameaas feitas antes do julgamento e do tempo que ele ficara fora Spencer no podia acreditar 
que ela no lhe concedia o divrcio. No lhes restava nada, e ela sabia que ele passara as ltimas semanas com Crystal.
       - Acho que  altura de acabar com tudo. Ela andava intrigada com o trabalho dele. Era a primeira coisa que Spencer fazia que ela achava ter algum mrito. 
E as pessoas comentavam o excelente trabalho que fizera na defesa da estrela de cinema. Em vez de zangada, ficou orgulhosa, e ele percebeu como a conhecia mal. Para 
Elizabeth s contava a fama, a qualquer preo, at mesmo  custa do casamento.
       - Porque no esperamos algum tempo, Spencer? Como j esperamos tanto, bem que podemos ficar juntos mais uns meses.
       Estava com uma expresso afetada, e no se sentia nada romntica. Mas ele tambm no. Sabia que os dias nos quais fingira que amava Elizabeth j h muito 
tinham acabado e no queria continuar a fingir. Queria liberdade, e foi exatamente isso que lhe disse.
       - Por que motivo queres continuar com isto, Elizabeth? J nem sequer somos amigos. No te importas? Mas a verdade  que ela no se importava.
       - Gosto do que ests a fazer, Spencer. - Ser mulher do assessor de um senador intrigava-a.
       - Ests a falar a srio? - perguntou ele chocado.
       - Sim. Estou disposta a manter isto, se tu estiveres. Alis, no vou deixar-te ir embora. - Como de costume, era direta. - Deves-me isso.
       Ele ficou lvido.
       - Por qu?
       - Fizeste-me passar por idiota com aquela rapariga, e se pensas que me vou divorciar para que te possas casar com ela, ests maluco.
       Spencer no lhe disse que Crystal o mandara embora, aconselhando-o a manter o casamento para bem da sua carreira.
       - Gostaria de casar com ela. - No ia mentir-lhe. - Mas a verdade  que ela no quer.
       - Ento ou  idiota ou muito inteligente. No sei bem qual das duas hipteses.
       - Ela diz que quer ficar sozinha e que prejudicaria a minha carreira.
       - Tem razo. E  mais esperta do que eu pensei. - Elizabeth no lhe disse que aquelas palavras lhe tinham indicado quanto Crystal amava Spencer. No iria 
defender a causa de Crystal junto dele e queria continuar casada. - Ela vai regressar a Hollywood?
       Ele abanou a cabea:
       - No, foi para casa. Isso j acabou para ela.
       - E onde  que ela mora? - Estava curiosa. Parecia aconselhvel saber o mais que pudesse sobre a adversria.
       - Isso no interessa.
       - Vais voltar a v-la? - Sabia pela expresso dos olhos de Spencer que ele o faria se Crystal o deixasse. Mas pressentia que algo acontecera antes de ele 
regressar e suspeitava que Crystal o mandara embora. Ele no teria vindo de outra forma. Mas agora que o tinha de volta, iria fazer tudo para ficar com o marido. 
- Es um idiota se continuares envolvido com ela. No creio que o teu senador gostasse da idia.
       - O problema  meu, no teu. - No queria falar de Crystal com a mulher. Pensava nela noite e dia. Mas quando lhe ligava, ela ainda era categrica ao dizer-lhe 
que queria ficar sozinha. Dizia-lhe que a vida de ambos era demasiado diferente, e nada do que ele dissesse a demoveria.
       Entretanto, ele andava to ocupado com o trabalho que as semanas pareceram voar e acabou por no mudar de casa, nem voltou a tocar no assunto. Spencer via 
os pais dela com menos freqncia do que dantes, embora o juiz o tivesse felicitado pelo novo emprego. E tambm estava satisfeito com Elizabeth. A filha fora educada 
para ser mulher de um homem importante e agora Spencer podia dar-lhe o que ela sempre desejara.
       Spencer nunca percebeu por que, mas continuou a viver na casa de Georgetown. Estava sempre demasiado ocupado para se mudar e Elizabeth deixava-o em paz. Ia 
com ele a festas, ajudava-o a receber e tinha uma vida prpria muito preenchida, com atividades sociais, amigas e a faculdade. Nunca se queixou sobre o status quo, 
e passado alguns meses, Spencer apercebeu-se de que estar casado com ela era til. Sentia-se culpado por ver as coisas daquele prisma, mas Washington era uma cidade 
estranha, e os polticos eram-no ainda mais. E no lhe fazia mal nenhum ser casado com a filha do juiz Barclay.
       No Outono fazia seis meses que comeara a trabalhar para o senador e andava to ocupado que era indiferente  mulher com quem estava casado. Nunca a via, 
exceto nas festas em que ela estava na mesma sala que ele.
       Mal tinha tempo para telefonar a Crystal, que lhe surgia sempre muito fria quando falavam. Disse que estava bem e falou-lhe do rancho, mas deixou claro que 
no queria tornar a v-lo. Mandara-o para casa, para Elizabeth e para Washington, e ele estava de novo encurralado. Era precisamente aquilo que ela lhe desejara 
e soubera por instinto que era aquilo de que ele precisava.
       Spencer s tomou a ver a famlia no incio de Novembro. Elizabeth preparou um jantar muito vistoso e os pais dele vieram de Nova Iorque e ficaram em casa 
deles. De novo, o juiz Hill se congratulou por ter insistido com o filho para que continuasse casado com ela depois dos dias perturbados a seguir  Coria. Os Barclay 
tambm estavam contentes, e ningum perguntou quando tencionavam ter filhos; via-se que estavam bastante ocupados, e em Junho Elizabeth acabara o curso de Direito.
       - Imaginem s - brincou o pai de Spencer -, dois advogados debaixo do mesmo teto. Podem abrir a vossa prpria firma.
       Se assim era, pensou Spencer, era a nica coisa que tinham em comum. Mas Elizabeth nada denunciou e mostrou-se to encantadora como sempre. Todos adoravam 
a mulher de Spencer. Avizinhava-se para ambos um futuro muito sorridente e o juiz Barclay sugerira que depois de algum tempo a trabalhar com o jovem senador, Spencer 
poderia pensar na sua prpria carreira e concorrer a um cargo poltico. Tal como Elizabeth, achava que ele devia concorrer ao Congresso. Mas era demasiado cedo. 
Spencer estava demasiado envolvido no seu cargo, e afundava-se cada vez mais no trabalho para fugir  solido do casamento. Com trinta e seis anos, j tinha ido 
longe. Mas no processo perdera aquilo que mais desejava... no a mulher... mas a rapariga que conhecera no rancho havia seis anos. Perdera Crystal.
       
Captulo 39
       
       Crystal tambm organizou o seu jantar de Ao de Graas: recheou um peru, fez tortas de uva-do-monte e de inhame, cozeu maarocas e serviu-o na cozinha acabada 
de pintar. Hiroko e Boyd vieram ao jantar com Jane, e Boyd sorriu ao ver como a barriga de Crystal estava grande quando ela se sentou  mesa. Foi Jane quem agradeceu 
ao Senhor por aquela refeio. O beb devia estar prestes a nascer. E Boyd sabia sem nada lhe perguntar que Spencer no tinha conhecimento do filho. Sofria ao ver 
a solido estampada no rosto da amiga, mas ela mostrara-se categrica desde o incio e no mudara de idias, apesar de isso lhe custar muito. Boyd achava que ela 
ainda recebia notcias dele de vez em quando. Crystal falou-lhes do xito dele em Washington, como assessor do senador, mas ficou calada durante a maior parte do 
jantar.
       O rancho parecia agora muito diferente, tudo estava limpo e pintado de fresco. Ele mal reconheceu a casa quando se sentou para jantar na grande mesa de carvalho 
ao meio da acolhedora cozinha amarela. J nem conseguia imaginar ali a me dela e felizmente que Crystal tambm no. Ainda pensava no pai quando dava passeios a 
p. No podia montar at ao nascimento do filho, mas parecia ter muito que fazer e transformara o quarto de Jared no quarto do filho. Pintara-o de azul-claro e pendurara 
cortinados brancos com ilhs.
       - E se for uma rapariga? - brincou Boyd nessa noite, antes de se irem embora. Ela sorriu-lhe calmamente:
       - No vai ser.
       Na manh seguinte, quando Hiroko a visitou, encontrou-a sentada no quarto com uma expresso muito concentrada. Aquilo f-la recordar-se de algo e, enquanto 
observava, viu o rosto de Crystal contorcer-se de dor.
       - O beb vem a caminho, no ?
       - Sim. - Crystal sorriu apesar da dor, e momentos depois estava agarrada aos braos da cadeira. No conseguia falar, e Hiroko correu para junto de Boyd, pedindo-lhe 
que fosse chamar o mdico. Havia meses que insistiam para que ela fosse para o hospital, mas Crystal dissera que queria ter o filho em casa. Era conhecida, os filmes 
que fizera ainda estavam em exibio, e mais do que uma vez as pessoas tinham reparado nela na cidade, pondo-se a olhar e perguntando-se se seria a mesma mulher. 
Ela no queria que ningum soubesse do filho, especialmente a imprensa. A notcia no se podia espalhar. Se assim fosse, haveria um escndalo e a coisa chegaria 
tambm aos ouvidos de Spencer. Crystal queria evitar isso a qualquer preo. Mas o preo, como Boyd e Hiroko bem sabiam, podia ser o beb. Tinham perdido o segundo 
filho dessa forma, e teriam tambm perdido Jane se Crystal l no estivesse. Mas o Dr. Goode dissera que ela era jovem e robusta. No havia razes para que uma rapariga 
de vinte e quatro anos no pudesse dar  luz em casa se assim o desejasse.
       Boyd telefonou ao Dr. Goode, e ele apareceu uma hora mais tarde. Nessa altura Crystal mal conseguia respirar por causa das dores. Tinha o rosto encharcado 
em suor e Hiroko estava sentada ao seu lado, segurando-lhe na mo como Crystal fizera com ela. Boyd levou Jane l para fora e deixou-a a brincar no jardim, enquanto 
o Dr. Goode e Hiroko trabalhavam.
       Hiroko foi um pouco at l fora ao final da tarde; parecia preocupada e exausta, e disse ao marido que fosse para casa com a filha. O Dr. Goode dissera que 
o parto ainda poderia levar algumas horas.
       - Ainda no h nada? - Boyd estava preocupado com a amiga. J se encontrava em trabalho de parto h bastante tempo e era difcil imaginar que o beb ainda 
no tivesse sado.
       - O mdico disse que o beb  muito grande. - Boyd observou-lhe o rosto, recordando-se da sua prpria experincia com Jane, mas a sua mulher sorriu antes 
de voltar a entrar. - Talvez em breve.
       Foram as mesmas palavras que ela disse a Crystal pouco depois, enquanto esta se esforava por expulsar o beb de dentro de si, com a ajuda das mos experimentadas 
do Dr. Goode. Ele fora o mdico que se recusara a socorrer Hiroko sete anos e meio antes e a tratar dela durante a gravidez porque perdera o seu filho na guerra 
com os Japoneses. Mas observava-a agora, e ficou tocado pela sua ternura, compaixo e sabedoria. Hiroko parecia estar iluminada por algo profundamente caloroso, 
amvel e religioso, e durante breves momentos teve vontade de lhe pedir desculpa. Sabia que o segundo filho dela morrera e perguntou-se se a poderia ter ajudado. 
Hiroko nada disse quando viu que ele a observava, e limitou-se a encorajar Crystal em silncio, deixando-a apertar-lhe as mos e chorar quando as contraes vinham 
mais longas e mais fortes; mas o beb continuava a no querer sair.
       - Talvez tenhamos de a internar - disse o Dr. Goode. Comeava a pensar em cesariana, mas Crystal soergueu-se e olhou-o com tal violncia que ele ficou perplexo.
       - No! Eu fico aqui! - Um ano antes fora acusada de homicdio. E para pr fim  carreira de Spencer s lhe faltava agora um filho ilegtimo. Se algum pensasse 
que o filho era dele, a notcia estaria nos jornais j na manh seguinte. - No! Vou conseguir sozinha... oh, meu Deus... - Teve outra contrao antes de conseguir 
dizer mais qualquer coisa, e, sabendo quais as intenes do mdico, fez mais fora. Dessa vez o beb desceu mais um pouco, ela tornou a fazer fora e o mdico assentiu.
       - Se conseguires fazer mais umas dessas, talvez tenhamos o beb c fora em menos de nada.
       Ela esboou um sorriso tnue para Hiroko, e sem dizer para onde ia, o mdico afastou-se para ligar  enfermeira. Avisara-a de que talvez viesse a precisar 
de uma ambulncia no rancho Wyatt. Poderiam ter de levar Crystal para o hospital de Napa. No queria arriscar a vida dela se o parto continuasse por muito mais tempo. 
A enfermeira prometeu ficar a postos e avisar o motorista da ambulncia, para o que desse e viesse. Mas quando regressou para junto de Crystal viu que ela fizera 
alguns progressos.
       - Outra vez!... isso mesmo... empurra agora com fora!... com mais fora!
       Ela j no tinha mais foras, os olhos quase lhe saam das rbitas, tinha o rosto vermelho e esforara-se tanto que parecia sentir o corpo prestes a explodir 
devido a uma enorme tenso, como se um comboio a rasgasse. J no podia parar, tinha de continuar a fazer fora at que Hiroko a olhou muito espantada. De entre 
as pernas de Crystal surgiu uma carinha vermelha, com a cabea cheia de cabelo preto espesso, e o beb chorou zangado quando o Dr. Goode lhe pegou plos ombros e 
o puxou para fora, colocando-o de seguida sobre o ventre da me. Crystal estava to cansada que mal conseguia falar, mas sorriu ao filho por entre as lgrimas e 
riu-se ao olhar para ele.
       -  to bonito... oh,  to bonito...
       E at Hiroko viu que ele era uma cpia de Spencer.
       Crystal dirigiu um sorriso vitorioso ao mdico depois de ele ter cortado o cordo umbilical; depois Hiroko lavou-a e embrulhou o beb num cobertor branco.
       O mdico sorriu em resposta.
       - Deixaste-me preocupado durante algum tempo. Aquele teu homenzinho deve pesar mais de quatro quilos.
       Pesaram-no na balana da cozinha, e o mdico tinha razo. O filho de Spencer pesava seis quilos e meio. O Dr. Goode devolveu-o aos braos da me e ela tornou 
a sorrir-lhe. O filho era uma ddiva de Deus, e era exatamente isso que ela lhe iria chamar. Zebediah... "Ddiva de Deus". Era um nome forte para uma criana forte, 
nascida do amor que ela sentira durante muito tempo pelo seu pai.
       O mdico ficou mais alguns momentos enquanto ela e o beb dormiam em paz. Fora um dia de muito trabalho para todos, especialmente para Crystal. Saiu do quarto 
em silncio e encontrou Hiroko sozinha na sala de estar. Ela ofereceu-lhe uma chvena de ch fumegante, e depois de alguma hesitao ele aceitou-a. Era-lhe difcil 
ainda agora falar com ela, mas naquele dia Hiroko ganhara o seu respeito, e ele teve pena de que isso no tivesse acontecido mais cedo.
       - Ajudou-me muito, senhora Webster - disse ele com cuidado, e ela sorriu. Era muito sbia para a idade que tinha. A sua vida no fora fcil, mas trouxera-lhe 
grandes bnos, graas ao marido e a Crystal.
       - Obrigada - agradeceu, sorrindo-lhe timidamente.
       Quando se foi embora, o mdico apertou-lhe a mo. No era um pedido de desculpas, para isso j era demasiado tarde, mas era um primeiro passo para a aceitao.
       O Dr. Goode comentou o assunto na manh seguinte com a enfermeira, j no seu consultrio. Demorara dez anos, mas finalmente tinham-lhe perdoado o fato de 
ser japonesa e haviam compreendido que Hiroko Webster era uma boa mulher. Ela reparou que depois disso as pessoas a olhavam de maneira diferente, e um dia, quando 
foi  mercearia com Jane, a mulher da caixa registradora sorriu-lhe e disse-lhe "ol" depois de dez anos a atend-la em silncio.
       O beb de Crystal crescia forte e saudvel. Ela recuperou bastante depressa e quando o filho fez um ms, batizaram-no na igreja onde a sua irm se casara. 
Chamou-se Zebediah Tad Wyatt, e os padrinhos foram Boyd e Hiroko Webster. Depois da cerimnia, Crystal deixou Jane pegar-lhe. Ela lutou com o peso da criana adormecida, 
e todos se riram. Depois levantou o rosto com uma expresso preocupada e fez a Crystal uma pergunta que lhe provocou lgrimas.
       - Quem vai ser o pai dele?
       Crystal reprimiu as lgrimas e baixou o olhar para Jane, que tinha nos braos o filho de Spencer.
       - Acho que ele s me tem a mim. Talvez isso signifique que tenhamos de o amar um pouco mais. - E perguntou-se se um dia Zeb lhe colocaria a mesma pergunta.
       - Posso ser a tia dele?
       - Claro que sim. - As lgrimas correram pelas faces de Crystal quando os beijou. - Tia Jane. Ele vai gostar muito de ti quando for maior!
       A criana parecia satisfeita quando devolveu Zebediah Wyatt aos braos da me.
       
Captulo 40
       
       A 26 de Novembro de 1956, Zebediah festejou o seu primeiro aniversrio. Ingrid Bergman rodara Anastsia nesse ano, depois de ter sado do tipo de escndalo 
que Crystal se sentia to grata por ter evitado. No era to conhecida como a atriz sueca, mas depois do julgamento do ano anterior poderia ter sido fonte de escndalos 
e dava graas a Deus por isso no ter sucedido. 
       Foi a prpria Crystal quem preparou o bolo de Zeb, e ele riu de contentamento ao enfiar as duas mos na massa enquanto Jane ajudava a limp-lo. Tinha j oito 
anos e adorava o beb. Era o seu companheiro de brincadeiras favorito.
       Hiroko comeava a ser aceite, de forma tcita, pelas pessoas que a tinham banido durante uma dcada. Mas Jane ainda pagava o preo pela coragem dos pais, 
e a maior parte dos seus colegas da escola troava dela chamando-lhe mestia. Isso tornou-a muito tmida e medrosa e tambm muito sbia. Mas com os meigos ensinamentos 
de Hiroko, comeava a adquirir o dom do perdo e da pacincia. Levava Zeb para todo o lado no rancho, e era uma grande ajuda para Crystal, que andava muito ocupada 
a supervisionar tudo e s vezes at a cavar. O rancho ia bem e ela vendera um pequeno terreno para pagar alguns melhoramentos. Mas tambm sabia que nunca iria obter 
muitos lucros, apenas o suficiente para sobreviver. O melhor que poderia fazer era tornar o rancho auto-suficiente, para assim pagar as suas primeiras necessidades 
e as de Zeb. Nunca iria torn-los ricos nem sequer permitir-lhes pequenos luxos, e j h meses que ela andava preocupada.
       Via os Webster a lutar pela sobrevivncia e no os deixava pagar a renda, pois,  semelhana do rancho, a bomba da gasolina tambm no dava grandes lucros. 
E agora ela tinha que pensar em Zeb. Pensava que em breve teria de arranjar um emprego e poupar algum dinheiro para o futuro do filho. Sabia que nunca venderia o 
rancho. Ainda se recordava das palavras do pai, que lhe dissera para no vender aquela terra, e no o faria sob pretexto algum. Aquela era a sua casa, e a de Zeb, 
e agora a dos Webster.
       No referiu nenhuma das suas preocupaes quando Spencer telefonou. Continuava a faz-lo de vez em quando, mas, com receio que ele ouvisse o filho, era sempre 
lacnica. E ele telefonava com freqncia cada vez menor. S o torturava ouvir a voz de Crystal, mas ela dissera-lhe claramente que no desejava v-lo. Tinha receio 
que ele visse Zeb se regressasse, e o filho era um segredo que ela guardava com a prpria vida. Sabia que Spencer estava a sair-se bem, lera uma vez um artigo sobre 
ele na revista Time, e de vez em quando apareciam referncias a ele at nos jornais locais.
       Na primavera de 1957, o pas gozava de prosperidade econmica, mas isso parecia nada ter a ver com a realidade de Crystal. Ela teria de fazer algo em breve. 
O inverno fora difcil e j no era possvel ocultar as dificuldades. Tinha de se empregar para conseguir mais dinheiro.
       Zeb fez ano e meio e corria atrs de Jane por todo o lado. Esperava ansioso que ela regressasse da escola ao final do dia. E numa tarde de Maio, Crystal e 
Hiroko seguiam-nos pela estrada de terra que passava por entre as vinhas. Crystal tomara a deciso na noite anterior, depois de meditar no assunto durante meses. 
Era a nica coisa que sabia fazer, e dois anos depois, o escndalo j fora esquecido. Tinha de regressar a Hollywood para tentar a sua sorte. Hiroko olhou-a com 
tristeza ao ouvir aquelas palavras. Sempre se perguntara se Crystal regressaria algum dia  cidade. E de certa forma isso no a surpreendeu. Ficariam destroados 
ao v-la partir, ela podia at vender o rancho. Mas Crystal tranqilizou-os de imediato, e o que disse a seguir espantou Hiroko.
       - Quero deixar o Zeb contigo. - Observava-o a andar atrs de Jane, enquanto a criana mais velha se ria, e Zeb dava as gargalhadas prazenteiras que tanto 
alegravam a sua me. A cada momento, a cada dia, ele fazia-lhe lembrar o pai.
       - Vais para Los Angeles sem ele? - Hiroko mal podia acreditar.
       - Tem de ser. Olha o que aconteceu  Ingrid Bergman. Posso levar anos a entrar noutro filme. Talvez nunca e deixem. Mas vale a pena tentar.  a nica coisa 
que sei fazer. - E sabia que fora boa naquilo. Vira um dos seus filmes no ano anterior e ficara intrigada ao ver-se na tela. E agora, com vinte e cinco anos, havia 
na sua expresso uma certa maturidade que parecia ter aumentado ainda mais a sua beleza, embora ela no o soubesse. Faria vinte e seis anos nesse ano, e tinha de 
pensar no filho. Mas a altura de ir era aquela, antes de envelhecer e antes de ser esquecida. Perdera o contacto com toda a gente de l, propositadamente, e agora 
teria de comear tudo de novo. Mas desta vez teria de o fazer no duro, sem apresentaes fceis atravs de um homem como Ernie. No voltaria a aceitar favores de 
ningum. Aprendera essa lio. Nessa noite Hiroko contou ao marido, e ele ficou to admirado como ela ao saber que Crystal ia partir.
       - Vai deixar o Zeb conosco? - Hiroko assentiu, e Boyd ficou sensibilizado. Era a prova mxima de como ela confiava neles. Sabiam quanto Crystal amava o filho, 
e em junho, Crystal chorou sem parar durante uma semana antes de o deixar. Era como se lhe estivessem a arrancar a alma, mas ela tinha de o fazer, para bem dele. 
Era melhor agora do que dez anos mais tarde; nessa altura seria tarde de mais para ela. Plos padres de Hollywood, Crystal no estava a ficar mais nova.
       - E se ele se esquecer de mim? - perguntou ela a chorar  amiga, enquanto Hiroko a via sofrer com aquela separao. Perguntou-se se ela teria foras suficientes.
       Num dia lmpido de junho, ela beijou-o pela ltima vez e ficou durante muito tempo no alpendre ao sol da manh a observar a terra, sentindo no corao a mesma 
dor que sentia sempre que olhava para aquilo que lhe fora deixado pelo pai. Segurou Zebediah bem junto a si, cheirou a doura da sua pele e depois, com um soluo 
reprimido, entregou-o a Hiroko.
       - Toma conta dele...
       Zeb chorou e estendeu os brainhos. Nunca se afastara dela nem por uma hora, desde que nascera. E agora ela ia abandon-lo. Prometera voltar logo que pudesse, 
mas as suas finanas no lhe permitiriam muitas viagens.
       Boyd levou-a  cidade e ficou a v-la subir para o autocarro. Ela voltou atrs e tornou a abra-lo, os olhos cheios de lgrimas enquanto ele a abraou.
       - Toma conta do meu beb...
       - Ele vai ficar bem. Toma mas  conta de ti. - No conseguia deixar de pensar no azar que ela tivera antes, mas desta vez Crystal estava mais velha e mais 
experiente.
       Parou dois dias em So Francisco para comprar roupas, e teve bastante cuidado na sua escolha. Precisava de aproveitar o pouco dinheiro que tinha e desta vez 
sabia exatamente do que precisava. Comprou vestidos que lhe realavam o corpo, no demasiado ousados, e apercebeu-se de como emagrecera a trabalhar no rancho. Com 
as calas de ganga nunca reparara, mas agora via o peso que perdera; contudo, isso tornava as suas pernas mais longas, a cintura mais fina e o busto maior. Comprou 
chapus que lhe realavam o rosto e sapatos de salto alto com os quais mal conseguia andar. Visitou tambm Harry e Pearl e jantou com eles. Uma das noites que l 
ficou cantou no restaurante, apenas para ver como se sentia, em memria dos velhos tempos, e ficou admirada por ainda conseguir cantar. Mas regressar ali f-la recordar-se 
da noite em que Spencer a encontrara a seguir ao seu noivado. Tudo em toda a parte a fazia recordar-se dele. S desejou que Los Angeles no a fizesse recordar Ernie.
       Chegou a Hollywood no dia seguinte, e sentiu-se uma desconhecida. Ningum pareceu prestar-lhe ateno quando se registrou num hotel barato. Era apenas mais 
um rosto bonito que ali chegava para ser descoberto.
       Esperou um dia, para ganhar coragem, e ligou duas vezes para casa. Zeb estava a alimentar-se bem; tinha ido  casa grande  procura dela, mas Jane seguira-o 
e trouxera-o de volta, e Hiroko insistiu que ele parecia feliz. E na manh seguinte, com mos trmulas, ligou a um dos agentes que conhecera havia alguns anos. J 
fazia cinco anos que chegara a Los Angeles com Pearl, mas desta vez Crystal sabia o que estava a fazer. Ele marcou um encontro com ela para essa tarde, e Crystal 
compareceu. Mas o agente foi muito brusco.
       - No posso arranjar-te nada, j que queres saber.
       - Por qu? - perguntou ela, muito triste. O agente ainda a achava arrebatadora. Era lamentvel, mas era verdade. No podia us-la.
       - Porque mataste um homem. Esta cidade  muito estranha. Toda a gente faria qualquer coisa para conseguir o que quer, e ningum tem princpios. Mas no que 
toca s clusulas da moralidade nos seus contratos, os estdios querem virgens. Querem que toda a gente fique fora de alhadas, e faa tudo muito bem. No se pode 
ser homossexual ou maluco ou ter um grande apetite sexual. Se alguma atriz engravida, se algum dorme com a mulher de outro, se se matar outra pessoa, acaba tudo. 
Aceita o meu conselho, querida, volta para onde estiveste nestes dois ltimos anos e esquece isto tudo.
       As coisas eram to simples como ele as punha, e Crystal pensou em fazer o que ele dizia. Mas tinha dinheiro suficiente para ficar ali pelo menos dois meses, 
e ainda no estava disposta a desistir. Falou com mais trs agentes na semana seguinte, e eles disseram-lhe a mesma coisa, embora em termos ligeiramente mais subtis. 
Contudo, a mensagem era a mesma. A sua carreira em Hollywood chegara ao fim. Admitiram que os dois ltimos filmes que ela fizera estavam bons, que a sua voz era 
excelente, e todos os realizadores disseram que tinham gostado de trabalhar com ela. Mas, apesar de tudo isso, nenhum dos estdios a queria.
       Duas semanas depois de ter chegado, num dia de sol radioso, Crystal estava sentada num restaurante a beber um sumo quando viu um dos atores com quem tinha 
contracenado. A princpio ele olhou-a de longe, depois aproximou-se lentamente.
       - Crystal, s mesmo tu? - Ela assentiu e tirou o chapu, sorrindo. Fora muito amvel apesar da sua fama, e tinha sido agradvel trabalhar com ele.
       - Sim. Pelo menos  o que acho. Como tens passado, Lou?
       - Bem, obrigado. Onde  que te enfiaste durante este tempo todo?
       - Desapareci. - Ambos sabiam por que, mas ele no referiu o assassnio de Ernie nem o julgamento.
       - Que vieste c fazer? Ests a trabalhar nalgum filme? - Ainda no ouvira dizer que ela estava de volta, no a vira na cidade e nunca tinham sido muito chegados, 
mas simpatizava com ela. Sempre achara que fora uma infelicidade que as coisas lhe tivessem corrido mal. Verdadeira profissional, ele sempre achara que um dia seria 
uma grande estrela. Mas Ernie pensara o mesmo.
       Ela riu-se e abanou a cabea:
       - No, no estou a trabalhar - respondeu com um olhar de resignao. - Ningum me quer tocar.
       - Os tipos aqui so muito duros. - Ele tambm tinha alguns problemas, pois corriam boatos de que era homossexual. E tivera de casar com a irm do amante. 
Agora tudo voltara  normalidade. Ningum estava disposto a aceitar a verdade em Hollywood. Era necessrio jogar pelas regras ou ento esquecer tudo. - Quem  o 
teu agente?
       - A mesma coisa.
       - Merda. - Ele sentou-se, desejando poder ajud-la, e depois teve uma idia. - J foste falar diretamente com algum realizador? s vezes isso resulta. Se 
eles te quiserem, fazem o possvel e o impossvel e a magia acontece: voltas a trabalhar de um dia para o outro.
       Ela tornou a abanar a cabea:
       - Creio que no meu caso as coisas podem no ser to simples.
       - Olha... onde  que ests instalada? - Ela disse-lhe e ele tomou nota num guardanapo. - No faas nada. No te mexas. Eu ligo-te. - Lamentava imenso a sua 
sorte quando se afastou, sabia que a situao era delicada, quanto a ela no esperava que ele a ajudasse nem que lhe ligasse.
       Duas semanas depois, quase desistira e estava cheia de saudades de Zeb quando o telefone tocou no seu quarto quente. No fim de julho, Crystal j estava disposta 
a desistir e a ir para casa. No valia a pena passar ali o ms de Agosto. Mas quando atendeu o telefone, era Lou...
       - Tens um lpis Crystal? Toma nota. - Ditou-lhe dois nomes, um de um realizador e outro de um produtor muito conhecido. Faziam o tipo de filmes que recebia 
scares da Academia, e ela teve vontade de rir quando ele lhe sugeriu aqueles dois nomes. - Olha, falei com ambos, so uns tipos bestiais. O realizador no sabia 
bem aquilo que podia fazer por ti, mas est disposto a tentar. Mas o Brian Ford mandou-me ter a certeza que tu lhe ligavas.
       - No sei, Lou. Creio que j desisti, mas, mesmo assim, obrigada.
       - Olha - ele parecia aborrecido -, se no lhes ligares colocas-me numa posio desagradvel. Disse-lhes que precisavas mesmo de voltar a trabalhar. Precisas 
ou no precisas?
       - Preciso... mas... ser que eles sabem do julgamento?
       - Ests a gozar? - respondeu ele com uma gargalhada triste. Dezesseis pessoas tinham-lhe dito para a mandar bugiar. Sabiam do julgamento. Todos sabiam. - 
Esquece isso. Que tens tu a perder, exceto bolsos vazios?
       Lou tinha razo, e ela ligou a ambos na manh seguinte. Frank Williams foi franco, disse que seria quase impossvel ela arranjar trabalho, mas ofereceu-se 
para lhe fazer um novo teste, e se ficasse bom, ela poderia utiliz-lo. Decidiu tratar primeiro desse assunto, e depois disso ligou ao produtor.
       O primeiro teste que ela fez ficou fraco. Crystal estava nervosa e teve a impresso de que esquecera tudo o que soubera. Mas Frank insistiu para que ela fizesse 
outro, e o segundo j ficou melhor. Observaram-no os dois e o produtor disse-lhe onde  que ela tinha errado. Crystal sabia que precisava de um novo professor, mas 
no tinha dinheiro para lhe pagar. Perguntou-se se valeria a pena telefonar a Brian Ford. O teste no era nada de extraordinrio, ela sentia-se cansada e estava 
calor, e o seu passado no a ajudava. Mas em ateno a Lou, fez o telefonema, para que os esforos do amigo no tivessem sido em vo. Pelo menos assim poderia dizer-lhe 
que tentara antes de regressar para o rancho e para o filho. Estava quase contente por no ter conseguido. J no suportava continuar afastada dele.
       A secretria de Brian Ford marcou-lhe uma reunio para a tarde do dia seguinte, parecendo saber quem ela era. No dia seguinte Crystal apanhou um txi para 
o escritrio. Ficava na parte norte de Hollywood e ela passou a viagem a olhar nervosamente para o taxmetro. Esquecera-se de como os txis eram caros. Estava na 
cidade h exatamente cinco semanas e o seu pouco dinheiro desaparecia rapidamente. Havia alguns dias em que quase tinha medo de comer, e devido ao calor e s saudades 
de Zeb mal tinha apetite.
       A secretria pediu-lhe para esperar. Por fim, aps o que pareceu uma eternidade, mandou-a entrar. Crystal levava um vestido branco com uma longa racha na 
saia comprida e penteara o cabelo cor de platina at ele ficar brilhante. Daquela vez levou-o solto, como costumava usar quando era criana. Usava tambm sandlias 
brancas de salto alto e luvas, mas quase nenhuma maquiagem. Estava farta de ter que se arranjar, de fingir ser algo que no era. Ansiava por regressar a casa e vestir 
as calas de ganga, e aquela era a ltima paragem. Queria acabar com tudo aquilo e ir-se embora, e isso podia ler-se nos seus olhos quando a secretria a mandou 
entrar. Era uma sala enorme, muito bem decorada, com vrios scares alinhados numa prateleira, uma lareira, uma grande secretria de vidro e uma espessa alcatifa 
cinzenta. Quando olhou para o outro lado da sala Crystal viu um homem robusto com cabelo branco como a neve, olhos azuis, e quando ele se levantou, viu que era um 
gigante. Media um metro e noventa e dois e tinha uma voz grave e melodiosa. Fora ator havia muitos anos, mas decidira que havia coisas mais interessantes do que 
decorar falas. Aos vinte e cinco anos j era realizador e dez anos mais tarde produzia filmes importantes. Agora, com cinqenta e cinco, tinha atrs de si duas dcadas 
de histria cinematogrfica. H anos que fazia bons filmes e era respeitado por toda a gente. Crystal apercebeu-se de que era uma honra ele querer v-la e isso revelava 
o respeito e admirao que tinha por Lou.
       Ele dirigiu-lhe um sorriso amvel, convidou-a a sentar-se, ofereceu-lhe um cigarro, que ela recusou, e acendeu um para si, estreitando os olhos enquanto a 
observava. Tinha ar de quem montava ou caminhava plos campos tal como o pai dela fizera e no de quem estava sentado a uma secretria a produzir filmes. No possua 
a fluncia nem os modos polidos do falecido Ernesto Salvatore. Era um homem digno e importante.
       - O Lou disse-me que teve bastantes dificuldades desde que chegou.
       Ela assentiu, completamente  vontade. Ele parecia quase um pai.
       - Acho que j era de esperar. - E ambos sabiam o motivo, mas ele foi suficientemente corts para no tocar no assunto.
       - Teve alguma sorte? - Semicerrou os olhos atrs do fumo do cigarro, enquanto ela abanava a cabea.
       - Nenhuma. Volto amanh para casa.
       -  pena. Tive uma boa idia para si. - Mas ela j nem sabia se isso lhe interessava. Tudo o que fizesse iria afast-la por mais tempo de Zeb, e no desejava 
que tal acontecesse. - Estamos neste momento a preparar um novo filme. Gostaria de incluir nele um pequeno papel para si. S para a colocar de novo em circulao. 
Nada de muito especial. Mas poderia dar-nos a oportunidade de vermos a reao das pessoas.
       -  o filme de algum estdio? - J sabia que nenhum estdio a deixaria trabalhar, independentemente da pouca importncia do papel, mas ele abanou a cabea 
e olhou para ela. Frank Williams j lhe mostrara o teste de Crystal e ele gostara.
       - No, estou a faz-lo como independente.  claro que eles trataro da distribuio. Mas no tm voto na escolha de atores. - Pensara at em sugerir que ela 
adotasse um novo nome, mas no quis faz-lo. Apesar do que tinha feito, Crystal Wyatt comeara por ser conhecida como uma boa atriz. - Quer pensar no assunto? S 
comeamos em Setembro.
       - Quer que assine um contrato consigo? Ele sorriu e tornou a abanar a cabea:
       - S para este filme. No tenho escravos. - Nessa altura ela percebeu que ele sabia de toda a sua histria com Ernie, mas que apesar disso estava disposto 
a dar-lhe trabalho. Sentiu-se invadida por uma onda de gratido, e teve vontade de tentar.
       - Posso pensar no assunto durante uns dias? - Mas ambos sabiam que seria a nica oportunidade dela. Crystal no estava a fazer-se difcil, apenas precisava 
de decidir se valeria a pena tornar a deixar Zeb.
       Ele apertou-lhe a mo, acompanhou-a  porta e ela sentiu-se estranhamente  vontade com ele. Lou tivera razo. Brian Ford era um homem digno e estava a abrir-lhe 
a porta de volta ao cinema. Ficou acordada a pensar no assunto durante toda a noite, e ligou-lhe na manh seguinte a dizer que aceitava. Ford pareceu ficar satisfeito 
e informou-a de que lhe mandaria o contrato e o guio.
       - Pea a um advogado que examine o contrato por si. - De novo, mostrava-se muito diferente de Ernie. - S precisa de comparecer nas filmagens a quinze de 
Setembro.
       Eram as melhores novidades que ela ouvia naquela semana. Podia ficar com Zeb durante Agosto e metade de Setembro. Telefonou a Lou a agradecer-lhe e ele deu-lhe 
o nome do seu advogado, que mais tarde tratou do contrato. Nessa tarde Crystal voltou para casa de avio depois de ter dado a Ford a sua morada. E nessa noite estava 
no autocarro de regresso ao vale. Ainda se sentia sensibilizada pela forma como Brian Ford a tratara e,  noite, sentada na cozinha agarrada ao filho, sorriu para 
si prpria. Resultara! Conseguira! Mas a melhor parte era estar de volta junto do filho. Durante seis semanas correu e brincou com ele, nunca o abandonando mais 
do que alguns momentos.
       Boyd e Hiroko sentiam-se entusiasmados por ela, e seis semanas depois Crystal tornou a partir de avio. O papel era pequeno, mas Ford certificara-se de que 
era bom. Queria que ela se sasse bem. Achava que Crystal tinha talento e simpatizava com ela.
       Possua uma franqueza que ele muito apreciava, uma abertura, um carinho e uma coragem calma fruto dos tempos difceis por que passara. Era um forte contributo 
para a sua beleza e reforava a sua atuao. E como de costume, ao ver as provas ao fim de cada dia, soube que tivera razo. Ela era boa. Muito boa. Ofereceu-lhe 
outro filme depois desse e no Natal, quando regressou para junto de Zeb, j tinha dinheiro suficiente para comprar a todos bons presentes. Teve de voltar logo a 
seguir para Los Angeles, e trabalhou arduamente at Maro, mas o segundo filme era bom e quando estreou, os crticos adoraram-na. O passado foi repentinamente esquecido. 
Ela voltava a ser a preferida, mas s que desta vez pelas razes certas. Era uma boa atriz que entrava em bons filmes, realizados por um dos produtores mais prestigiados 
de Hollywood. No havia inconsistncias, presses, contratos enganosos nem submundo. O fantasma de Ernie Salvatore fora enterrado e Crystal Wyatt no s sobrevivera 
como triunfara.
       Spencer viu o seu segundo filme uma noite, em Washington, em que estava sozinho e ficou estupefato ao v-la de novo no cinema. J havia meses que no lhe 
ligava e nada sabia do ressurgimento da sua carreira. Ficou sentado a olhar para o ecr, sentindo um grande peso no corao. E na manh seguinte tentou ligar-lhe. 
Mas ningum atendeu no rancho e ele no fazia idia de como encontr-la em Hollywood. Contudo, tambm no valia a pena faz-lo. Ela deixara tudo bastante claro da 
ltima vez que falara com ele: no queria que ele lhe telefonasse. Spencer tinha a vida preenchida. Era agora o principal assessor do senador e decidira no concorrer 
para o Congresso.
       Estava-se no comeo de 1959, quando Crystal principiou outro filme. Tinha o seu prprio apartamento e pela primeira vez sentia-se segura no trabalho. Todos 
os estdios a desejavam agora, mas ela gostava de trabalhar com Brian Ford. Isso limitava-a um pouco, mas ela adorava a qualidade dos seus filmes e aprendera muito. 
Comeara tambm a ganhar muito dinheiro. Ele levava-a a jantar de vez em quando, eram bons amigos, mas nunca quis dela mais do que aquilo que ela lhe oferecia. Crystal 
vivia unicamente para o filho. Falava com ele pelo telefone todas as noites e ia sempre a casa nos intervalos entre os filmes.
       Uma noite estava no Chansn's a jantar com Brian quando ele lhe perguntou com um sorriso:
       - O que  que te faz passar a vida a ir ao norte? - Calculava que fosse um homem, porque nunca a vira envolvida com nenhum, mas ela sorriu e hesitou antes 
de responder. No entanto, sabia que ele era de confiana, e sentindo-se estranhamente comunicativa, contou-lhe.
       - O meu rancho e o meu filho. Ele est em casa de uns velhos amigos enquanto eu estou a trabalhar.
       Brian Ford franziu o sobrolho, e quando voltou a falar f-lo em voz baixa.
       - Crystal, alguma vez foste casada? - Ela abanou a cabea, tal como ele esperava. - No contes isso a ningum. Lembra-te do que fizeram  Ingrid Bergman. 
Correm-te da cidade to depressa que nem sabes o que te aconteceu.
       - Eu sei - disse ela com um suspiro. -  por isso que o deixo l. Parece que as pessoas toleram o homicdio, mas no filhos ilegtimos.
       - Que idade tem ele? - Tinha curiosidade em saber quem era o pai. Talvez tivesse sido por causa da criana que ela matara Ernie. No lhe perguntou nada, mas 
pensou nisso enquanto ela respondia.
       - Dois anos e meio.
       Ernie morrera havia trs anos e meio, e isso disse-lhe o que ele desejava saber.
       - Ento no  filho do Ernie.
       - Credo, no! - Ela riu-se. - Preferia ter-me matado a ter tido um filho dele. Ele tambm sorriu.
       - No posso dizer que discordo de ti. Sempre tive pena que te tivesses envolvido com ele. Algum devia t-lo matado muito antes de ti.
       - No fui eu quem o matou - retorquiu ela com voz calma, olhando-o bem nos olhos. - Mas a minha nica defesa foi fazer com que o caso parecesse legtima defesa. 
No havia testemunhas que me tivessem visto a sair de Malibu nem a chegar a casa. E a Polcia disse que eu possua motivos e tivera a oportunidade. Tomamos o nico 
caminho possvel na altura. E ganhamos. Creio que agora  s isso que importa. - S que as pessoas ainda pensavam que ela tinha matado um homem, e isso custava-lhe. 
Aos olhos dos outros Crystal era uma assassina. Ao pensar no assunto, achou espantoso ter conseguido voltar a trabalhar. Ergueu os olhos para Brian com um sorriso, 
cheia de respeito por ele. - Obrigada por confiares em mim. Ensinaste-me muito.
       - Estas coisas funcionam sempre para os dois lados. - Depois tornou a pensar no homem: - O pai do rapaz vive contigo no rancho? - Calculava que era por isso 
que ela regressava sempre a casa depois de um filme, no apenas por causa do lho mas tambm por causa do pai dele.
       Ela abanou a cabea. J estava conformada. Tivera razo em mand-lo embora. Ficava sempre contente por saber que Spencer se estava a sair bem. J abandonara 
a vida dela, mas Crystal ficara com Zeb, at  morte. Era uma ddiva especial... a sua pequena ddiva de Deus. - O pai partiu antes de ele nascer. Nem sequer sabe 
da existncia do filho.
       Brian olhou para ela durante bastante tempo, cheio de novo respeito por ela.
       - Passaste uns maus bocados. - Crystal sorriu. Arrependia-se de alguma coisa que fizera na vida, mas no do filho. Ento falaram do novo filme e Brian tinha 
outros planos. Ele sorriu enquanto pagava a conta: - Um dia destes vamos arranjar-te um Oscar!
       Contudo, ela no estava ansiosa para que isso acontecesse. Voltara a ser uma estrela, e desta feita uma das grandes. As pessoas reconheciam-na em toda a parte 
e pediam-lhe muitas vezes autgrafos quando saa. At a reconheciam agora quando regressava ao rancho, mas a ela era muito discreta. No queria que ningum descobrisse 
Zeb e fosse contar aos jornalistas.
       Brian voltou a sair com ela vrias vezes depois disso, e quando o filme terminou deu uma grande festa para os colaboradores. Pediu a alguns amigos para ficarem 
at mais tarde e Crystal encontrava-se entre eles. Enquanto viam o Sol nascer, serviram-lhes um pequeno-almoo mexicano no ptio da casa. Ele falou-lhe dos filhos. 
Ambos tinham morrido na guerra e o seu casamento no resistira a esse choque. Ele e a mulher tinham acabado por divorciar-se e ela regressara para Nova Iorque. Brian 
disse a Crystal que isso mudara rapidamente a sua vida. No desejava voltar a casar e agora ela percebia por que razo ele declinara os seus convites para ir ao 
rancho. Brian tinha conhecimento da existncia de Zeb, no estavam envolvidos emocionalmente, Crystal apenas quisera ser amvel para com um amigo. Mas ver o filho 
dela t-lo-ia magoado muito. Ele explicou-lhe que j no gostava de estar perto de crianas, pois elas faziam-no recordar-se dos filhos. Tanto Crystal como Brian 
tinham pago um preo demasiado elevado pela sua vida, mas esse fato tornara-os mais fortes. Isso revelava-se na qualidade dos filmes dele e na forma como ela representava.
       Falaram durante horas, e depois de os outros se terem ido embora ele acompanhou-a a casa de carro. Dali a uns dias ela regressaria ao rancho. Tencionava passar 
a o Vero e comear a trabalhar num novo filme no Outono. Pela primeira vez era para outro realizador. Mas Brian encorajara-a a faz-lo, dizendo que a mudana seria 
benfica. E tinha outro projeto para ela depois disso. Parecia que os projetos que ambos partilhariam se estendiam por muitos anos. Quando chegaram ao apartamento 
de Crystal, a jovem convidou-o a subir, mas ele disse que estava demasiado cansado aps aquela noitada. Foi-se embora, mas telefonou-lhe ao fim da tarde. Perguntou-lhe 
se ela queria jantar com ele antes de partir e ela ficou sensibilizada com o seu telefonema.
       Foram a um restaurante em Glendale e sentaram-se a uma pequena mesa a um canto, e quando o observou Crystal reparou que Brian tinha nos olhos uma expresso 
bastante triste. Perguntou-se o que o estaria a perturbar e ficou admirada quando ele pegou na sua mo.
       - No sei como te dizer isto. J h muito que penso no assunto e agora parece uma idiotice. - Ela no fazia idia do que o incomodava, e segurou na mo dele, 
sorrindo-lhe com doura. Gostava bastante daquele homem. Tinha cinqenta e sete anos, ela faria vinte e oito nesse Vero e sentia-se tocada pelo valor daquela amizade. 
- Gostaria de passar algum tempo contigo quando regressares. Deve ser estranho ver-te a trabalhar para outra pessoa. Vou sentir a tua falta.
       Ela soltou uma ligeira gargalhada.
       -  claro que irei passar algum tempo contigo. E no vou ficar fora muito tempo. Alm disso, em Janeiro comeamos a trabalhar no novo filme.
       Ele apercebeu-se que ela no tinha compreendido.
       - Estou a dizer que gostaria de ir contigo para qualquer lado durante uns dias. - Ela pareceu ficar surpreendida. Brian nunca lhe dissera nada daquele gnero. 
- Es a primeira mulher com quem eu falo desde h muito tempo. - Ainda estava admirado por lhe ter falado dos filhos. Nos ltimos anos no contara a ningum. Passava 
sozinho a maior parte do seu tempo livre, a cuidar do jardim, a ler, a dar longos passeios a p, a trabalhar as novas idias e a ler guies para futuros filmes. 
No meio do caos de Hollywood, Brian era um homem slido, pacfico, distinto e solitrio, com uma grande inteligncia e dignidade.
       - No queres vir comigo at ao rancho? - tornou ela a convidar. Mas desta vez perguntou-se o que aconteceria. Ele sorriu e abanou a cabea:
       -  a nica oportunidade que tens de ficar sozinha. No quero ser um intruso. Podemos ir a qualquer lado quando regressares. - E depois o qu? Continuariam 
a ser amigos? Ela estava um pouco preocupada, mas a caminho do apartamento ele tranqilizou-a. Queria pouco mais dela do que aquilo que j tinha. - No quero com 
isto dizer que estou apaixonado por ti Crystal. No estou. Creio que nunca mais me apaixonarei. J tive tudo isso. E a minha vida agora  muito tranqila - continuou 
ele com um sorriso enquanto seguiam no carro. - No quero filhos, casamentos, obrigaes, mentiras. Quero uma amiga com quem goste de falar, algum que esteja comigo 
de vez em quando, mas no sempre. No quero mais do que isso, e s vezes parece-me que embora sejas muito mais nova do que eu tambm queres as mesmas coisas. Queres 
trabalhar com afinco, sares-te bem e regressar ao teu rancho no fim. Estou certo?
       Ela assentiu. Brian conhecia-a muito bem.
       - Sim, ests certo. J tive tudo o que desejei na vida. Um homem que amei mais do que tudo, xito... e agora o Zeb. Para mim basta. - E pagara por tudo aquilo 
com bastante sofrimento.
       - No, no basta. Um dia gostaria de te ver com algum de quem gostasses. Mas agora, sendo um pouco egosta - disse ele com um sorriso -, ficaria contente 
se pudesses passar algum tempo com um velhote.
       Aquela palavra f-la rir. Ele parecia vinte anos mais novo, ou pelo menos dez. Tratava bem do corpo. Jogava tnis, nadava bastante, raramente ficava a p 
at tarde e nunca entrava em farras. Ela nunca ouvira dizer que ele estivesse envolvido com a estrela de cinema mais recente, nem com atrizes mais antigas. Achava 
que ele era exatamente aquilo que parecia, um homem bem sucedido, trabalhador e muito simptico.
       - Quando voltas? - perguntou ele.
       - A seguir ao Dia do Trabalho. - Iria comear um novo filme pouco depois dessa data, e ele pareceu ficar satisfeito. Estava disposto a esperar, pois no desejava 
visit-la no rancho.
       Nesse Vero, ligou-lhe algumas vezes para o vale, mandou-lhe alguns livros de que achou que ela iria gostar, e um espetacular chapu de cowboy pelo aniversrio. 
Crystal celebrou o seu vigsimo oitavo aniversrio na companhia de Boyd e Hiroko, no rancho. De vez em quando pensava em Brian, pois ele era diferente dos homens 
que conhecera at ali. No havia paixo, ardor, nenhum do amor que ela e Spencer haviam partilhado, nenhuma da fealdade que Ernie trouxera para a sua vida, nem pulseiras 
de diamantes ou casacos de peles. S um chapu de cowboy, livros bons, e cartas ocasionais que a faziam rir e que falavam da vida de Hollywood que nunca mudava, 
mas que fingia mudar quase a toda a hora, todos os dias. E quando regressou a Los Angeles ele esperava-a, tal como prometera, antes do Vero. Foram passar uns dias 
a Puerto Vallarta e no houve desaparecimentos, mistrios, tal como acontecera quando Ernie l fora em negcios com uns "amigos", os amigos que provavelmente o tinham 
morto e a haviam deixado arcar com todas as culpas, quase sendo presa.
       O novo filme estava a correr bem e ningum parecia reparar na nova relao dela. O seu envolvimento com Brian era to discreto como ele prprio. Crystal descobriu 
que ele estava vagamente envolvido na poltica e que dava vultosas quantias aos democratas. Gostava especialmente do jovem Jack Kennedy, que nesse ano iria concorrer 
 Presidncia. A pouco e pouco as pessoas foram-se apercebendo do seu envolvimento com Brian. Nunca viam Crystal com mais ningum. Mas em Hollywood Brian Ford era 
sagrado. Ningum fazia comentrios a respeito dele, no vasculhavam as suas aes, e mantendo-se  sua sombra, a notoriedade de Crystal parecia diminuir, e ela gostava 
disso. J era suficientemente badalada. A sua carreira fora fulminante, mas agora era uma atriz respeitada. E em Abril, Brian conseguiu aquilo que desejava. Crystal 
ficou perplexa com a sua nomeao. Na noite da entrega dos scares, ficou paralisada e sem flego na cadeira quando o sobrescrito foi aberto e o seu nome lido em 
voz alta. No podia acreditar. Recebera o Oscar de Melhor Atriz. E isso tinha ainda mais significado para ela porque o filme era de Brian. Ele apertou-lhe a mo 
enquanto o nome dela era lido e Crystal continuou sentada durante mais um minuto, com medo de se mexer e receando ter ouvido mal. Depois levantou-se e avanou pela 
coxia enquanto todos a aplaudiam e as cmaras a filmavam. Mal acreditava que aquilo lhe estava a acontecer, e viu tudo esborratado quando subiu ao palco e pegou 
com mo trmula no Oscar. Depois olhou para a assistncia, para o local onde sabia que Brian estava sentado.
       - No sei o que dizer - disse ela para o microfone, a sua voz to rouca e melodiosa como sempre -; nunca pensei que um dia estaria aqui, a fazer isto... por 
onde comeo? O que devo dizer? Tenho de agradecer a tanta gente que acreditou em mim! O mais importante de todos, claro,  Brian Ford, sem o qual eu andaria a apanhar 
uvas e milho num vale muito distante daqui. Mas tambm a outras pessoas... s pessoas que j h muito acreditam em mim... a um homem chamado Harry que me deu um 
emprego de cantora quando eu tinha dezessete anos... - E enquanto ela dizia aquelas palavras Harry comeou a chorar no restaurante de So Francisco onde todos estavam 
a ver a televiso. -... E a uma senhora muito especial chamada Pearl, que me ensinou a danar e veio comigo para Hollywood... ao meu pai que me disse que fosse para 
o mundo atrs dos meus sonhos... a todos os realizadores com quem trabalhei e que me ensinaram aquilo que sei... aos meus colegas neste filme... e a Louis Brown, 
que me apresentou a Brian Ford...  a vocs que devo tudo. - Levantou o Oscar com lgrimas nos olhos. - Devo-vos isto. Tambm agradeo aos meus amigos Boyd e Hiroko, 
que tomam conta daquilo que mais amo - fez uma pausa, sorrindo, enquanto as lgrimas lhe corriam pelas faces -, e um obrigada muito especial  pessoa que me fez 
crescer, que  tudo para mim... Zeb, que eu amo acima de tudo. - Dirigiu um sorriso especial para a cmara, sabendo que ele deveria estar a v-la. - Obrigada a todos.
       Cumprimentou ento a assistncia, com o Oscar bem erguido, e regressou ao seu lugar acompanhada por fortes aplausos. Todos sabiam que ela viera de baixo e 
sabiam muito do que lhe acontecera. Sabiam do julgamento e tinham-lhe perdoado. Haviam-na aceitado e dado a maior recompensa possvel. Brian passou-lhe um brao 
plos ombros quando ela se sentou. As lgrimas ainda lhe corriam pelo rosto e ele abraou-a, dirigindo-lhe um sorriso de triunfo.
       - Ele  um menino cheio de sorte - murmurou, enquanto as cmaras continuavam a filmar e se detinham na multido que ainda aplaudia. Os fs dela estavam contentes 
e as pessoas cujos nomes ela tinha dito comemoravam nas suas casas. Lou Brown assistia a tudo com uns amigos e ficou feliz por ela, Boyd e Hiroko estavam quase em 
choque enquanto brindavam  sua sade. Pearl ainda no parara de chorar desde que ouvira o nome de Crystal e Harry oferecia a todos os clientes champanhe de Napa 
Valley. E em Washington, Spencer faltou a um jantar e estava na cama com uma forte constipao. Ficara a olhar para Crystal, pensando como ela chegara longe e quanto 
desejava poder ter l estado para partilhar tudo. Fora um idiota ao t-la deixado escapar e por ter regressado sozinho a Nova Iorque, e s vezes perguntava-se se 
ela teria feito tudo propositadamente. Se tinha querido que ele voltasse para Elizabeth e Washington para que continuasse a sua carreira na poltica. Era o gnero 
de coisa que ela seria capaz de fazer, mas agora era tarde de mais para mudar fosse o que fosse. Spencer estava demasiado envolvido na poltica e ela tinha agora 
outras pessoas na vida. Vira-a abraar o homem com quem estava sentada. E calculou que ele fosse o bem-amado Zeb a que ela se referira. Era um homem cheio de sorte, 
pensou Spencer, e s esperava que ele a tratasse bem. Ela estava linda. Mas ele conhecia o outro lado de Crystal, o lado que o ajudara a conseguir os seus sonhos, 
o lado que partilhara com ele os seus segredos... a criana que ele conhecera... a mulher com que regressara ao vale. A mulher que ele amara mais do que a prpria 
vida e que agora, depois de todo aquele tempo, ainda amava. Pensou em enviar-lhe um telegrama, mas no sabia para que morada e ao aperceber-se disso ficou ainda 
mais triste. Perdera-a, ela desaparecera e fora a melhor coisa que acontecera na sua vida. Desligou o televisor e deitou-se, continuando a pensar em Crystal.
       Nessa noite o pequeno Zeb tambm foi para a cama a pensar nela. J tinha quatro anos e meio e sorrira quando a ouvira dizer o seu nome.
       -  a minha me! - exclamara, e entregara a sua Coca-Cola a Jane, enquanto olhava para o ecr. Perguntou-se o que estaria ela a fazer ali, mas Hiroko sossegou-o, 
dizendo que em breve ela estaria de volta.
       Sentiam-se todos muito orgulhosos dela, e Brian Ford mais do que todos. Partilhavam uma relao especial, e se ele fosse mais novo e a sua vida tivesse sido 
diferente, ter-se-ia aproximado mais dela do que aquilo que inicialmente tencionara. Aquilo que tinham servia a ambos. Era algo simples, sincero e puro. No havia 
enganos, mentiras, compromissos, promessas. Apenas a amizade e o fato de ele apreciar a companhia dela. Ela insistira em oferecer-lhe um jantar e depois ele levou-a 
a danar. Crystal disse que ainda estava em choque, mas Brian no ficara admirado por ela ter ganho. Merecia tudo; alm disso, ele estava contente porque o seu filme 
tambm fora premiado. Fora uma grande noite para ambos e quando finalmente a deixou Crystal ficou sentada no seu apartamento a olhar para o Oscar, que colocara sobre 
uma mesa. Era uma espantosa homenagem a que lhe tinham prestado. Uma noite inesquecvel. Era a recompensa por ter regressado a Hollywood e ter feito tudo como devia 
ser. Pensou no pai... em Spencer... e Zeb... nos homens que mais amara. Dois deles j tinham desaparecido. Mas tinha Zeb, e um dia haveria de lhe ensinar o que aprendera 
com todos eles. A ser honesto e decente, a trabalhar muito, a viver bem e a amar de todo o corao, independentemente do preo, e a nunca ter medo de seguir os seus 
sonhos, para onde quer que eles o levassem.
       
Captulo 41
       
       As eleies nesse ano foram muito excitantes e na companhia de Brian, Crystal foi contagiada por essa excitao. Ele foi ao Leste uma ou duas vezes durante 
as campanhas, enquanto ela ficava a trabalhar num dos seus novos filmes. Quando regressou, descreveu-lhe a agitao que reinava em Washington. Estava l quando Jack 
Kennedy venceu, e pareceu surgir uma nova era. Os dias de Camelot, com a sua bela esposa, a filhinha amorosa e o rapaz recm-nascido.
       Crystal passou com Zeb o quinto aniversrio do filho, e quando regressou a Hollywood ficou admirada por ter sido convidada para o baile inaugural. Nessa altura 
j teria acabado o filme que estava a fazer, mas mesmo assim hesitou. Havia velhos fantasmas em Washington que ela queria evitar, e tinha receio de encontrar Spencer.
       - Tens de ir - disse Brian. -  uma grande honra que no podes declinar. E estamos numa poca especial. - Sabia que, tal como o tempo que passava com ela, 
essa poca poderia nunca mais voltar. Estava feliz pelo jovem senador e queria que Crystal conhecesse ambos. Pressionou-a tanto que ela acabou por concordar. No 
foi fcil decidir regressar. Lera nos jornais que Spencer fora nomeado assessor de Kennedy e sabia que ele iria estar presente. Mas rezava para que a multido fosse 
suficientemente grande para no se encontrarem. No queria voltar a v-lo. Tinham-se passado seis anos e demasiado tempo. No desejava tornar a reacender a saudade 
e a dor. Apenas queria o que tinha: as recordaes e Zeb, que a esperava sempre que ela conseguia libertar-se do trabalho e ir at ao rancho para estar com ele.
       Comprou o seu vestido ao costureiro Giorgio. Era prateado, e Brian assobiou quando ela lho mostrou, e riu-se.
       - Bem, conseguiste, mida, pareces mesmo uma estrela de cinema com isso. - Contrastava bastante com os tailleurs discretamente elegantes da Primeira Dama. 
Mas aquele vestido tinha a sua prpria elegncia, tal como Crystal Wyatt. O vestido reluzia, e Brian sorriu e beijou-lhe a mo. Sabia que a estria dela nos crculos 
presidenciais iria ser um xito. E foi.
       O baile inaugural foi mais bonito do que ela tinha imaginado. Havia vrias festas e na realidade dois bailes, e ela achou que a Primeira Dama estava deslumbrante 
no seu vestido Oley Cassini. Havia multides de espectadores por toda a parte, e Crystal foi reconhecida e assinou centenas de autgrafos aos admiradores. Brian, 
num smoking de muito bom corte, sentia-se muito orgulhoso dela. Fazia nesse ano cinqenta e nove anos, mas estava com o ar mais robusto e mais atraente de sempre.
       - Tu tambm ests muito bonito - brincara ela enquanto ele se vestia no Statler Hotel. Reservara aquela sute havia meses e ela teve de admitir que estava 
contente por ter ido com ele.
       A relao de ambos era a mesma desde o incio, um companheirismo agradvel e um romance muito discreto que a maior parte das pessoas ainda no tinha notado, 
mas os que tinham no o comentavam. Crystal gostava bastante dele e Brian satisfazia-lhe certas carncias. Era algum real com quem podia falar em Hollywood, e muitas 
vezes pedia-lhe opinio em assuntos do rancho. E tambm era fisicamente satisfatrio, mas no havia nenhuma chama ardente, sofrimento, paixo ou dor. S a sensao 
agradvel de estar com um homem que respeitava e admirava.
       Nessa noite foram a ambos os bailes e ele apresentou-a ao presidente. Ela ficou admirada com a beleza dele, ao lado da esposa bonita e aristocrtica. Esta 
tinha um ar muito tmido e estava a falar em francs com uma pessoa, mas quando foi apresentada a Crystal disse-lhe que gostava muito dos seus filmes.
       Danaram at altas horas da noite, e foi na altura em que Brian foi buscar o casaco dela que Crystal viu finalmente Spencer. Estava junto  porta com vrios 
outros homens e falava animadamente com elementos dos Servios Secretos. Ela comeou a afastar-se, sentindo-se invadida por uma onda de desejo. Queria que Brian 
regressasse para que pudessem ir-se embora, mas este parecia estar a demorar-se uma eternidade. E quando ela se virou, o brilho do vestido chamou a ateno de Spencer 
e ele parou de falar. Pediu desculpa aos homens e pouco depois estava junto dela, admirando-a, espantado com a sua beleza tal como antes. Estendeu a mo e tocou-lhe 
suavemente no brao, quase que para confirmar se ela era real. E era. Quase em demasia.
       - Crystal... - Tinham passado seis anos. Seis longos anos, repletos de tempos difceis e tempos agradveis, o rancho, os filmes e o filho dele.
       - Ola, Spencer. Calculei que te ia encontrar. Parabns.
       - A sua voz soou baixa na sala ruidosa, mas ele ouviu todas as palavras, achando que nunca a tinha visto mais bela do que naquela noite, com o vestido prateado 
que moldava como um vu de gelo o corpo perfeito que ele ainda recordava.
       - Obrigado. Percorreste um longo caminho - disse ele com um sorriso. As suas palavras possuam vrios significados. Os anos tinham-na transformado na grande 
vedeta que ela desejara ser, e agora que conseguira Crystal estava satisfeita. Mas isso nada era comparado ao que ainda sentia por ele. Ao v-lo todas as recordaes 
regressaram, a alegria e a dor, e o desejo que ainda tinha dele. - Vais c ficar durante bastante tempo? - perguntou ele com um ar casual.
       - Alguns dias. - Crystal foi propositadamente vaga, e rezou para que ele no conseguisse ouvir o seu corao. - Tenho de regressar  Califrnia. - Spencer 
assentiu e ela perguntou-se se ainda seria casado. E no outro lado do salo, Elizabeth sentia-se em glria. O marido era um dos assessores de Kennedy. Aos trinta 
e um anos ela conseguira o que queria. A nica mulher que invejava naquela sala estava casada com o presidente, mas at mesmo esse sonho poderia um dia tornar-se 
realidade. Agora tudo era possvel. Spencer era um homem importante, at para os Barclay.
       - Onde ests instalada? Ela hesitou, mas depois achou que no fazia mal responder-lhe. Ele tinha a sua vida e ela tinha Brian.
       - No Statler.                                                    
       Ele assentiu e Brian reapareceu com o casaco de pele de raposa prateada. Crystal no teve alternativa seno apresentar os dois homens. Brian sabia quem ele 
era, mas nunca se tinham visto e perguntou-se como teria Spencer conhecido Crystal. A ligao dela a Brian era bvia, mas a expresso nos olhos de Spencer no podia 
ser ignorada. Ela despediu-se e partiram, mas na limusine Brian achou-a muito calada. Crystal olhava para a neve que caa. Ele nada disse at chegarem ao hotel, 
mas depois teve de lhe fazer a pergunta.
       - Onde  que conheceste o Spencer Hill? - Tanto quanto sabia, Crystal nunca fora a Washington. Vira-o no ano anterior com Jacky Kennedy e simpatizara de imediato 
com ele. Um dia iria ser um homem importante, alis, j o era, e Brian sabia como ele era indispensvel para o jovem presidente.
       Crystal ps um ar desprendido ao correr o fecho do vestido e sorriu-lhe, mas o seu olhar era triste. Brian viu nele algo que nunca vira, uma espcie de dor 
quase insuportvel.
       - Conheci-o h muitos anos no casamento da minha irm. Esteve na guerra do Pacfico com o meu cunhado. - E acrescentou, virando-lhe as costas: - E defendeu-me 
no julgamento.
       E de repente ele soube. Fora incapaz de descobrir antes. Caminhou lentamente at ela e olhou-a com uma expresso triste.
       -  ele o pai do teu filho, no ? Houve uma longa pausa, e ela acabou por anuir, afastando-se.
       - E sabe?
       Ela abanou a cabea:
       - Nem nunca saber.  uma histria muito comprida, mas ele tem a sua vida e um bom futuro. Se tivesse ficado comigo teria perdido tudo isso. - Dera-lhe a 
ddiva da liberdade na altura certa, e era bom saber que no tinha sido em vo. Spencer aproveitara-a bem.
       - Ele ainda te ama - disse Brian, sentando-se pesadamente. Soubera que um dia aquilo teria de acontecer, mas mesmo assim lamentava-o. Vira os olhos de Crystal 
e os de Spencer.
       - No sejas ridculo. J h seis anos que no o via. Mas na manh seguinte, quando Brian foi tomar o pequeno-almoo com alguns polticos amigos Spencer telefonou-lhe. 
Crystal sentiu o corao aos pulos quando ele disse o seu nome e confessou a si prpria que estava a ser estpida. Spencer queria v-la antes de ela partir, as Crystal 
insistiu que no podia.
       - Crystal, por favor... em memria dos velhos tempos... - Velhos tempos que lhe tinham dado um filho.
       - Acho que no devamos. E se algum jornalista te visse? No vale a pena.
       - Deixa que eu me preocupe com isso. Por favor... - Ele implorava-lhe e ela tambm estava morta por v-lo. Mas com que finalidade? E mesmo que Brian tivesse 
razo ao achar que ele ainda a amava, v-la s iria fazer pior a Spencer. Crystal tentou afast-lo de novo, mas desta vez ele no permitiu.
       - Est bem, ento onde? - Parecia nervosa. Tinha medo da imprensa e de Brian. Ele nunca se mostrara possessivo, mas no queria mago-lo. Na noite anterior 
vira o sofrimento no rosto dele e gostava de o convencer que nada daquilo merecia a sua preocupao. Spencer Hill j no fazia parte da vida dela. Nem nunca mais 
faria.
       Spencer deu-lhe a morada de um barzinho que conhecia e ela prometeu encontrar-se l com ele s quatro horas. Brian ainda no regressara, e ela foi de txi, 
em vez de utilizar a limusine que ele deixara  sua disposio. Receava que o motorista pudesse falar com algum jornalista se a reconhecesse, ou a Spencer.
       Crystal levou um enorme chapu de peles, um casaco tambm de peles e um par de culos escuros, e quando l chegou eleja a aguardava. Spencer tinha neve no 
cabelo, que estava mais grisalho do que da ltima vez que o vira no rancho. E quando olhou para ele no conseguiu impedir-se de pensar no aspecto dele da primeira 
vez que o vira, com calas brancas, o blazer e a gravata vermelha, o cabelo preto brilhante e o sorriso caloroso. No mudara muito, mas ela sim. Com vinte e oito 
anos, a rapariga que fora com catorze j tinha sido esquecida.
       - Obrigado por teres vindo - agradeceu ele, pegando-lhe na mo enquanto ela se sentava. - Tinha de te ver, Crystal. - Ela sorriu, apercebendo-se de novo como 
o filho era parecido com ele, o filho que dera  sua vida todo o seu significado e toda a sua alegria. - Saste-te muito bem - continuou com um sorriso. - Vi todos 
os teus filmes. Ela sorriu, sentindo-se de novo muito jovem.
       - Quem  que teria pensado nisso quando...
       - Lembro-me da primeira vez em que me disseste que querias ser uma estrela de cinema - interrompeu Spencer. - Ainda tens o rancho?
       Ela assentiu.
       - O Boyd e a Hiroko vivem comigo. Vou l sempre que posso. - "Para ver o teu filho... o nosso beb..."
       - Gostaria muito de l voltar um dia destes. Aquelas palavras fizeram-na estremecer. Mas sabia que pelo menos nos quatro anos seguintes ele estaria muito 
ocupado para sequer se lembrar do rancho. Depois fez-lhe a pergunta que lhe ocorrera na noite anterior.
       - Ainda ests casado? - Nada lera nos jornais acerca de um divrcio, e como Kennedy era catlico, suspeitava que ele no se divorciara, seno no teria sido 
escolhido para o cargo que agora tinha.
       Ele assentiu, pensativo.
       -  uma questo de moda. Nunca houve nada ali, e depois do meu regresso... ela sabia de ns. O mais engraado  que no se importou. Quis continuar casada 
l pelas suas razes, que no eram as minhas. E agora conseguiu o que queria - prosseguiu ele com um sorriso, tornando a parecer um rapaz -, ou pelo menos assim 
o julga. Tal como tu querias ser uma estrela de cinema, o sonho dela era ser casada com algum importante. Seguimos os nossos caminhos separadamente, mas ela organiza 
umas festas muito agradveis. - Parecia mais desiludido do que amargurado. Desistira da mulher que amara e passara mais de dez anos casado com uma estranha. - Parece-me 
que todos conseguimos o que queramos, no  verdade? - Estrela de cinema, assessor do presidente e mulher de algum importante. A nica coisa que faltava era a 
que tinha mais importncia. A mulher que ele amava j h quinze anos. - Quando  que regressas?
       - Amanh.
       - Com o Brian Ford?
       - Sim - respondeu ela encarando-o. Sabia o que ele desejava saber, mas no lho quis dizer e ele no perguntou. Era demasiado doloroso.
       - Entraste em filmes muito bons.
       - Obrigada - agradeceu Crystal com um sorriso; havia tanto que desejava dizer, mas sabia que no podia.
       - Vi-te na entrega dos scares, quase chorei. Estavas linda Crystal... ainda ests... nada mudou, ests cada vez melhor.
       - E mais velha - acrescentou ela com uma gargalhada. - Ainda me lembro de pensar que uma pessoa com trinta anos j estava quase morta!
       Ele riu-se tambm. Crystal era ainda to jovem e to bonita! Isso fazia-o sentir-se com cem anos de idade e muito sozinho.
       Falaram ainda durante mais algum tempo, e depois ele olhou para o relgio. Detestava ser obrigado a partir, mas tinha de a deixar. Fora convidado para jantar 
na Casa Branca s sete da tarde e ainda tinha de ir buscar Elizabeth a casa e de vestir o smoking antes da atuao dessa noite.
       - Posso dar-te uma carona? - perguntou Spencer.
       - Acho que no devias. - Ainda estava preocupada, e ele sorriu-lhe.
       - Preocupas-te demais. No sou o presidente. Apenas um assessor. Ao contrrio do que a minha mulher julga, no sou assim to importante.
       Ela entrou na limusine com ele e dirigiram-se para o hotel. Spencer no lhe perguntou por que motivo nunca casara e Crystal no lhe perguntou por que razo 
no tinha filhos. Falaram sobre o baile na noite anterior, e de repente o carro parou. Ele olhou-a com tristeza e apertou-lhe as mos nas suas.
       - No quero deixar-te outra vez. Os ltimos seis anos sem ti foram horrveis. - Fora aquilo que lhe quisera dizer quando telefonara e fora por isso que a 
quisera ver. Desejava pelo menos que ela soubesse que ainda a amava.
       - Spencer, no...  demasiado tarde para ns. Conseguiste uma bela posio. No ds cabo dela.
       - No sejas tonta. Daqui a quatro anos tudo isto poder j ter desaparecido, mas ns no. Ainda no aprendeste isso?
       No achas que o fato de continuarmos a sentir o mesmo aps quinze anos tem algum significado? Quanto tempo queres esperar? At eu ter noventa anos?
       Ela riu-se, e Spencer, de olhos fechados, inclinou-se e beijou-a. Crystal quase ficou sem flego ao beij-lo, e quando se afastaram, tinha os olhos cheios 
de lgrimas. Para bem dele, no podia ceder, mas desejava-o desesperadamente. E ele no estava a facilitar-lhe as coisas.
       - Se eu for  Califrnia, acedes em ver-me?
       - Eu... no... Brian... no.
       Ento ele fez-lhe abruptamente a pergunta que quisera fazer antes.
       - Ests a viver com o Ford?
       Ela abanou a cabea. Tinham ambos evitado aquilo, pelas razes de cada um.
       - No, vivo sozinha...
       Ele sorriu feliz, beijando-a de novo, enquanto o motorista estava de p l fora ao frio,  espera que acabassem de falar.
       - Ligo-te assim que puder.
       - Spencer!...
       Ele calou-a com um ltimo beijo, tornando a sorrir.
       - Amo-te... sempre te amarei... e se pensas que podes mudar isso,  melhor desistires.
       Tinham ido demasiado longe, resistido demasiadas vezes, tentado demasiado, perdido e ganho e perdido outra vez. J no conseguiam esquivar-se. Ela sabia, 
tal como ele, que pertenciam um ao outro. Mas aqueles momentos roubados poderiam custar a Spencer tudo o que ele construra, e ela no queria que tal acontecesse.
       Olhou-o durante bastante tempo, cheia de preocupaes.
       -  isso mesmo que queres?
       - Sim... apesar de poder ser muito pouco, Crystal...  algo.
       - Amo-te muito - murmurou ela junto ao pescoo de Spencer, depois abriu a porta e saiu. Apertou-lhe a mo, agradeceu-lhe a carona e desapareceu no interior 
do hotel, sentindo os lbios dele ainda quentes nos seus, e perguntou-se o que iria acontecer.
       
Captulo 42
       
       No dia seguinte Crystal e Brian partiram de avio para a Califrnia, e mantiveram-se ambos em silncio, enquanto ele lia e ela olhava pela janela. Brian no 
desejava ainda dizer-lhe nada, mas sabia. Passara a tarde a ligar-lhe para o hotel e quando a vira na noite anterior, lera toda a histria nos seus olhos, porm 
s queria desejar-lhe boa sorte e dizer-lhe para ter cuidado. Finalmente, discutiram o assunto no avio durante o almoo, e ele suspirou, enquanto olhava para a 
estrela que criara, mas que merecia todas as coisas boas que lhe tinham acontecido. A sua infncia no fora das mais agradveis e ele pedia a Deus para que no houvesse 
mais escndalos. Aquele poderia ser demasiado grande para ela e para Spencer.
       - Quero que saibas que podes contar sempre comigo. Serei sempre teu amigo - disse Brian a Crystal que chorou ao ouvir aquelas palavras. Tinham partido para 
Washington como amantes e amigos e agora tudo acabara. Mas Brian soubera sempre que aquele dia iria chegar. S esperava que tardasse. Haviam vivido dois anos juntos 
e sabia que no lhe podia pedir mais do que isso. Na realidade, no queria mais. Nunca quisera casar com ela. O problema era que Spencer tambm no, pois no podia. 
Referiu isso a Crystal, mas nada daquilo era novidade. Ela suspirou e assoou-se. Haviam sido dois dias bastantes difceis, apesar do esplendor do baile.
       - Eu sei disso tudo, Brian. A coisa j se arrasta h quinze anos.
       Ele ficou perplexo.
       - Antes do teu filho?
       - Muito antes. Estou apaixonada por ele desde os catorze anos de idade.
       - Ento porque no casaram? Ser que ele nunca te pediu em casamento?
       - Pediu, mas nunca na altura certa. Toda a minha vida tem sido uma comdia de equvocos. Reencontramo-nos depois de ele ficar noivo. Em seguida, depois de 
casar, ele percebeu que no a amava. Foi para a Coria e eu envolvi-me com o Ernie, e quando ele regressou achei que devia demasiado ao Ernie para o poder deixar 
nessa altura. No  anedtico? Depois o Ernie no me deixou partir quando eu quis, e a Elizabeth no concedeu o divrcio ao Spencer. A coisa continuou assim durante 
anos, como duas pessoas loucas que no conseguem afastar-se uma da outra. Ele tornou a pedir-me em casamento depois do julgamento, mas nessa altura tinha j aspiraes 
polticas e um excelente emprego a aguard-lo, e uma mulher acusada de homicdio no  exatamente do que se precisa para ganhar umas eleies. Por isso pus fim a 
tudo, para bem dele.
       Ele olhou-a com admirao renovada, e adivinhou o resto.
       - Depois descobriste que estavas grvida e no lhe disseste nada.
       Ela anuiu. Brian adivinhara.
       - No foi propriamente uma vida fcil. E agora?
       - No sei. - Ela e Brian tinham concordado em pr fim  sua relao, mas isso no resolvia as coisas com Spencer. Significava apenas que ela estava de novo 
livre, mas ele no: entre a mulher e o trabalho como assessor de Kennedy, Spencer estava tudo menos livre, e ela sabia-o. - Ele quer vir  Califrnia sempre que 
puder. E depois?
       - Eu digo-te. Um dia descobres que tens cinqenta anos e que ests apaixonada por um homem casado com outra mulher, e esperas que ele aparea duas vezes por 
ano. E se um dia ele concorrer  Presidncia? O que acontece? Acabar tudo, e nessa altura que idade ters? Acho que deves procurar um homem simptico, casar com 
ele e ter mais filhos antes que seja demasiado tarde. - Mas ele no se oferecia como voluntrio, e ambos sabiam que no queria casar-se nem ter mais filhos. Nunca 
hesitara a esse respeito e fizera uma vasectomia no ano anterior, o que facilitara as coisas para Crystal.
       A questo agora era com Spencer e o que aconteceria a seguir. Como amigo, Brian no aprovava a situao e achava que ela estava a ser idiota. Se Spencer no 
podia casar com ela agora Crystal deveria abandon-lo. Mas era mais fcil dizer do que fazer, e quando ele apareceu em Los Angeles seis semanas mais tarde, as horas 
que passaram juntos estiveram repletas do amor e da paixo que haviam partilhado desde o incio. Passaram todo o tempo no apartamento dela, sem nunca sair, e dois 
dias depois ele partiu, deixando um enorme vazio na vida dela, enquanto esperava pelo seu regresso. Mas s trs meses mais tarde  que ele teve oportunidade de o 
fazer. Aquilo no era maneira de viver, mas era tudo o que tinham, momentos roubados, dias escondidos, fechados no apartamento dela, com o seu segredo. Por conseguinte, 
havia rumores constantes e suposies acerca do homem com quem ela andava. E ao fim de um ano a ver Spencer s escondidas, ela comeou um "romance" com a estrela 
de cinema com quem normalmente trabalhava, que por acaso era homossexual e estava igualmente ansiosa por manter secreta a sua vida privada. Crystal tambm via Brian 
de vez em quando, e ele censurava-a sempre depois de perguntar se ela continuava a encontrar-se com Spencer.
       Zeb tinha na altura j sete anos e estava ansioso por ir a Hollywood visit-la. Ela consentiu finalmente e deixou-o ir com os Webster, que ficaram to maravilhados 
como ele. Foram todos  Disneylndia e divertiram-se muito. Ela prometeu-lhe que o deixaria regressar em breve, mas ele ficou feliz por regressar ao rancho com os 
Webster e Jane, a quem se referia muitas vezes como irm. Ela tinha catorze anos e era to bonita e delicada como a me. Crystal levara-os a visitar alguns estdios 
e perguntou-se porque no os teria deixado vir mais cedo. Ningum parecia suspeitar de nada e Zeb no se parecia minimamente com Crystal.
       No vero de 1963 fez dois anos que ela e Spencer se encontravam em segredo, e Crystal estava agora conformada com o seu destino. No voltara a tentar dissuadi-lo. 
Sabia que no o poderia deixar partir de novo. No podia viver sem ele, e parecia no haver necessidade disso. Ningum suspeitava de nada, e Elizabeth estava-se 
nas tintas para o que ele fazia. Andava sempre muito ocupada com os amigos, a trabalhar com comisses, a exercer Direito nos seus tempos livres e a organizar festas. 
Na sua vida no havia espao para um marido.
       Em novembro, Crystal estava a trabalhar noite e dia num filme; era tambm de Brian e tinha bastante qualidade. Ele jurou que ela haveria de receber outro 
Oscar com ele, e ela encontrava-se num intervalo das filmagens, a conversar com os colegas, quando ouviu as notcias. O presidente fora alvejado em Dallas. O seu 
corao bateu fortemente enquanto corria at um gabinete onde algum dispunha de um televisor para ver as notcias. A princpio julgava-se que alguns dos assessores 
tambm tinham sido alvejados, e ela observou horrorizada o assassnio dele no carro, a cabea no colo da mulher, e depois a fachada do hospital para onde tinha sido 
levado. s onze e trinta e cinco, hora da Califrnia, o locutor anunciou com voz embargada que o presidente morrera. O corpo seria transportado de avio para Washington, 
para o funeral. E mostraram o rosto da mulher dele, desfigurado pela dor, mas nada foi dito acerca de Spencer. O rosto de Crystal estava branco quando as pessoas 
comearam a chorar  sua volta. E ela no sabia a quem telefonar. Desesperada, ligou para o escritrio de Brian. Ele tambm ouvira as notcias e estava a chorar 
quando ela ligou.
       - Tenho de saber se o Spencer foi ferido - disse ela a soluar. - Sabes a quem ligar?
       Houve um grande silncio enquanto ele pensava no que aquilo significava para ela. A morte dele a acrescentar ao resto seria demasiado sofrimento.
       - Vou ver o que posso fazer. Ligo-te j para a. - Mas demorou horas a conseguir falar com uma das pessoas que conhecia na Casa Branca, e ela passou todo 
o dia como que em transe,  espera de notcias. Eram nove da noite quando ele finalmente lhe telefonou. Lyndon Johnson j tomara posse, e Jack Kennedy regressara 
a Washington enquanto todo o pas chorava e a mulher continuava com o tailleur manchado de sangue enquanto o caixo era transportado.
       Quando Crystal ouviu a voz de Brian comeou a chorar, com medo das notcias, mas ele conseguiu tranqiliz-la.
       - Ele est bem Crystal. Regressou a Washington. Est na Casa Branca. - Ela escutou-o como que num sonho, depois pousou o auscultador e chorou por Jack e plos 
dias de Camelot, desaparecidos para sempre, mas chorou tambm de alvio por Spencer, que no fora ferido.
       
Captulo 43
       
       O funeral foi uma sinfonia de dor, e  passagem do caixo duas crianas choravam e um rapazinho saudava o seu pai pela ltima vez. O pas parou a chor-lo. 
O seu assassino foi morto e o mundo ficou em estado de choque. Foi uma poca que ningum iria esquecer e Crystal no conseguia falar com Spencer. No havia meio 
de saber como  que ele estava, ou o que lhe acontecera, e no fazia idia se continuaria a trabalhar com Lyndon Johnson. Brian deu duas semanas de folga aos seus 
atores. Todos precisavam de algum tempo para se recompor, e por deferncia para com o presidente, que ele estimara, o escritrio fechou, de luto.
       Crystal regressou de avio ao rancho e passou as noites e os dias com Boyd e Hiroko a ver as notcias. At Zeb chorou quando viu o funeral na televiso e 
ele e Jane deram as mos enquanto observavam os inconsolveis filhos dos Kennedy.
       E em Washington, Spencer tomou uma deciso. Estivera atordoado durante vrios dias e nunca chorara tanto na sua vida. Houve despedidas sentidas e depois a 
chegada agridoce dos Johnson. Mas ele sabia que no podia servir mais ningum como servira JFK. No seu ntimo, sentira que o amara verdadeiramente.
       Demitiu-se no dia a seguir ao funeral, e passou horas a chorar em silncio enquanto arrumava o seu gabinete. Regressou a casa com as suas caixas, os seus 
livros e as suas recordaes de um homem que nunca seria esquecido.
       Elizabeth viu-o chegar e olhou-o em choque. Fora ao funeral com o pai. Spencer tivera de ir com os colegas.
       - O que ests a fazer? - perguntou ela no meio da sala de estar, a olhar para ele.
       Spencer parecia exausto e mais idoso dos que os seus quarenta e quatro anos. Sentia-se um velho, sem esperana e sem sonhos. E fora por isso que tomara aquela 
deciso. Demitira-se porque sabia que o sonho terminara para ele e desistira de muitos outros sonhos que no poderiam ser seguidos aps a morte daquele homem que 
tanto significara para ele.
       - Demiti-me. Vim para casa, Elizabeth.
       - Mas isso  uma loucura! - exclamou ela. Spencer no podia fazer-lhe aquilo. Sabia que ele ficara perturbado, mas a Presidncia iria sobreviver, com ou sem 
Kennedy. Ele no podia abandonar tudo sem mais nem menos. Ela no o permitiria. - No te compreendo. - Parecia amarga e zangada. - Tiveste o sonho de todos na palma 
da mo e abandonaste-o sem mais nem menos?
       - No o abandonei, ele morreu. Foi assassinado - respondeu.
       - Muito bem, sei que  uma altura difcil. Mas o Johnson tambm vai precisar de ajuda.
       No entanto Spencer abanou a cabea, levantando uma mo cansada.
       - Por favor, Elizabeth. Acabou tudo. Entreguei esta manh a minha demisso. Se queres o cargo, vai em frente, terei todo o gosto em telefonar ao presidente 
em teu nome.
       - No sejas estpido. E agora? - Ele nem sequer podia concorrer para o Congresso, pois no preparara as bases.
       Spencer virou-se para ela com um sorriso estranho. Sabia exatamente o que queria fazer e para onde iria a seguir.
       - Agora, Elizabeth, o dia terminou. Estou catorze anos atrasado. Mas sei que no quero acordar uma manh, descobrir que tenho sessenta e cinco e perguntar-me 
para onde raio foi a minha vida.
       - O que quer isso dizer? - O presidente fora assassinado, mas isso no significava tambm o fim de tudo para eles. O que havia de errado com Spencer? Mas 
ele agarrava-se ao seu ltimo sonho e desta vez sabia que no o queria perder.
       - Quer dizer que me vou embora. J c estou h demasiado tempo. Acabou tudo para mim.
       - Queres dizer ns? - Ela recusava-se a entender, mas ele assentiu.
       - Exatamente. No sei se te aperceberias disso se eu no to dissesse.
       - E o que tencionas fazer? - Tentava no o mostrar, mas estava assustada.
       - Vou para casa, seja ela onde for. Vou-me embora. Para j, para a Califrnia. E para Crystal.
       - Vais sair de Washington? - Ela ficou atordoada. Spencer estava a desperdiar tudo.
       - Sim. Tive o que de melhor havia, e agora vou-me embora. Vou exercer Direito algures, ou talvez meter-me na poltica local, mas no tenciono c ficar e no 
vou continuar casado contigo. Quero o divrcio, Elizabeth. E quer concordes, quer no, as coisas iro ser assim. J no preciso do teu consentimento. Estamos em 
mil novecentos e sessenta e trs, no em mil novecentos e cinqenta.
       - Perdeste a cabea. - Ela sentou-se e ficou a olhar para ele. Tinha trinta e cinco anos e ele acabara de lhe destruir a vida.
       - No - disse ele tristemente, abanando a cabea -, acho que a encontrei. Nunca nos devamos sequer ter casado e tu sabes isso muito bem.
       - Que absurdo! - Continuava to elegante como sempre, na sua imitao perfeita da Primeira Dama, com o seu fato Chanel e o chapu em forma de embalagem de 
comprimidos. Mas tambm isso acabara. Tudo acabara.
       - A nica coisa absurda foi o fato de eu ter deixado que me convencesses a ficar aqui todo este tempo. Ainda s nova, tens a vida toda pela frente. Podes 
concorrer ao Congresso, se  isso que desejas. Mas depois do que acabou de acontecer - comoveu-se, ao pensar no homem que tanto estimara -, j no quero nada disto. 
Podes ficar com tudo. A excitao, a emoo, as desiluses, o sofrimento.
       - s um covarde. - Ela quase cuspiu aquelas palavras, mas ambos sabiam que no correspondiam  verdade.
       - Talvez; talvez esteja apenas cansado. - E triste. E to sozinho que podia chorar. Agora queria ir para junto de Crystal, para o lugar que lhe pertencia.
       - Vais voltar para ela, no vais? - "Ela" era a nica palavra que Elizabeth empregava para se referir a Crystal.
       - Talvez. Se ela me quiser.
       - s um idiota, Spencer. Sempre foste. s demasiado bom. - Mas ele virou-lhe as costas e subiu para o quarto, a fim de arrumar as suas coisas, desta vez para 
sempre. E nessa noite, quando saiu de casa, foi de vez.
       - Vou ligar a um advogado assim que chegar  Califrnia - anunciou ele junto  porta. Era uma estranha despedida para uma mulher com quem vivera quase catorze 
anos, mas no havia mais nada a dizer-lhe, e Elizabeth no respondeu quando ele fechou a porta e foi passar a noite a um hotel antes de partir para a Califrnia 
na manh seguinte.
       
Captulo 44
       
       Spencer ligou a Crystal j bastante tarde para lhe contar as novidades. No lhe telefonava desde que partira para Dallas. Mas ela no estava em casa e ele 
decidiu surpreend-la em Los Angeles. O vo foi longo, e ele estava mergulhado nos pensamentos, s sentindo alegria pelo fato de a ir ver da a horas. Mas no estava 
ningum no seu apartamento, ento decidiu ir procur-la no estdio onde sabia que ela se achava a trabalhar.
       Tinham muito que conversar, e ele ainda no tomara inteira conscincia do que acontecera. Estava livre. Abandonara tudo, sabendo que estava a fazer o que 
devia ser feito. Agora s queria saber o que ela sentia em relao  sua atitude, e sentiu um arrepio de medo quando saiu do txi e se encaminhou para o estdio 
de som. E se fosse j demasiado tarde para ela? Se tudo se tivesse arrastado por demasiado tempo? Se ela no quisesse casar com ele? Era possvel, mas pouco provvel. 
Spencer sabia quanto ela o amava, sabia o que significavam um para o outro. Fora a nica coisa de que no duvidara nos ltimos anos.
       Todavia, o estdio de som estava vazio e ele foi informado de que os atores estavam de folga durante duas semanas, de luto pelo presidente. Ficou parado durante 
algum tempo, perguntando-se o que devia fazer a seguir. Depois descobriu. Alugou um carro, achando melhor no telefonar a Crystal. Era o nico local onde sabia que 
ela devia estar.
       A viagem demorou catorze horas, mas ele no quisera ir de avio. Apetecia-lhe guiar e pensar nela e no que fariam agora. Parou uma vez na berma da estrada 
para dormitar quando se sentiu cansado e duas vezes para comer. Mas quando o Sol se levantou sobre o vale, sentiu-se feliz e sentiu perto de si o esprito do amigo 
perdido. Atravessava uma poca estranha num mundo estranho, mas sabia que tinha agido bem. Chegou ao rancho s sete da manh. O Sol j ia alto no cu, mas o ar estava 
frio. Era um belo dia de novembro. Spencer viu um rapazinho a correr plos campos e abrandou para o observar. Por momentos pensou que fosse Jane, mas ao observ-lo 
com mais ateno, viu que se enganara. Tinha cabelo preto brilhante e estava a chamar algum quando Spencer saiu do carro e ficou a olhar para ele. Parecia ter cerca 
de oito anos, e quando viu o desconhecido ali parado a olhar para ele, o garoto parou e ps-se tambm a olhar, avanando depois na sua direo.
       Spencer no moveu um msculo enquanto observava o rapazinho, e quando este se aproximou, quase ficou sem ar. J vira aquele rosto, h muito tempo, quando 
ele prprio era uma criana. Era um rosto que conhecia bem, o seu; era como se estivesse a ver-se em criana. Spencer avanou devagar para o rapaz. De repente soube 
o que tinha acontecido, e que ela nunca lhe contara.
       - Ol! - O garoto acenou-lhe com a mo, e Spencer deteve-se com os olhos cheios de lgrimas. No sabia o que havia de dizer-lhe, limitou-se a sorrir enquanto 
as lgrimas lhe corriam pelo rosto. Depois viu Crystal ao longe. Ela parara, assustada por o ver ali, querendo chamar Zeb, mas era tarde de mais, e comeou a correr, 
como se quisesse mand-lo embora. Mas j no valia a pena, agora a nica coisa que via era Spencer. Ele sorria para o rapaz, e para ela, e chorava suavemente quando 
ela se aproximou. Estava so e salvo, regressara a casa, por um minuto ou uma hora ou um dia ou pelo tempo que ela o quisesse. Crystal viu-o aproximar-se de Zeb, 
pegar-lhe na mo, e continuou a correr na direo deles. Era demasiado tarde. Ele descobrira. O seu segredo era agora tambm dele... e de Zeb... alcanou-os no momento 
em que Spencer lhe pegava ao colo e abraou os dois. Ele baixou os olhos para ela enquanto Zeb os observava, fascinado.
       - No sabia que vinhas. - Aquela teve graa, e Spencer desatou a rir, sem ter vergonha das lgrimas.
       - H muitas coisas que no me disseste Crystal Wyatt.
       - No me perguntaste. - Ela sorriu atravs das lgrimas enquanto ele a beijava.
       - Para a prxima no me posso esquecer de o fazer. Nessa altura Zeb escapuliu-se, atrapalhado com o que estava a ver, e desatou a correr pelas vinhas, tal 
como ela fizera em criana e como os filhos vindouros fariam. Spencer pegou-lhe na mo e caminharam lentamente at  casa do rancho enquanto conversavam e o rapazinho 
os observava. Spencer olhou para Crystal quando chegaram aos degraus do alpendre, depois levantou os olhos para o cu. Aquele dia de Inverno estava bastante soalheiro... 
mas ele quase jurava que  distncia ouvira troves e vira relmpagos. Beijou-a, e depois entraram os trs em casa. Finalmente em casa. Juntos.
       
       
       
       
       
       


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